segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Pão de mel

A gente inventa, né? Inventa mesmo umas modas que é pra mudar a estação, pra parar de chover ou pra cair mais água lá de cima, pra ser visto, pra criar expectativas de um amanhã mais... personalizado. A gente faz que gosta porque sorrir é mais barato - rir então é de graça, não há mais dúvida disso. Nos descobrimos um bocado de coisas e esboçamos um quê de falsa surpresa, e no atropelo da mudança de episódio desligamos a tv pra fazer algo politicamente incorreto - só porque é disso que a gente gosta. Não tem essa de criar motivos, de perceber, de entender, porque sabendo ou não a estrada aponta pro mesmo lugar - a gente só faz o que quer, porque esse querer é a razão de tudo, é o chicote no lombo do coração arriado, último suspiro. Não interessa quem quer mais: a gente quer junto e junto a gente vai mudar o mundo, correr na praia, participar de movimentos populares e individuais, olhar pra dentro de um jeito nu e cru que dói dor generalizada; junto a gente vai perder o medo do escuro, pular de um lugar alto e gargalhar em um momento triste do filme porque a gente achou cliché. A gente vai passar uma noite junto de mãos dadas com a luz acesa, pra se misturar no calor da penumbra dois dias depois - a gente vai ser feliz! Já disse que sou bem inofensiva - gosto de livros, crianças e bichos e rezo por um tanto de gente de uma vez. Talvez eu seja mesmo, mas a gente... a gente inventa moda, pinta o sete e se joga n'água fria sem contar até três ;)

Pão de mel

A gente inventa, né? Inventa mesmo umas modas que é pra mudar a estação, pra parar de chover ou pra cair mais água lá de cima, pra ser visto, pra criar expectativas de um amanhã mais... personalizado. A gente faz que gosta porque sorrir é mais barato - rir então é de graça, não há mais dúvida disso. Nos descobrimos um bocado de coisas e esboçamos um quê de falsa surpresa, e no atropelo da mudança de episódio desligamos a tv pra fazer algo politicamente incorreto - só porque é disso que a gente gosta. Não tem essa de criar motivos, de perceber, de entender, porque sabendo ou não a estrada aponta pro mesmo lugar - a gente só faz o que quer, porque esse querer é a razão de tudo, é o chicote no lombo do coração arriado, último suspiro. Não interessa quem quer mais: a gente quer junto e junto a gente vai mudar o mundo, correr na praia, participar de movimentos populares e individuais, olhar pra dentro de um jeito nu e cru que dói dor generalizada; junto a gente vai perder o medo do escuro, pular de um lugar alto e gargalhar em um momento triste do filme porque a gente achou cliché. A gente vai passar uma noite junto de mãos dadas com a luz acesa, pra se misturar no calor da penumbra dois dias depois - a gente vai ser feliz! Já disse que sou bem inofensiva - gosto de livros, crianças e bichos e rezo por um tanto de gente de uma vez. Talvez eu seja mesmo, mas a gente... a gente inventa moda, pinta o sete e se joga n'água fria sem contar até três ;)

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Aliasas

Passei os últimos dias pensando em alguma coisa bonita pra escrever... mas não me vinha. Nada de palavra que fosse só minha, nada de mantra, tantra ou esperança florida. Parei de sentir. Parei de querer. Devagar fui entender que no meu tempo não há espaço pra drama, trama de novela - e fui agradecer porque lá fora ninguém deseja que haja. Não há sequer um grama de tristeza nessa descoberta: me encontrei pequena-grande no alpendre daquela casinha... querendo ser eu, sozinha, sem sombra de desconforto, sem tromba d'água, sem chuva. Caí em mim como uma luva e soube que não era egoísta nem narcisista me amar assim desse jeito em que eu me aceito, me guio, faço promessas sem fim pra viver sem pressa, pra ter apreço por quem me interessa e pra ser sem estar lá - pra deixar uma doce lembrança no sofá, na cozinha, na grama da praça enquanto acho graça em um filme que passa do outro lado da cidade tão minha, curtindo a minha própria companhia sem me expor, sem doer, sem pensar no que eu fiz ou deixei de fazer, sem tentar compreender por que é que eu olho pra você e não sinto nada além de uma vontade enorme de voltar, de deitar na areia da praia e ouvir o barulho do mar e não ter hora pra sair nem dia pra chegar. Subo em meu barco pequeno demais pra nós dois e navego em minha própria vida e me sinto querida mas sobretudo desejada, e deixo toda essa saliva se afogar em conversa fiada enquanto espero pelo próximo momento em que eu me farei feliz ao perceber que por um triz minha resignação daria espaço à vontade de, como todo mundo, ter um coração. Ele não vai bater se você passar, azar... não sinto nada. Nem fome de cheiro, nem sede de gosto, nem vontade de esperar. Não há fruta mais macia que sorriso na boca e cabeça vazia, suspira de alívio meu paladar.

Aliasas

Passei os últimos dias pensando em alguma coisa bonita pra escrever... mas não me vinha. Nada de palavra que fosse só minha, nada de mantra, tantra ou esperança florida. Parei de sentir. Parei de querer. Devagar fui entender que no meu tempo não há espaço pra drama, trama de novela - e fui agradecer porque lá fora ninguém deseja que haja. Não há sequer um grama de tristeza nessa descoberta: me encontrei pequena-grande no alpendre daquela casinha... querendo ser eu, sozinha, sem sombra de desconforto, sem tromba d'água, sem chuva. Caí em mim como uma luva e soube que não era egoísta nem narcisista me amar assim desse jeito em que eu me aceito, me guio, faço promessas sem fim pra viver sem pressa, pra ter apreço por quem me interessa e pra ser sem estar lá - pra deixar uma doce lembrança no sofá, na cozinha, na grama da praça enquanto acho graça em um filme que passa do outro lado da cidade tão minha, curtindo a minha própria companhia sem me expor, sem doer, sem pensar no que eu fiz ou deixei de fazer, sem tentar compreender por que é que eu olho pra você e não sinto nada além de uma vontade enorme de voltar, de deitar na areia da praia e ouvir o barulho do mar e não ter hora pra sair nem dia pra chegar. Subo em meu barco pequeno demais pra nós dois e navego em minha própria vida e me sinto querida mas sobretudo desejada, e deixo toda essa saliva se afogar em conversa fiada enquanto espero pelo próximo momento em que eu me farei feliz ao perceber que por um triz minha resignação daria espaço à vontade de, como todo mundo, ter um coração. Ele não vai bater se você passar, azar... não sinto nada. Nem fome de cheiro, nem sede de gosto, nem vontade de esperar. Não há fruta mais macia que sorriso na boca e cabeça vazia, suspira de alívio meu paladar.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Rowing

Quem já amou uma vez fica com aquele amor no coração sem sombra de outra possibilidade. Compara, se abala e não vê a verdadeira verdade. Pelo tempo que for, do jeito que tiver que ser, conscientemente ou não, quem já amou dá voltas e voltas pelo salão em busca de alguém melhor, sem ver no novo uma oportunidade. Quem já amou tem medo do diferente, e faz de conta que não sente o coração descongelar lá dentro do peito com um sorriso, uma palavra amiga, um gosto, cheiro ou gesto recente. Quem já amou demais tem mania de colocar aquela pessoa que já não o fazia feliz em um altar resplandecente, com fotos e lembranças de um tempo que não volta mais. Quem já amou uma vez não passa um dia sem olhar pra trás... enquanto à frente pede passagem alguém interessante, incandescente, alguém que deixaria sua vida quente e macia sem por quês ou mas.  Amar é saber que muita coisa vale a pena, que o que fica é resultado do que se esvai... que para cada lua que chega serena há um sol que se põe - que amanhã a janela vai se abrir e te mostrar o que o mundo propõe: um sopro de vida em águas tranquilas, sem uivos ou ais.

Rowing

Quem já amou uma vez fica com aquele amor no coração sem sombra de outra possibilidade. Compara, se abala e não vê a verdadeira verdade. Pelo tempo que for, do jeito que tiver que ser, conscientemente ou não, quem já amou dá voltas e voltas pelo salão em busca de alguém melhor, sem ver no novo uma oportunidade. Quem já amou tem medo do diferente, e faz de conta que não sente o coração descongelar lá dentro do peito com um sorriso, uma palavra amiga, um gosto, cheiro ou gesto recente. Quem já amou demais tem mania de colocar aquela pessoa que já não o fazia feliz em um altar resplandecente, com fotos e lembranças de um tempo que não volta mais. Quem já amou uma vez não passa um dia sem olhar pra trás... enquanto à frente pede passagem alguém interessante, incandescente, alguém que deixaria sua vida quente e macia sem por quês ou mas.  Amar é saber que muita coisa vale a pena, que o que fica é resultado do que se esvai... que para cada lua que chega serena há um sol que se põe - que amanhã a janela vai se abrir e te mostrar o que o mundo propõe: um sopro de vida em águas tranquilas, sem uivos ou ais.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Microcosmo

Não é novidade que eu ando sempre apressada, como o coelho da Alice. Relógio em punho, passo o dia brincando de contar minutos - calculo o tempo máximo para realizar uma tarefa e espremo o comer, beber e tomar banho no espaço entre duas atividades estacionadas na minha trilha mental. No computador música clássica, vã tentativa de fazer a cabeça borbulhar menos um pouquinho. E aí vem o trânsito... Escolhi a tarde para dirigir loucamente, nesse esquema de cronometrar cada segundo até chegar em todo e qualquer lugar. À tarde não tem jeito - me atraso. Carro demais, gente demais fazendo sabe-se lá o que naquele horário em que deveriam estar todos trancados no escritório. Eu? Pateta no trânsito, of course! E lá se vai a coelhinha simpática... Trilha sonora: Strokes, Ramones, Prodigy, Delinquent Habits, DMX (auuuuu), Cypress Hill. No talo. Vou cantando alto, trocando de pista como se dançasse um bolero pela estrada afora, cabelo mais desgrenhado a cada esquina. Coração batendo forte. Lembro que tenho um coração quando aquela adrenalina faz formigar meu corpo todo, até eu entender - bem devagar - que pra gente ser muito importante na vida de alguém tem que primeiro ser pouco importante; que a prática é inimiga da novidade; que adulto também gosta de passear de carro; que querer só é poder se você deixar pra lá e ligar o foda-se; que foda-se é uma palavra muito libertadora; que não precisar de chapa ou escova é motivo de sobra pra agradecer, porque você pode deixar o vento entrar e fazer a festa. Ligo meus rocks e raps bem alto e percebo o quanto esse momento é importante por ser um tempinho meu comigo, uns minutinhos pra eu ficar alheia a tudo o que me cansa e me consome - rio sozinha, fico achando que canto bem, faço coreografias, passo umas coisas no rosto pra dar um up, checo meu telefone e até leio uns textos quando o tráfego permite. Particular, eu sei; peculiar também. Abro a porta do carro e saio cantando, descabelada, até a próxima tarefa. Na cabeça, a vaga lembrança de que estou viva, muito viva... pronta pra fazer o que for preciso e receber o que tiver que ser meu em algum momento que não demande tanto da minha paciência ;)

Microcosmo

Não é novidade que eu ando sempre apressada, como o coelho da Alice. Relógio em punho, passo o dia brincando de contar minutos - calculo o tempo máximo para realizar uma tarefa e espremo o comer, beber e tomar banho no espaço entre duas atividades estacionadas na minha trilha mental. No computador música clássica, vã tentativa de fazer a cabeça borbulhar menos um pouquinho. E aí vem o trânsito... Escolhi a tarde para dirigir loucamente, nesse esquema de cronometrar cada segundo até chegar em todo e qualquer lugar. À tarde não tem jeito - me atraso. Carro demais, gente demais fazendo sabe-se lá o que naquele horário em que deveriam estar todos trancados no escritório. Eu? Pateta no trânsito, of course! E lá se vai a coelhinha simpática... Trilha sonora: Strokes, Ramones, Prodigy, Delinquent Habits, DMX (auuuuu), Cypress Hill. No talo. Vou cantando alto, trocando de pista como se dançasse um bolero pela estrada afora, cabelo mais desgrenhado a cada esquina. Coração batendo forte. Lembro que tenho um coração quando aquela adrenalina faz formigar meu corpo todo, até eu entender - bem devagar - que pra gente ser muito importante na vida de alguém tem que primeiro ser pouco importante; que a prática é inimiga da novidade; que adulto também gosta de passear de carro; que querer só é poder se você deixar pra lá e ligar o foda-se; que foda-se é uma palavra muito libertadora; que não precisar de chapa ou escova é motivo de sobra pra agradecer, porque você pode deixar o vento entrar e fazer a festa. Ligo meus rocks e raps bem alto e percebo o quanto esse momento é importante por ser um tempinho meu comigo, uns minutinhos pra eu ficar alheia a tudo o que me cansa e me consome - rio sozinha, fico achando que canto bem, faço coreografias, passo umas coisas no rosto pra dar um up, checo meu telefone e até leio uns textos quando o tráfego permite. Particular, eu sei; peculiar também. Abro a porta do carro e saio cantando, descabelada, até a próxima tarefa. Na cabeça, a vaga lembrança de que estou viva, muito viva... pronta pra fazer o que for preciso e receber o que tiver que ser meu em algum momento que não demande tanto da minha paciência ;)

