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Esse blog é destinado a compartilhar viagens literárias, e está aberto a seres humanos e afins... Divirtam-se!

domingo, 24 de agosto de 2025

Terráqueo - ode aos seres pensantes

Acabei de ler um livro do Tolstói que apareceu na minha vida de forma inusitada - uma sugestão do Kindle. Eu, que há um tempo considerável venho abrindo meus braços para novas ideias e circunstâncias, acolhi esse livrinho eletrônico (com um certo receio inicial, confesso) e devo dizer que passei a ler mais desde então. Esse ano já passei dos vinte livros - recorde até pra quem nunca contou leituras - com ecos silenciosos de surpresa e alegria que vêm de todo esse mosaico de personagens, aprendizados e descobertas.

Abri meu Kindle na semana passada e lá estava ele, Tolstói, brilhando na minha tela com um título bastante sugestivo: “De quanta terra precisa um homem?”. Admito que refleti sobre essa pergunta antes de me lançar à nova aventura. Imaginei se seria um livro sobre o marxismo, o comunismo, o socialismo, o capitalismo, o nepotismo, o chauvinismo ou qualquer -ismo que nos empalidece, emburrece, adoece as criaturas terrenas que enchem a boca para se denominarem seres pensantes. Devagar e deliciosamente constatei que tratava-se de um emaranhado de histórias curtas, em uma estrutura semelhante às parábolas bíblicas, com narrativas fantásticas e lições implícitas. Tão fantásticas eram as narrativas que havia gente acolhendo gente pelas ruas, gente doando terras, gente agradecendo e fazendo o bem sem pudor algum, against all odds. No meio desse comportamento tão confuso, as pessoas iam caminhando e acertando sem querer, seguindo instintos de empatia e proteção ao outro com um senso de enternecimento pelo semelhante que me tocou, profundamente.

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Era como se todos tivessem sintonizado na estação Jesus, como se de repente todo mundo soubesse instintivamente o que fazer, num efeito dominó do bem. Lendo sobre o autor, soube da sua “conversão tardia” ao que chamaram “cristianismo anarquista e pacifista”. Compreendi que, para ele, não é necessário carteirinha de sócio-torcedor para viver os preceitos éticos trazidos pelo cristianismo - o time AnarCristo não respondia a ninguém mais, não precisava. Absorvi essa reflexão com a lucidez que ela requer: mais do que interessante, coerente, necessária, libertadora. Essa breve pesquisa trouxe outra leitura para minha lista: “Uma confissão”, de 1882, no auge da crise existencial de Tolstói. Pergunto a você: quem nunca? Quem nunca questionou o sentido da vida que atire a primeira pedra. O sentido da vida, o propósito da existência, as relações kármicas, as lições mal aprendidas… you name it - tais dilemas passeiam corriqueiramente pelas nossas cabeças, percorrem nossa corrente sanguínea e muitas vezes nos paralisam ou impulsionam. Na falta de resposta nos anestesiam, nos calam, nos levam pra esse status quo da descrença, da desesperança, autoflagelo ou autoindulgência programada (autossabotagem: muito prazer). Na angústia do pesadelo a céu aberto, do labirinto que nos separa de nós mesmos, desconectamo-nos dos comos, dos porquês, sempre escravos do quando. Seguimos atados ao que (não) foi, projetando toda a felicidade e realização na próxima esquina, na luz que há de brilhar adiante se a gente fizer tudo certo - como se houvesse algo do tipo. Aí vem um tipo do século XIX, precursor do cristianismo anarquista e pacifista, que depois de muito filosofar sobre o que importa, escreve despretensiosamente em um livro curtinho “qualquer”:

"(...) há somente um, apenas e tão somente momento mais importante... Agora! É a hora mais importante porque é a única em que podemos fazer alguma coisa. O homem mais necessário é aquele que está com você nesse momento, pois ninguém sabe se depois estará com outra pessoa e se poderá fazer algo por ela. E a coisa mais importante é fazer o bem, porque esse é o único propósito da vida!"

Ouvi um microfone caindo? Elementar, mas não óbvio, nada simples. E depois de ler e reler esse trecho, que quis tatuar na pele e na memória, tentei percorrer essas ruas de leveza e simplicidade, lavar com grandes e abundantes baldes dágua cada uma das minhas calçadas, sentar sem receio em alguma daquelas vielas vazias e esperar tranquila pelas criaturas que devagar e deliciosamente haveriam de brotar das esquinas com seus bem-me-queres, suas singularidades, suas flores nas mãos e a voz mansa de quem sabe o que esperar do lado de cá… e insiste em ficar ainda assim. A cada dia há mudanças pontuais no percurso: nos transeuntes, na paisagem, nas condições da espera que se redesenha com o livre fluir dos sentimentos. Muitos foram os autores (inclusive russos) que criaram utopias onde as emoções não se enquadram. Aprendi ao lê-los que prefiro honrar minha condição de terráquea, mundana e diversa, indecisa e incompleta, atropelando o hoje com erros e bobagens, tropeçando em débitos, em medos e sonhos, lendo Tolstói e Dostoiévski de coração esbugalhado, esbodegado, louco pra pulsar esse carpe diem comedido, ecos silenciosos de quis dizer, diante desse mosaico de personagens, aprendizados e descobertas, sinto; logo sou - sou porque sinto-muito.

Postado por Érika Amâncio às 23:07 Nenhum comentário:

sexta-feira, 23 de maio de 2025

I hope you can show me

I wanna know what love is - I want you to show me. I wanna feel what love is and I know you can show me. Esses versos me levaram anos atrás, anos à frente, em um looping Caverna do Dragão. What the heck  is the so called love? Conversas de boteco regadas a um bom vinho me levaram à minha infância e adolescência meio ferradas, meio sem direção, cem por cento zero culpa de ninguém, só vivendo as circunstâncias e pagando pela falta de guidance anos e anos no porvir. As memórias se embaralham na minha cabeça, mas o que sempre fica é heartache and pain. Heartache and pain. Ouvi essa música hoje e chorei junto com a pessoa que escreveu isso, provavelmente entre lágrimas, dúvidas, frustrações e expectativas (quem nunca?). É um balanço do que a gente viveu ao crescer, um medo de quem vai ler nosso diário secreto mais que público (fucking look at me) e achar que há acusados no tribunal dos ferrados from birth. É um pouco de tudo: a gente vai lidando com coisas que disseram que a gente não tinha que passar quando criança, nem quando adolescente, nem em época nenhuma, mas sem resposta praquela perguntinha capiciosa: mas então como é que se cresce? Como é que se amadurece? Quando é que se sai do ninho pra gritar a plenos pulmões SOU MINHAAAAAAAAAA?????? Sou minha hoje, aos 45, mas já era aos 42, já era aos 34, já era aos 22, já era aos... O antes desce a cortina e enebria de alguma forma o quando e onde da (transform)ação, mas ela esteve, está nos meus poros. Essa coisa de casta é algo em que a ONU, a UNESCO, o exército, a putaquipariu já deveriam ter intervindo há muito e muito tempo - I want you to show me! Essa HIGIENIZAÇÃO se espalha nos discursos ao redor do mundo e ditadores psicopatas mudam de nome e cor de pele e cabelo pra incutirem o mesmo terror: o da anti-vida. I wanna feel what love is - por que é so damn hard? De dentro da universidade a gente acompanha a tragédia que se instala nas escolas como em um tribunal de deuses do Olimpo (aliás, a gente é muita gente). Não sei precisar quem presta de fato atenção, mas fico atenta às reações - de pânico - de calma - de tristeza - de medo - de melancolia - I don't know if I can face it again... Olho pra minha casa, para o meu cachorro, fiel companheiro, e começo a ter um vislumbre do que é esse tal de amor, que a gente vê nos nossos pais, sempre tão distantes mesmo querendo estar próximos, em quem cuida, em quem sofre, em quem sorri no escuro de tudo... Can't stop now, I've travelled so far to change this lonely life! Não é amanhã nem ontem, o tempo cintila e te pede pra dar uns passos pra trás. Respire, reavalie, chore - muito - e grite se precisar. Tive um marido que disse "eu te dei o que você tem" e outro depois dele. O que eles não sabiam - e nem eu - é que o jogo da vida continua depois da casa do juiz, e que não tem casta nem classe nem coisa nenhuma que me impeça de subir e subir e subir... porque subir independe de grana, de trampo, de sonho. Subir só depende da sua força pra peitar o mundo e entender que you've gotta take a little time - a little time to think things over. Maybe when we're older we shall settle down. Até lá, I wanna feel what love is - I hope you can show me.
Postado por Érika Amâncio às 01:08 Nenhum comentário:

quarta-feira, 23 de abril de 2025

Infinito

 Cá estamos... A uma distância comedida, já míope aos olhos, que teimosos fazem pirraça pra enxergar (e antes que você me diga onde deveria vir a vírgula, respondo que vai onde eu quiser, porque é assim que eu falaria, é assim que eu falo e é assim que vou contar essa história). A gente fala em história e cria-se de imediato um clima (afe que ao pensar nas vírgulas que a gramatiquice pediu que eu pusesse ali não respirei nenhuma, então guardem pra outra hora). Minha história é diversa ao mesmo tempo em que transita pelo comum, por se tratar de uma pessoa tentando (se) entender gente em tantos rodeios do mundo. Essa história é sobre mim e minha mãe, sobre o vazio, sobre o inimaginável, sobre o óbvio e o oblíquo das relações mais (e)ternas. Poderia dizer que conheci minha mãe quarenta e cinco anos atrás, mas hoje o que eu gostaria era de precisar as vidas, muitas delas, em que estivemos juntas. Em San Junipero a gente seria só a gente, mas nessa vida toda quantas fomos!... Os estilos, os cabelos, os discursos, os entraves, o afeto. O amor. As artimanhas do universo e/ou do nosso senhor pra gente sair chutando pedra e voltar pra mesma estrada, a princípio meio acanhadas, pisando nos cacos da ternura habitual, escorregando pela intimidade sólida, chegando a um acordo absurdo sobre coisa nenhuma, bandeira branca com um sorriso meio sonso, de quem entendeu que não vale a pena mudar esse script. Sou demasiado estranha, no corpo e na mente, embora passe (sensíveis, pasmem) por alguém trivial. Nessa estranhice aprendi a ouvir meus poros, meus estalares internos, o crescer das unhas a cada dissabor, o eriçar dos pelos ao som e à luz do descompasso do meu coração. Ouvindo aprendi a doer. Doendo aprendi a admitir. Admitindo aprendi a me arrepender. Arrependendo-me aprendi a amar e deixar ir, amar o que eu quiser, fluir com o resto, existir, que o co- é com quem merece, com quem pertence. Não vale a pena mudar esse script. Entendemos; sorriso meio sonso, bandeira branca, acordo absurdo sobre coisa nenhuma, escorregando pela intimidade sólida, pisando nos cacos da ternura habitual, a princípio meio acanhadas, chutando pedra e voltando pra mesma estrada, essa que tem vidas demais pra trás, que se sentimento fosse ano a gente já era galáxia, já era estrela, já era pó de cometa no azul do céu, ressoando infinitos.

Postado por Érika Amâncio às 01:03 Nenhum comentário:

domingo, 29 de setembro de 2024

Don't leave me dry

"Que tempos penosos foram aqueles anos - ter o desejo e a necessidade de viver, mas não a habilidade". Cruzei com essa verdade inequívoca logo no início de Misto Quente, obra-prima de Bukowski. Interessante demais uma pessoa de outro lugar, outro tempo e espaço traduzir sua alma de um jeito que nem você havia sido capaz até topar com esse pedaço de resposta. Não sei precisar por quanto tempo me senti assim, estrangeira em mim mesma, perdida em vozes, formas, instintos insidiosos por puro desconhecimento do que eu aqui fazia, do que precisava fazer e de como habitar esse mundo inóspito de tantas maneiras sem levantar suspeitas dessa inabilidade. Foi sofrido, foi complicado lidar com olhares furtivos em braços cruzados, foi triste sucumbir, foi desleal me desvalorizar quando o que eu queria era paz e amor em cascata, gelo seco cor de rosa subindo pelas pernas da mesa. Lembro do Mathias tocando Creep no show de calouros do colégio e penso na minha inabilidade em compreender aquela letra, mesmo que aquele momento e aquela música tenham estranhamente grudado nas minhas entranhas, como se eu tivesse que saber. Se a gente era legal? Se dava pra ser mais que aquilo? Se é possível, saudável confiar, acreditar, esperar... Esses banhos de efeito borboleta que a gente se dá antes de experimentar um batom novo, dar uma banana pra sociedade na frente do espelho e se arrepender 2 minutos depois e voltar e dizer desculpa, sociedade, preciso de você, sociedade, espera eu tentar me ajustar, sociedade... pra viver como eu quiser. Sem cigarro porque faz mal; com cerveja que a onda é boa; mergulhando de quando em quando no sol quente com água gelada, Sonrisal de dor antiga e dor nova. Penoso pode remeter a tanta coisa... mas a inabilidade tem que ser superada - a inabilidade tem que ser perdoada para que os anos e as pessoas e os números e as notícias possam caber dentro das nossas esperas, que os anúncios sejam só um prelúdio particular de futuros desafetos e que todos fiquem com Deus, com Jah, com Buda, com o cosmos, com o Big Bang. Somos todos heróis por ainda estarmos aqui. Tomo cerveja, leio Bukowski, ouço Into the Wild e tenho quase certeza de que vai ficar tudo bem.

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terça-feira, 21 de maio de 2024

IVAN

Um dia desses você me disse que não sabia dançar. Espremi essa informação dentro de um minipoema que você me recitou pouco antes: não me acostumei a viver sem amor. Não eram essas as palavras, eram muito mais bonitas, perfumadas pelo vinho que dividíamos em uma bela tarde de sol. Imaginei o próprio paradoxo: uma vida do tamanho da minha, com calor e sem dança. Tenho certeza, Ivan, que vocês dançaram pela vida afora, rindo-se dos aforismos, dos moralismos, rodopiando por um salão verde de cetim, esperança de quem não espera, andança cariciosa.


Nos que têm saudade, deve haver, penso comigo, um senso de mission accomplished, de vim, vi e venci. Deve ter cheiro e gosto de vivi e senti algo bom a ponto de ser preservado. O tempo passa e nele pendura-se um mural de memórias que a gente aperta os olhos pra acessar, pra buscar no escuro do fim a sobriedade, a eternidade de um breve soluço dos dias. Agarramo-nos àquele fragmento de lindura que repentinamente nos aquece e ficamos ali, gangorrando pelo passado que escorre vermelho na taça vindoura... Dançamos entre línguas e planetas enquanto arrulhamos sobre novas rolhas; seguimos empunhando, empurrando o car(r)inho das lembranças por mais um logo ali.

