segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Rowing

Quem já amou uma vez fica com aquele amor no coração sem sombra de outra possibilidade. Compara, se abala e não vê a verdadeira verdade. Pelo tempo que for, do jeito que tiver que ser, conscientemente ou não, quem já amou dá voltas e voltas pelo salão em busca de alguém melhor, sem ver no novo uma oportunidade. Quem já amou tem medo do diferente, e faz de conta que não sente o coração descongelar lá dentro do peito com um sorriso, uma palavra amiga, um gosto, cheiro ou gesto recente. Quem já amou demais tem mania de colocar aquela pessoa que já não o fazia feliz em um altar resplandecente, com fotos e lembranças de um tempo que não volta mais. Quem já amou uma vez não passa um dia sem olhar pra trás... enquanto à frente pede passagem alguém interessante, incandescente, alguém que deixaria sua vida quente e macia sem por quês ou mas.  Amar é saber que muita coisa vale a pena, que o que fica é resultado do que se esvai... que para cada lua que chega serena há um sol que se põe - que amanhã a janela vai se abrir e te mostrar o que o mundo propõe: um sopro de vida em águas tranquilas, sem uivos ou ais.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Microcosmo

Não é novidade que eu ando sempre apressada, como o coelho da Alice. Relógio em punho, passo o dia brincando de contar minutos - calculo o tempo máximo para realizar uma tarefa e espremo o comer, beber e tomar banho no espaço entre duas atividades estacionadas na minha trilha mental. No computador música clássica, vã tentativa de fazer a cabeça borbulhar menos um pouquinho. E aí vem o trânsito... Escolhi a tarde para dirigir loucamente, nesse esquema de cronometrar cada segundo até chegar em todo e qualquer lugar. À tarde não tem jeito - me atraso. Carro demais, gente demais fazendo sabe-se lá o que naquele horário em que deveriam estar todos trancados no escritório. Eu? Pateta no trânsito, of course! E lá se vai a coelhinha simpática... Trilha sonora: Strokes, Ramones, Prodigy, Delinquent Habits, DMX (auuuuu), Cypress Hill. No talo. Vou cantando alto, trocando de pista como se dançasse um bolero pela estrada afora, cabelo mais desgrenhado a cada esquina. Coração batendo forte. Lembro que tenho um coração quando aquela adrenalina faz formigar meu corpo todo, até eu entender - bem devagar - que pra gente ser muito importante na vida de alguém tem que primeiro ser pouco importante; que a prática é inimiga da novidade; que adulto também gosta de passear de carro; que querer só é poder se você deixar pra lá e ligar o foda-se; que foda-se é uma palavra muito libertadora; que não precisar de chapa ou escova é motivo de sobra pra agradecer, porque você pode deixar o vento entrar e fazer a festa. Ligo meus rocks e raps bem alto e percebo o quanto esse momento é importante por ser um tempinho meu comigo, uns minutinhos pra eu ficar alheia a tudo o que me cansa e me consome - rio sozinha, fico achando que canto bem, faço coreografias, passo umas coisas no rosto pra dar um up, checo meu telefone e até leio uns textos quando o tráfego permite. Particular, eu sei; peculiar também. Abro a porta do carro e saio cantando, descabelada, até a próxima tarefa. Na cabeça, a vaga lembrança de que estou viva, muito viva... pronta pra fazer o que for preciso e receber o que tiver que ser meu em algum momento que não demande tanto da minha paciência ;)

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Twinkled

E lá vem me encher a cabeça a tal diferença entre fazer e realizar. Junto com ela caminha o medo de o mundo se acabar sem aviso e eu não saber se é aqui onde eu deveria estar. Ah, a doce arte de começar... e aos poucos revelar pequenas importâncias, verdades inofensivas a adentrarem brilhantes por sua porta entreaberta. Com um pouco de pudor você vai ver quem é que canta do lado de fora e estende metade do seu corpo em direção à praia deserta. Avisto ao longe conchas de todos os tamanhos e todas as cores sobre a areia branca e com elas visto meus cabelos recém-preparados na maior falta de pressa. Sem lenço ou perfume, o corpo ganha uma nova dimensão na imensidão do universo - de repente somos fortes, e essa grandeza nos enche de coragem. Bravura e clareza nos rondam com calma, aquela calma boa de quem não espera. Quando eu era pequena gostava de contar estrela e escrever novelas semanais sobre meus colegas. Não era por nada, não; só vontade de sonhar de noite e sorrir de dia... de abrir a porta e sentar no sofá e inventar minhas próprias novidades. Meu pai explicava que estrela era coisa de outro planeta; minha mãe dizia que eram almas voluntárias com a tarefa de um dia enfeitarem o céu. Ficava bêbada sempre que olhava pra cima - tonta de tanto achar beleza naquelas luzes que acendiam por vontade própria, só porque brilhar pra elas era tão natural. E depois disso não quis entender mais nada, não - pus o coração na frente e saí por aí cruzando campos coloridos, floridos até nos espinhos. Engraçado pensar assim, mas tenho pra mim que meu peito virou meu escudo. Ainda agora a cabeça volta no tempo e eu me vejo em mais uma escola nova, desenvoltura por conta de outros sorrisos, olhos curiosos a esperarem pelo próximo capítulo da saga que em pouco tempo encheria a sala de redação. Mar de pura poesia soprou sua brisa de alegria tranquila e banhou meu corpo de paz, calor e sorte, sentimento forte que devagar vem plantando estrelas pelos meus dias, suaves como chuva de prata em tardes de verão.