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Twinkled

E lá vem me encher a cabeça a tal diferença entre fazer e realizar. Junto com ela caminha o medo de o mundo se acabar sem aviso e eu não saber se é aqui onde eu deveria estar. Ah, a doce arte de começar... e aos poucos revelar pequenas importâncias, verdades inofensivas a adentrarem brilhantes por sua porta entreaberta. Com um pouco de pudor você vai ver quem é que canta do lado de fora e estende metade do seu corpo em direção à praia deserta. Avisto ao longe conchas de todos os tamanhos e todas as cores sobre a areia branca e com elas visto meus cabelos recém-preparados na maior falta de pressa. Sem lenço ou perfume, o corpo ganha uma nova dimensão na imensidão do universo - de repente somos fortes, e essa grandeza nos enche de coragem. Bravura e clareza nos rondam com calma, aquela calma boa de quem não espera. Quando eu era pequena gostava de contar estrela e escrever novelas semanais sobre meus colegas. Não era por nada, não; só vontade de sonhar de noite e sorrir de dia... de abrir a porta e sentar no sofá e inventar minhas próprias novidades. Meu pai explicava que estrela era coisa de outro planeta; minha mãe dizia que eram almas voluntárias com a tarefa de um dia enfeitarem o céu. Ficava bêbada sempre que olhava pra cima - tonta de tanto achar beleza naquelas luzes que acendiam por vontade própria, só porque brilhar pra elas era tão natural. E depois disso não quis entender mais nada, não - pus o coração na frente e saí por aí cruzando campos coloridos, floridos até nos espinhos. Engraçado pensar assim, mas tenho pra mim que meu peito virou meu escudo. Ainda agora a cabeça volta no tempo e eu me vejo em mais uma escola nova, desenvoltura por conta de outros sorrisos, olhos curiosos a esperarem pelo próximo capítulo da saga que em pouco tempo encheria a sala de redação. Mar de pura poesia soprou sua brisa de alegria tranquila e banhou meu corpo de paz, calor e sorte, sentimento forte que devagar vem plantando estrelas pelos meus dias, suaves como chuva de prata em tardes de verão.

Twinkled

E lá vem me encher a cabeça a tal diferença entre fazer e realizar. Junto com ela caminha o medo de o mundo se acabar sem aviso e eu não saber se é aqui onde eu deveria estar. Ah, a doce arte de começar... e aos poucos revelar pequenas importâncias, verdades inofensivas a adentrarem brilhantes por sua porta entreaberta. Com um pouco de pudor você vai ver quem é que canta do lado de fora e estende metade do seu corpo em direção à praia deserta. Avisto ao longe conchas de todos os tamanhos e todas as cores sobre a areia branca e com elas visto meus cabelos recém-preparados na maior falta de pressa. Sem lenço ou perfume, o corpo ganha uma nova dimensão na imensidão do universo - de repente somos fortes, e essa grandeza nos enche de coragem. Bravura e clareza nos rondam com calma, aquela calma boa de quem não espera. Quando eu era pequena gostava de contar estrela e escrever novelas semanais sobre meus colegas. Não era por nada, não; só vontade de sonhar de noite e sorrir de dia... de abrir a porta e sentar no sofá e inventar minhas próprias novidades. Meu pai explicava que estrela era coisa de outro planeta; minha mãe dizia que eram almas voluntárias com a tarefa de um dia enfeitarem o céu. Ficava bêbada sempre que olhava pra cima - tonta de tanto achar beleza naquelas luzes que acendiam por vontade própria, só porque brilhar pra elas era tão natural. E depois disso não quis entender mais nada, não - pus o coração na frente e saí por aí cruzando campos coloridos, floridos até nos espinhos. Engraçado pensar assim, mas tenho pra mim que meu peito virou meu escudo. Ainda agora a cabeça volta no tempo e eu me vejo em mais uma escola nova, desenvoltura por conta de outros sorrisos, olhos curiosos a esperarem pelo próximo capítulo da saga que em pouco tempo encheria a sala de redação. Mar de pura poesia soprou sua brisa de alegria tranquila e banhou meu corpo de paz, calor e sorte, sentimento forte que devagar vem plantando estrelas pelos meus dias, suaves como chuva de prata em tardes de verão.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Lugar comum

Ontem a palestra no centro espírita foi sobre a imortalidade. Não consegui prestar muita atenção, porque só me vinha à mente que o fato de eu estar ali sentada às oito da noite não havia sido ao acaso. Estava aprendendo a compreender que o sepultamento de uma história serviria certamente como ponto de partida para novas perspectivas, novos rumos, contos mais felizes. Fácil, ah, fácil não é. Por muito tempo agradeci pela certeza de não precisar procurar mais por uma dupla na vida. Agradecia com lágrimas nos olhos porque essa comunhão de corpos e espíritos sempre me foi importante. Enfim a busca havia cessado. E os anos se passaram... Com a cabeça cheia pedi a Deus que guardasse meu coração, que me trouxesse alento e alimentasse a minha fé com esperança. Pedi pelo respeito ao meu corpo, pela resignação da minha alma. Aqui não se morre; só se nasce de novo uma e outra vez, a fim de que se possa amar e ajudar ao próximo como você merece também ser ajudado. Que Deus cuide de nós, e que haja sempre um lugar muito especial para abrigar cada uma de nossas memórias mais felizes, que é pra gente lembrar que cada segundo valeu a pena, que esses instantes que viram sombras de solidão possam acolher a nós mesmos... com mais serenidade, mais leveza, mais alegria e fé em cada passo do caminho. Ele há de ser bonito, escuto meu anjo da guarda sussurrando ao meu ouvido como se me contasse um segredo. Por enquanto, sorrio para mim mesma ao me lembrar da minha saúde, do meu corpo perfeito e da minha cabeça que trabalha sem parar, do direito que me dou de mudar de opinião, de atividade física e de escolher meu sustento pela minha vocação. Sei que estou longe de fazer a diferença, mas peço sempre um pouco de calma nessa hora, que é para agradecer pelo que é bom de verdade. Que a gente não desista de acreditar que a vida é boa conosco, e que nada nem ninguém morre - as coisas só mudam de lugar dentro do nosso coração.

Lugar comum

Ontem a palestra no centro espírita foi sobre a imortalidade. Não consegui prestar muita atenção, porque só me vinha à mente que o fato de eu estar ali sentada às oito da noite não havia sido ao acaso. Estava aprendendo a compreender que o sepultamento de uma história serviria certamente como ponto de partida para novas perspectivas, novos rumos, contos mais felizes. Fácil, ah, fácil não é. Por muito tempo agradeci pela certeza de não precisar procurar mais por uma dupla na vida. Agradecia com lágrimas nos olhos porque essa comunhão de corpos e espíritos sempre me foi importante. Enfim a busca havia cessado. E os anos se passaram... Com a cabeça cheia pedi a Deus que guardasse meu coração, que me trouxesse alento e alimentasse a minha fé com esperança. Pedi pelo respeito ao meu corpo, pela resignação da minha alma. Aqui não se morre; só se nasce de novo uma e outra vez, a fim de que se possa amar e ajudar ao próximo como você merece também ser ajudado. Que Deus cuide de nós, e que haja sempre um lugar muito especial para abrigar cada uma de nossas memórias mais felizes, que é pra gente lembrar que cada segundo valeu a pena, que esses instantes que viram sombras de solidão possam acolher a nós mesmos... com mais serenidade, mais leveza, mais alegria e fé em cada passo do caminho. Ele há de ser bonito, escuto meu anjo da guarda sussurrando ao meu ouvido como se me contasse um segredo. Por enquanto, sorrio para mim mesma ao me lembrar da minha saúde, do meu corpo perfeito e da minha cabeça que trabalha sem parar, do direito que me dou de mudar de opinião, de atividade física e de escolher meu sustento pela minha vocação. Sei que estou longe de fazer a diferença, mas peço sempre um pouco de calma nessa hora, que é para agradecer pelo que é bom de verdade. Que a gente não desista de acreditar que a vida é boa conosco, e que nada nem ninguém morre - as coisas só mudam de lugar dentro do nosso coração.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Bonito

Vem.
Tô cheia de trabalho, sério.
Fiz legumes cozidos.
Hum... Não vale!
Acho que você devia vir...
Queria muito, de verdade.
Mas...
É, bom e velho mas.
Fica pra uma outra vez então.
Vou querer!
Aqui...
Oi.
Só mais uma coisa.
Fala.
Fechei os olhos e vi a gente caminhando junto.
...
Pela vida, sabe? De mãos dadas...
E o que você achou?
Achei bonito.

Bonito

Vem.
Tô cheia de trabalho, sério.
Fiz legumes cozidos.
Hum... Não vale!
Acho que você devia vir...
Queria muito, de verdade.
Mas...
É, bom e velho mas.
Fica pra uma outra vez então.
Vou querer!
Aqui...
Oi.
Só mais uma coisa.
Fala.
Fechei os olhos e vi a gente caminhando junto.
...
Pela vida, sabe? De mãos dadas...
E o que você achou?
Achei bonito.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Transcendence

... e foi assim, de um jeito que não se explica, em dia que não se lembra. Num daqueles dias em que a gente acha que era feliz; saber, mas se nem agora dá pra se saber de coisa alguma...

Fiquei um bom tempo achando que falava demais - que nesse mundo de verdades veladas eu sinto e demonstro tudo... me aprazia o som da minha própria voz, e com fás e sois iam-se histórias, gracejos, balelas de todo tipo... risadas e dores sinceras. Sonhando como o homem ridículo que tomou o coração de Dostoiévski nos braços cansados, febril no meu devaneio idiota da bondade (vulgo maneira simples de querer, ser, viver e sentir) ocorreu-me um dia o desejo de calar-me. Por um dia e outras horas, por tempos alheios ao todo dia comum. Quando foi não posso ao certo dizer-lhe, mas bons ventos me dizem que talvez não seja lá tão importante assim. 

E de repente estava ali, cantando sem poder cantar; falando sem conseguir, garganta arranhando sem querer... e eu só pensava nos tantos cantos e contos que eu ainda tinha que contar, nas cantigas de ninar que sussurraria para os meus filhos queridos em uma noite de chuva tão bonita quanto agora, com porções de carinho sobre a mesa farta de ideias, luz, paz e oração. Veio-me à cabeça tudo que eu diria em prol da civilidade, da poesia, da educação, da serenidade, porque é isso o que eu busco - é por isso que eu luto: por um caminho bonito, por um destino certo. Pensei, pensei... e entendi que há de chegar a hora em que meus olhos te dirão com um sorriso tudo o que o calor do meu corpo te confessa sem pretensão - que o universo é quem nos orienta; que sem ouvir meu canto você assovia a minha canção. 

Transcendence

... e foi assim, de um jeito que não se explica, em dia que não se lembra. Num daqueles dias em que a gente acha que era feliz; saber, mas se nem agora dá pra se saber de coisa alguma...

Fiquei um bom tempo achando que falava demais - que nesse mundo de verdades veladas eu sinto e demonstro tudo... me aprazia o som da minha própria voz, e com fás e sois iam-se histórias, gracejos, balelas de todo tipo... risadas e dores sinceras. Sonhando como o homem ridículo que tomou o coração de Dostoiévski nos braços cansados, febril no meu devaneio idiota da bondade (vulgo maneira simples de querer, ser, viver e sentir) ocorreu-me um dia o desejo de calar-me. Por um dia e outras horas, por tempos alheios ao todo dia comum. Quando foi não posso ao certo dizer-lhe, mas bons ventos me dizem que talvez não seja lá tão importante assim. 

