quarta-feira, 26 de maio de 2021

Ainda que seja de noite


Sobre círculos de amor e dor
Sobre o céu, o mar e nosso vôo
Sobre água e terra e caminhar
Sobre o medo de a onda certa vir
E eu não saber nadar...
Esse hoje é sobre um ontem que se desfez
Pra que o amanhã possa ter razão
É sobre escritos pelo talvez
Do seu sim e do seu não.
Agora é sobre não saber
É sobre foco, sobre perdão
E quando o dia adormecer
Horas de paz e escuridão.
Sobre a febre que mora em nós
Sobre brincar de ser comum
Sobre esperar sob lençóis
Por um mais um.
Sobre a graça de ser seu
Sobre protagonismo e destino
Sobre o que aconteceu
Com torpor e desatino
Sobre ter e não querer...
Sobre querer, querer tanto!...
E não pagar pra ver,
Não tocar o sino.
Quisera eu não sofrer,
Cercar-me do mais bonito
Buscar-me no alvorecer
Em meu pequeno infinito...
Se tudo há razão de ser
Não tenho amanhã nem ontem
Prefiro me amanhecer
Sem que me desapontem.
Sobre manhãs e tardes
Sobre o que vem e vai
Sobre as novidades -
Sono que se esvai;
Sobre beijos
Abraços
Pernas
Braços
Olhos fechados
Medos baratos...
Sobre a noite
que
dentro de mim
cai.

sábado, 16 de janeiro de 2021

Matas

 Querido Matas,

Hoje acordei com vontade de te escrever essa carta e te contar tudo o que se passou nesses últimos 24 anos. Pode parecer muito tempo, mas quando fecho os olhos me vêm à mente com facilidade sua juba de leão manso, sua barbicha ruiva, a corrente pendurada na calça pra dentro do botinão preto e aquela risada inconfundível. Éramos uma dupla inseparável de fazer inveja ao Batman-Robin duo. Lembro dos nossos papos a la Beavis and Butt-head, da gente conversando com o Taroba no McDonalds (agora ele é o Matéria Prima, Matas, não sei se vc sabe - um músico mega talentoso que eu tive o prazer de conhecer melhor) ou esperando na porta do Dunkin' Donuts no primeiro dia de funcionamento (e eu, aquela lombriga ambulante, já desesperada pra dar a largada só porque vc passou dias me falando do sonho que era o donut de creme amarelo). Lembro da gente laricando sanduíches e batatas e cocas de uma vez. Lembra do bar do João? Hoje o João é casado e tem cabelo branco - o resto é exatamente a mesma coisa. Lembra do Dom Manuel? A gente tomava umas pingas com as moedas que sobravam do almoço - um dia vc disse que suspeitava que eles colocavam álcool de cozinha pra gente beber de tão punk que era, hahahaha - só pros fortes! Lembro do seu super apartamento delicioso na rua Alumínio, onde a gente aprontou tanta coisa legal - da chapação com gelatina de cachaça ao macarrão que vc fez pra gente levar pra feira dos países na escola, lembra disso? Lembro da gente no show de talentos - eu de Pantera Cor-de-Rosa da cabeça aos pés cantando Kid Abelha e Marisa Monte enquanto vc arregaçava com Creep - ficou todo mundo meio atônito com a sua performance, e depois eu entendi que aquele pessoal não tava muito preparado praquilo, não - nem pra nós... Achava que a gente não se encaixava, mas na verdade eles é que não se encaixavam na nossa vida, né? Too bad que eles eram maioria - talvez por isso eu tenha demorado mais a entender que a gente foi bem fiel aos nossos miolos desmiolados e por isso fomos felizes ao nosso jeito. Lembra da formatura? Mesmo sem eu ter de fato me formado no colégio, entrei no meu vestido dourado e vc e Márcia me fizeram brilhar naquela festa que também era minha só porque minha mãe pagou o ano inteiro. Lembro da gente naquela mesa enorme do Catarina lá pelas tantas, você fumando charuto e a gente falando merda e rindo de qualquer besteira, porque era sempre assim, sempre divertido demais. Eu, você, Márcia e Rafa: o quarteto fantástico que me tirou do transe de que eu tinha que ser igual aos outros, quando na verdade éramos tão certos entre nós, tão autênticos e livres. Foi triste pra mim ver meu melhor amigo se afastar. Primeiro teve o lance da minha mãe, que achava que vc era uma má influência - você preferiu me deixar "em paz". Não me atendia mais, não procurava. Anos depois te encontrei com minha roupinha de bailarina descendo a Vitório Marçola e você me convidou pra comer uma pizza com você e sua família no Pizza Sur. Fiquei tão extasiada quando te vi que acabei aceitando, mas vc tava diferente, usando umas roupinhas descoladas, de cabelo curto, com uma namorada novinha, moderninha... de repente eu não cabia na sua vida. Trocamos telefone mas não nos ligamos. Não nos ligamos. Virei amiga do Otto e vivi um lab antropológico com ele e seus amigos pseudo-beatniks - tavam mais pra beatfreaks, então corri léguas (mas aprendi bastante). Por algum motivo ainda desconhecido, fui convidada um belo dia pra festa de 10 anos de formados de nossa linda escola. Ai, Matas, você tinha que ter ido... A turma da Cissa estava lá em peso. Parecia até que eles é que eram os formandos de 97 e só. A parte boa dessa presepada foi ter conseguido falar pro Tom Zé que a física acabou não fazendo diferença alguma na minha vida porque eu fiz Letras. Com ele aprendi a mandar a pessoa se foder de um jeito meigo! Queria muito falar pra ele que hoje sou professora da UFMG, que amo o que eu faço e amo meus alunos, e diferente dele, me empenho pra fazer cada um deles acreditar que pode ser e aprender o que quiser. Essas pessoas ficaram pra trás, Matas, assim como tantas outras ao longo do caminho... Muita gente teve sua contribuição nesse livro chamado Eu tentando ser feliz nesse mundo cruel, de uma maneira ou de outra. Hoje acordei querendo te contar que me deu saudade do meu amigo Matas, Matatas, Matias Carneiro Proietti, jovenzinho incomum, meu teen-brother-friend com quem dividi altas risadas sinceras, chapações, histórias várias... momentos reais. Brigada, Matas. Espero que você esteja bem, feliz, fazendo o que gosta, rodeado de boas companhias, vinho do bom e ótimas histórias. Um beijo saudoso da sua amiga, Geminha