domingo, 29 de setembro de 2013

Fight Club

Deixa eu te dizer
que mesmo que eu não queira
e que você não saiba
meu pensamento a volte
pousa sobre você
e te emagrece
te colore
te recria
e redescobre
ilumina meu bel-prazer.
Nessa terra onde não há respostas certas
você é mais alto e mais forte
e seu peito emana simplicidade
e os mais puros e verdadeiros sentimentos
e os lábios preferem que seus olhos conversem
e me digam toda a verdade que guardam
sobre o que você vê.
Deixa eu te dizer
que ainda que eu não saiba
e que você não queira
minha razão a volte
pousa sobre meu saber
e varre com um sopro cada possibilidade vã
que se alinha à natureza dócil do meu ser
e inflige à sua figura um descompasso
um quê de sarcasmo
imaturidade inglória
até eu compreender que não se espera
o que não se pode querer.

Fight Club

Deixa eu te dizer
que mesmo que eu não queira
e que você não saiba
meu pensamento a volte
pousa sobre você
e te emagrece
te colore
te recria
e redescobre
ilumina meu bel-prazer.
Nessa terra onde não há respostas certas
você é mais alto e mais forte
e seu peito emana simplicidade
e os mais puros e verdadeiros sentimentos
e os lábios preferem que seus olhos conversem
e me digam toda a verdade que guardam
sobre o que você vê.
Deixa eu te dizer
que ainda que eu não saiba
e que você não queira
minha razão a volte
pousa sobre meu saber
e varre com um sopro cada possibilidade vã
que se alinha à natureza dócil do meu ser
e inflige à sua figura um descompasso
um quê de sarcasmo
imaturidade inglória
até eu compreender que não se espera
o que não se pode querer.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Comida II

Voltei ao restaurante poucos dias atrás, atraída pelo som do piano. Vi seu nome logo que entrei na sala escura, parecida com um calabouço medieval. Era um nome de uma cadeia de restaurantes conhecida na cidade. Ao dirigir-me ao buffet, uma surpresa: a comida era tipicamente mineira, com poucas e triviais opções de saladas. Nem sinal de peixe ou qualquer tipo de grão. O senhor que tocava piano, para quem eu olhei acidentalmente, cumprimentou-me com um sorriso. Havia acabado de me sentar quando ele encerrou suas atividades para almoçar, não sem antes me lançar um olhar malicioso de belo-horizontino velho que acredita piamente na falta de opção afetiva das moças mais jovens. Comi pouco, paguei caro e pensei: Oh, me... and my imagination wrapped up in cheesy poetry...

Comida II

Voltei ao restaurante poucos dias atrás, atraída pelo som do piano. Vi seu nome logo que entrei na sala escura, parecida com um calabouço medieval. Era um nome de uma cadeia de restaurantes conhecida na cidade. Ao dirigir-me ao buffet, uma surpresa: a comida era tipicamente mineira, com poucas e triviais opções de saladas. Nem sinal de peixe ou qualquer tipo de grão. O senhor que tocava piano, para quem eu olhei acidentalmente, cumprimentou-me com um sorriso. Havia acabado de me sentar quando ele encerrou suas atividades para almoçar, não sem antes me lançar um olhar malicioso de belo-horizontino velho que acredita piamente na falta de opção afetiva das moças mais jovens. Comi pouco, paguei caro e pensei: Oh, me... and my imagination wrapped up in cheesy poetry...

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Comida

Hoje me peguei pensando em... mim. Que bom pensar na minha vida for a change... Ou será que... Nesses dias em que se tira as bruxas do armário, a realidade pode não parecer tão bonita. Meus prazos estão se esgotando, as tarefas se amontoam e tudo o que eu quero é ir ao ballet todos os dias e almoçar na Savassi em seguida, sem hora pra voltar à ativa. Como é bom ter as bochechas coradas e os olhos brilhantes de perspectiva! Esses dias fiz exatamente isso - saí da minha aula mais prazerosa com cheiro de música clássica no collant e resolvi experimentar um restaurante novo. A porta não era exatamente convidativa, mas não queria mergulhar nas frituras do Mateus mais uma vez, então entrei à esquerda uma porta antes, entre o chinês e o Mc Donald's (coração da azia futura). O restaurante era grande e arrumado sem glamour ou descuido. No buffet, muitas opções de saladas, grãos, frutas e peixes (estou na vibe peixe esse ano), o que me agradou bastante. Pedi um suco e me sentei em um canto onde podia ver as pessoas se mexendo como formigas, sozinhas e acompanhadas de seus gestos habituais. O tempero abriu meu apetite no ponto certo, e quando pensei que momentos requintados de simplicidade podem transformar um almoço de segunda-feira em algo sublime, ouvi de repente uma melodia que parecia estar ali todo o tempo. Olhei para trás - um senhor tocava um piano de cauda com toda a classe que a tarefa demanda. Não consegui esconder minha surpresa e sorri sem saber que arrancaria dele um outro sorriso; ele me olhou como a dizer "viu como boa música passa pelos olhos e pousa no coração?". Quis ficar ali durante tanto tempo mais, a degustar algo belo, puro, leve e saboroso como aquelas notas que enchiam a sala já vazia. Tempos depois pensei "Ah, minha vida não comporta essas belezas". Não tornei a ver a porta, o piano ou o senhor que deu de comer à minha alma.