E de repente estava ali, cantando sem poder cantar; falando sem conseguir, garganta arranhando sem querer... e eu só pensava nos tantos cantos e contos que eu ainda tinha que contar, nas cantigas de ninar que sussurraria para os meus filhos queridos em uma noite de chuva tão bonita quanto agora, com porções de carinho sobre a mesa farta de ideias, luz, paz e oração. Veio-me à cabeça tudo que eu diria em prol da civilidade, da poesia, da educação, da serenidade, porque é isso o que eu busco - é por isso que eu luto: por um caminho bonito, por um destino certo. Pensei, pensei... e entendi que há de chegar a hora em que meus olhos te dirão com um sorriso tudo o que o calor do meu corpo te confessa sem pretensão - que o universo é quem nos orienta; que sem ouvir meu canto você assovia a minha canção. 

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Sobre margaridas e piscinas

Numa noite dessas acordei com frio e sem saber o que fazer. Não era frio de coberta, não - tava mais praquele frio da Margarida Friorenta, que só sossega com beijo, suspiro e cafuné. Fiquei pensando naquelas histórias de princesas, em como desde pequenas fomos ensinadas a esperar, a sermos escolhidas ao invés de escolher, a sofrermos caladas ao invés de procurar, de dizer, de ir à luta. Lutar por um amor é discriminado na nossa cultura - é sinal de fraqueza, de carência. Inconformada, leio essas certezas no rosto das pessoas e penso que é exatamente o contrário - ir atrás do que você quer com verdade dentro do peito é sinal de coragem, de força, de vontade de ser mais feliz. Se isso se aplica à sua vida profissional, acadêmica e até pessoal, por que diabos não seguir os mesmos passos na vida afetiva? Já ouvi algumas vozes sussurrarem a palavra "vulgar" ao ouvirem histórias de mulheres que se expuseram por amor, que colocaram as cartas na mesa, todas viradas pra cima, sem medo de perder o jogo, que amar e jogar são duas coisas diferentes demais, que sentimento é pra se trocar com a única ressalva do querer. Se a gente pensar em sinônimos pra palavra "vulgar", vai encontrar indecente, indelicado, ofensivo, de mal gosto: nenhum tem a ver com amor. Nessa noite em que acordei com frio e sem saber o que fazer, abri o computador e perguntei ao father google o significado da palavra "amor". Encontrei esse aqui: Amor é um sentimento de carinho e demonstrações de afeto que se desenvolve entre seres que possuem a capacidade de o demonstrar. Concordei. É necessário que a gente seja feito de mais do que carne e osso pra amar direito - tem também mel, algodão, chuva fina, sol da manhã, lua, música e mágica. Nunca me arrependi de chamar alguém pra dançar, mesmo quando os passos foram incompatíveis. Se a felicidade é a gente quem faz, esperar calada acaba não fazendo sentido algum. Queria que essa nova leva de seres humanos conhecesse as delícias da entrega, da constância, do querer bem e mais e muito a cada dia, do beijo no rosto que vem com um abraço quente, apertado, dos cinco minutos a mais antes de sair da cama, cabeça descansando sobre o peito que respira sossego, mão e mão, conversa baixinha que é pro corpo acordar sem pressa. A ressalva, como eu disse, é só uma: o querer de mão dupla. Ninguém precisa alimentar a alma com migalhas - pule de cabeça naquela piscina onde aquele cara que faz seu coração bater mergulha tranquilo... e espera poder nadar com você.

Sobre margaridas e piscinas

Numa noite dessas acordei com frio e sem saber o que fazer. Não era frio de coberta, não - tava mais praquele frio da Margarida Friorenta, que só sossega com beijo, suspiro e cafuné. Fiquei pensando naquelas histórias de princesas, em como desde pequenas fomos ensinadas a esperar, a sermos escolhidas ao invés de escolher, a sofrermos caladas ao invés de procurar, de dizer, de ir à luta. Lutar por um amor é discriminado na nossa cultura - é sinal de fraqueza, de carência. Inconformada, leio essas certezas no rosto das pessoas e penso que é exatamente o contrário - ir atrás do que você quer com verdade dentro do peito é sinal de coragem, de força, de vontade de ser mais feliz. Se isso se aplica à sua vida profissional, acadêmica e até pessoal, por que diabos não seguir os mesmos passos na vida afetiva? Já ouvi algumas vozes sussurrarem a palavra "vulgar" ao ouvirem histórias de mulheres que se expuseram por amor, que colocaram as cartas na mesa, todas viradas pra cima, sem medo de perder o jogo, que amar e jogar são duas coisas diferentes demais, que sentimento é pra se trocar com a única ressalva do querer. Se a gente pensar em sinônimos pra palavra "vulgar", vai encontrar indecente, indelicado, ofensivo, de mal gosto: nenhum tem a ver com amor. Nessa noite em que acordei com frio e sem saber o que fazer, abri o computador e perguntei ao father google o significado da palavra "amor". Encontrei esse aqui: Amor é um sentimento de carinho e demonstrações de afeto que se desenvolve entre seres que possuem a capacidade de o demonstrar. Concordei. É necessário que a gente seja feito de mais do que carne e osso pra amar direito - tem também mel, algodão, chuva fina, sol da manhã, lua, música e mágica. Nunca me arrependi de chamar alguém pra dançar, mesmo quando os passos foram incompatíveis. Se a felicidade é a gente quem faz, esperar calada acaba não fazendo sentido algum. Queria que essa nova leva de seres humanos conhecesse as delícias da entrega, da constância, do querer bem e mais e muito a cada dia, do beijo no rosto que vem com um abraço quente, apertado, dos cinco minutos a mais antes de sair da cama, cabeça descansando sobre o peito que respira sossego, mão e mão, conversa baixinha que é pro corpo acordar sem pressa. A ressalva, como eu disse, é só uma: o querer de mão dupla. Ninguém precisa alimentar a alma com migalhas - pule de cabeça naquela piscina onde aquele cara que faz seu coração bater mergulha tranquilo... e espera poder nadar com você.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Príncipe

Como saber se a gente gosta mesmo de alguém? Tricky question. Você não gosta só porque a outra pessoa gosta de você, ou só porque ela é legal e tem as melhores intenções. Você até dispensa pessoas que estão dispostas a cuidarem de você, que te compreendem do jeito que você é, que só querem o seu bem. Você tenta criar conjuntos de regras na sua cabeça, faz desenhos e organogramas pra tentar definir do que é que você precisa. Você fica aflita até os 48 do segundo tempo pensando que gosta de alguém que não gosta de você. Good old orgulho ferido que vira amor no coração de quem não se curte. Passada essa fase, está na hora do checklist existencial. Bom, morno, morno não dá; o cara tem que me querer. Ele tem que me elogiar e fazer questão da minha companhia. Além disso seria interessante que ele fosse mais alto do que eu - aquela velha ideia de proteção. Outra coisa importante é que a pessoa tenha alguma perspectiva, que esteja em busca de evoluir, de ser alguém melhor. Coerência nas atitudes é fundamental, porque um cara que diz que busca um relacionamento sério, que não há nada melhor do que viver e amar e quer te levar pra um lugar reservado no segundo encontro, ah, esse ninguém merece. E assim você vai colhendo os caquinhos de todas essas experiências passadas, refletindo sobre esses esteriótipos que a vida a dois nos oferece, até entender que o amor é uma coisa que acontece. De repente. Inesperadamente. Em um lugar inusitado, de um jeito engraçado, que é pra lembrar e rir depois. Já ouviram dizer que o príncipe encantado mora ao lado? Pra que ele apareça, no entanto, você precisa acima de tudo... se conhecer. Saber quem você é pode ser a chave para que aquele mortal cheio de imperfeições dê de cara com a sua cara... e queira ficar ali só mais um minuto, só mais algumas horas, poucos dias, meses, tempo atemporal que dança ao ritmo da compatibilidade de gênios, da intensidade dos sorrisos, da harmonia pacífica que se instaura quando não há para onde fugir. Da viagem à praia ao fim de semana John e Yoko, nada cansa, nada pesa, nada é tão complicado que não possa ficar melhor só porque é simples. Saiba que para cada boba romântica sem muito jeito pra essas coisas vai ter um espectador que acha essa falta de destreza algo gracioso. Para cada capricorniana séria e preocupada em ser adulta há alguém que admira tais valores, que vibra com essa vontade, com essa força. Alguém pra passar a mão no seu cabelo e dizer Calma, você está indo bem. Calma, vai ficar tudo bem porque você quer, porque eu te quero bem demais. Calma - é por tudo que você representa que eu estou aqui.

Príncipe

Como saber se a gente gosta mesmo de alguém? Tricky question. Você não gosta só porque a outra pessoa gosta de você, ou só porque ela é legal e tem as melhores intenções. Você até dispensa pessoas que estão dispostas a cuidarem de você, que te compreendem do jeito que você é, que só querem o seu bem. Você tenta criar conjuntos de regras na sua cabeça, faz desenhos e organogramas pra tentar definir do que é que você precisa. Você fica aflita até os 48 do segundo tempo pensando que gosta de alguém que não gosta de você. Good old orgulho ferido que vira amor no coração de quem não se curte. Passada essa fase, está na hora do checklist existencial. Bom, morno, morno não dá; o cara tem que me querer. Ele tem que me elogiar e fazer questão da minha companhia. Além disso seria interessante que ele fosse mais alto do que eu - aquela velha ideia de proteção. Outra coisa importante é que a pessoa tenha alguma perspectiva, que esteja em busca de evoluir, de ser alguém melhor. Coerência nas atitudes é fundamental, porque um cara que diz que busca um relacionamento sério, que não há nada melhor do que viver e amar e quer te levar pra um lugar reservado no segundo encontro, ah, esse ninguém merece. E assim você vai colhendo os caquinhos de todas essas experiências passadas, refletindo sobre esses esteriótipos que a vida a dois nos oferece, até entender que o amor é uma coisa que acontece. De repente. Inesperadamente. Em um lugar inusitado, de um jeito engraçado, que é pra lembrar e rir depois. Já ouviram dizer que o príncipe encantado mora ao lado? Pra que ele apareça, no entanto, você precisa acima de tudo... se conhecer. Saber quem você é pode ser a chave para que aquele mortal cheio de imperfeições dê de cara com a sua cara... e queira ficar ali só mais um minuto, só mais algumas horas, poucos dias, meses, tempo atemporal que dança ao ritmo da compatibilidade de gênios, da intensidade dos sorrisos, da harmonia pacífica que se instaura quando não há para onde fugir. Da viagem à praia ao fim de semana John e Yoko, nada cansa, nada pesa, nada é tão complicado que não possa ficar melhor só porque é simples. Saiba que para cada boba romântica sem muito jeito pra essas coisas vai ter um espectador que acha essa falta de destreza algo gracioso. Para cada capricorniana séria e preocupada em ser adulta há alguém que admira tais valores, que vibra com essa vontade, com essa força. Alguém pra passar a mão no seu cabelo e dizer Calma, você está indo bem. Calma, vai ficar tudo bem porque você quer, porque eu te quero bem demais. Calma - é por tudo que você representa que eu estou aqui.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Carta aberta ao meu analista

