segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Eu sei

Sei
que as incertezas do universo
abrigam minha iminente desistência
que há vários nomes para o que corrompe
ou massageia
a nossa essência;
que também é assim
que você pensa.
Sei
que o que não pode ser
fica pra trás
que tentar fugir
há muito não me satisfaz
que meu corpo chama a sua insensatez
pelo primeiro nome;
que essa sede nos seus olhos
me consome.
Que o seu querer me despe
num segundo
que fazemos amor
pelos cantos mais simples
do nosso entender.
Sei
que agora é cedo
ou tarde
que sem muito alarde
vamos prosseguir
vamos conseguir
vamos descobrir
o sabor da novidade
a dificuldade
irregularidade
que é você sem mim
e eu sem você.
Sei
que é hora
de pagar pra ver.
Se anoitecer
e você não dormir
diga meu nome;
antes de ir
te beijarei inteiro
e te direi "não some"
mesmo sabendo
que você não vai sumir.
Se eu me entristecer
pegue o violão
e toque a canção
que eu queria ouvir.
Por algum motivo
sei
que você sempre
me fará sorrir.


Eu sei

Sei
que as incertezas do universo
abrigam minha iminente desistência
que há vários nomes para o que corrompe
ou massageia
a nossa essência;
que também é assim
que você pensa.
Sei
que o que não pode ser
fica pra trás
que tentar fugir
há muito não me satisfaz
que meu corpo chama a sua insensatez
pelo primeiro nome;
que essa sede nos seus olhos
me consome.
Que o seu querer me despe
num segundo
que fazemos amor
pelos cantos mais simples
do nosso entender.
Sei
que agora é cedo
ou tarde
que sem muito alarde
vamos prosseguir
vamos conseguir
vamos descobrir
o sabor da novidade
a dificuldade
irregularidade
que é você sem mim
e eu sem você.
Sei
que é hora
de pagar pra ver.
Se anoitecer
e você não dormir
diga meu nome;
antes de ir
te beijarei inteiro
e te direi "não some"
mesmo sabendo
que você não vai sumir.
Se eu me entristecer
pegue o violão
e toque a canção
que eu queria ouvir.
Por algum motivo
sei
que você sempre
me fará sorrir.


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Pareado

Se há uma coisa que deve-se ter em mente quando o coração quer entrar na brincadeira é que sua futura dupla na vida deve andar lado a lado com você. E quando digo lado a lado, me refiro a características essenciais, valores, vontades, impressões da vida e o que mais for importante. Estar com alguém que você considera muita areia pro seu caminhão traz uma insegurança insuportável; o resultado disso é você procurando defeitos no outro pra tentar se convencer de que ele não é tãaaaao bacana assim. Elogios nem pensar - de um jeito cruel demais com você mesmo, elogiar o outro te diminui. Você não banca. Fim de papo. É maior do que você esse sentimento de incômodo que te faz catar problema na pessoa que está ali tentando ser legal. Da mesma forma, estar com alguém que você acha menos tudo que você gera uma falsa segurança misturada a análises profundas de você com você em busca do furo na sua autoestima. E não estamos falando de bens materiais, mas de equilíbrio, preparo, ponderação, vontade, altruísmo. Você acha que está tudo bem e secretamente confabula com seus botões Mas eu já cheguei até aqui em termos de autoconhecimento, autoconfiança, autoafirmação, autossuficiência, autoajuda... e minha dupla na vida simplesmente não me acompanha. No fim você desdenha, trata mal, se impacienta. E a pessoa está ali tentando ser legal. O que eu acho legal de verdade é quando duas pessoas boas, saudáveis e bem-resolvidas se encontram por esse mundo de Deus. Sem pudor elas vão emendando conversas que saem do papel e arrastam-se por dias e noites inteiras e viram encontros gostosos e trocas inimagináveis. Ainda não entendo porque caí de paraquedas no meio de um tanto de caras da minha idade que carregam pedras nos bolsos e andam na ponta dos pés. Não entendo o porquê da recusa em entregar-se a um mar de novidades, de desejo, de sonho que vira verdade e abre os olhos do seu lado quando o sol acorda de manhã. Sou pró-Dostoiévski, isso já é sabido; acredito na intensidade, olho no olho, pele na pele, boca com boca pintando devagar novos capítulos de uma história acima de tudo e antes de tudo extraordinária. Porque ele mesmo já dizia, lá no século XIX, que um momento de júbilo vale por toda uma vida. Espero o tempo que for pro outro lado da linha dizer amém. 

