quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Away with the fairest

Quando você tiver a minha idade, vai achar que era linda dez anos atrás. Vai pensar que a cor do seu cabelo combinava perfeitamente com o tom da sua pele; vai lembrar que exercitava o corpo sem perceber, e que ia vivendo um dia depois do outro, um namorado depois do outro, sem temer o tique-taque do relógio. Quando você chegar onde eu cheguei, vai sentir um quê de nostalgia ao ver fotos da galera, ao passar por lugares que te conheceram muito mais leve, ao acaso, pencas de ideias a balançar-lhe os cabelos molhados sem reparador de pontas ou leave-in. Pode ser que você esteja solteira, caçando o gato porque o cão já saiu de linha - vale tudo pra chamar alguém de amor ou xuxu no facebook. Pela casa, post-its com dietas gluten-free, horários dos cremes, pílulas de colágeno, doses de chá verde, sessões de carboxi, telefone da analista e do personal. Pode ser que esteja casada, correndo atrás do prejuízo com as mesmas receitas de juventude, varrendo a sujeira conjugal para debaixo do tapete ou montando clubes do livro para discutir o que fazer quando há tanta coisa errada no seu relacionamento, carta do mico a queimar-lhe a mão esquerda, aquela pergunta roçando-lhe a garganta ao encontrar encabuladamente seus olhos no espelho: "E agora, José?". Pode ser que tenha dado um basta nessa tragédia anunciada e componha agora o time das separadas. Provavelmente você integra nesse momento uma das seguintes categorias: as que acreditam em alma gêmea caindo de paraquedas na sua sala de aula, as que querem mais é fazer paracadá na vã e as que limitaram o "atirar pra todo lado" ao campo profissional.  Ainda que eu acredite piamente que, quando você tiver a minha idade, vestidos justos, curtos, decotados, peitos à mostra e fotos com v e beijinho já sejam carta fora do baralho, suas escolhas jamais me dirão respeito. Só queria que você pensasse que foram as suas pernas que te trouxeram até onde você está, e não o coração, a cabeça ou o dinheiro do seu pai/marido, como você teima em concluir tantas vezes. Essa caminhada pode ser bem mais física do que se imagina - é cansativa, e de tão cansada a gente fica mais forte, e de tão forte a gente acredita mais na gente, e acreditando a gente consegue se ver bem mais bonita e iluminada do que quando começou todo o processo. The point being: se depois de andar tanto você ainda achar que precisa ter vinte anos outra vez, tome um Dreher. Ou pegue uma carona com o Raul sem lenço e sem documento: há muita gente nesse mundo querendo que você tente outra vez.

Away with the fairest

Quando você tiver a minha idade, vai achar que era linda dez anos atrás. Vai pensar que a cor do seu cabelo combinava perfeitamente com o tom da sua pele; vai lembrar que exercitava o corpo sem perceber, e que ia vivendo um dia depois do outro, um namorado depois do outro, sem temer o tique-taque do relógio. Quando você chegar onde eu cheguei, vai sentir um quê de nostalgia ao ver fotos da galera, ao passar por lugares que te conheceram muito mais leve, ao acaso, pencas de ideias a balançar-lhe os cabelos molhados sem reparador de pontas ou leave-in. Pode ser que você esteja solteira, caçando o gato porque o cão já saiu de linha - vale tudo pra chamar alguém de amor ou xuxu no facebook. Pela casa, post-its com dietas gluten-free, horários dos cremes, pílulas de colágeno, doses de chá verde, sessões de carboxi, telefone da analista e do personal. Pode ser que esteja casada, correndo atrás do prejuízo com as mesmas receitas de juventude, varrendo a sujeira conjugal para debaixo do tapete ou montando clubes do livro para discutir o que fazer quando há tanta coisa errada no seu relacionamento, carta do mico a queimar-lhe a mão esquerda, aquela pergunta roçando-lhe a garganta ao encontrar encabuladamente seus olhos no espelho: "E agora, José?". Pode ser que tenha dado um basta nessa tragédia anunciada e componha agora o time das separadas. Provavelmente você integra nesse momento uma das seguintes categorias: as que acreditam em alma gêmea caindo de paraquedas na sua sala de aula, as que querem mais é fazer paracadá na vã e as que limitaram o "atirar pra todo lado" ao campo profissional.  Ainda que eu acredite piamente que, quando você tiver a minha idade, vestidos justos, curtos, decotados, peitos à mostra e fotos com v e beijinho já sejam carta fora do baralho, suas escolhas jamais me dirão respeito. Só queria que você pensasse que foram as suas pernas que te trouxeram até onde você está, e não o coração, a cabeça ou o dinheiro do seu pai/marido, como você teima em concluir tantas vezes. Essa caminhada pode ser bem mais física do que se imagina - é cansativa, e de tão cansada a gente fica mais forte, e de tão forte a gente acredita mais na gente, e acreditando a gente consegue se ver bem mais bonita e iluminada do que quando começou todo o processo. The point being: se depois de andar tanto você ainda achar que precisa ter vinte anos outra vez, tome um Dreher. Ou pegue uma carona com o Raul sem lenço e sem documento: há muita gente nesse mundo querendo que você tente outra vez.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Nike Air Max