Pois é. Mais de um ano aos trancos e barrancos, querendo e não querendo caminhar até aquela porta. O tempo passou e dentro dele couberam quase uma meia dúzia de escapadelas. Como tudo na vida, no entanto, a dificuldade/fragilidade/necessidade me fez voltar ao elevador que dá pro corredor que leva à porta branca. Voltei sem saber o que esperar, pensando vagamente em acolhimento, em entendimento, em conforto ou alento. Os meses foram andando e me dei conta de que ir até aquele consultório representava uma espécie de punição, uma parte do meu dia em que eu pagava pelo meu próprio julgamento - e saía muito pior do que entrava. Fiz uma vez, duas, três, muitas. Será que isso está mesmo certo? Será que, além das minhas próprias cobranças pessoais, preciso tirar uma hora da minha semana pra me cobrar um pouco mais, dessa vez com qualquer tipo de embasamento? Vi esse comportamento se reproduzir em relacionamentos passados, futuros - pessoas que me queriam por perto desde que... Carcaça intacta, está na hora de reprogramar a máquina. Menos emotiva, mais segura, menos sincera, mais linha dura, menos dócil, mais perversa, menos generosa, mais política, menos aberta, mais vingativa. Por que é que você se entrega? Por que não se resguarda? Por que sorri se a vida está uma merda? Por que chorar se você pode começar tudo de novo, desde que... ? Esse toque lacaniano ferrou com a minha cabeça - me fez pensar em mim como um hamster dentro de uma bolinha que nunca vai mudar de lugar; me fez acreditar que quem me quisesse desde que... me faria um favor; me fez questionar tudo isso pra me questionar depois: será que você não está fugindo dos fatos? Será que está buscando as coisas certas? Será que estar sempre insatisfeito com você é um caminho de todo ruim? Será que encarar suas imperfeições com dureza não seria a chave pra um tipo de redenção? Não. Quero carinho, abraço, afeto que possa vir do meu coração para o meu corpo - quero rir de mim mesma, me achar bonita com qualquer cabelo, em qualquer espelho; quero sentir que sou cortejada, estimada e desejada por ser quem eu sou. Quero poder preparar um discurso pra secretária eletrônica e dar um pulo da cadeira quando ele atender o telefone fora de hora. Quero me embananar se do outro lado da linha aquela voz conhecida me chegar ao ouvido, e poder corar com um elogio ou um convite inesperado. Quero poder admirar-me dessas pequenas verdades sem explicação, medo ou culpa, porque perfeito é o que de perfeito não tem nada. Não desisti de evoluir nem de contar com a ajuda de alguém que faça questão de me conhecer. Só não acho que a palavra ajuda signifique sofrer ou se diminuir. Isso tudo é só pra dizer adeus - decidi que não desejo voltar mais.

Carta aberta ao meu analista

Pois é. Mais de um ano aos trancos e barrancos, querendo e não querendo caminhar até aquela porta. O tempo passou e dentro dele couberam quase uma meia dúzia de escapadelas. Como tudo na vida, no entanto, a dificuldade/fragilidade/necessidade me fez voltar ao elevador que dá pro corredor que leva à porta branca. Voltei sem saber o que esperar, pensando vagamente em acolhimento, em entendimento, em conforto ou alento. Os meses foram andando e me dei conta de que ir até aquele consultório representava uma espécie de punição, uma parte do meu dia em que eu pagava pelo meu próprio julgamento - e saía muito pior do que entrava. Fiz uma vez, duas, três, muitas. Será que isso está mesmo certo? Será que, além das minhas próprias cobranças pessoais, preciso tirar uma hora da minha semana pra me cobrar um pouco mais, dessa vez com qualquer tipo de embasamento? Vi esse comportamento se reproduzir em relacionamentos passados, futuros - pessoas que me queriam por perto desde que... Carcaça intacta, está na hora de reprogramar a máquina. Menos emotiva, mais segura, menos sincera, mais linha dura, menos dócil, mais perversa, menos generosa, mais política, menos aberta, mais vingativa. Por que é que você se entrega? Por que não se resguarda? Por que sorri se a vida está uma merda? Por que chorar se você pode começar tudo de novo, desde que... ? Esse toque lacaniano ferrou com a minha cabeça - me fez pensar em mim como um hamster dentro de uma bolinha que nunca vai mudar de lugar; me fez acreditar que quem me quisesse desde que... me faria um favor; me fez questionar tudo isso pra me questionar depois: será que você não está fugindo dos fatos? Será que está buscando as coisas certas? Será que estar sempre insatisfeito com você é um caminho de todo ruim? Será que encarar suas imperfeições com dureza não seria a chave pra um tipo de redenção? Não. Quero carinho, abraço, afeto que possa vir do meu coração para o meu corpo - quero rir de mim mesma, me achar bonita com qualquer cabelo, em qualquer espelho; quero sentir que sou cortejada, estimada e desejada por ser quem eu sou. Quero poder preparar um discurso pra secretária eletrônica e dar um pulo da cadeira quando ele atender o telefone fora de hora. Quero me embananar se do outro lado da linha aquela voz conhecida me chegar ao ouvido, e poder corar com um elogio ou um convite inesperado. Quero poder admirar-me dessas pequenas verdades sem explicação, medo ou culpa, porque perfeito é o que de perfeito não tem nada. Não desisti de evoluir nem de contar com a ajuda de alguém que faça questão de me conhecer. Só não acho que a palavra ajuda signifique sofrer ou se diminuir. Isso tudo é só pra dizer adeus - decidi que não desejo voltar mais.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Leali

Nessa noite sozinha, sem lua e sem estrela, caminhei mais uma vez para casa, resignada por meu próprio cansaço. Sonhava com pés descalços e brisa fresca antes de recolher-me à minha significância, porque dias que não cabem nos dias ressignificam a noção de privilégio, oprimem a de escolha. Descalça e despenteada, arrastei-me até o suco de uva que esperava encontrar na geladeira e acabei por parar os olhos em três vasos de violetas bronzeando-se à janela. Lembrei-me subitamente dos meus. Também eram três; também bronzeavam-se à janela, perfumavam minha alma. Acarinhava-os pela manhã, contava-lhes da minha vida e os sentia atentos a cada um dos meus devaneios. Certo dia, um deles parou de florir - os outros dois deram a acompanhar o malogro. Comecei a adoecer. Se me deixarem minhas doces amigas, como poderei aninhar-me novamente no vazio da minha solidão? Não, não, não. Voltei-me para meu pequeno jardim em súplica, pedindo a minhas florezinhas que lutassem - senão por elas, por mim -, que esse negócio de insistir é a alma do negócio quando tudo o que se quer é viver pra amar mais, pra amar de novo, pra amar somente, pra sentir o que se sente e sorrir de um jeito que traga paz. Já naquela ocasião chorar não cabia em meu relógio apertado como meu coração. As lágrimas, no entanto, choveram sem querer, sem saber que me limpavam o peito e davam ao meu jardim substância de sonho, de moça que quer ser menina, de pureza grata, desejo de ser mais, de crescer. E pouco a pouco elas nasceram; sorridentes floresceram sem pudor, sem traquejo, sem cerimônia ou refinamento. Com elas renasceu minha esperança. Por isso hoje, ao olhar para aquelas lindas mocinhas cor de violeta, meus olhos choraram um pouco mais - ao partir, fui-me embora sem olhar para trás; ainda hoje minhas amigas bronzeiam-se à janela da minha lembrança. 

Leali

Nessa noite sozinha, sem lua e sem estrela, caminhei mais uma vez para casa, resignada por meu próprio cansaço. Sonhava com pés descalços e brisa fresca antes de recolher-me à minha significância, porque dias que não cabem nos dias ressignificam a noção de privilégio, oprimem a de escolha. Descalça e despenteada, arrastei-me até o suco de uva que esperava encontrar na geladeira e acabei por parar os olhos em três vasos de violetas bronzeando-se à janela. Lembrei-me subitamente dos meus. Também eram três; também bronzeavam-se à janela, perfumavam minha alma. Acarinhava-os pela manhã, contava-lhes da minha vida e os sentia atentos a cada um dos meus devaneios. Certo dia, um deles parou de florir - os outros dois deram a acompanhar o malogro. Comecei a adoecer. Se me deixarem minhas doces amigas, como poderei aninhar-me novamente no vazio da minha solidão? Não, não, não. Voltei-me para meu pequeno jardim em súplica, pedindo a minhas florezinhas que lutassem - senão por elas, por mim -, que esse negócio de insistir é a alma do negócio quando tudo o que se quer é viver pra amar mais, pra amar de novo, pra amar somente, pra sentir o que se sente e sorrir de um jeito que traga paz. Já naquela ocasião chorar não cabia em meu relógio apertado como meu coração. As lágrimas, no entanto, choveram sem querer, sem saber que me limpavam o peito e davam ao meu jardim substância de sonho, de moça que quer ser menina, de pureza grata, desejo de ser mais, de crescer. E pouco a pouco elas nasceram; sorridentes floresceram sem pudor, sem traquejo, sem cerimônia ou refinamento. Com elas renasceu minha esperança. Por isso hoje, ao olhar para aquelas lindas mocinhas cor de violeta, meus olhos choraram um pouco mais - ao partir, fui-me embora sem olhar para trás; ainda hoje minhas amigas bronzeiam-se à janela da minha lembrança. 

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Sudoku

Fui apresentada ao Sudoku nesse fim de semana. O que posso dizer é que nada havia me ensinado mais sobre persistência e superação. Sempre bato nessa tecla em minhas aulas, quando vejo alunos desmotivados antes mesmo de tentarem descomplicar o que de complicado não tem nada. E lá vem o tal de "faça o que eu digo, não o que eu faço". O Sudoku é um jogo que começa inocente, mas que requer sua atenção e um pedaço da sua cabeça - a parte boa, aquela que funciona. Ainda que você demore, o importante é não desistir. Não desista. Não pare o jogo no meio - olhe de novo, só mais uma vez. Não vai demorar muito pra você achar aquele número que até pouco tempo atrás não estava lá. Nesse jogo, o ímpeto do impulso é seu maior inimigo. É preciso ter calma pra achar o caminho mais apropriado, mais coerente com a verdade dos fatos. "Não adianta fugir nem mentir pra si mesmo"; como uma onda no mar você deve prosseguir. Os obstáculos surgirão inevitavelmente, aos montes, só pra te fazer parar e pensar. É assim que se deixa as mazelas pra trás... que se evolui. Muitos de nós carregam todo o tipo de complexos, ainda que de forma inconsciente. Nesse contexto, é natural sentir-se desestimulado ao menor sinal de dificuldade. Mas você quer muito mais dessa vida, não é mesmo? Você quer um amor pra chamar de seu, quer sexo bom e carinho no cabelo de madrugada, quer uma casinha com a cara da sua nova família, com filho e cachorro e uma companheira admirável e grande admiradora. Você quer um trabalho do qual se orgulhe, quer contribuir para a sociedade de forma efetiva, quer fazer a diferença nesse mundo a começar pela forma como você vive. Você quer ser mais altruísta, mais presente em sua própria vida, mais verdadeiro com você mesmo, porque você sabe que essa é a chave pra você espalhar luz, paz e verdade - essa é a chave para a sua tranquilidade afetiva, psicológica, carnal e espiritual. Você sabe que não veio a esse mundo a passeio, que o dinheiro vem sempre que a gente sua a camisa, que quem madruga tem seu lugar ao sol. Você quer brilhar de dentro pra fora - só não tem a paciência de percorrer o caminho, de dar uma ré e começar a subir a ladeira mais uma vez depois de derrapar na terra. Aprendi que o Sudoku se faz a lápis, que é pra gente apagar e começar de novo se for necessário, quantas vezes quiser. Faço um convite a quem quiser se reinventar de forma consciente: que possamos usar nossos paradigmas sobre nós mesmos como ponto de partida e não poças de areia movediça. Sempre vai ter um cobertor de coisas boas pra cada noite fria, fora daquele lugar em que a gente pode ser melhor, sabe? Seu mundo será um lugar melhor sempre que você tentar outra vez.