Pareado

Se há uma coisa que deve-se ter em mente quando o coração quer entrar na brincadeira é que sua futura dupla na vida deve andar lado a lado com você. E quando digo lado a lado, me refiro a características essenciais, valores, vontades, impressões da vida e o que mais for importante. Estar com alguém que você considera muita areia pro seu caminhão traz uma insegurança insuportável; o resultado disso é você procurando defeitos no outro pra tentar se convencer de que ele não é tãaaaao bacana assim. Elogios nem pensar - de um jeito cruel demais com você mesmo, elogiar o outro te diminui. Você não banca. Fim de papo. É maior do que você esse sentimento de incômodo que te faz catar problema na pessoa que está ali tentando ser legal. Da mesma forma, estar com alguém que você acha menos tudo que você gera uma falsa segurança misturada a análises profundas de você com você em busca do furo na sua autoestima. E não estamos falando de bens materiais, mas de equilíbrio, preparo, ponderação, vontade, altruísmo. Você acha que está tudo bem e secretamente confabula com seus botões Mas eu já cheguei até aqui em termos de autoconhecimento, autoconfiança, autoafirmação, autossuficiência, autoajuda... e minha dupla na vida simplesmente não me acompanha. No fim você desdenha, trata mal, se impacienta. E a pessoa está ali tentando ser legal. O que eu acho legal de verdade é quando duas pessoas boas, saudáveis e bem-resolvidas se encontram por esse mundo de Deus. Sem pudor elas vão emendando conversas que saem do papel e arrastam-se por dias e noites inteiras e viram encontros gostosos e trocas inimagináveis. Ainda não entendo porque caí de paraquedas no meio de um tanto de caras da minha idade que carregam pedras nos bolsos e andam na ponta dos pés. Não entendo o porquê da recusa em entregar-se a um mar de novidades, de desejo, de sonho que vira verdade e abre os olhos do seu lado quando o sol acorda de manhã. Sou pró-Dostoiévski, isso já é sabido; acredito na intensidade, olho no olho, pele na pele, boca com boca pintando devagar novos capítulos de uma história acima de tudo e antes de tudo extraordinária. Porque ele mesmo já dizia, lá no século XIX, que um momento de júbilo vale por toda uma vida. Espero o tempo que for pro outro lado da linha dizer amém. 

sábado, 16 de agosto de 2014

Threshold

Fui eu quem partiu, mas o desconforto prossegue. A dor insiste em doer. Me disseram certa vez que quem quer sair não sofre; só sente calafrio e mal-estar da lembrança quem queria ficar e lutar ou só permanecer. À medida que o tempo passa, tudo vai mudando de forma sempre e lentamente, como o bailar das nuvens num dia qualquer. Da janela do quarto avistamos o mesmo céu, e talvez por isso seja difícil compreender a natureza de tanta diferença no que a gente vê. Temo tornar meus passos cognitivos demais, mas se você degustasse minha sequência de palavras escritas com uma boa xícara de chá, veria que não era medo nem ilusão, que tudo fazia sentido. Ando pelo meu pequeno mundo e me abasteço de carinho a prestação - levo um pacotinho de coragem no bolso esquerdo do vestido. Sinto o calor na pele clara, sinto o vento a mudar-me as feições e escolho viver mais um pouco, mesmo sem estar inteira ou pronta pra outra surpresa... troco a decepção por uma pilha de trabalho, guardo minhas cartas embaixo da mesa e tento não pensar que mais uma vez pode não dar certo, ou que tinha tudo pra ser incrível numa outra ocasião.