Comida

Hoje me peguei pensando em... mim. Que bom pensar na minha vida for a change... Ou será que... Nesses dias em que se tira as bruxas do armário, a realidade pode não parecer tão bonita. Meus prazos estão se esgotando, as tarefas se amontoam e tudo o que eu quero é ir ao ballet todos os dias e almoçar na Savassi em seguida, sem hora pra voltar à ativa. Como é bom ter as bochechas coradas e os olhos brilhantes de perspectiva! Esses dias fiz exatamente isso - saí da minha aula mais prazerosa com cheiro de música clássica no collant e resolvi experimentar um restaurante novo. A porta não era exatamente convidativa, mas não queria mergulhar nas frituras do Mateus mais uma vez, então entrei à esquerda uma porta antes, entre o chinês e o Mc Donald's (coração da azia futura). O restaurante era grande e arrumado sem glamour ou descuido. No buffet, muitas opções de saladas, grãos, frutas e peixes (estou na vibe peixe esse ano), o que me agradou bastante. Pedi um suco e me sentei em um canto onde podia ver as pessoas se mexendo como formigas, sozinhas e acompanhadas de seus gestos habituais. O tempero abriu meu apetite no ponto certo, e quando pensei que momentos requintados de simplicidade podem transformar um almoço de segunda-feira em algo sublime, ouvi de repente uma melodia que parecia estar ali todo o tempo. Olhei para trás - um senhor tocava um piano de cauda com toda a classe que a tarefa demanda. Não consegui esconder minha surpresa e sorri sem saber que arrancaria dele um outro sorriso; ele me olhou como a dizer "viu como boa música passa pelos olhos e pousa no coração?". Quis ficar ali durante tanto tempo mais, a degustar algo belo, puro, leve e saboroso como aquelas notas que enchiam a sala já vazia. Tempos depois pensei "Ah, minha vida não comporta essas belezas". Não tornei a ver a porta, o piano ou o senhor que deu de comer à minha alma.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

S.I.M.!!!

Hoje convido você a dizer SIM. Sim para o sol que chega devagarinho, sim para o tempo frio que pede por um abraço do seu suéter mais macio, sim para os desafios de um novo dia que se desenrola no calor da novidade. Vamos trocar "incerteza" por "surpresa", "dificuldade" por "motivação", "remoto" por "de molho em água perfumada"? Hoje é dia de dizer sim para as superações, para as emoções, para as diferenças. Esqueça o que deu errado e diga sim para o que está certo, para o que está bonito, para as coisas boas que te rodeiam e para tudo o que está guardado esperando a hora certa de acontecer. Diga sim para o objetivo, para o resultado, para o medo que trouxe prudência, para o toque áspero que hoje responde por toda a sua delicadeza. São só três letrinhas, então diz que sim, vai... Em dias como hoje, dizer sim faz toda a diferença ;)


S.I.M.!!!

Hoje convido você a dizer SIM. Sim para o sol que chega devagarinho, sim para o tempo frio que pede por um abraço do seu suéter mais macio, sim para os desafios de um novo dia que se desenrola no calor da novidade. Vamos trocar "incerteza" por "surpresa", "dificuldade" por "motivação", "remoto" por "de molho em água perfumada"? Hoje é dia de dizer sim para as superações, para as emoções, para as diferenças. Esqueça o que deu errado e diga sim para o que está certo, para o que está bonito, para as coisas boas que te rodeiam e para tudo o que está guardado esperando a hora certa de acontecer. Diga sim para o objetivo, para o resultado, para o medo que trouxe prudência, para o toque áspero que hoje responde por toda a sua delicadeza. São só três letrinhas, então diz que sim, vai... Em dias como hoje, dizer sim faz toda a diferença ;)