PS: Essa pessoa fofa na foto é meu querido aluno (e Sudoku master) Nathan ;)

Sudoku

Fui apresentada ao Sudoku nesse fim de semana. O que posso dizer é que nada havia me ensinado mais sobre persistência e superação. Sempre bato nessa tecla em minhas aulas, quando vejo alunos desmotivados antes mesmo de tentarem descomplicar o que de complicado não tem nada. E lá vem o tal de "faça o que eu digo, não o que eu faço". O Sudoku é um jogo que começa inocente, mas que requer sua atenção e um pedaço da sua cabeça - a parte boa, aquela que funciona. Ainda que você demore, o importante é não desistir. Não desista. Não pare o jogo no meio - olhe de novo, só mais uma vez. Não vai demorar muito pra você achar aquele número que até pouco tempo atrás não estava lá. Nesse jogo, o ímpeto do impulso é seu maior inimigo. É preciso ter calma pra achar o caminho mais apropriado, mais coerente com a verdade dos fatos. "Não adianta fugir nem mentir pra si mesmo"; como uma onda no mar você deve prosseguir. Os obstáculos surgirão inevitavelmente, aos montes, só pra te fazer parar e pensar. É assim que se deixa as mazelas pra trás... que se evolui. Muitos de nós carregam todo o tipo de complexos, ainda que de forma inconsciente. Nesse contexto, é natural sentir-se desestimulado ao menor sinal de dificuldade. Mas você quer muito mais dessa vida, não é mesmo? Você quer um amor pra chamar de seu, quer sexo bom e carinho no cabelo de madrugada, quer uma casinha com a cara da sua nova família, com filho e cachorro e uma companheira admirável e grande admiradora. Você quer um trabalho do qual se orgulhe, quer contribuir para a sociedade de forma efetiva, quer fazer a diferença nesse mundo a começar pela forma como você vive. Você quer ser mais altruísta, mais presente em sua própria vida, mais verdadeiro com você mesmo, porque você sabe que essa é a chave pra você espalhar luz, paz e verdade - essa é a chave para a sua tranquilidade afetiva, psicológica, carnal e espiritual. Você sabe que não veio a esse mundo a passeio, que o dinheiro vem sempre que a gente sua a camisa, que quem madruga tem seu lugar ao sol. Você quer brilhar de dentro pra fora - só não tem a paciência de percorrer o caminho, de dar uma ré e começar a subir a ladeira mais uma vez depois de derrapar na terra. Aprendi que o Sudoku se faz a lápis, que é pra gente apagar e começar de novo se for necessário, quantas vezes quiser. Faço um convite a quem quiser se reinventar de forma consciente: que possamos usar nossos paradigmas sobre nós mesmos como ponto de partida e não poças de areia movediça. Sempre vai ter um cobertor de coisas boas pra cada noite fria, fora daquele lugar em que a gente pode ser melhor, sabe? Seu mundo será um lugar melhor sempre que você tentar outra vez.

PS: Essa pessoa fofa na foto é meu querido aluno (e Sudoku master) Nathan ;)

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

E eu que nada sei, que em nada acredita...

"Das duas nenhuma: ou ela estava doente ou amava em demasia.

- Demasia?

Modari rejeitou o conselho. Que o amor é como o mar: sendo infinito espera ainda em outra água se completar. Não abrando, gritou ela. E foi falar com seu homem que complacentou - amar-se-iam sempre, mas ela que deixasse na cabeceira o controlo remoto. Pelo menos durante o enquanto. Entre risos e lábios, se entrelaçaram. Pela primeira vez nessa noite Modari sentiu o morder da ternura. O sabor do beijo resvala entre lábio e dente, entre vida e morte. 
(...) 
Ele a tomou nos braços e a acarinhou, cedido, sedento. Os que beijam são sempre príncipes. No beijo todas são belas e adormecidas." (Mia Couto)

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Eu sei

Sei
que as incertezas do universo
abrigam minha iminente desistência
que há vários nomes para o que corrompe
ou massageia
a nossa essência;
que também é assim
que você pensa.
Sei
que o que não pode ser
fica pra trás
que tentar fugir
há muito não me satisfaz
que meu corpo chama a sua insensatez
pelo primeiro nome;
que essa sede nos seus olhos
me consome.
Que o seu querer me despe
num segundo
que fazemos amor
pelos cantos mais simples
do nosso entender.
Sei
que agora é cedo
ou tarde
que sem muito alarde
vamos prosseguir
vamos conseguir
vamos descobrir
o sabor da novidade
a dificuldade
irregularidade
que é você sem mim
e eu sem você.
Sei
que é hora
de pagar pra ver.
Se anoitecer
e você não dormir
diga meu nome;
antes de ir
te beijarei inteiro
e te direi "não some"
mesmo sabendo
que você não vai sumir.
Se eu me entristecer
pegue o violão
e toque a canção
que eu queria ouvir.
Por algum motivo
sei
que você sempre
me fará sorrir.


Eu sei

Sei
que as incertezas do universo
abrigam minha iminente desistência
que há vários nomes para o que corrompe
ou massageia
a nossa essência;
que também é assim
que você pensa.
Sei
que o que não pode ser
fica pra trás
que tentar fugir
há muito não me satisfaz
que meu corpo chama a sua insensatez
pelo primeiro nome;
que essa sede nos seus olhos
me consome.
Que o seu querer me despe
num segundo
que fazemos amor
pelos cantos mais simples
do nosso entender.
Sei
que agora é cedo
ou tarde
que sem muito alarde
vamos prosseguir
vamos conseguir
vamos descobrir
o sabor da novidade
a dificuldade
irregularidade
que é você sem mim
e eu sem você.
Sei
que é hora
de pagar pra ver.
Se anoitecer
e você não dormir
diga meu nome;
antes de ir
te beijarei inteiro
e te direi "não some"
mesmo sabendo
que você não vai sumir.
Se eu me entristecer
pegue o violão
e toque a canção
que eu queria ouvir.
Por algum motivo
sei
que você sempre
me fará sorrir.


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Pareado

Se há uma coisa que deve-se ter em mente quando o coração quer entrar na brincadeira é que sua futura dupla na vida deve andar lado a lado com você. E quando digo lado a lado, me refiro a características essenciais, valores, vontades, impressões da vida e o que mais for importante. Estar com alguém que você considera muita areia pro seu caminhão traz uma insegurança insuportável; o resultado disso é você procurando defeitos no outro pra tentar se convencer de que ele não é tãaaaao bacana assim. Elogios nem pensar - de um jeito cruel demais com você mesmo, elogiar o outro te diminui. Você não banca. Fim de papo. É maior do que você esse sentimento de incômodo que te faz catar problema na pessoa que está ali tentando ser legal. Da mesma forma, estar com alguém que você acha menos tudo que você gera uma falsa segurança misturada a análises profundas de você com você em busca do furo na sua autoestima. E não estamos falando de bens materiais, mas de equilíbrio, preparo, ponderação, vontade, altruísmo. Você acha que está tudo bem e secretamente confabula com seus botões Mas eu já cheguei até aqui em termos de autoconhecimento, autoconfiança, autoafirmação, autossuficiência, autoajuda... e minha dupla na vida simplesmente não me acompanha. No fim você desdenha, trata mal, se impacienta. E a pessoa está ali tentando ser legal. O que eu acho legal de verdade é quando duas pessoas boas, saudáveis e bem-resolvidas se encontram por esse mundo de Deus. Sem pudor elas vão emendando conversas que saem do papel e arrastam-se por dias e noites inteiras e viram encontros gostosos e trocas inimagináveis. Ainda não entendo porque caí de paraquedas no meio de um tanto de caras da minha idade que carregam pedras nos bolsos e andam na ponta dos pés. Não entendo o porquê da recusa em entregar-se a um mar de novidades, de desejo, de sonho que vira verdade e abre os olhos do seu lado quando o sol acorda de manhã. Sou pró-Dostoiévski, isso já é sabido; acredito na intensidade, olho no olho, pele na pele, boca com boca pintando devagar novos capítulos de uma história acima de tudo e antes de tudo extraordinária. Porque ele mesmo já dizia, lá no século XIX, que um momento de júbilo vale por toda uma vida. Espero o tempo que for pro outro lado da linha dizer amém. 

Pareado

Se há uma coisa que deve-se ter em mente quando o coração quer entrar na brincadeira é que sua futura dupla na vida deve andar lado a lado com você. E quando digo lado a lado, me refiro a características essenciais, valores, vontades, impressões da vida e o que mais for importante. Estar com alguém que você considera muita areia pro seu caminhão traz uma insegurança insuportável; o resultado disso é você procurando defeitos no outro pra tentar se convencer de que ele não é tãaaaao bacana assim. Elogios nem pensar - de um jeito cruel demais com você mesmo, elogiar o outro te diminui. Você não banca. Fim de papo. É maior do que você esse sentimento de incômodo que te faz catar problema na pessoa que está ali tentando ser legal. Da mesma forma, estar com alguém que você acha menos tudo que você gera uma falsa segurança misturada a análises profundas de você com você em busca do furo na sua autoestima. E não estamos falando de bens materiais, mas de equilíbrio, preparo, ponderação, vontade, altruísmo. Você acha que está tudo bem e secretamente confabula com seus botões Mas eu já cheguei até aqui em termos de autoconhecimento, autoconfiança, autoafirmação, autossuficiência, autoajuda... e minha dupla na vida simplesmente não me acompanha. No fim você desdenha, trata mal, se impacienta. E a pessoa está ali tentando ser legal. O que eu acho legal de verdade é quando duas pessoas boas, saudáveis e bem-resolvidas se encontram por esse mundo de Deus. Sem pudor elas vão emendando conversas que saem do papel e arrastam-se por dias e noites inteiras e viram encontros gostosos e trocas inimagináveis. Ainda não entendo porque caí de paraquedas no meio de um tanto de caras da minha idade que carregam pedras nos bolsos e andam na ponta dos pés. Não entendo o porquê da recusa em entregar-se a um mar de novidades, de desejo, de sonho que vira verdade e abre os olhos do seu lado quando o sol acorda de manhã. Sou pró-Dostoiévski, isso já é sabido; acredito na intensidade, olho no olho, pele na pele, boca com boca pintando devagar novos capítulos de uma história acima de tudo e antes de tudo extraordinária. Porque ele mesmo já dizia, lá no século XIX, que um momento de júbilo vale por toda uma vida. Espero o tempo que for pro outro lado da linha dizer amém. 

sábado, 16 de agosto de 2014

Threshold

Fui eu quem partiu, mas o desconforto prossegue. A dor insiste em doer. Me disseram certa vez que quem quer sair não sofre; só sente calafrio e mal-estar da lembrança quem queria ficar e lutar ou só permanecer. À medida que o tempo passa, tudo vai mudando de forma sempre e lentamente, como o bailar das nuvens num dia qualquer. Da janela do quarto avistamos o mesmo céu, e talvez por isso seja difícil compreender a natureza de tanta diferença no que a gente vê. Temo tornar meus passos cognitivos demais, mas se você degustasse minha sequência de palavras escritas com uma boa xícara de chá, veria que não era medo nem ilusão, que tudo fazia sentido. Ando pelo meu pequeno mundo e me abasteço de carinho a prestação - levo um pacotinho de coragem no bolso esquerdo do vestido. Sinto o calor na pele clara, sinto o vento a mudar-me as feições e escolho viver mais um pouco, mesmo sem estar inteira ou pronta pra outra surpresa... troco a decepção por uma pilha de trabalho, guardo minhas cartas embaixo da mesa e tento não pensar que mais uma vez pode não dar certo, ou que tinha tudo pra ser incrível numa outra ocasião.

