sábado, 18 de setembro de 2010

Mente quieta espinha ereta

Sempre tive horror a consultas médicas. Primeiro pelo possível choque de ser diagnosticada com uma doença que o médico nem se dá ao trabalho de tentar explicar - pelo menos não em nossa língua materna. Segundo pela situação pateticamente constrangedora de, após um relato metódico de cada dor, cada desconforto, cada detalhe sórdido (e por que não embaraçoso?) de sua possível enfermidade, nosso amigo, com ar sério e revelador, constatar que você possívelmente sofre de 1) ansiedade; 2) falta de vitaminas; ou 3) carência progressiva. Mas afinal, o que cura mais do que ser estável? Um casal heterossexual bem-sucedido com dois ou três filhos, que chega ao ápice num dado momento e pode então comprar o melhor carro da categoria, e que aos sábados leva a caçula que fala francês a um restaurante alemão. Uma família que sofre sem saber que está sofrendo, dadas as inúmeras opções de compra. Nutricionista, endocrinologista, massagista, analista, motorista - como faltar vitaminas? como não sobreviver emocionalmente? O que cura tanto quanto ser estável é a necessidade de ocupar esse lugar. A mulher trabalha, o marido trabalha, o filho mal pode esperar para trabalhar também e assim não sobra tempo pra pensar na morte da bezerra - não sobra tempo nem pra chorar. Se essas pessoas sentem uma pontada, um enjôo ou uma tontura, certamente deve haver algo errado - porque, afinal de contas, tempo é dinheiro, seja ele ganho ou gasto. Ser à toa com dinheiro então... acho sensacional, acho que vicia. Enquanto isso meu dente completou três aninhos de dor, minha perna esquerda permanece dormente há um mês, tenho aftas desde que saí do útero, meu estômago queima como se eu fosse aqueles personagens de desenho animado com um buraco no meio todos os dias pontualmente na hora de dormir e de acordar, e minha cabeça dói tanto em ocasiões aleatórias que tenho que sentar no chão e fechar os olhos até passar... tudo isso sem que tenha sido localizado um problema aparente. É, Amâncio, melhor mesmo é viver acreditando que o seu único problema é ser você...

2 comentários:

  1. Kitas,

    the Gastroenterologist on the Meaning of Life:

    "It all depends on the liver."

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