terça-feira, 10 de setembro de 2013

Oceano

Por que é que Deus tinha que encher meu coração com tanto amor? Amor que eu doo, distribuo, reflito e que se multiplica dentro de mim. Se ele soubesse como dói amar assim, penso que teria enchido meu peito de pedra e me deixado por aí, atraindo sem ser atraída, sem pensar em nada, matando mais que bala perdida no calor da madrugada; sem sombra de culpa. Mas não; cá estou eu, boa e inofensiva como uma barra de chocolate sem açúcar, a adoçar a vida de quem achava que não podia - a cabeça aturdida por uma multidão de desejos sinceros, as gavetas abarrotadas de cartas para o Papai do Céu, para o Papai Noel, para quem possa trocar amor por segurança, por gentileza, por olhos que enxerguem além da beleza e vejam ternura, e almejem sabedoria, e alcancem os meus. Lá de longe eles te rondam e esperam que você queira, que você possa, que ame além do amor que guardaria para você e eu.

Oceano

Por que é que Deus tinha que encher meu coração com tanto amor? Amor que eu doo, distribuo, reflito e que se multiplica dentro de mim. Se ele soubesse como dói amar assim, penso que teria enchido meu peito de pedra e me deixado por aí, atraindo sem ser atraída, sem pensar em nada, matando mais que bala perdida no calor da madrugada; sem sombra de culpa. Mas não; cá estou eu, boa e inofensiva como uma barra de chocolate sem açúcar, a adoçar a vida de quem achava que não podia - a cabeça aturdida por uma multidão de desejos sinceros, as gavetas abarrotadas de cartas para o Papai do Céu, para o Papai Noel, para quem possa trocar amor por segurança, por gentileza, por olhos que enxerguem além da beleza e vejam ternura, e almejem sabedoria, e alcancem os meus. Lá de longe eles te rondam e esperam que você queira, que você possa, que ame além do amor que guardaria para você e eu.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Divã de seda

Eu queria que a febre cedesse
que o caldo fervesse
que a razão prevalecesse;
Eu queria que o medo morresse
que o peito não doesse
que o destino aquiescesse;
Eu queria sem hipocrisia
sem demagogia
sem anarquia
ou hierarquia
sem fingir que sabe
ou dizer que não sabia;
Queria com a gana de querer
com doses de vamo ver
acreditar em ser e viver
andar pra poder crescer;
Queria que o dinheiro desse
que você viesse
e me absorvesse
que me envolvesse
e bem me fizesse
que o corpo tremesse
que eu amolecesse
que o mundo soubesse...
queria que você me quisesse.


Divã de seda

Eu queria que a febre cedesse
que o caldo fervesse
que a razão prevalecesse;
Eu queria que o medo morresse
que o peito não doesse
que o destino aquiescesse;
Eu queria sem hipocrisia
sem demagogia
sem anarquia
ou hierarquia
sem fingir que sabe
ou dizer que não sabia;
Queria com a gana de querer
com doses de vamo ver
acreditar em ser e viver
andar pra poder crescer;
Queria que o dinheiro desse
que você viesse
e me absorvesse
que me envolvesse
e bem me fizesse
que o corpo tremesse
que eu amolecesse
que o mundo soubesse...
queria que você me quisesse.


quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Stray cats

Você? Te provaria por curiosidade; vontade não tenho mais. Eu? Continuo a ser enganada por quem me diz que sabe a verdade, que libertador é ter certeza de alguma coisa. Balela! O que me impede mesmo de parar essa loucura é meu medo de ser - por vezes posso parecer indelicada, mas qual! Penso que ninguém pensa mais nisso hoje em dia. O que eu queria? Um carro novo responderia bem a essa pergunta sem levantar suspeita. Acho que vou focar nisso enquanto o mundo se encarrega de proliferar a antiga mania de preencher as próprias horas com receitas alheias. Podia também aprender a cozinhar, ler sobre o intangível ou explorar o improvável, mas tenho a latente impressão de que eu... estou cansada. Sei o que acontece quando as luzes se apagam e até entendo a necessidade de se mudar o paradigma, mas insistir que eu preciso é óbvio demais. Aliás, te acho muito óbvio, e com toda a sensibilidade que te cabe, te acho cético - com todos os excessos da profissão. Pronto: estou pronta para te dizer que vou sobreviver - e você também vai - a quem quer que decida me encontrar no fim da estrada. Quando cai a noite, gato pardo e cobra criada  andam juntos em barro grosso de ideias furadas... e animosidade da mais simples.