- Ela disse não. Sua mãe, ela disse não. Sinto muito.

Ainda hoje, ao me lembrar disso, dói o corpo todo. Eu disse que não seria assim, que não seria fácil. Não havia culpados agora. Vagarosamente e sem conseguir esconder o peso da vergonha que se apossava do meu corpo mirrado, sentei-me no pouf da loja e comecei a desamarrar, primeiro, o pé esquerdo. Ao redor, quatro estranhos me olhavam com 50% de decepção misturados a 50% de dó. Ai, dó não... Tudo, menos dó, eu pensava enquanto descalçava com cuidado meus pés inexperientes. Tentei esboçar um sorriso a la tudo bem, e o que se seguiu a esse momento virou cinza não lançada no mar; pedaços de histórias cruzadas que acham que ensinam, que creem na redenção de pés calejados como os meus, os seus ou os de alguém que talvez conheçamos. A singeleza desse tipo de lembrança se traduz na claridade que emana de sentimentos sinceros. Em meio à penumbra, tive pena da menina rica que havia provado um modelo idêntico ao meu lado e agora levava para casa o presente que eu tão avidamente quisera receber - tive pena ao vê-la triste por mim. Honestamente não sei se conseguiria, mesmo hoje, demonstrar tamanha solidariedade. Se eu merecia um não? A pergunta é, na verdade, se alguém, em qualquer tempo, me ensinaria a lidar com ele. Na dúvida, a vida assume seu papel de mãe dos órfãos de espírito e cria uma espécie de roleta russa auto-explicativa sem trégua, para que só os espertos conheçam os benefícios de se puxar o gatilho. Questionei-me inesgotavelmente sobre a real necessidade dessa memória, até descobrir que havia atrelado a ela toda a minha possibilidade de merecimento, toda a minha urgência por prazeres que, de tão momentâneos, excedessem os meus sentidos - pequenas e escandalosas doses de luxúria a enfeitar minha estante, a lembrar-me que sim, I'm more than ordinary. Sim, I'm good enough at last.


Nike Air Max

- Ela disse não. Sua mãe, ela disse não. Sinto muito.

Ainda hoje, ao me lembrar disso, dói o corpo todo. Eu disse que não seria assim, que não seria fácil. Não havia culpados agora. Vagarosamente e sem conseguir esconder o peso da vergonha que se apossava do meu corpo mirrado, sentei-me no pouf da loja e comecei a desamarrar, primeiro, o pé esquerdo. Ao redor, quatro estranhos me olhavam com 50% de decepção misturados a 50% de dó. Ai, dó não... Tudo, menos dó, eu pensava enquanto descalçava com cuidado meus pés inexperientes. Tentei esboçar um sorriso a la tudo bem, e o que se seguiu a esse momento virou cinza não lançada no mar; pedaços de histórias cruzadas que acham que ensinam, que creem na redenção de pés calejados como os meus, os seus ou os de alguém que talvez conheçamos. A singeleza desse tipo de lembrança se traduz na claridade que emana de sentimentos sinceros. Em meio à penumbra, tive pena da menina rica que havia provado um modelo idêntico ao meu lado e agora levava para casa o presente que eu tão avidamente quisera receber - tive pena ao vê-la triste por mim. Honestamente não sei se conseguiria, mesmo hoje, demonstrar tamanha solidariedade. Se eu merecia um não? A pergunta é, na verdade, se alguém, em qualquer tempo, me ensinaria a lidar com ele. Na dúvida, a vida assume seu papel de mãe dos órfãos de espírito e cria uma espécie de roleta russa auto-explicativa sem trégua, para que só os espertos conheçam os benefícios de se puxar o gatilho. Questionei-me inesgotavelmente sobre a real necessidade dessa memória, até descobrir que havia atrelado a ela toda a minha possibilidade de merecimento, toda a minha urgência por prazeres que, de tão momentâneos, excedessem os meus sentidos - pequenas e escandalosas doses de luxúria a enfeitar minha estante, a lembrar-me que sim, I'm more than ordinary. Sim, I'm good enough at last.


sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Felicidade conjugal

"Tratava-me como um jovem amigo de quem se gosta, interrogava-me, provocava-me à minha maior franqueza, dava-me conselhos, estimulava, às vezes censurava-me e detinha-me. Mas, apesar de todos os seus esforços para tratar-me como sua igual, eu sentia, que, por trás daquilo que eu compreendia nele, ficava todo um mundo ignorado, em que ele não considerava necessário introduzir-me, e isto mais que tudo sustinha em mim o respeito por ele e me atraía. (...)

A princípio não me agradou, mas depois, pelo contrário, passei a achar agradável a sua completa indiferença e como que desdém pela minha aparência. Nunca me sugeria, por um olhar ou por uma palavra, ser eu bonita, e, pelo contrário, fazia careta e ria se, na sua presença, alguém me chamava de bonitinha. Gostava até de encontrar em mim defeitos de físico e espicaçava-me com eles. (...) Mas eu logo compreendi o que ele necessitava. Queria acreditar que em mim não havia coquetismo. E, depois que eu compreendi isso, realmente não sobrou em mim nem sombra de coquetismo nos trajes, nos penteados, nos movimentos; e em compensação, apareceu, cosido a linha branca, o coquetismo da simplicidade, numa época em que eu ainda não podia ser simples. Eu sabia que ele me amava - como uma criança ou como mulher, eu ainda não me interrogava; tinha em alto preço este amor, e, sentindo que ele me considerava como a melhor das moças no mundo, não podia deixar de desejar que essa mentira permanecesse nele. E, involuntariamente, eu o enganava. Mas, enganando-o, eu própria me tornava melhor. Sentia o quanto era melhor e mais digno para mim exibir-lhe as melhores partes do meu espírito que as do corpo. Ele atribuíra imediatamente o devido valor, parecia-me, aos meus cabelos, às mãos, ao rosto, aos gestos habituais, quaisquer que fossem, bons ou maus, e conhecia-os tão bem que eu nada poderia acrescentar ao meu físico, além de um desejo de enganar. Mas ele não conhecia o meu espírito, porquanto o amava e porque este, na mesma época, crescia e desenvolvia-se: era nisso que eu podia enganá-lo e o enganava.  E que leveza eu senti na sua companhia, depois que percebi isso com nitidez! Desapareceram em mim de todo os constrangimentos sem motivo, os movimentos freados. Eu sentia que, estando de frente ou de lado, sentada ou em pé, ele me via, quer eu estivesse com os cabelos para cima ou para baixo: conhecia-me toda e, a meu ver, estava contente comigo, como eu era. Penso que, se, contrariando os seus hábitos, ele me dissesse de repente, como os demais, que eu tinha um rosto lindo, eu não me alegraria um pouco sequer. Mas, em compensação, que prazer, que claridade, apareciam-me na alma quando, após alguma palavra minha, e depois de me olhar fixamente, ele me dizia, a voz perturbada, à qual procurava infundir um tom brincalhão:

- Sim, sim, você tem algo. É moça simpática, devo dizer-lhe.

E por que eu recebia então tamanhas recompensas, que me enchiam o coração de alegria e orgulho? (...) E era surpreendente, pensei, com que intuição extraordinária eu percebia então tudo o que era bom e que se devia amar; embora eu então decididamente não soubesse o que era bom e o que se devia amar. Grande parte dos meus hábitos e gostos anteriores não lhe agradavam, e bastava que ele mostrasse, com um movimento de sobrancelhas ou com um olhar, desagradar-lhe aquilo que eu pretendia dizer, bastava que apresentasse sua expressão peculiar, lastimável, quase desdenhosa, e eu tinha já a impressão de não gostar mais daquilo que eu gostava antes. Às vezes, ele apenas queria aconselhar-me algo, e eu já parecia dizer o que ele diria. Se me formulava uma pergunta, fitando-me nos olhos, o seu olhar puxava para fora de mim o pensamento que ele queria. Todos os meus pensamentos, todos os meus sentimentos de então não eram meus, eram pensamentos e sentimentos dele, que de repente se tornaram meus, passaram para a minha vida e iluminaram-na. De maneira de todo imperceptível para mim, passei a encarar com outros olhos tudo (...). Ele desvendou para mim toda uma existência de alegrias no presente, sem alterar nada em minha vida, sem acrescentar nada, além de si mesmo, a cada impressão. À minha volta, tudo era quieto, como o fora desde a minha infância, mas bastava que ele chegasse, e tudo passava a falar, todas as coisas pediam entrada em minh'alma, uma de cada vez, e enchiam-na de felicidade.