Threshold

Fui eu quem partiu, mas o desconforto prossegue. A dor insiste em doer. Me disseram certa vez que quem quer sair não sofre; só sente calafrio e mal-estar da lembrança quem queria ficar e lutar ou só permanecer. À medida que o tempo passa, tudo vai mudando de forma sempre e lentamente, como o bailar das nuvens num dia qualquer. Da janela do quarto avistamos o mesmo céu, e talvez por isso seja difícil compreender a natureza de tanta diferença no que a gente vê. Temo tornar meus passos cognitivos demais, mas se você degustasse minha sequência de palavras escritas com uma boa xícara de chá, veria que não era medo nem ilusão, que tudo fazia sentido. Ando pelo meu pequeno mundo e me abasteço de carinho a prestação - levo um pacotinho de coragem no bolso esquerdo do vestido. Sinto o calor na pele clara, sinto o vento a mudar-me as feições e escolho viver mais um pouco, mesmo sem estar inteira ou pronta pra outra surpresa... troco a decepção por uma pilha de trabalho, guardo minhas cartas embaixo da mesa e tento não pensar que mais uma vez pode não dar certo, ou que tinha tudo pra ser incrível numa outra ocasião.

domingo, 10 de agosto de 2014

Fechada pra balanço

Há alguns anos uma psicóloga que me atendia na época me disse que a arte era a forma mais nobre de extravasamento. Isso foi logo depois de eu dizer a ela que escrevia nas horas vagas. Esse meu breve comentário fez brilharem os olhos dela, como se acabasse de se desenhar ali uma luz ou uma resposta. Tinha acabado de me casar e ainda não havia conseguido me conectar àquele novo personagem, apesar de minha monogamia e carência latentes. Esses sintomas faziam com que eu quisesse sair por aí e beber pela estrada afora, como um cavalo manso que sai a galope pelos pastos, trota e relincha com sua crina brilhante ao vento... e faz o caminho de casa religiosamente pelo prazer da praxe. Sentia uma mistura de culpa, solidão e necessidade de alguma coisa que não estava dentro daquela caixa meticulosamente organizada chamada vida a dois. Escrevia para heróis platônicos que viriam me resgatar da minha placidez, que dariam outro sentido à minha existência - falas fora do script. Escrevia e sonhava com o soldadinho de chumbo em dia de folga, de bermuda, chinelo e camiseta, tocando sua caixa do lado esquerdo do meu peito, numa louca tarde de verão. Fui escrevendo, sonhando, pensando tanto no que não estava que o que ficou virou uma confusão. Ia vivendo como se fosse obrigada a viver, como se não houvesse outra alternativa a não ser respirar, acordar, trabalhar, suspirar e falar sobre tudo isso. Às vezes me perguntava pra onde tinha ido a leveza que nos fazia sorrir e andar pra frente sem pensar em casamento, filhos, sem nem pensar no dia de amanhã. No começo, passamos um bom tempo sem entender direito o que sentíamos, sem saber sequer o que é que estava movendo aquela bola pra frente. Estávamos lá, sem nos desligarmos direito das outras pessoas e coisas que ficaram pra trás. Demorou um bocado pra gente entender que estávamos de fato juntos, que era hora de erradicar os coadjuvantes de plantão. Ninguém pediu; só aconteceu, sem aflição, sem cobrança, sem qualquer expectativa. Depois de anos, me peguei pensando no quanto a tranquilidade afetiva é valiosa, no quanto é importante saber que você escolheu alguém que te escolhe todos os dias - essa escolha mútua não é sempre óbvia, mas as nuvens passam e o sentimento fica... só assim dá pra saber. Ainda assim, bebia e consumia como se o mundo fosse acabar amanhã, sem me aninhar às minhas novas perspectivas. Não era culpa de ninguém, nem de mim mesma, ainda que a falta de experiência pra lidar com algo novo tenha talvez me impedido de suavizar as coisas, de levá-las mais na brincadeira. Em cada canto, procurava pela leveza. Percebi um dia, com dor e surpresa, que não a encontraria mais dentro daquela caixa. Tem mas acabou, é assim. No lugar, frio na barriga e brilho nos olhos, uma sensação totalmente fora de contexto e de propósito, foi-se abrigando em mim. Coisas da vida, né? Mas não foi pra isso mesmo que eu vim?... Outro dia um amigo me disse que queria que eu escrevesse mais pra ele entender melhor minha relação com as palavras. Queria que eu escrevesse sobre coisas que não fossem minhas. Aí lembrei da psicóloga. Escrever é meu melhor (se não único) jeito de colocar as coisas pra fora. É um jeito de me enganar quando precisar voar com fadas para o reino da Cinderela, e de falar a verdade quando não quiser ouvi-la de outro alguém. A vida dá tantas voltas que é natural a gente confundir tanto as coisas. Preciso ser mais leve comigo mesma e passar mais tempo sozinha debaixo das cobertas, vendo um bom filme enquanto o "e se..." sai de fininho pela rua deserta, sem saber se não ou se sim. 

Fechada pra balanço

Há alguns anos uma psicóloga que me atendia na época me disse que a arte era a forma mais nobre de extravasamento. Isso foi logo depois de eu dizer a ela que escrevia nas horas vagas. Esse meu breve comentário fez brilharem os olhos dela, como se acabasse de se desenhar ali uma luz ou uma resposta. Tinha acabado de me casar e ainda não havia conseguido me conectar àquele novo personagem, apesar de minha monogamia e carência latentes. Esses sintomas faziam com que eu quisesse sair por aí e beber pela estrada afora, como um cavalo manso que sai a galope pelos pastos, trota e relincha com sua crina brilhante ao vento... e faz o caminho de casa religiosamente pelo prazer da praxe. Sentia uma mistura de culpa, solidão e necessidade de alguma coisa que não estava dentro daquela caixa meticulosamente organizada chamada vida a dois. Escrevia para heróis platônicos que viriam me resgatar da minha placidez, que dariam outro sentido à minha existência - falas fora do script. Escrevia e sonhava com o soldadinho de chumbo em dia de folga, de bermuda, chinelo e camiseta, tocando sua caixa do lado esquerdo do meu peito, numa louca tarde de verão. Fui escrevendo, sonhando, pensando tanto no que não estava que o que ficou virou uma confusão. Ia vivendo como se fosse obrigada a viver, como se não houvesse outra alternativa a não ser respirar, acordar, trabalhar, suspirar e falar sobre tudo isso. Às vezes me perguntava pra onde tinha ido a leveza que nos fazia sorrir e andar pra frente sem pensar em casamento, filhos, sem nem pensar no dia de amanhã. No começo, passamos um bom tempo sem entender direito o que sentíamos, sem saber sequer o que é que estava movendo aquela bola pra frente. Estávamos lá, sem nos desligarmos direito das outras pessoas e coisas que ficaram pra trás. Demorou um bocado pra gente entender que estávamos de fato juntos, que era hora de erradicar os coadjuvantes de plantão. Ninguém pediu; só aconteceu, sem aflição, sem cobrança, sem qualquer expectativa. Depois de anos, me peguei pensando no quanto a tranquilidade afetiva é valiosa, no quanto é importante saber que você escolheu alguém que te escolhe todos os dias - essa escolha mútua não é sempre óbvia, mas as nuvens passam e o sentimento fica... só assim dá pra saber. Ainda assim, bebia e consumia como se o mundo fosse acabar amanhã, sem me aninhar às minhas novas perspectivas. Não era culpa de ninguém, nem de mim mesma, ainda que a falta de experiência pra lidar com algo novo tenha talvez me impedido de suavizar as coisas, de levá-las mais na brincadeira. Em cada canto, procurava pela leveza. Percebi um dia, com dor e surpresa, que não a encontraria mais dentro daquela caixa. Tem mas acabou, é assim. No lugar, frio na barriga e brilho nos olhos, uma sensação totalmente fora de contexto e de propósito, foi-se abrigando em mim. Coisas da vida, né? Mas não foi pra isso mesmo que eu vim?... Outro dia um amigo me disse que queria que eu escrevesse mais pra ele entender melhor minha relação com as palavras. Queria que eu escrevesse sobre coisas que não fossem minhas. Aí lembrei da psicóloga. Escrever é meu melhor (se não único) jeito de colocar as coisas pra fora. É um jeito de me enganar quando precisar voar com fadas para o reino da Cinderela, e de falar a verdade quando não quiser ouvi-la de outro alguém. A vida dá tantas voltas que é natural a gente confundir tanto as coisas. Preciso ser mais leve comigo mesma e passar mais tempo sozinha debaixo das cobertas, vendo um bom filme enquanto o "e se..." sai de fininho pela rua deserta, sem saber se não ou se sim. 

Magnifying glass

Abriu a porta num impulso - meus olhos não encontraram sua descrença.
Ela pensou que fossem minhas suas expectativas
e chamou de cautela toda a minha indiferença;
de prudência minha intolerância;
de espaço a minha ausência.
Acreditou que eu merecia a sua confiança
e esperou paciente pelo fim da minha inconstância;
deu novas cores à minha inconsistência.
Não fazia isso em sã consciência
mas priorizou essa e aquela palavra
maquiou um ou outro gesto
confirmou o que deu-se a entender
abraçou-se a vozes do além
que diziam ser sabedoria
o meu medo de querer -
na boca o gosto indigesto
da minha indecisão.
Com um suspiro
ela tirou seu coração das minhas mãos
e o guardou na bolsa.
Caminhou até a porta
e jogou a lupa fora com força
aquela que há muito aumentava
o tamanho da minha intenção.

Magnifying glass

Abriu a porta num impulso - meus olhos não encontraram sua descrença.
Ela pensou que fossem minhas suas expectativas
e chamou de cautela toda a minha indiferença;
de prudência minha intolerância;
de espaço a minha ausência.
Acreditou que eu merecia a sua confiança
e esperou paciente pelo fim da minha inconstância;
deu novas cores à minha inconsistência.
Não fazia isso em sã consciência
mas priorizou essa e aquela palavra
maquiou um ou outro gesto
confirmou o que deu-se a entender
abraçou-se a vozes do além
que diziam ser sabedoria
o meu medo de querer -
na boca o gosto indigesto
da minha indecisão.
Com um suspiro
ela tirou seu coração das minhas mãos
e o guardou na bolsa.
Caminhou até a porta
e jogou a lupa fora com força
aquela que há muito aumentava
o tamanho da minha intenção.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Andanças

Ontem tive um sonho que já tinha tido outra vez, tempos atrás. Eu corria em um campo aberto cheio de flores, braços ajudando as pernas, o corpo inteiro sentindo com prazer cada raio de sol. Eu corria com os olhos febris e a ânsia de quem quer chegar, e pensava no mar e na brisa que me modelava os cabelos com seus dedos macios e pacientes. Corria com disciplina e leveza, coração batendo com pressa, lágrimas desenhando-se pelos meus olhos escuros e o gosto de doces promessas invadindo meus lábios entreabertos num sorriso. Corria e sorvia o perfume e observava as cores ao redor e sentia meu peito cantar em uníssono a canção dos novos tempos. Fechei os olhos por um segundo e senti o calor de um abraço demorado. Corpos e bocas e cheiros que naturalmente se aproximavam, gestos suaves e encompassados... milhões de borboletas bateram suas asas delicadas dentro de mim e disseram sim, esse é o caminho bonito que trilhamos pra você seguir. 

Andanças

Ontem tive um sonho que já tinha tido outra vez, tempos atrás. Eu corria em um campo aberto cheio de flores, braços ajudando as pernas, o corpo inteiro sentindo com prazer cada raio de sol. Eu corria com os olhos febris e a ânsia de quem quer chegar, e pensava no mar e na brisa que me modelava os cabelos com seus dedos macios e pacientes. Corria com disciplina e leveza, coração batendo com pressa, lágrimas desenhando-se pelos meus olhos escuros e o gosto de doces promessas invadindo meus lábios entreabertos num sorriso. Corria e sorvia o perfume e observava as cores ao redor e sentia meu peito cantar em uníssono a canção dos novos tempos. Fechei os olhos por um segundo e senti o calor de um abraço demorado. Corpos e bocas e cheiros que naturalmente se aproximavam, gestos suaves e encompassados... milhões de borboletas bateram suas asas delicadas dentro de mim e disseram sim, esse é o caminho bonito que trilhamos pra você seguir. 

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Partilha

Ela saiu às 5 da tarde de uma quarta-feira qualquer. Levava consigo doses de coragem espalhadas na mala, na mala uma confusão de coisas das quais desejava não precisar mais. Simples não era; nada o seria, bradava o coração louco por uma resposta. As pernas se moviam confusas, sem certeza iniciaram uma rota que haveria de compensar a dormência dos pés e das mãos. Parou para sentir sua presença de repente - as bochechas ardiam-lhe como balões a gás. Espasmos involuntários a despertaram do transe de poucos em poucos minutos. Então isso é decidir... Riu de si para si um riso sem alegria ao constatar que o corpo a abandonava. No alto da torre a cabeça funcionava sozinha.