Como você, querido Ivan, também não me acostumei a não ser amada - e talvez por isso mesmo seja ainda hoje, desde sempre, tão arisca. Minhas saudades são invisíveis, são impossíveis, difíceis, duras, imaginárias - intraduzíveis. Hoje poso cansada à frente dessa promessa de saúde, de beleza e juventude que numa bela tarde de sol teceu-me juras indizíveis. Por dias me autorizo a não tentar nada que me indignifique ou me perturbe - hoje não; amanhã fico por aqui. Na entressafra da falta o sorriso é tão sincero quanto a vontade de contestar esse mosaico desconstruído, involuído, cacos banais e austeros dos meus (des)afetos perdidos, caídos por aí. 

Que samba de uma nota só é enredo pro desalentado; que o sim que não vem já é não em si mesmo; que morrer de amor é papo de desavisado; que sentir saudade é viver a esmo... Feliz daquele que, ao se lembrar, sorri.

De tanto buscar amor no outro me esqueci de amar a mim, e hoje me pergunto se de fato, em algum momento dessa vida tão grande quanto a sua, busquei alguma coisa além da minha própria independência, da descolonização da minha alma colonizada de underdog, escape goat, stray cat, white trash. Sorrisos encantam, mas os olhos não mentem. Nem os vinhos. Lucky me.
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sábado, 4 de maio de 2024

EN PASSANT

 Eis que ele passa,

orgulho em cada passada,

olhar destemido.

Existo.

Peito estufado,

andar passarelado.

Resisto.

Resisto e falo

sem dizer palavra;

resisto e calo

sem que nessa fala de corpo inteiro

exista mágoa...

Como se o mundo fosse justo

E existisse pala

em todo palco da vida –

como se a servitude de quem paga

pudesse apagar o trauma

de quem fica.

Eis que ele respira

e dá um passo certo,

certeiro,

rumo ao infinito

derradeiro

ao sol tangível,

visível

do que queima

mas não significa.

Postado por Érika Amâncio às 20:12 Nenhum comentário:

terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

Sense and sensibility

 O grito... o grito persiste, meio rouco, meio alucinado, reacionário sem revolução. Chove pelos olhos, janelas da alma, sai em marimbondos, palavras ferrenhas, pela boca que cansou de bendizer. Quem foi que disse que seria fácil assistir de camarote aos nossos desencontros de credo, raça, raiz, de plástico ou de borracha, de pai e mãe e aquele manual de como não ter medo do escuro, como fazer mais amigos, como suportar... Ai que suportar ferroa, arde, e a gente sai zombeteando pelo escuro incerto, pensando em que momento o sol vai nascer e trazer com ele a paz – a igualdade – a justiça – o entendimento – a calma, o dom inestimável da resignação. Acho que no momento da multiplicação das lições de vida, algumas palavras se perderam num sopro (aquelas que amansam, amaciam), e o que sobrou ficou meio duro, puro desalento. Pela janela indiscreta do pensamento passam cobras e lagartos a todo momento – provas da sua pouca fé. Sim, porque hoje começou com intempéries, turbulências, desventuras em série e vai terminar com cansaço bom, senso de propósito, fichas caindo como sementes maduras em solo fértil, arado demais. O afeto... o afeto me persegue como Pepe Le Pew, me encontra nos recônditos das minhas bad vibes e revira tudo, sacode, abre a janela, me traz um café. Olho para as fotos que me cercam enquanto escrevo essas linhas e digo pra mim mesma: não sei, não consigo, não entendo, mas hoje é preciso gritar que o afeto venceu. 

Postado por Érika Amâncio às 00:20 Nenhum comentário:

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

The Chosen

 Experimente dar uns passos para trás e procurar, nos recônditos da sua lembrança, por mergulhos e flashes. Verá que os lapsos da sua memória não te impedem de trazer ao palco fragmentos de vida incandescentes, sopros de verdades, dores, escolhas equivocadas, palavras e atos que por um triz não mais te representam, que por um triz ainda te condenam. Enquanto a festa passou você assistiu da janela, e teve tempo pra pensar se de fato algum dia foi bom estar ali embaixo, ao sol, pela chuva, ao relento, imersa numa fragilidade que precisava te habitar pra você se convencer que também queria ser mulher, anjo, boneca, princesa, criança. Mergulhe no mar profundo da tristeza e experimente tirar de lá uma criança. Veja sua cara estampada pelo álbum de retratos, em verde, azul, vermelho e branco, repare nas companhias. Você passou muito tempo sozinha, desde cedo confabulando com seus botões. Criava explicações para sobreviver em um mundo onde suas palavras não tinham voz. Você cresceu e entendeu a constante repulsa pela palavra sobreviver - é pequeno e solitário demais. 

Tente se lembrar da primeira vez em que te traíram, tiraram sua esperança; de um tesouro que você possa ter guardado com esforço e dedicação porque acreditava que era precisamente isso que te tornaria, aos olhos do mundo, especial. Uma figurinha, um papel de carta perfumado, um lápis brilhante, um diário sem erros de português, cartas de gente que um dia esteve ali, de gente para quem você supôs estar um dia, uma teoria, uma hipótese, uma paranóia, um pedaço de sozinhez com incompreensão. Se você olhar pra trás com óculos perscrutadores e instinto felino, vai ver que riu, chorou, bebeu e falou alto, que trovejou, relampeou, chutou a porta e catou a maçaneta sem revolta aparente, sem ingenuidade e sem vontade alguma de sair daquela água fria e densa, pegar uma toalha e sentar perto de quem quer que fosse e despejar por ouvidos sonolentos uma explicação conveniente. 

... e em todas as esquinas do caminho você trombou com Deus. Em todos os passos estranhos da criança ferida no meio da chuva era um vento, um desenho no céu, um assombro, uma emoção de menina sozinha, sem ninguém pra conversar, pra entender. A menina que quis colecionar amigos como a Moranguinho, que achava sua casa o lugar mais triste do mundo... a menina que só não queria mais se sentir tão inadequada, brilhando no claro. Um dia ela saiu pelas ruas escuras do seu pensamento e decidiu que não iria voltar pra lugar nenhum. As pessoas iam e vinham, temporárias que só elas, cumprindo seu papel. O peito ainda dói - de angústia pela falta de respostas - e as pessoas ainda passam como patos pelo seu daydream, algumas querendo genuinamente - não sei se por curiosidade ou estima - se demorar um pouco mais. 

Isso é tudo pra dizer que de meu fortuito encontro com quem me protege e guia nesse plano, surgiram presenças mágicas iluminando as ruas escuras do meu pensamento com flashes de propósito. Escrevi um livro sobre a falta de amor que eu sentia e ele agora está sendo contado por aí em tom de boa conversa. Esvaziei meu saco de traumas ao longo de uma história encantada, e de presente me fizeram uma boneca sem boca que fala de um jeito que todo mundo escuta. Sei que fui escolhida para vencer essas pequenices todas, essa mania de não saber pedir, essa fé em castelos de areia, esse medo de perder mesmo sabendo que tudo é transitório e que nada me faltará. Sou Mateus, sou Maria Madalena, sou Judas, sou Simão Pedro - sou a filha tão grata quanto humana, meu mergulho mais difícil, meu próprio feixe de luz sob as águas turvas do meu viver... um pot-pourri bitter-sweet de bits and pieces.