Nesse verão, eu subia frequentemente ao meu quarto, deitava-me no leito, e apossava-se de mim, em lugar da anterior angústia primaveril dos desejos e esperanças no futuro, um sobressalto de felicidade no presente. (...) [P]arecia-me tão indispensável e justo que todos fossem felizes. (...)

O quarto pequeno estava quieto. (...) E eu tinha vontade de nunca sair desse quartinho, não queria que chegasse a manhã e se dissipasse essa atmosfera interior, que me rodeava. Tinha a impressão de que os meus sonhos, pensamentos e rezas eram seres vivos, que viviam comigo ali na treva, que esvoaçavam junto ao meu leito, que pairavam sobre mim. E cada pensamento era um pensamento dele, cada sentimento também. Então ainda não sabia o que era amor, pensava que isto podia ser sempre assim e que este sentimento nos era dado gratuitamente". (Tolstói)



Felicidade conjugal

"Tratava-me como um jovem amigo de quem se gosta, interrogava-me, provocava-me à minha maior franqueza, dava-me conselhos, estimulava, às vezes censurava-me e detinha-me. Mas, apesar de todos os seus esforços para tratar-me como sua igual, eu sentia, que, por trás daquilo que eu compreendia nele, ficava todo um mundo ignorado, em que ele não considerava necessário introduzir-me, e isto mais que tudo sustinha em mim o respeito por ele e me atraía. (...)

A princípio não me agradou, mas depois, pelo contrário, passei a achar agradável a sua completa indiferença e como que desdém pela minha aparência. Nunca me sugeria, por um olhar ou por uma palavra, ser eu bonita, e, pelo contrário, fazia careta e ria se, na sua presença, alguém me chamava de bonitinha. Gostava até de encontrar em mim defeitos de físico e espicaçava-me com eles. (...) Mas eu logo compreendi o que ele necessitava. Queria acreditar que em mim não havia coquetismo. E, depois que eu compreendi isso, realmente não sobrou em mim nem sombra de coquetismo nos trajes, nos penteados, nos movimentos; e em compensação, apareceu, cosido a linha branca, o coquetismo da simplicidade, numa época em que eu ainda não podia ser simples. Eu sabia que ele me amava - como uma criança ou como mulher, eu ainda não me interrogava; tinha em alto preço este amor, e, sentindo que ele me considerava como a melhor das moças no mundo, não podia deixar de desejar que essa mentira permanecesse nele. E, involuntariamente, eu o enganava. Mas, enganando-o, eu própria me tornava melhor. Sentia o quanto era melhor e mais digno para mim exibir-lhe as melhores partes do meu espírito que as do corpo. Ele atribuíra imediatamente o devido valor, parecia-me, aos meus cabelos, às mãos, ao rosto, aos gestos habituais, quaisquer que fossem, bons ou maus, e conhecia-os tão bem que eu nada poderia acrescentar ao meu físico, além de um desejo de enganar. Mas ele não conhecia o meu espírito, porquanto o amava e porque este, na mesma época, crescia e desenvolvia-se: era nisso que eu podia enganá-lo e o enganava.  E que leveza eu senti na sua companhia, depois que percebi isso com nitidez! Desapareceram em mim de todo os constrangimentos sem motivo, os movimentos freados. Eu sentia que, estando de frente ou de lado, sentada ou em pé, ele me via, quer eu estivesse com os cabelos para cima ou para baixo: conhecia-me toda e, a meu ver, estava contente comigo, como eu era. Penso que, se, contrariando os seus hábitos, ele me dissesse de repente, como os demais, que eu tinha um rosto lindo, eu não me alegraria um pouco sequer. Mas, em compensação, que prazer, que claridade, apareciam-me na alma quando, após alguma palavra minha, e depois de me olhar fixamente, ele me dizia, a voz perturbada, à qual procurava infundir um tom brincalhão:

- Sim, sim, você tem algo. É moça simpática, devo dizer-lhe.