Stray cats

Você? Te provaria por curiosidade; vontade não tenho mais. Eu? Continuo a ser enganada por quem me diz que sabe a verdade, que libertador é ter certeza de alguma coisa. Balela! O que me impede mesmo de parar essa loucura é meu medo de ser - por vezes posso parecer indelicada, mas qual! Penso que ninguém pensa mais nisso hoje em dia. O que eu queria? Um carro novo responderia bem a essa pergunta sem levantar suspeita. Acho que vou focar nisso enquanto o mundo se encarrega de proliferar a antiga mania de preencher as próprias horas com receitas alheias. Podia também aprender a cozinhar, ler sobre o intangível ou explorar o improvável, mas tenho a latente impressão de que eu... estou cansada. Sei o que acontece quando as luzes se apagam e até entendo a necessidade de se mudar o paradigma, mas insistir que eu preciso é óbvio demais. Aliás, te acho muito óbvio, e com toda a sensibilidade que te cabe, te acho cético - com todos os excessos da profissão. Pronto: estou pronta para te dizer que vou sobreviver - e você também vai - a quem quer que decida me encontrar no fim da estrada. Quando cai a noite, gato pardo e cobra criada  andam juntos em barro grosso de ideias furadas... e animosidade da mais simples.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Hell's bells

Acabo de atropelar um homem. Era um homem qualquer, um senhor de meia-idade sem traços expressivos, mais um rosto sem nome no meio da multidão. Usava sua moto velha para encurtar as distâncias entre o bairro rico onde presta serviços e seu pouso a muitos quilômetros dali. Encurtar as distâncias... Vim pedalando em meu carro bonito, cabeça em lugar que eu não saberia dizer, Black Rocket sem querer parar - ele gritou, eu parei. Quiseram me perguntar quem estava errado, mas é claro que a errada era eu. Eu no meu carro bonito, cabeça em lugar que eu não saberia dizer, contando ovelhas antes de dormir; roupas escolhidas, sapatos que comprei porque quis, dirigindo-me a meu apartamento confortável no bairro rico onde o senhor presta serviços. Encurtar as distâncias... A errada era eu e ele sabia. Desci do carro tomada de estranha calma e aproximei-me do senhor que ainda tinha que ir para casa. Ele me olhou com ternura. A errada era eu e ele sabia. Encurtar as distâncias... Pedi a Deus pelo seu bem estar; queria que ele vivesse mais do que sobrevivesse. Perguntei ao senhor se ele estava bem, se precisava de alguma coisa. Qualquer coisa. Encurtar as distâncias... Você pode achar que sou louco, ele disse, mas eu só preciso de uma coisa: que você esteja atenta. Mas a minha bolsa... no carro... o seguro... hospital... nada. Ele disse que era pai e mãe, e que seus filhos o esperavam na casa onde modestamente se escondia, a tantos quilômetros dali - tudo tão diferente! Ele olhou para o céu e agradeceu por estar bem, por estar vivo, por poder voltar a seu pouso e rever os filhos, por poder sair para trabalhar quando a manhã seguinte ainda seria noite. Ele estava feliz em sobreviver; eu só queria que ele vivesse. Quis que sua vida fosse tão bonita quanto aquele momento - que o seu Deus fosse a ele sempre fiel, como o adesivo colado em sua moto velha, que usava para... Quis chorar mas não podia - ele queria que eu estivesse calma antes de dar a partida. Catou os cacarecos que se haviam desprendido da moto no meio da rua, e disse que tudo ficaria bem com uma boa cola. Virei-me para pegar a bolsa no carro; ele acomodou-se na moto e voltou para a rua, para seu trajeto decorado rumo a um destino certo e a ele agradável. Vocês viram se ele conseguiu ligar a moto, perguntei a dois vigias que haviam flagrado o ocorrido. Sim, já atravessou a avenida, sumiu no mundo. Ele não quis fazer o B.O., não quis atendimento médico, não quis que examinassem a moto...  a preocupação: minha cabeça doía. Sim, e certamente quando chegar em casa os filhos vão querer a placa do seu carro para te acionarem na justiça. Não faça esse cara, dona: todo mundo sabe que não existe gente boazinha. Mas não se preocupe: quando isso acontecer, pode contar com a gente. Seremos testemunhas. Engoli seco; eu só queria... encurtar as distâncias.