Postado por Érika Amâncio às 16:49 Nenhum comentário:

quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

Ondina

 A vida nos explica muitas coisas de várias maneiras. De algum jeito que eu não conseguiria jamais precisar, entendi que sou musical. Poderia ter me dedicado mais, poderia ter me tornado melhor em algum sopro dessa saga - e poderia ter feito milhares de outras coisas que me fariam rir ou chorar, ganhar dinheiro ou mais sorrisos sinceros, pisadas mais firmes... Pra abrandar meu desalento e eufemizar meu TOC cada vez que uma nota destoa, criei uma estratégia: digo pra mim mesma "Esse não é meu meio de vida". E passa. Na minha primeira vez batucando no carnaval, um sujeito estacionou do meu lado e disse que vinha me reparando, analisando meu jeito de tocar. Concluiu que me faltava energia. Muitas ondas se passaram, a oferenda já se perdeu no mar. Aquelas sete ondas que a gente pula são na verdade dezoito, vinte e duas, milhares, cada uma levando pra longe as pessoas, as histórias que pensamos morar em nós até nosso HD nos trair. A seletividade da memória, a transitoriedade dos momentos, a experimentação de sentimentos como a dor, a paixão, o júbilo, a desesperança, nada disso parece calculado - mas o que fica carrega o propósito de nos ver crescer. A confiança se emoldura por escolhas que te priorizem, que te incluam. Por isso, com alegria ou sem energia, ainda me visto com capricho, pego meu tarol e vou em busca de um batuque que me aqueça, que me represente; pego meu caderno, meu ukulele e vou arranhando notas sôfregas, infinitas como as estrelas, sinceras como tudo que se sente. Hoje, em meio a esmaltes e acetona, Lourdinha me perguntou onde os extraterrestres moravam. Uai, Lourdinha, em outros planetas! Que planetas?, ela retrucou. Tem mais planeta? Tem muita coisa se você quiser saber... Minha sobrinha Cecília e a amiga Helena organizaram outro dia toda uma caça aos ursos no parquinho do prédio - foram a pé pro Polo Norte. Conhecer faz a gente imaginar, e imaginar faz a gente querer descobrir o mundo e tudo que faz ele ser o menos óbvio possível. Somos passíveis de erros, de falhas, cometemos gafes, falamos bobagem e é isso aí. Passa - o medo, o desconforto, a dúvida, a ansiedade, tudo passa se você acredita que o mar leva, que o mar traz, que a onda certa se chama AGORA, que não tem reza nem mantra pra pular o que tiver que aparecer. Olho em vonta e sinto-me obrigada a ser grata pelas flores que encobrem os espinhos da minha alma. Resolvi nadar sem boia e sem salva-vidas... e descobri a graça de saber boiar - em mar sereno, em mar bravio; em lagoa calma, em rio, em piscina de sonhos verdes e luzes escondidas.

Postado por Érika Amâncio às 23:41 Nenhum comentário:

quarta-feira, 8 de novembro de 2023

Princess Toadstool

 Era um sábado qualquer. Havia recebido um convite para correr com uma amiga bem cedo, mas acordei depois do horário e decidi que iria - pela primeira vez - dar a volta na lagoa da Pampulha correndo. Meu máximo havia sido 14 quilômetros em condições de tempo e espaço muito favoráveis. Parada há mais de dois meses devido a uma lesão no joelho e recém-saída da fisioterapia, não saberia dizer a vocês o que me levou a resolver tão firmemente dentro de mim que aquele seria o dia em que eu faria aquilo, e que daria o meu sangue independente das condições porque sou capricorniana - e porque sou eu. Falei pro meu namorado e ele simplesmente respondeu: Bora - vou com você de bicicleta. Ontem, assistindo a Nyad, filme profundo e sensível, esse dia brilhou na minha memória. A história envolve (sem spoiler) três premissas básicas: 1. nunca desista; 2. nunca é tarde para realizar seus sonhos; 3. it takes a team.

Chegamos às 13:30, e ele alugou a maior bicicleta disponível – o que, pra um cara de dois metros e dez, não passava de uma Caloi Ceci. Sol, calor, zero preparo – esse era o cenário. Quem corre sabe que a gente tem uns momentos de transe - sem eles acho que não daria pra percorrer tamanhas distâncias só com a força das pernas e a persistência dos pés. Quem manda, de fato, é a cabeça. Passava momentos meditativos duradouros e, a cada despertar, olhava pro lado e lá estava ele, com uma mochila nas costas cheia de coisas minhas, suando como uma chaleira e com cara de tudo certo. Lembro de pensar “é isso mesmo? É normal? Eu mereço?” enquanto sentimentos diversos iam tomando forma aqui dentro.

Com treze quilômetros, fui tomada pelo cansaço. Fiquei sem ar, o calor me afetava, as pernas doíam... meu corpo inteiro queria desistir. Pensamentos como "parabéns, você chegou até aqui", "está calor, não é culpa sua", "você fez o seu melhor", "ninguém está te cobrando isso", "você nem se preparou mesmo" foram inundando minha cabeça. Parei sem fôlego e saiu da minha boca: "não aguento mais". Aquele cara gigante, ensopado e dolorido por pedalar uma bicicletinha por mais de uma hora no sol com uma mochila nas costas cheia de coisas minhas, me pediu pra respirar e me disse: "você consegue. Se precisar, paramos a cada quilômetro até chegarmos lá. Falta muito pouco, força!" e eu olhei pra frente e voltei a correr. Não parei mais até o final dos 18 quilômetros. Até hoje rimos ao lembrar que não conseguimos nem tirar uma foto, de tão flabbergasted que eu estava (essa é a palavra, a sensação não cabe no português).

Nyad me tocou duplamente por trazer dois temas importantes - o poder da parceria e o impacto do abuso. Engraçado como de poucos dias pra cá vi três filmes retratando abuso sexual - e em dois deles, diferente do "padrão" (ou fato inegável), foram apresentadas situações de estupro que ainda confundem muitas mulheres: momentos em que, por qualquer motivo, elas disseram não e a outra parte da dupla decidiu que sim. Muitas de nós ainda não entenderam que foram abusadas - e pelo visto muitos homens também. Muito duro, e infelizmente comum, é o abuso por parte de maridos, namorados, parceiros, pessoas próximas, com quem você divide a cama, a casa, os fatos corriqueiros de todo dia - pessoas que, em suas cabeças doentes, ligam a intimidade que conquistaram ao direito de satisfazerem seus instintos quando e como lhes convier. Digo por mim que isso dói mais que ferida aberta, porque a gente se sente suja e traída e impotente e não digna de um amor de verdade, de um sonho que vale a pena ser realizado, de uma vida plena, com cachorro, planta e muita história linda. A gente faz terapia, reza, corre atrás da mais-valia, do autoamor, e ao primeiro não já sente um gosto doce na boca, de que lutar por você está, devagar e sempre, fazendo a diferença. It takes a team pra acabar com o Bowser e libertar a princesa, mas volta e meia o medo volta – ela ainda se lembra.