E por que eu recebia então tamanhas recompensas, que me enchiam o coração de alegria e orgulho? (...) E era surpreendente, pensei, com que intuição extraordinária eu percebia então tudo o que era bom e que se devia amar; embora eu então decididamente não soubesse o que era bom e o que se devia amar. Grande parte dos meus hábitos e gostos anteriores não lhe agradavam, e bastava que ele mostrasse, com um movimento de sobrancelhas ou com um olhar, desagradar-lhe aquilo que eu pretendia dizer, bastava que apresentasse sua expressão peculiar, lastimável, quase desdenhosa, e eu tinha já a impressão de não gostar mais daquilo que eu gostava antes. Às vezes, ele apenas queria aconselhar-me algo, e eu já parecia dizer o que ele diria. Se me formulava uma pergunta, fitando-me nos olhos, o seu olhar puxava para fora de mim o pensamento que ele queria. Todos os meus pensamentos, todos os meus sentimentos de então não eram meus, eram pensamentos e sentimentos dele, que de repente se tornaram meus, passaram para a minha vida e iluminaram-na. De maneira de todo imperceptível para mim, passei a encarar com outros olhos tudo (...). Ele desvendou para mim toda uma existência de alegrias no presente, sem alterar nada em minha vida, sem acrescentar nada, além de si mesmo, a cada impressão. À minha volta, tudo era quieto, como o fora desde a minha infância, mas bastava que ele chegasse, e tudo passava a falar, todas as coisas pediam entrada em minh'alma, uma de cada vez, e enchiam-na de felicidade.

Nesse verão, eu subia frequentemente ao meu quarto, deitava-me no leito, e apossava-se de mim, em lugar da anterior angústia primaveril dos desejos e esperanças no futuro, um sobressalto de felicidade no presente. (...) [P]arecia-me tão indispensável e justo que todos fossem felizes. (...)

O quarto pequeno estava quieto. (...) E eu tinha vontade de nunca sair desse quartinho, não queria que chegasse a manhã e se dissipasse essa atmosfera interior, que me rodeava. Tinha a impressão de que os meus sonhos, pensamentos e rezas eram seres vivos, que viviam comigo ali na treva, que esvoaçavam junto ao meu leito, que pairavam sobre mim. E cada pensamento era um pensamento dele, cada sentimento também. Então ainda não sabia o que era amor, pensava que isto podia ser sempre assim e que este sentimento nos era dado gratuitamente". (Tolstói)



terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Always a use

Recentemente me perguntei por que tenho sempre que dar a última palavra. A qualquer um. Independente da circunstância. Pra fazer o outro feliz, não? Não tenho intenção de deixar inimigos pela estrada. Além do mais, surprisingly or not, isso não me custa. Nada. Sério. Tenho algum mecanismo interno à prova de rancores: um dia eu acordo e consigo desejar realmente que aquela figura seja feliz. Sem chapação. Sem pieguice. Sabe, é uma coisa que acontece. É até engraçado pensar nisso: meu lado bom sempre me impede de ser aquela pessoa ruim que eu poderia ser se me apegasse a cada crueldade que já sofri ou presenciei. Eu poderia, mas... acho feio - fico inclusive puta da vida com as injustiças do cotidiano. Eu não queria, mas... é assim, uai! Pulo sapos como num vídeo game, cruzando segundos com um bocado de gente: uns tentando ser lobo, outros correndo atrás da pele de cordeiro... a maioria querendo só um pouco (nunca suficiente) de atenção. Então: a última palavra pode ser sua. Mesmo. Sempre. E por favor não se preocupe comigo: estarei torcendo por você daqui de cima ;)