Partilha

Ela saiu às 5 da tarde de uma quarta-feira qualquer. Levava consigo doses de coragem espalhadas na mala, na mala uma confusão de coisas das quais desejava não precisar mais. Simples não era; nada o seria, bradava o coração louco por uma resposta. As pernas se moviam confusas, sem certeza iniciaram uma rota que haveria de compensar a dormência dos pés e das mãos. Parou para sentir sua presença de repente - as bochechas ardiam-lhe como balões a gás. Espasmos involuntários a despertaram do transe de poucos em poucos minutos. Então isso é decidir... Riu de si para si um riso sem alegria ao constatar que o corpo a abandonava. No alto da torre a cabeça funcionava sozinha.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Partilha

Te encontrei no meio de uma papelada sem fim; sob os olhos chovia fino. Já carregava a sensação há algum tempo, sem saber se ela crescia ou só se alastrava, sem previsão de trégua. E eis que no meio de tantas outras letras e palavras e frases e tramas inteiras, você me chamou a atenção pelo nome em cima daquele montinho de coisas escritas: Partilha. Tomei seu corpinho amassado nas mãos trêmulas e me ocorreu um bocado de ideias, todas tristes. Renascer é triste porque temos que morrer primeiro e morrer, ah, morrer é triste demais, mas morrer em vida, nossa... dói. De alguma forma relacionei a partilha a essa separação dentro de nós que por motivos incertos nos é imposta - por nós mesmos. É como divorciar-se de um pedaço seu, e fazer um esforço para que a decisão seja consensual, para que todas as partes possam dizer amém a essa espécie de morte de uma para a outra. A partilha me lembrou o The road not taken e o orgulho que ostentamos por nossas escolhas. Ou isso ou a paranoia da grama do vizinho (e convenhamos que de paranoia o inferno tá cheio). Tomei seu corpinho amassado nas mãos trêmulas e me ocorreu um bocado de ideias, todas tristes. Entendo hoje que a felicidade se compra a prestação, com os mesmos pesos e medidas de um financiamento imobiliário. É um investimento em uma necessidade básica, suado, a longo prazo, com pagamentos a perder de vista e benefícios para quem for capaz de dar mais. Cada um faz o que pode e o mercado acompanha, e a vida segue, e a gente vai caminhando devagar e desejando sempre um pouco mais de compreensão, de compaixão, de carinho e gentileza, de entrega, de uma mão segurando a sua quando a chuva passar e seu corpo estiver preparado pra rir desse e daquele jeito, pra contar outras histórias e abraçar aquelas que sem cerimônia lhe afagarem os ouvidos. Preferi deixar o que você ia me dizer para um momento mais calmo, e pedi secretamente que esse momento nunca existisse. Porque dói e já doeu um tanto; e eu ainda agora às voltas com os pesos e medidas da vida... Hoje bateu dona curiosidade à porta e me perguntei por onde você andaria. No fundo de uma gaveta escura, dentro de uma caixa perfumada, nas garras de uma vassoura aborrecida? Com fé há de ter com você uma moça boa e despreocupada, que chama de bonito tudo o que é triste e trata com a maior doçura as coisas do coração.

Partilha

Te encontrei no meio de uma papelada sem fim; sob os olhos chovia fino. Já carregava a sensação há algum tempo, sem saber se ela crescia ou só se alastrava, sem previsão de trégua. E eis que no meio de tantas outras letras e palavras e frases e tramas inteiras, você me chamou a atenção pelo nome em cima daquele montinho de coisas escritas: Partilha. Tomei seu corpinho amassado nas mãos trêmulas e me ocorreu um bocado de ideias, todas tristes. Renascer é triste porque temos que morrer primeiro e morrer, ah, morrer é triste demais, mas morrer em vida, nossa... dói. De alguma forma relacionei a partilha a essa separação dentro de nós que por motivos incertos nos é imposta - por nós mesmos. É como divorciar-se de um pedaço seu, e fazer um esforço para que a decisão seja consensual, para que todas as partes possam dizer amém a essa espécie de morte de uma para a outra. A partilha me lembrou o The road not taken e o orgulho que ostentamos por nossas escolhas. Ou isso ou a paranoia da grama do vizinho (e convenhamos que de paranoia o inferno tá cheio). Tomei seu corpinho amassado nas mãos trêmulas e me ocorreu um bocado de ideias, todas tristes. Entendo hoje que a felicidade se compra a prestação, com os mesmos pesos e medidas de um financiamento imobiliário. É um investimento em uma necessidade básica, suado, a longo prazo, com pagamentos a perder de vista e benefícios para quem for capaz de dar mais. Cada um faz o que pode e o mercado acompanha, e a vida segue, e a gente vai caminhando devagar e desejando sempre um pouco mais de compreensão, de compaixão, de carinho e gentileza, de entrega, de uma mão segurando a sua quando a chuva passar e seu corpo estiver preparado pra rir desse e daquele jeito, pra contar outras histórias e abraçar aquelas que sem cerimônia lhe afagarem os ouvidos. Preferi deixar o que você ia me dizer para um momento mais calmo, e pedi secretamente que esse momento nunca existisse. Porque dói e já doeu um tanto; e eu ainda agora às voltas com os pesos e medidas da vida... Hoje bateu dona curiosidade à porta e me perguntei por onde você andaria. No fundo de uma gaveta escura, dentro de uma caixa perfumada, nas garras de uma vassoura aborrecida? Com fé há de ter com você uma moça boa e despreocupada, que chama de bonito tudo o que é triste e trata com a maior doçura as coisas do coração.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

On the road

Destino: Brasília. Expectativa: well, well, well... Visitas anteriores: mais que duas, menos que dez - contextos diversos. Finalidade: visitar a família. Finalidade semi-secreta: sair da minha vida e levar o corpo junto pra passear. Primeiro passo: comprar a passagem (créditos à minha amiga Marina, que mudou a minha vida com esse lema). Planejamento: my plan's no plan, Sam. 

E foi assim que eu resolvi deixar a copa e tudo mais pra lá e passar quase um mês em Brasília. Meu primo e minha tia sempre convidavam, o tempo nunca deixava... e eis que eu resolvi - talvez pela primeira vez em sei lá quantos anos - matar meu tempo no peito, segurá-lo com as suas mãos e falar firme ao seu ouvido "campeão, agora quem manda sou eu". Nesse mesmo dia comprei a passagem; quase um mês depois, plantava-me à porta de casa com a velha malinha vermelha em punho; na outra mão, o telefone antenado ao Easy taxi. Catei meu Kerouac 3 em 1 e fui ao encontro de uma bela manhã cinzenta, sem saber ao certo o que esperar de meus próximos dias.

O trajeto foi solitário, saudável. Pude desfrutar da minha própria companhia pra variar. Sentada à janela, pensei nos motivos pelos quais algumas pessoas tinham medo de voar. Era uma coisa que eu realmente não conseguia entender. Sempre achei incrível ver aquele pássaro gigante cheio de gente correr pista afora até levantar vôo. Era um momento dos mais bonitos. A cidade ia aos poucos desaparecendo e dando lugar a outras cidades, que se estendiam em fileiras de luzes por entre as montanhas e os lagos, ao longo de matas e pradarias. Vinha-me à mente a extensão do meu país, com seus palácios e casebres espremidos no meio de tanta gente. Ri sozinha ao pensar nos colombianos que assaltaram pedestres em Belo Horizonte (pessoal, por favor parem de roubar nossos empregos) e concluí com certa tranquilidade que espaço, diversão e surpresa não faltariam aos visitantes de plantão. 

Voltei a confabular sobre a questão de espaço ao pisar em Brasília. Puta merda - quanto espaço! Joguei as malas no carro da minha tia e fui comendo a cidade com os olhos. Gramados a perder de vista, castigados pelo sol e pelo tempo seco. Grama que não acabava mais; grama inabitada sem ser virgem... natureza que não tem cara de natureza. Mas o espaço entre as ruas, entre os prédios, entre os blocos trazia conforto, e o verde aumentava a sensação de liberdade. Vim a entender mais tarde o espaço entre as pessoas com um certo alívio. Em Brasília arranha-céus não são permitidos - hooray! Dá pra ver o céu de onde você estiver. Essa pequena descoberta me encheu de alegria, e passei muitos dias testando minha nova teoria. Faz bem pra alma sair de casa com qualquer roupa, pra qualquer lugar, sentindo o céu sobre a cabeça sem esperar nada de ninguém ou lugar algum, sem que esperem nada de você. Ainda que porventura queiram saber quem você é, não faz diferença - você é só um forasteiro, alguém que tem um certo orgulho de não pertencer a esse novo lugar e nem ao lugar de onde saiu. Você é o que vê quando olha no espelho - alguém prestes a se reinventar, do jeito que for e sob qualquer circunstância.

Comecei a ler meu On the road em um banco de praça. Sim, passei muito tempo sozinha - a única pessoa de férias na cidade era eu. Essa é outra coisa muito legal sobre Brasília - você pode sair do apartamento e escolher qualquer rota, mas não demora muito até o próximo bar, banco, parque, salão. Tudo igual; tudo diferente. Não importava o que iria encontrar - decidi que meu livro caminharia comigo por cada uma daquelas ruas carentes de calor humano; em novas esquinas, travávamos as mais fascinantes conversações. Diferente de Sal Paradise, eu sorvia minha nova realidade com prazer e cautela - queria me curar, não me perder. Sentia os lábios queimarem ao sol e os cobria de água e óleo. Pescava minhas vontades pela boca com um cartão de débito - há muito não queria depender de ninguém. Sentada na grama de uma praça próxima, assistia tranquila ao vai e vem fluorescente dos corredores, suando a camisa em qualquer tempo com seu foco costumeiro. A saga de Kerouac ia mudando de cor sob os meus olhos, e eu só pensava que ele devia ter lido Dostoiévski na adolescência - e que Fiódor deveria ter escrito em suas capas "não tente isso em casa" como sinal de advertência.

On the road

Destino: Brasília. Expectativa: well, well, well... Visitas anteriores: mais que duas, menos que dez - contextos diversos. Finalidade: visitar a família. Finalidade semi-secreta: sair da minha vida e levar o corpo junto pra passear. Primeiro passo: comprar a passagem (créditos à minha amiga Marina, que mudou a minha vida com esse lema). Planejamento: my plan's no plan, Sam. 

E foi assim que eu resolvi deixar a copa e tudo mais pra lá e passar quase um mês em Brasília. Meu primo e minha tia sempre convidavam, o tempo nunca deixava... e eis que eu resolvi - talvez pela primeira vez em sei lá quantos anos - matar meu tempo no peito, segurá-lo com as suas mãos e falar firme ao seu ouvido "campeão, agora quem manda sou eu". Nesse mesmo dia comprei a passagem; quase um mês depois, plantava-me à porta de casa com a velha malinha vermelha em punho; na outra mão, o telefone antenado ao Easy taxi. Catei meu Kerouac 3 em 1 e fui ao encontro de uma bela manhã cinzenta, sem saber ao certo o que esperar de meus próximos dias.

O trajeto foi solitário, saudável. Pude desfrutar da minha própria companhia pra variar. Sentada à janela, pensei nos motivos pelos quais algumas pessoas tinham medo de voar. Era uma coisa que eu realmente não conseguia entender. Sempre achei incrível ver aquele pássaro gigante cheio de gente correr pista afora até levantar vôo. Era um momento dos mais bonitos. A cidade ia aos poucos desaparecendo e dando lugar a outras cidades, que se estendiam em fileiras de luzes por entre as montanhas e os lagos, ao longo de matas e pradarias. Vinha-me à mente a extensão do meu país, com seus palácios e casebres espremidos no meio de tanta gente. Ri sozinha ao pensar nos colombianos que assaltaram pedestres em Belo Horizonte (pessoal, por favor parem de roubar nossos empregos) e concluí com certa tranquilidade que espaço, diversão e surpresa não faltariam aos visitantes de plantão. 

Voltei a confabular sobre a questão de espaço ao pisar em Brasília. Puta merda - quanto espaço! Joguei as malas no carro da minha tia e fui comendo a cidade com os olhos. Gramados a perder de vista, castigados pelo sol e pelo tempo seco. Grama que não acabava mais; grama inabitada sem ser virgem... natureza que não tem cara de natureza. Mas o espaço entre as ruas, entre os prédios, entre os blocos trazia conforto, e o verde aumentava a sensação de liberdade. Vim a entender mais tarde o espaço entre as pessoas com um certo alívio. Em Brasília arranha-céus não são permitidos - hooray! Dá pra ver o céu de onde você estiver. Essa pequena descoberta me encheu de alegria, e passei muitos dias testando minha nova teoria. Faz bem pra alma sair de casa com qualquer roupa, pra qualquer lugar, sentindo o céu sobre a cabeça sem esperar nada de ninguém ou lugar algum, sem que esperem nada de você. Ainda que porventura queiram saber quem você é, não faz diferença - você é só um forasteiro, alguém que tem um certo orgulho de não pertencer a esse novo lugar e nem ao lugar de onde saiu. Você é o que vê quando olha no espelho - alguém prestes a se reinventar, do jeito que for e sob qualquer circunstância.