Entender que uma pessoa vai acordar num sábado quente, pegar uma mochila, atravessar a cidade e passar duas horas no sol em cima de uma bicicleta com cara de velocípede só pra te acompanhar, pra te cuidar e te ajudar a se superar, pra ser bem sincera, ainda é intrigante - cheira a banco de carro zero, aquela alegria quase entorpecente. Que o que fomos e o que um dia vivemos nos traga um senso de gratidão, porque cada linha torta desse livro direcionou o curso do seu rio, alongou suas pernas e braços, fortaleceu sua mente pra que você pudesse, mais uma vez, nadar - para o melhor lado do rio - porque você pode - porque você merece - porque um filme no Neflix pode abrir as portas e janelas da sua alma para o que existir de mais bonito e mais verdadeiro. Deixa o sol entrar... Voa!

Postado por Érika Amâncio às 16:20 Nenhum comentário:

segunda-feira, 31 de julho de 2023

...pediu um café à João Gilberto

Era perto das três da tarde e eu equilibrava papéis e livros a passos largos, em direção ao meu carro; na contramão, duas moças nos seus vinte e poucos anos puxavam inconscientemente a mochila junto às costas enquanto travavam uma conversação interessante pelo caminho estreito que àquela hora dividíamos. Meu pensar piscava aturdido por confusões de todo tipo, mas nenhuma delas impediu que minha antena captasse, naquele pequeno momento em que nos apertamos para caber naquele caminho, uma onda de palavras que se quebrou sobre os meus ouvidos: ... a gente sentou e ele pediu um café à João Gilberto... Assim. Uma onda. Quebrando pelo meu casco endurecido de vivicionices capricornianescas, planilhas em word riscadas a lápis. Criei uma imagem de um casal que sai junto pela primeira vez e me vieram as emoções do primeiro encontro, as inseguranças, os traumas e as expectativas, o que se inventa, o que se admite logo de cara, o que se omite, o que se aumenta - e o que tudo isso que se seleciona ilustra o medo que temos de nós. Nesse meu devaneio mais sistêmico que sistemático vi o moço chamando a garçonete timidamente com um breve aceno, seus movimentos leves e coordenados, seu olhar tranquilo a maquiar uma breve ansiedade, a esconder uma rabugice teimosa quando lhe passava pela cabeça a possibilidade de tocar distraído uma nota errada... de desafinar. À medida em que a atendente se aproximava, ele ensaiava mentalmente os passos e compassos, os sis e os fás, um dó desenganado. Pelo bloquinho de anotações foram-se desenhando os detalhes do pedido em notas suaves, tom melancólico e incerto de quem não sabe ainda em que momento daquela história uma daquelas mãos sobre a mesa abraçaria a outra - em que momento ele por fim entenderia que a perfeição encobre a essência, e é essa mesma essência, com seus encantos e desatinos, que sintoniza cada par de corações desafinados, roucos, uivantes, estelares. A vida é cheia de personagens marcantes, e de tanto viver e querer achar um sentido, uma tribo, um ouvido, seguimos o caminho dos outros, ouvimos essa e aquela conversa, represamos a onda que passa numa piscina cheia de água que não é nossa, que ensina, que purifica mas que não nos pertence nem define - que não nos simplifica nem adoça. Engessamos nossa existência enquanto assistimos por uma janela embaçada os desafinos alheios que a gente endossa, fracassos que nosso olhar hipermétrope transforma em receitas de sucesso instantâneas, espinhos que a gente quer porque quer que sejam rosas. Às vezes me lembro daquelas meninas cruzando meu caminho estreito, daquelas palavras soltas que ecoaram pela minha alma e despertaram as reflexões que hoje compartilho, e penso que possivelmente o que se passou nada tem a ver com aquela cena criada pela minha imaginação; que em algum canto desse mundo pode existir um café à João Gilberto, cujo sabor é tímido e perfeccionista como ele próprio. Mas quer saber?  O que se inventa, o que se admite logo de cara, o que se omite, o que se aumenta -  tudo isso que se seleciona só ilustra o medo que temos de nós. Hoje pedi um café à João Gilberto e cada gole quente, amargo e perfumado acordou em mim a lembrança de que somos todos desafinados com corações batendo no fundo do peito, pulsando um querer feroz.  

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quinta-feira, 13 de abril de 2023

Columbine

 Tenho achado difícil demais viver nesse mundo. Sinto como se eu estivesse encostando o joelho no asfalto a cada passo, num dia insuportavelmente quente, e tivesse que me erguer do chão com a força do meu corpo. A cada passo. Num dia insuportavelmente quente. De pelo menos trinta horas. Na minha vida o principal meio de emancipação de mim mesma, dos meus antepassados que fracassaram no amor e em outras drogas, foi o conhecimento - consciência de que os erros fortalecem, que saber ler as entrelinhas é a chave pra compreender o todo, que a humildade é a mãe da sabedoria, da prosperidade, da mais-valia, de tudo que importa, que a esperança derrete a pedra que cristalizou o sofrer do coração da gente. Conhecimento de causa, de matéria, de energia, de caminho, de verdade, de propósito, de argumento, de sentimento, de anseio e de glória - conhecimento do que vem a ser a fé, o meu problema, o problema do outro, o que está sob meu controle e o que foge dele e não pode, por isso, me descabelar. Li há pouco tempo dois livros de uma autora que ganhou o Nobel de literatura em 2022 pelo conjunto da obra - infeliz coincidência, já que o primeiro foi tão desagradável que passei dias arrotando aquelas linhas indigestas. O segundo foi melhorzinho, mas, como minha leitura dos franceses, blazé: sem emoção. Fiquei atordoada com o fato de uma pessoa que discorre sobre um aborto na juventude com frieza ártica disfarçada de naturalidade/autonomia/independência/maturidade (pelo amor de Deus chega) não só concorrer mas ganhar o maior prêmio mundial atribuído a um escritor. E não estou falando aqui de culpa cristã nem da minha opinião sobre o ato em si; estou problematizando uma tentativa - a meu ver muitíssimo frustrada - de naturalizar uma situação banalizando-a, trivializando o que não tem absolutamente uma vírgula de trivial. Em minhas palestras espíritas, falava sempre do orgulho e da vaidade como os maiores vilões da humanidade, e ao ser desmentida e acusada téte-a-téte em nome de Jesus, fico pensando que não reagir negativamente, não querer que a pessoa pague, se ferre, se estrepe é tarefa pra santo, e santo nenhum está preparado pra habitar esta terra. Viver é foda, morrer dá medo e ser atacado no meio do caminho é tudo que eu rezo pra não me acontecer desde que fui de fato atacada a mão armada dentro de um ônibus de viagem (voltando de um enterro), dentro de um restaurante e, menos de vinte e quatro horas depois, dentro de um shopping. Éééééééé... o inferno é aqui. Hoje meus alunos apareceram ressabiados, com medo de um grupo de Tik-Tokers ameaçando promover ataques em escolas, pagando de avengers de Columbine - falácia + ócio + falta de empatia + bebida + droga + sexo barato e zero pista de onde vêm o pânico, a ansiedade, a depressão, o surto a cada nota baixa, cada plano frustrado, cada advertência, cada não. Conhecimento é controle; vitimização é conforto. O que me cabe é acompanhar de longe essa fila de patos sem mãe engrossando a homogeneidade ideológica, o maria-vai-com-as-outrismo, o coitadismo, a histeria coletiva. Se eu não trabalhasse, não tinha dinheiro pra estudar; pra comer; pra fumar meu cigarro, tomar minha cerveja, me embriagar de experiências que me afrontam, me confrontam e me impulsionam pra fora da bolha de mediocridade que quis, lá atrás, me abocanhar. O que as pessoas hoje fazem pelo determinismo, comunismo, egocentrismo, vitimismo, conformismo, até pelo (pseudo)altruísmo é nocivo demais - e demais é muito mais, é excesso, é sufocante... insuportável. Talvez por isso uma autora que narra tão casualmente o processo de transar sem proteção-descobrir uma coisa dentro do corpo-procurar meios para se livrar dessa coisa e ganha o Nobel de literatura seja a ilustração perfeita do que melhor representa o sucesso em nossos dias, porque profundidade dói e machuca na mesma proporção - profundidade é que nem bolsa de grife: custa caro e ninguém quer pagar, mas é fácil imitar, fácil blefar que tem. Talvez o melhor mesmo seja não acreditar em nada, seguir correndo com sapatos desamarrados pela chuva fina, cabelo grudando no rosto, roupa pesando o corpo, água salgando os olhos que pouco enxergam porque decidiram que, afinal, enxergar é só uma questão de perspectiva; que, no final, um pouco de positividade tóxica é a lente rosa que faltava pra fingir que o que a gente sente ou pensa na verdade pouco importa. Tenho achado difícil demais viver nesse mundo. Sinto como se eu estivesse encostando o joelho no asfalto a cada passo, num dia insuportavelmente quente, e tivesse que me erguer do chão com a força do meu corpo. A cada passo. Num dia insuportavelmente quente. De pelo menos trinta horas.