Always a use

Recentemente me perguntei por que tenho sempre que dar a última palavra. A qualquer um. Independente da circunstância. Pra fazer o outro feliz, não? Não tenho intenção de deixar inimigos pela estrada. Além do mais, surprisingly or not, isso não me custa. Nada. Sério. Tenho algum mecanismo interno à prova de rancores: um dia eu acordo e consigo desejar realmente que aquela figura seja feliz. Sem chapação. Sem pieguice. Sabe, é uma coisa que acontece. É até engraçado pensar nisso: meu lado bom sempre me impede de ser aquela pessoa ruim que eu poderia ser se me apegasse a cada crueldade que já sofri ou presenciei. Eu poderia, mas... acho feio - fico inclusive puta da vida com as injustiças do cotidiano. Eu não queria, mas... é assim, uai! Pulo sapos como num vídeo game, cruzando segundos com um bocado de gente: uns tentando ser lobo, outros correndo atrás da pele de cordeiro... a maioria querendo só um pouco (nunca suficiente) de atenção. Então: a última palavra pode ser sua. Mesmo. Sempre. E por favor não se preocupe comigo: estarei torcendo por você daqui de cima ;)

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

2014

O relógio da praça do Rosário acabava de bater doze vezes. Sentada no alpendre da casa do meu avô, olhava para a rua deserta e ouvia o cantar dos passarinhos com paciência. Do portão para fora, o sol forte anunciava o primeiro dia do ano de 2014, que adentrava vigoroso por nossas vidas. Em frente à igreja, a praça e seus bancos antigos, doados por pessoas importantes da cidade em algum tempo perdido no calor do asfalto. Coisa interessante essa de ter a vida atrelada a uma cidade do interior – foi aqui que tudo começou. E quando digo tudo, penso nas histórias de minha mãe e meu pai, que viveram separados por uma esquina durante anos para se conhecerem em um banco da capital. Coisa interessante passar pela escola frequentada por seus avós, antes alunos, depois professores; seguidos de seus filhos, cheios de histórias guardadas na capanga de pano, entre cadernos e travessuras. Minha avó e todas as suas irmãs foram professoras orgulhosas de sua profissão – e depois dizem que vocação não se explica... Sentada no alpendre, lembrei-me com carinho da última semana. Uma visita à minha tia Branca, irmã de meu pai: quilos e metros de casos, fotos, detalhes de sua vida em família que talvez eu jamais viesse a conhecer. Visita à casa de minhas tias Iza e Lenita: Guarapan e pão-de-queijo. Andanças a pé pelo sol escaldante que parece brotar da avenida: biscoito de nata, biscoito de queijo, caçarola e sopa de galinha... açaí! Corei ao surpreender-me com as modernidades que provavelmente estão longe de serem modernas por aqui. Nos almoços em companhia de minha avó, casa cheia: família. Família e paçoca salgada, família e pamonha doce, família e milho cozido, linguiça de frango, salada da horta, feijão tropeiro que a dona do restaurante da cidade faz. Família com doce de figo que dá no quintal; goiabada mole feita pela vó de alguém, doce de leite da fazenda do vizinho, queijo fresco. Nunca pensei que faria tanto sentido saber de onde eu vim e para onde posso voltar se nada mais der certo, se houver alguma coisa sobre a qual eu precise saber. Essas memórias passavam pelos meus olhos como slides de um filme comprido, sem hora para acabar, quando irrompeu sobre elas a voz de minha mãe. Uma menina de doze anos foi estuprada na noite de Natal; o irmão de sete anos estava presente. Os pais haviam pedido que a menina e seu irmão fossem à venda da esquina, durante a celebração, para comprar qualquer coisa que estava faltando. No curto caminho, os irmãos foram atacados e levados a um lote vago. A menina está na Santa Casa sem previsão de saída; o irmão está em casa; os pais sentem-se culpados por terem exposto seus filhos a... uma tarefa trivial. O agressor – um homem de Belo Horizonte contratado para construir casas populares, com ficha na polícia – foi preso (onde? até quando?). Uma imagem mental se formou rapidamente: uma fumaça negra passando pelo trevo, resistindo aos buracos da estrada velha e avançando cidade adentro, sufocando sapos, grilos e passarinhos... obrigando avôs e netos a fecharem suas portas e ligarem a televisão. Nossos filhos não brincarão nas ruas por onde corremos, despreocupados como fomos nem tantos anos atrás. O sonho de um homem ridículo... sempre pensei na palavra humano como sinônimo de sensibilidade, de emoção, até de escrúpulo, sabe? Humanizar, humanista, humanizador... e você vem me falar em direitos humanos? Penso que temos opiniões diferentes sobre o que é ser humano. O ser humano é imperfeito, vá lá; mas ruim, ruim de tudo, desprovido de qualquer senso de limite? É como se a conta não fechasse. A noite de Natal em qualquer cultura é dia de ganhar presente, nem que seja de Deus. Em pouco tempo o almoço estava servido. Levantei-me da cadeira e deixei o alpendre sem coragem pra trancar a porta, sem entender como exatamente tocar a minha vida para que ela não seja tão pequena, tão minha... esperando que alguém me diga  para onde posso voltar se nada mais der certo, se houver alguma coisa sobre a qual eu precise saber.