Threshold

Fui eu quem partiu, mas o desconforto prossegue. A dor insiste em doer. Me disseram certa vez que quem quer sair não sofre; só sente calafrio e mal-estar da lembrança quem queria ficar e lutar ou só permanecer. À medida que o tempo passa, tudo vai mudando de forma sempre e lentamente, como o bailar das nuvens num dia qualquer. Da janela do quarto avistamos o mesmo céu, e talvez por isso seja difícil compreender a natureza de tanta diferença no que a gente vê. Temo tornar meus passos cognitivos demais, mas se você degustasse minha sequência de palavras escritas com uma boa xícara de chá, veria que não era medo nem ilusão, que tudo fazia sentido. Ando pelo meu pequeno mundo e me abasteço de carinho a prestação - levo um pacotinho de coragem no bolso esquerdo do vestido. Sinto o calor na pele clara, sinto o vento a mudar-me as feições e escolho viver mais um pouco, mesmo sem estar inteira ou pronta pra outra surpresa... troco a decepção por uma pilha de trabalho, guardo minhas cartas embaixo da mesa e tento não pensar que mais uma vez pode não dar certo, ou que tinha tudo pra ser incrível numa outra ocasião.

domingo, 10 de agosto de 2014

Fechada pra balanço

Há alguns anos uma psicóloga que me atendia na época me disse que a arte era a forma mais nobre de extravasamento. Isso foi logo depois de eu dizer a ela que escrevia nas horas vagas. Esse meu breve comentário fez brilharem os olhos dela, como se acabasse de se desenhar ali uma luz ou uma resposta. Tinha acabado de me casar e ainda não havia conseguido me conectar àquele novo personagem, apesar de minha monogamia e carência latentes. Esses sintomas faziam com que eu quisesse sair por aí e beber pela estrada afora, como um cavalo manso que sai a galope pelos pastos, trota e relincha com sua crina brilhante ao vento... e faz o caminho de casa religiosamente pelo prazer da praxe. Sentia uma mistura de culpa, solidão e necessidade de alguma coisa que não estava dentro daquela caixa meticulosamente organizada chamada vida a dois. Escrevia para heróis platônicos que viriam me resgatar da minha placidez, que dariam outro sentido à minha existência - falas fora do script. Escrevia e sonhava com o soldadinho de chumbo em dia de folga, de bermuda, chinelo e camiseta, tocando sua caixa do lado esquerdo do meu peito, numa louca tarde de verão. Fui escrevendo, sonhando, pensando tanto no que não estava que o que ficou virou uma confusão. Ia vivendo como se fosse obrigada a viver, como se não houvesse outra alternativa a não ser respirar, acordar, trabalhar, suspirar e falar sobre tudo isso. Às vezes me perguntava pra onde tinha ido a leveza que nos fazia sorrir e andar pra frente sem pensar em casamento, filhos, sem nem pensar no dia de amanhã. No começo, passamos um bom tempo sem entender direito o que sentíamos, sem saber sequer o que é que estava movendo aquela bola pra frente. Estávamos lá, sem nos desligarmos direito das outras pessoas e coisas que ficaram pra trás. Demorou um bocado pra gente entender que estávamos de fato juntos, que era hora de erradicar os coadjuvantes de plantão. Ninguém pediu; só aconteceu, sem aflição, sem cobrança, sem qualquer expectativa. Depois de anos, me peguei pensando no quanto a tranquilidade afetiva é valiosa, no quanto é importante saber que você escolheu alguém que te escolhe todos os dias - essa escolha mútua não é sempre óbvia, mas as nuvens passam e o sentimento fica... só assim dá pra saber. Ainda assim, bebia e consumia como se o mundo fosse acabar amanhã, sem me aninhar às minhas novas perspectivas. Não era culpa de ninguém, nem de mim mesma, ainda que a falta de experiência pra lidar com algo novo tenha talvez me impedido de suavizar as coisas, de levá-las mais na brincadeira. Em cada canto, procurava pela leveza. Percebi um dia, com dor e surpresa, que não a encontraria mais dentro daquela caixa. Tem mas acabou, é assim. No lugar, frio na barriga e brilho nos olhos, uma sensação totalmente fora de contexto e de propósito, foi-se abrigando em mim. Coisas da vida, né? Mas não foi pra isso mesmo que eu vim?... Outro dia um amigo me disse que queria que eu escrevesse mais pra ele entender melhor minha relação com as palavras. Queria que eu escrevesse sobre coisas que não fossem minhas. Aí lembrei da psicóloga. Escrever é meu melhor (se não único) jeito de colocar as coisas pra fora. É um jeito de me enganar quando precisar voar com fadas para o reino da Cinderela, e de falar a verdade quando não quiser ouvi-la de outro alguém. A vida dá tantas voltas que é natural a gente confundir tanto as coisas. Preciso ser mais leve comigo mesma e passar mais tempo sozinha debaixo das cobertas, vendo um bom filme enquanto o "e se..." sai de fininho pela rua deserta, sem saber se não ou se sim. 