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segunda-feira, 20 de março de 2023

Sonharte

 Sonhos são muito mais que devaneios. São goles de expectativa por uma vida no mínimo menos ordinária, cercada pelo amor de nossos pais, de nossos cães. Já cheguei a pensar que sonhos nada mais são do que uma projeção de nossa amargura. Hoje quero crer que eles nos fazem inclusive acessar nossa parte adormecida, aquela que quer uma vida de outra vida, outra natureza, outra interseção que não seja divina - ao menos para que Deus tenha certo apreço por nós. 

Postado por Érika Amâncio às 15:06 Nenhum comentário:

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Cama de anjo

 Bem-aventurada seja minha primeira postagem do ano :) 

E hoje quero falar sobre uma cama de solteiro que nunca foi usada, no spare room da casa de alguém que a adquiriu por mera questão de protocolo. Esses dias comprei uma barraca pra um inquilino 0800 que construiu um puxado de papelão sob a marquise do meu prédio. Quanto mais chovia, mais eu pensava se minha condição privilegiada, ao cruzar quase diariamente com aquele carimbo de miséria na porta da minha casa, não estava gritando na minha cara que eu deveria fazer alguma coisa. Gritou, acudi: comprei uma barraca e pedi ao meu zelador que entregasse a ele de forma anônima. Se ele trocou por pedra, papel e tesoura, se usou de coberta, se jogou fora por ocupar espaço, se entregou como parte de uma dívida... não importa. Mesmo. Ainda que tenham tentado me convencer de que ele de fato não usaria a barraca para se abrigar, entendi que fiz a minha parte. Assim foi com as sacolas de roupas que deixei perto de um casal que dormia sob outra marquise próxima, com as roupas do meu pai que doei para moradores de rua. Entendi que eles podiam fazer o que bem entendessem, porque algum dia essas coisas iriam chegar às mãos de quem realmente precisava delas. Imagino que agora você deva estar se perguntando: mas o que isso tem a ver com a cama de solteiro que nunca foi usada, no spare room da casa de alguém que a adquiriu por mera questão de protocolo? Tudo, meus queridos. Tudo. Vou dar um tempo pra vocês fazerem o link. Enquanto isso saboreio um Ben and Jerry's de doce de leite e chocolate maravilhoso que meu namorado pediu junto com o antiinflamatório pra me mimar durante uma das minhas constantes e intermináveis crises de coluna. Estamos quase lá - e o último relato também faz parte do pacote. 

A cama era do meu pai. Comprou um apartamento de 2 quartos e mobiliou o segundo com uma cama de solteiro e uma cômoda. Praticamente um quarto de verdade, com guarda-roupas e um tamanho interessante. O mais interessante, contudo, é imaginar o por quê desse quarto montado pra ninguém dormir. Fui à casa do meu pai uma vez, com minhas irmãs. Praticamente invadimos a casa, nos convidamos e fomos sem ligar pra resposta. Foi a primeira vez em que me lembro de ter contato com a intimidade do meu pai. Ali ele era um ser indefeso, inofensivo, vulnerável, com a fragilidade aos berros, ecoando pelo vão onde ficaria o fogão, reverberando em cada móvel barato, em cada prato sujo em cima da pia, na camisa amassada com que ele abriu a porta, na poeira com cheiro de tristeza, de sozinheza, solidão sem prazer e sem drama. Mais adiante, fui adentrar a intimidade dele quando adoeceu - e não voltou pra casa. Ainda mais invasivo foi pegar as suas chaves e ir até lá mexer nas suas coisas, na vida que eu desconhecia. Curiosidade com angústia, tristeza com mágoa, era isso que eu sentia? Olhei praquela cama com o colchão ainda no plástico, pra cômoda que bem podia ter sido um criado mudo. Nunca cumpriram o papel de abrigar uma filha, um irmão, um amigo... Nunca receberam visita. Sem cheiro e sem história, aquela cama me olhava e de tanto olhar, um ano depois, visitou-me em sonho pra me mostrar o link com as coisas doadas e os casos doídos que por tanto tempo saíram da minha boca. Pregamos o dever de sermos bons com o próximo, e ignoramos a máxima que nos impede de engrandecer o processo - desde que o próximo não seja tão próximo. Damos pão e circo, colo e ombro pras visitas, a toalha mais alva sobre a mesa, enquanto pros de casa é custoso estender a mão. Não engoli aquela cama vazia - reflexo do espaço que estava lá pra eu ocupar e ele não quis. Essa cama vazia, contudo, me convidou um ano depois a abrir a porta daquele quarto coberto de pó de esquecimento e me disse que não foi por querer, que ninguém fez por merecer e que a chuva vai molhar a terra e unir em amor nossas almas sós - se não há perdão dentro, não há solo fértil fora de nós. Quero crer que toda noite, um anjo chegava manso pra conversar, aliviar a sozinhez tristonha de mais um dia à toa... discutia o jornal, se demorava até depois da novela, e quando via meu pai pescando no sofá, chamava Hélio, vamos dormir - e meu pai dizia Tá certo, mas fica aí, já está tarde, amanhã você vai, e ele fazia que sim com a cabeça e olhava pra cama vazia... e descansava sua auréola sobre a cômoda e acomodava suas asas de luz invisível no plástico barulhento do colchão. Até o dia seguinte; até a casa perder a voz. 