2014

O relógio da praça do Rosário acabava de bater doze vezes. Sentada no alpendre da casa do meu avô, olhava para a rua deserta e ouvia o cantar dos passarinhos com paciência. Do portão para fora, o sol forte anunciava o primeiro dia do ano de 2014, que adentrava vigoroso por nossas vidas. Em frente à igreja, a praça e seus bancos antigos, doados por pessoas importantes da cidade em algum tempo perdido no calor do asfalto. Coisa interessante essa de ter a vida atrelada a uma cidade do interior – foi aqui que tudo começou. E quando digo tudo, penso nas histórias de minha mãe e meu pai, que viveram separados por uma esquina durante anos para se conhecerem em um banco da capital. Coisa interessante passar pela escola frequentada por seus avós, antes alunos, depois professores; seguidos de seus filhos, cheios de histórias guardadas na capanga de pano, entre cadernos e travessuras. Minha avó e todas as suas irmãs foram professoras orgulhosas de sua profissão – e depois dizem que vocação não se explica... Sentada no alpendre, lembrei-me com carinho da última semana. Uma visita à minha tia Branca, irmã de meu pai: quilos e metros de casos, fotos, detalhes de sua vida em família que talvez eu jamais viesse a conhecer. Visita à casa de minhas tias Iza e Lenita: Guarapan e pão-de-queijo. Andanças a pé pelo sol escaldante que parece brotar da avenida: biscoito de nata, biscoito de queijo, caçarola e sopa de galinha... açaí! Corei ao surpreender-me com as modernidades que provavelmente estão longe de serem modernas por aqui. Nos almoços em companhia de minha avó, casa cheia: família. Família e paçoca salgada, família e pamonha doce, família e milho cozido, linguiça de frango, salada da horta, feijão tropeiro que a dona do restaurante da cidade faz. Família com doce de figo que dá no quintal; goiabada mole feita pela vó de alguém, doce de leite da fazenda do vizinho, queijo fresco. Nunca pensei que faria tanto sentido saber de onde eu vim e para onde posso voltar se nada mais der certo, se houver alguma coisa sobre a qual eu precise saber. Essas memórias passavam pelos meus olhos como slides de um filme comprido, sem hora para acabar, quando irrompeu sobre elas a voz de minha mãe. Uma menina de doze anos foi estuprada na noite de Natal; o irmão de sete anos estava presente. Os pais haviam pedido que a menina e seu irmão fossem à venda da esquina, durante a celebração, para comprar qualquer coisa que estava faltando. No curto caminho, os irmãos foram atacados e levados a um lote vago. A menina está na Santa Casa sem previsão de saída; o irmão está em casa; os pais sentem-se culpados por terem exposto seus filhos a... uma tarefa trivial. O agressor – um homem de Belo Horizonte contratado para construir casas populares, com ficha na polícia – foi preso (onde? até quando?). Uma imagem mental se formou rapidamente: uma fumaça negra passando pelo trevo, resistindo aos buracos da estrada velha e avançando cidade adentro, sufocando sapos, grilos e passarinhos... obrigando avôs e netos a fecharem suas portas e ligarem a televisão. Nossos filhos não brincarão nas ruas por onde corremos, despreocupados como fomos nem tantos anos atrás. O sonho de um homem ridículo... sempre pensei na palavra humano como sinônimo de sensibilidade, de emoção, até de escrúpulo, sabe? Humanizar, humanista, humanizador... e você vem me falar em direitos humanos? Penso que temos opiniões diferentes sobre o que é ser humano. O ser humano é imperfeito, vá lá; mas ruim, ruim de tudo, desprovido de qualquer senso de limite? É como se a conta não fechasse. A noite de Natal em qualquer cultura é dia de ganhar presente, nem que seja de Deus. Em pouco tempo o almoço estava servido. Levantei-me da cadeira e deixei o alpendre sem coragem pra trancar a porta, sem entender como exatamente tocar a minha vida para que ela não seja tão pequena, tão minha... esperando que alguém me diga  para onde posso voltar se nada mais der certo, se houver alguma coisa sobre a qual eu precise saber.