Fechada pra balanço

Há alguns anos uma psicóloga que me atendia na época me disse que a arte era a forma mais nobre de extravasamento. Isso foi logo depois de eu dizer a ela que escrevia nas horas vagas. Esse meu breve comentário fez brilharem os olhos dela, como se acabasse de se desenhar ali uma luz ou uma resposta. Tinha acabado de me casar e ainda não havia conseguido me conectar àquele novo personagem, apesar de minha monogamia e carência latentes. Esses sintomas faziam com que eu quisesse sair por aí e beber pela estrada afora, como um cavalo manso que sai a galope pelos pastos, trota e relincha com sua crina brilhante ao vento... e faz o caminho de casa religiosamente pelo prazer da praxe. Sentia uma mistura de culpa, solidão e necessidade de alguma coisa que não estava dentro daquela caixa meticulosamente organizada chamada vida a dois. Escrevia para heróis platônicos que viriam me resgatar da minha placidez, que dariam outro sentido à minha existência - falas fora do script. Escrevia e sonhava com o soldadinho de chumbo em dia de folga, de bermuda, chinelo e camiseta, tocando sua caixa do lado esquerdo do meu peito, numa louca tarde de verão. Fui escrevendo, sonhando, pensando tanto no que não estava que o que ficou virou uma confusão. Ia vivendo como se fosse obrigada a viver, como se não houvesse outra alternativa a não ser respirar, acordar, trabalhar, suspirar e falar sobre tudo isso. Às vezes me perguntava pra onde tinha ido a leveza que nos fazia sorrir e andar pra frente sem pensar em casamento, filhos, sem nem pensar no dia de amanhã. No começo, passamos um bom tempo sem entender direito o que sentíamos, sem saber sequer o que é que estava movendo aquela bola pra frente. Estávamos lá, sem nos desligarmos direito das outras pessoas e coisas que ficaram pra trás. Demorou um bocado pra gente entender que estávamos de fato juntos, que era hora de erradicar os coadjuvantes de plantão. Ninguém pediu; só aconteceu, sem aflição, sem cobrança, sem qualquer expectativa. Depois de anos, me peguei pensando no quanto a tranquilidade afetiva é valiosa, no quanto é importante saber que você escolheu alguém que te escolhe todos os dias - essa escolha mútua não é sempre óbvia, mas as nuvens passam e o sentimento fica... só assim dá pra saber. Ainda assim, bebia e consumia como se o mundo fosse acabar amanhã, sem me aninhar às minhas novas perspectivas. Não era culpa de ninguém, nem de mim mesma, ainda que a falta de experiência pra lidar com algo novo tenha talvez me impedido de suavizar as coisas, de levá-las mais na brincadeira. Em cada canto, procurava pela leveza. Percebi um dia, com dor e surpresa, que não a encontraria mais dentro daquela caixa. Tem mas acabou, é assim. No lugar, frio na barriga e brilho nos olhos, uma sensação totalmente fora de contexto e de propósito, foi-se abrigando em mim. Coisas da vida, né? Mas não foi pra isso mesmo que eu vim?... Outro dia um amigo me disse que queria que eu escrevesse mais pra ele entender melhor minha relação com as palavras. Queria que eu escrevesse sobre coisas que não fossem minhas. Aí lembrei da psicóloga. Escrever é meu melhor (se não único) jeito de colocar as coisas pra fora. É um jeito de me enganar quando precisar voar com fadas para o reino da Cinderela, e de falar a verdade quando não quiser ouvi-la de outro alguém. A vida dá tantas voltas que é natural a gente confundir tanto as coisas. Preciso ser mais leve comigo mesma e passar mais tempo sozinha debaixo das cobertas, vendo um bom filme enquanto o "e se..." sai de fininho pela rua deserta, sem saber se não ou se sim. 