Hell's bells

Acabo de atropelar um homem. Era um homem qualquer, um senhor de meia-idade sem traços expressivos, mais um rosto sem nome no meio da multidão. Usava sua moto velha para encurtar as distâncias entre o bairro rico onde presta serviços e seu pouso a muitos quilômetros dali. Encurtar as distâncias... Vim pedalando em meu carro bonito, cabeça em lugar que eu não saberia dizer, Black Rocket sem querer parar - ele gritou, eu parei. Quiseram me perguntar quem estava errado, mas é claro que a errada era eu. Eu no meu carro bonito, cabeça em lugar que eu não saberia dizer, contando ovelhas antes de dormir; roupas escolhidas, sapatos que comprei porque quis, dirigindo-me a meu apartamento confortável no bairro rico onde o senhor presta serviços. Encurtar as distâncias... A errada era eu e ele sabia. Desci do carro tomada de estranha calma e aproximei-me do senhor que ainda tinha que ir para casa. Ele me olhou com ternura. A errada era eu e ele sabia. Encurtar as distâncias... Pedi a Deus pelo seu bem estar; queria que ele vivesse mais do que sobrevivesse. Perguntei ao senhor se ele estava bem, se precisava de alguma coisa. Qualquer coisa. Encurtar as distâncias... Você pode achar que sou louco, ele disse, mas eu só preciso de uma coisa: que você esteja atenta. Mas a minha bolsa... no carro... o seguro... hospital... nada. Ele disse que era pai e mãe, e que seus filhos o esperavam na casa onde modestamente se escondia, a tantos quilômetros dali - tudo tão diferente! Ele olhou para o céu e agradeceu por estar bem, por estar vivo, por poder voltar a seu pouso e rever os filhos, por poder sair para trabalhar quando a manhã seguinte ainda seria noite. Ele estava feliz em sobreviver; eu só queria que ele vivesse. Quis que sua vida fosse tão bonita quanto aquele momento - que o seu Deus fosse a ele sempre fiel, como o adesivo colado em sua moto velha, que usava para... Quis chorar mas não podia - ele queria que eu estivesse calma antes de dar a partida. Catou os cacarecos que se haviam desprendido da moto no meio da rua, e disse que tudo ficaria bem com uma boa cola. Virei-me para pegar a bolsa no carro; ele acomodou-se na moto e voltou para a rua, para seu trajeto decorado rumo a um destino certo e a ele agradável. Vocês viram se ele conseguiu ligar a moto, perguntei a dois vigias que haviam flagrado o ocorrido. Sim, já atravessou a avenida, sumiu no mundo. Ele não quis fazer o B.O., não quis atendimento médico, não quis que examinassem a moto...  a preocupação: minha cabeça doía. Sim, e certamente quando chegar em casa os filhos vão querer a placa do seu carro para te acionarem na justiça. Não faça esse cara, dona: todo mundo sabe que não existe gente boazinha. Mas não se preocupe: quando isso acontecer, pode contar com a gente. Seremos testemunhas. Engoli seco; eu só queria... encurtar as distâncias.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Eu te amo

Quanto mais eu avanço nessa longa caminhada, mais percebo o quanto é importante que eu me proteja da minha própria ignorância, da minha insegurança e seus antecedentes criminais, falta de informação e afins... memória histórica, política, cultural, geográfica... afetiva. É preciso que eu lave todas as minhas impressões com novas perspectivas diluídas em água pura; quero ver essas pessoas que passam como patos, a nadar em fila pelos meus pensamentos, com uma cara mais bonita - cara de quem um dia agradou com a visita, cara de quem me ensinou alguma coisa. Enquanto me planejo, peço em oração por cada um dos meus desafetos e esse momento figura em meus dias como o mais precioso. Luto contra minhas noites brancas de desesperança porque sei que o calor habita aqui dentro - amarei por toda a minha vida, enquanto preciso for... enquanto for, preciso.

Eu te amo

Quanto mais eu avanço nessa longa caminhada, mais percebo o quanto é importante que eu me proteja da minha própria ignorância, da minha insegurança e seus antecedentes criminais, falta de informação e afins... memória histórica, política, cultural, geográfica... afetiva. É preciso que eu lave todas as minhas impressões com novas perspectivas diluídas em água pura; quero ver essas pessoas que passam como patos, a nadar em fila pelos meus pensamentos, com uma cara mais bonita - cara de quem um dia agradou com a visita, cara de quem me ensinou alguma coisa. Enquanto me planejo, peço em oração por cada um dos meus desafetos e esse momento figura em meus dias como o mais precioso. Luto contra minhas noites brancas de desesperança porque sei que o calor habita aqui dentro - amarei por toda a minha vida, enquanto preciso for... enquanto for, preciso.