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sábado, 31 de dezembro de 2022

Porta da esperança

Esse ano foi duro. Difícil. Novo. Diferente. Desafiador. Recompensador. Doído. Nu, doído. Doido. Imprevisível. Introspectivo por vezes, coletivo meio inesperado. Esse ano me ferrei, me achei, sofri, chorei, pensei... chorei mais; chorei mais, não. Esse ano tive que escolher milhões de vezes, decidir com a convicção que nem sempre estava. Fui firme, fui filme de ficção, de terror, de heroína, de pescador, fui feto e fui fato, sim senhor. Esse ano foi martírio, redenção, aprendizado, reconexão com quem veio e quem quis ficar, onda de luz cósmica pra quem não foi e não esteve, pra quem quis partir, pra quem quis chegar. Esse ano foi fé raciocinada, Tim Maia Racional, sangue no olho, faca na caveira, chute no estômago e cara na porta. Cara na porta. Cara na porta até ela abrir e eu ver mamãe, irmãs, sobrinhos, amigos, alunos, lições, tarefas, meu pai tímido do outro lado da sala e meu coração num ratimbum descompassado, doido pra agradecer pela minha vida com um beijo e um abraço de obrigada, pai, porque hoje eu sinto o seu amor, porque hoje eu tenho amor por quem me ama e quem me critica, por quem me guarda e quem me prejudica. Esse ano foi amor e caridade, redenção e saudade. Foi o primeiro ano da minha vida em que o Natal foi o dia de celebrar Jesus e tudo que ele me ensinou sobre família, amigos, afetos, gratidão, gentileza, perdão, contribuição com o bem maior, responsabilidade, leveza, fluidez no caminhar, sempre e lentamente. Esse ano foi plantio em chão despreparado, e cada galo, cada roxo, cada tombo, de um jeito estranho e não calculado,  foi um presente.

Postado por Érika Amâncio às 17:14 Nenhum comentário:

quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Big Bang

Quando pequena, passava horas a fio a observar as nuvens, deitada na grama ou indo e vindo no balanço. Fazia perguntas imaginárias apertando meus olhos quase pretos no breu do dilema e, ao abri-los, ia esperando o céu se organizar e desenhar a resposta. Talvez assim tenha desenvolvido na minha cabeça um certo tique por sinais, uma mistura de fé com insanidade (mais tarde vim a saber que Dostoiévski já tinha misturado Jesus com Dom Quixote lá no século XIX e fiquei feliz). Esse meu conversar com Deus em horas tolas, esse meu abrir o peito pra sorte trouxe reflexões solitárias, duras, e vivências viciadas num perder que foi ganhando forças, tirando das minhas entranhas toda a minha sede de ser, extraindo todo o meu poder de viver essa minha história tão bonita. Não deixe o outro te moldar, você pensa. Os tempos são outros, você pondera. Pra onde vão essas pessoas que não aprenderam a lidar com a tecnologia em pleno 2022? As que trabalharam 25 anos de um jeito, que desenrolaram suas vidas, fizeram planos, tiveram sonhos em preto e branco, numa câmera fotográfica em que precisaram saborear o making-off pra escolher o take perfeito, aquele que registra em uma imagem todo um tempo feliz? Pra onde vão as pessoas que têm medo do escuro de si mesmas, do escuro que é um completo desconhecido, do escuro de um coração e de uma cabeça cheios de vivências viciadas num perder que foi ganhando forças, tirando das entranhas toda a sede de ser, extraindo todo o poder de viver essa história tão bonita? Pro olho da rua da sociedade ou... em uma jornada fantástica rumo ao magma de seu próprio planeta. Sem mas, você se despe. Tira peça por peça na frente do espelho. Repara em tudo com olhos serenos, gentis. Ri pra uma ruga, passa as mãos pela barriga, pelos seios. Checa o formato dos pés, das mãos, das unhas, percorre sua própria pele devagar, tato trôpego e etéreo... se abraça. Observa o peso das pernas segurando o corpo e agradece - elas estão ali, fortes. Atravessa os dedos pelos cabelos, fecha os olhos de prazer. Sente de olhos fechados cada parte do seu rosto, em pé, em silêncio, em comunhão com o tempo e o espaço que criou para ser você. Abre os olhos e sorri - o escuro não aflige mais. O tempo comum não te machuca; o espaço não te exclui, nem te sufoca. Não interessa o que vai acontecer amanhã, se existe vida fora daqui ou como surgiu a Terra. Nesse fundo azul onde as nuvens falam mais alto, eclodimos pós-Big Bang como flores novas num jardim primaveril, alheias à fúria do mundo, aos traumas da guerra.

Postado por Érika Amâncio às 00:37 Nenhum comentário:

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Momentum

 Momentos são angústias; fragmentos de astúcia, paz e caos... momentos são minúcias. Detalhes do que vemos nos guardam em segredo; segredos de outrora se guardam em degredo... fluímos cheios de intenções, a plenos pulmões - corações cheios de medo. Não é isso que Deus quer pra nós: uma mesa pra ceiarmos sós, uma vida sem calor de pai, uma cama sem uivos nem ais, um enlace cruel, atroz; Ele quer é casa com jardim, girassóis, canários, querubins, nãos bonitos pra chamar de sims... um sonho feliz, um amor feroz. Essa vida que me pertenceu, essa noite que me amanheceu vem me cumprimentar; te imagino sob a luz solar, me arrisco, mudo de lugar e ainda sou eu, sempre a duvidar do que vai ser... ansiosa por sentir o poder da fé, da promessa, do toque, do nosso axé, do dia que ainda não se vê. Somos filhos do ontem; pagamos, sofremos nós, filhos do homem, buscando no céu o que não é de lá, querendo colo sem que nos domem, sem que nos tomem de assalto com afeto e zelo... querendo sem pensar em dar. Os planos vêm pra agradecer; os anjos vêm pra obedecer à sua resignação e ao seu impulso - que o livre arbítrio seja o norte de quem crê, de quem tem pulso pra recomeçar, pra se refazer de um salto. A alma vai permanecer, o amor há de prevalecer e os momentos, minúcias de sonho, de sentimento, serão lágrimas brilhantes de enternecimento pelo nosso voo mais alto.

Postado por Érika Amâncio às 14:10 Nenhum comentário:

domingo, 30 de outubro de 2022

Dost thou know I love thee?

 O ano era 2003. Pausa. Não sei quantos anos eu tinha quando comprei alguma coisa numa loja cara, daquelas pelas quais eu passava de cabeça baixa pra não ter vontade de entrar. Que sonhos são esses vendidos pelo capitalismo... Que loucura é essa de comprar dignidade, integridade, status, de comprar a próxima desculpa que você vai usar pra tentar se convencer de que está fazendo a coisa certa enquanto aquele aperto no peito te responde só que não? Fui ao centro espírita essa semana e meu mentor me disse que eu me encontro numa frequência de expiação, de pagamento de dívidas - e quem sou eu afinal pra chorar, espernear e achar que já paguei muito mais do que deveria? Eu, uai. No auge do meu desespero, ouvi dele que o desespero é bom, chama o fim da prova. Em meus momentos de desequilíbrio me considero bem dostoievskiana, naquela impáfia do só se vive uma vez, correndo perigo, me arriscando ao passar um cartão que vou suar pra pagar, só pelo gostinho de não ser medíocre, de permanecer inrotulável, de me surpreender - veja você que looping... Olho pra minha casa, pras coisas materiais que consegui, pro fato de gastar mais do que eu ganho como uma compensação pelo fato de não ter ninguém pra deixar nada quando eu me for mesmo tendo desejado tanto uma Alice e um Romeu plantando bananeira e dando estrela no quintal... Olho pra trás e me pergunto se eu ferrei de vez a minha vida ao sair de casa sem olhar pra trás ou se aquilo foi o marco inicial dessa história de lutas, dívidas e aprendizado que eu invariavelmente teria que viver. Ééééééééé... a vida não tem replay. O Cazuza disse que adorava um amor inventado, e só entendi isso quando, após um período amargo de luto não finalizado, cansei de tentar esperar a chuva passar e tentei fazer o mesmo. Parece estranho e até cínico, mas não é proposital nem deliberado. A gente quer amar, então surfa na onda de quem está ali disposto. A gente curte a companhia e fica até feliz, mas sabendo que, diferente de companhia, companheiro é outro departamento. A gente se joga porque tem medo de passar a vida procurando por um brilho no olho, um coração batendo acelerado, um transe, uma dormência, uma paz inexplicável em caber num abraço, em se despir sem pudor nenhum, em unir bocas e se enlaçar naquele corpo quente e sedento pelo seu... em fazer carinho e falar de sentimento de um jeito aberto, bonito, direto e rir junto, e rir antes, durante e depois, e rir ao lembrar de tudo isso e chorar de emoção. Pausa. O ano era 2003. Namorava há um ano com a pessoa que passaria mais 11 anos do meu lado. Cursava Letras/Inglês e as disciplinas de literatura eram simplesmente arrasadoras - nessas horas agradeço sinceramente pela minha oversensibilidade - eu sentia tudo! Amava decodificar o inglês arcaico e todo o romantismo ensandecido que ele carregava nas costas. Numa dessas viagens literárias apareceu a frase "Dost thou know I love thee?" - ela virou o nosso eu te amo na terra de dragões e gigantes, príncipe e princesa que sonhavam, cada um à sua maneira, com paz no castelo. Não nos falamos - presente do indicativo. A relação acabou, o sentimento se transformou, mas esse ressentimento que ficou do outro lado impediu o contato. Às vezes me pergunto: vai passar? Vou ter que esperar essa chuva toda cair pra sair na rua? E se eu quiser me molhar, será que alguém vai surgir em pé na esquina com um sorriso, um guarda-chuva e vontade de me aninhar? O ano era 2003 e agora, quase 20 anos depois, ainda ecoam os erros, os acertos, as investigações, decodificações, paranoias e mitos que o E se? tentou plantar aqui dentro. O capitalismo, o consumismo, o alcoolismo, tudo isso é explicável e previsível - queria que amar desse jeito certo, com lacunas e renúncias, também pudesse ser. 