Comecei a ler meu On the road em um banco de praça. Sim, passei muito tempo sozinha - a única pessoa de férias na cidade era eu. Essa é outra coisa muito legal sobre Brasília - você pode sair do apartamento e escolher qualquer rota, mas não demora muito até o próximo bar, banco, parque, salão. Tudo igual; tudo diferente. Não importava o que iria encontrar - decidi que meu livro caminharia comigo por cada uma daquelas ruas carentes de calor humano; em novas esquinas, travávamos as mais fascinantes conversações. Diferente de Sal Paradise, eu sorvia minha nova realidade com prazer e cautela - queria me curar, não me perder. Sentia os lábios queimarem ao sol e os cobria de água e óleo. Pescava minhas vontades pela boca com um cartão de débito - há muito não queria depender de ninguém. Sentada na grama de uma praça próxima, assistia tranquila ao vai e vem fluorescente dos corredores, suando a camisa em qualquer tempo com seu foco costumeiro. A saga de Kerouac ia mudando de cor sob os meus olhos, e eu só pensava que ele devia ter lido Dostoiévski na adolescência - e que Fiódor deveria ter escrito em suas capas "não tente isso em casa" como sinal de advertência.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Ai de mim que sou assim...

"I know (I know) you belong
To somebody new
But tonight
You belong to me

Although (although) we're apart
You are a part of my heart
But tonight
You belong to me

Wait down by the stream
How sweet it will seem
Once more just to dream in
The moonlight
My honey I know
With the dawn
That you will be gone
But tonight
You belong to me

But tonight
You belong
To me"

https://www.youtube.com/watch?v=OUStIV3NUeo

Ai de mim que sou assim...

"I know (I know) you belong
To somebody new
But tonight
You belong to me

Although (although) we're apart
You are a part of my heart
But tonight
You belong to me

Wait down by the stream
How sweet it will seem
Once more just to dream in
The moonlight
My honey I know
With the dawn
That you will be gone
But tonight
You belong to me

But tonight
You belong
To me"

https://www.youtube.com/watch?v=OUStIV3NUeo

Times they are-a-changing

"Garotas e rapazes da América têm curtido momentos realmente tristes quando estão juntos; a artificialidade os força a se submeterem imediatamente ao sexo, sem os devidos diálogos preliminares. Não me refiro a galanteios - mas sim um profundo diálogo de almas, porque a vida é sagrada e cada momento é precioso" (Kerouac, On the road, 1951).

Times they are-a-changing

"Garotas e rapazes da América têm curtido momentos realmente tristes quando estão juntos; a artificialidade os força a se submeterem imediatamente ao sexo, sem os devidos diálogos preliminares. Não me refiro a galanteios - mas sim um profundo diálogo de almas, porque a vida é sagrada e cada momento é precioso" (Kerouac, On the road, 1951).

Cardiopatia

O carinho é uma coisa perigosa. Vira arma branca na mão de quem pode oferecer... e moeda de troca valiosa pra quem quer receber. É um paliativo pros que sofrem de solidão (e de quebra arranca sorrisinhos de todos os tipos daqui e dali). Já vi gente dar meia-volta e caminhar a passos largos na direção oposta por um pouco de carinho. Só um pouquinho... E como se não bastasse, a noção de carinho acabou que meio que se perdeu. Hoje em dia carinho é sexo, é um carro novo, uma lipo, um "e aí, comequitá?", uma linha cafajeste no whatzapp. Raros são aqueles que se dispõem a pôr a mão na massa. Mas vocês me conhecem: quando eu cismo com uma coisa, é difícil dar outras cores pra ela na minha cabeça. E eu cismei que carinho é algo que vem de dentro, de graça, quando se tem vontade. É mesmo, né? Só tem um detalhe: pra ele valer, meu coração tem que bater três vezes. Parece bobagem, mas é impressionante o que acontece quando ele bate. Moral da história: a gente dá é muita trela pro nosso coração...

Cardiopatia

O carinho é uma coisa perigosa. Vira arma branca na mão de quem pode oferecer... e moeda de troca valiosa pra quem quer receber. É um paliativo pros que sofrem de solidão (e de quebra arranca sorrisinhos de todos os tipos daqui e dali). Já vi gente dar meia-volta e caminhar a passos largos na direção oposta por um pouco de carinho. Só um pouquinho... E como se não bastasse, a noção de carinho acabou que meio que se perdeu. Hoje em dia carinho é sexo, é um carro novo, uma lipo, um "e aí, comequitá?", uma linha cafajeste no whatzapp. Raros são aqueles que se dispõem a pôr a mão na massa. Mas vocês me conhecem: quando eu cismo com uma coisa, é difícil dar outras cores pra ela na minha cabeça. E eu cismei que carinho é algo que vem de dentro, de graça, quando se tem vontade. É mesmo, né? Só tem um detalhe: pra ele valer, meu coração tem que bater três vezes. Parece bobagem, mas é impressionante o que acontece quando ele bate. Moral da história: a gente dá é muita trela pro nosso coração...

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Piscina térmica

Era uma quinta-feira. Já passava das 15 horas e eu procurava aflita uma vaga nas redondezas do consultório. Cheguei esbaforida à portaria; a zeladora sorriu um sorriso de solidariedade (faltou uma palavra melhor) e abriu o portãozinho de ferro para que eu pudesse passar. O elevador chegou logo. Oito andares depois, lá estava eu, em frente ao número 803. Diferente das experiências que me faziam pesar prós e contras, como tomar banho em água fria, pular de ponta na piscina, trocar de roupa no inverno ou nas férias, essa não trazia necessariamente aquele sentimento de "valeu a pena". Falar de mim, tocar nas minhas feridas mais íntimas, senti-las arder e por algum motivo não conseguir tirá-las de lá... nossa, isso pode ser muito martirizante. Carência, solidão, medo, tristeza, desespero, vazio, dúvida... Ei, Érika, tudo bem? Gulp! Nada dá mais medo do que enfrentar o desconhecido quando o desconhecido é você mesmo. O mobiliário não era exatamente acolhedor, mas talvez fosse essa a proposta - nada de relaxar demais: vamos direto ao ponto, for time changes the size of my pocket. O profissional tinha sempre um ar cansado difícil de explicar. Não era cansado do tipo can't stand it anymore; era mais um "você está pra gritar bingo há um ano, minha filha - presta mais atenção ao jogo pelamordideus!". Convencionalidades à parte, adentrei a saleta e busquei o sofá como de costume. Aquela coisa de deitar no divã me dava uma sensação de que eu era uma pobre coitada lamurienta - ainda que eu fosse, o estigma não me caía bem. Tirei os sapatos, cruzei as pernas e recomecei (sim! REcomecei) a listar minhas insatisfações, como a percorrer um caminho conhecido, um labirinto do qual, por algum motivo, eu não podia (ou não queria?) sair. Nadei meus 2000 metros rasos habituais naquela piscina térmica de desgostos e dilemas que vinham bem a calhar, quando o profissional saiu da sua cruzada de pernas passiva, trouxe o corpo pra frente, direcionou um olhar fuzilante ao meu par de olhos pseudoinocentes e disse: você já parou pra se perguntar o que é que você quer? O que você quer? Pergunta boba, pensei. Sabia que não precisava responder naquela hora, que ficar calada e parecer confusa era o esperado, que após 10 segundos no máximo ele diria Semana que vem? e se levantaria devagar pra eu ter tempo de pegar o dinheiro da seção na carteira. Aí então ele guardaria o dinheiro em algum lugar próximo sem alarde e, calmamente, se dirigiria para a porta e repetiria o dia e horário da próxima consulta enquanto apertaria a minha mão breve e cordialmente. Foi exatamente o que ele fez.

Piscina térmica

Era uma quinta-feira. Já passava das 15 horas e eu procurava aflita uma vaga nas redondezas do consultório. Cheguei esbaforida à portaria; a zeladora sorriu um sorriso de solidariedade (faltou uma palavra melhor) e abriu o portãozinho de ferro para que eu pudesse passar. O elevador chegou logo. Oito andares depois, lá estava eu, em frente ao número 803. Diferente das experiências que me faziam pesar prós e contras, como tomar banho em água fria, pular de ponta na piscina, trocar de roupa no inverno ou nas férias, essa não trazia necessariamente aquele sentimento de "valeu a pena". Falar de mim, tocar nas minhas feridas mais íntimas, senti-las arder e por algum motivo não conseguir tirá-las de lá... nossa, isso pode ser muito martirizante. Carência, solidão, medo, tristeza, desespero, vazio, dúvida... Ei, Érika, tudo bem? Gulp! Nada dá mais medo do que enfrentar o desconhecido quando o desconhecido é você mesmo. O mobiliário não era exatamente acolhedor, mas talvez fosse essa a proposta - nada de relaxar demais: vamos direto ao ponto, for time changes the size of my pocket. O profissional tinha sempre um ar cansado difícil de explicar. Não era cansado do tipo can't stand it anymore; era mais um "você está pra gritar bingo há um ano, minha filha - presta mais atenção ao jogo pelamordideus!". Convencionalidades à parte, adentrei a saleta e busquei o sofá como de costume. Aquela coisa de deitar no divã me dava uma sensação de que eu era uma pobre coitada lamurienta - ainda que eu fosse, o estigma não me caía bem. Tirei os sapatos, cruzei as pernas e recomecei (sim! REcomecei) a listar minhas insatisfações, como a percorrer um caminho conhecido, um labirinto do qual, por algum motivo, eu não podia (ou não queria?) sair. Nadei meus 2000 metros rasos habituais naquela piscina térmica de desgostos e dilemas que vinham bem a calhar, quando o profissional saiu da sua cruzada de pernas passiva, trouxe o corpo pra frente, direcionou um olhar fuzilante ao meu par de olhos pseudoinocentes e disse: você já parou pra se perguntar o que é que você quer? O que você quer? Pergunta boba, pensei. Sabia que não precisava responder naquela hora, que ficar calada e parecer confusa era o esperado, que após 10 segundos no máximo ele diria Semana que vem? e se levantaria devagar pra eu ter tempo de pegar o dinheiro da seção na carteira. Aí então ele guardaria o dinheiro em algum lugar próximo sem alarde e, calmamente, se dirigiria para a porta e repetiria o dia e horário da próxima consulta enquanto apertaria a minha mão breve e cordialmente. Foi exatamente o que ele fez.

sábado, 14 de junho de 2014

Soubesse

Não me lembro de em qualquer tempo ter sido assolada por tantas perguntas. E se, mas como, por quê, será, quando é que, aonde... e o tal do amanhã, sem forma concreta, invade o meu hoje e me impede de viver como dizem que é melhor - com tranquilidade. Não adianta nada se preocupar, você vem logo me dizer. Mas a preocupação é como o amor - não tem muita razão de ser (a própria razão os jogaria pra escanteio anyway). Não é bom, não é saudável, não é possível... e lá estamos nós, apaixonados por aquele novo dilema, por aquele cara que acha que quis e sente que não quer mais. Vivo em um mundo que prega o altruísmo, a sinceridade, a força e a gentileza... tudo isso atrelado à supremacia dos dogmas da igreja, com o único objetivo de gerar a máxima culpa em quem falhar durante o percurso individual de engrandecimento. Nunca senti tanta culpa quanto no momento em que decidi me conhecer sem mas ou porquês. À medida em que as falhas iam surgindo, encabuladas e aflitas numa fila indiana a perder de vista, percebi que DEFINITIVAMENTE não somos preparados para aceitarmos nossas fraquezas. Se de um lado os best-sellers de autoajuda enchem os bolsos daqueles que fingem lidar melhor com suas tragédias pessoais, de outro a ideologia social de massa insiste em considerar a mediocridade um triunfo. Vidas de plástico ou vira-latas de vanguarda? Cheguei a um ponto em que não sei mais no que ou em quem eu acredito. Tanto fiz e você tanto fez que agora tanto faz... Vejo essas pessoas plugadas no myself-mode e sinto como se todo mundo estivesse na contramão de si mesmo... Desilusão ou insensatez? Recentemente tirei minha bicicleta velha da memória e fui percorrer com ela algumas ruas da vida. Fiquei tonta, aturdida... e entendi que essa coisa de ser livre e desimpedida é uma arte, é quase um dom, é tarefa árdua demais - coisa pra uma outra vez.