Magnifying glass

Abriu a porta num impulso - meus olhos não encontraram sua descrença.
Ela pensou que fossem minhas suas expectativas
e chamou de cautela toda a minha indiferença;
de prudência minha intolerância;
de espaço a minha ausência.
Acreditou que eu merecia a sua confiança
e esperou paciente pelo fim da minha inconstância;
deu novas cores à minha inconsistência.
Não fazia isso em sã consciência
mas priorizou essa e aquela palavra
maquiou um ou outro gesto
confirmou o que deu-se a entender
abraçou-se a vozes do além
que diziam ser sabedoria
o meu medo de querer -
na boca o gosto indigesto
da minha indecisão.
Com um suspiro
ela tirou seu coração das minhas mãos
e o guardou na bolsa.
Caminhou até a porta
e jogou a lupa fora com força
aquela que há muito aumentava
o tamanho da minha intenção.

Magnifying glass

Abriu a porta num impulso - meus olhos não encontraram sua descrença.
Ela pensou que fossem minhas suas expectativas
e chamou de cautela toda a minha indiferença;
de prudência minha intolerância;
de espaço a minha ausência.
Acreditou que eu merecia a sua confiança
e esperou paciente pelo fim da minha inconstância;
deu novas cores à minha inconsistência.
Não fazia isso em sã consciência
mas priorizou essa e aquela palavra
maquiou um ou outro gesto
confirmou o que deu-se a entender
abraçou-se a vozes do além
que diziam ser sabedoria
o meu medo de querer -
na boca o gosto indigesto
da minha indecisão.
Com um suspiro
ela tirou seu coração das minhas mãos
e o guardou na bolsa.
Caminhou até a porta
e jogou a lupa fora com força
aquela que há muito aumentava
o tamanho da minha intenção.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Andanças

Ontem tive um sonho que já tinha tido outra vez, tempos atrás. Eu corria em um campo aberto cheio de flores, braços ajudando as pernas, o corpo inteiro sentindo com prazer cada raio de sol. Eu corria com os olhos febris e a ânsia de quem quer chegar, e pensava no mar e na brisa que me modelava os cabelos com seus dedos macios e pacientes. Corria com disciplina e leveza, coração batendo com pressa, lágrimas desenhando-se pelos meus olhos escuros e o gosto de doces promessas invadindo meus lábios entreabertos num sorriso. Corria e sorvia o perfume e observava as cores ao redor e sentia meu peito cantar em uníssono a canção dos novos tempos. Fechei os olhos por um segundo e senti o calor de um abraço demorado. Corpos e bocas e cheiros que naturalmente se aproximavam, gestos suaves e encompassados... milhões de borboletas bateram suas asas delicadas dentro de mim e disseram sim, esse é o caminho bonito que trilhamos pra você seguir. 

Andanças

Ontem tive um sonho que já tinha tido outra vez, tempos atrás. Eu corria em um campo aberto cheio de flores, braços ajudando as pernas, o corpo inteiro sentindo com prazer cada raio de sol. Eu corria com os olhos febris e a ânsia de quem quer chegar, e pensava no mar e na brisa que me modelava os cabelos com seus dedos macios e pacientes. Corria com disciplina e leveza, coração batendo com pressa, lágrimas desenhando-se pelos meus olhos escuros e o gosto de doces promessas invadindo meus lábios entreabertos num sorriso. Corria e sorvia o perfume e observava as cores ao redor e sentia meu peito cantar em uníssono a canção dos novos tempos. Fechei os olhos por um segundo e senti o calor de um abraço demorado. Corpos e bocas e cheiros que naturalmente se aproximavam, gestos suaves e encompassados... milhões de borboletas bateram suas asas delicadas dentro de mim e disseram sim, esse é o caminho bonito que trilhamos pra você seguir.