Postado por Érika Amâncio às 13:06 Nenhum comentário:

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

(R)evolução

Com a atual conjuntura do país, tenho pensado muito sobre o velho clichê – não menos importante por ser um clichê, contudo – “seja a mudança que você quer ver no mundo”. Não consigo entender por que as pessoas têm plantado ódio – e esperado – pasmem – colher amor. Christian Gurtner, autor do fantástico podcast Escriba Cafe, recentemente me presenteou com uma reflexão do filósofo escocês Adam Smith: “A ambição universal do homem é colher o que nunca plantou”. O que é que você vai fazer se o seu time não ganhar? Se domingo chegar e seu candidato não for eleito? Espero que algo diferente de torcer pro país se lascar e se contorcer de prazer quando algo der errado com um sorrisinho estampado de “eu te disse”. Tem muita coisa errada nesse governo, teve muita coisa errada nos anteriores e é preciso admitir – mas o que realmente precisamos assumir é nossa reponsabilidade enquanto criaturas habitantes desse enorme pedaço de terra e planta e gente e coisa chamado NOSSO país. O que você fez nesses últimos quatro anos em prol do seu semelhante? Reflita sobre isso com consciência. Além de reclamar e se desesperar como quando seu time perde um pênalti, além de compactuar com um gol roubado porque foi seu time que fez – porque afinal ele precisava do gol pra vencer – você ajudou alguém material ou moralmente? No espiritismo falamos em caridade moral, que, diferentemente da material, envolve empatia, escuta atenta, compreensão e respeito às diferenças, comunicação não-violenta, lealdade, honestidade, verdade – cuidado. Como sempre, vejo-me num ir e vir quando se trata de tais virtudes: a gente prega, mas dificilmente a gente faz. Dói em você quando se dá conta? Tem doído em mim cada vez mais, e cada vez mais tenho pedido força e coragem pra enfrentar meus próprios dragões e usar minha existência e minha posição nesse mundo pra de fato tentar ser menos vil, menos egoísta, menos intransigente: pra servir. Dói sair do sofá pra correr por uma hora seguida. Dói deixar alguém que você ama para que alguém que te ama possa te encontrar. Dói deixar uma vida, uma persona pra trás e junto com ela sonhos baseados no que você achava que te completaria, dói calçar aquele sapato lindo que te servia e agora só te machuca. Aos olhos de alguns, já fui mais interessante; aos meus, tento conter a angústia e a alegria de me moldar ao que realmente me pertence com trabalho, com perseverança, com a compreensão de que as palavras são fruto do pensamento e adubo para cada uma de nossas ações. No primeiro turno das eleições fui votar com um vestido branco e uma flor no cabelo – no peito a frase Vibre amor. Foi triste ver o olhar reprobatório de algumas pessoas, que associaram minha mensagem e minha luz ao comunismo que vai nos transformar na próxima Venezuela (!). Uma delas não se conteve e gritou do carro “vai pra Cuba, comunista!”. A única bandeira que eu carregava era a de paz e amor – sem bottom, sem camisa, sem cor, sem panfleto – e ela gerou ataque de pessoas que eu desconheço. Como bem pontua Krenak em A vida não é útil, “nós, seja na floresta, seja em um apartamento, precisamos despertar nosso poder interior e parar de ficar caçando um culpado ao nosso redor: uma corporação, um governo. Porque essas coisas todas acabam e nós não podemos ter uma data de validade igual à delas”. Mais amor por favor – a todo mundo que deseja de fato ver um país onde seu umbigo venha depois, um lugar onde todos possam ter os direitos fundamentais garantidos, onde todos nós nos mobilizaremos contra a fome, a miséria e a numeralização em detrimento da pessoização. Sem essa esperança somos somente um bando de almas perdidas plantando revolta e esperando lunaticamente por prosperidade e redenção.

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domingo, 9 de outubro de 2022

24 horas

 Há pouco tempo, entre lágrimas contidas e sorrisos abertos, vi, em meio às várias maravilhosidades de um filme sensível e sincero, uma espécie de brinde às próximas 24 horas - um compromisso firmado, uma responsabilidade, uma esperança. A gente cresce se propondo planos tão mirabolantes pra um futuro indefinido e se esquece que o futuro segue abraçado ao presente a passos descoordenados, que o que acontece geralmente chama o que está por vir. Somos o que escolhemos ser, todos os dias, seja por comodismo, pertencimento, medo ou esforço. Pode ser que amanhã você mude de ideia, decida ter outra vida, outra cor favorita, outros sonhos pra chamar de seus. A mágica está justamente nesse dia-a-dia, no sol que não se cansa de subir e descer, na lua que vai, bem humildemente, ocupando seu lugar entre as estrelas. Não tem projeto que não caiba quando você aprende a se ouvir, a SE pertencer. O resto a gente equilibra, absorve, experimenta, adota ou descarta. A vida é feita de nãos sonoros ao que nos separa da nossa estrutura, ao que nutre o orgulho e a vaidade em nós. O céu desaba mas a escolha por dias melhores e pensamentos mais edificantes segue insistente, por mais um dia, e mais um dia, e mais um dia... Pelas próximas 24 horas escolha quem te acompanha, decida a nova tatuagem, o corte de cabelo, o próximo desafio... faça um pedido, peça a você mesmo em casamento e se prometa todo o carinho e a devoção que sempre sonhou em receber. Deixe o que é ruim, atraia algo bom, chore pra limpar o peito, renove seus votos, se acolha, se respeite, peça desculpas, agradeça com amor, com fé - RESISTA. Por mais 24 horas. 


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