Nunca hei de aceitar esse medo que habita o coração humano, essa descrença num trafegar mundano sem placa de pare, sem que dispare o alarme de uma sombra sua, de um sol e lua que não brilham mais. Ora, medo que é memória, filho de uma história, o que é que fica quando tu te vais? Aportar no cais de uma lembrança, enquanto a próxima dança se descola, desembola... brinca de andar pra trás.
Esse blog é destinado a compartilhar viagens literárias, e está aberto a seres humanos e afins... Divirtam-se!
quinta-feira, 14 de junho de 2018
domingo, 3 de junho de 2018
Obsolescência programada
Deixe-me ver se eu entendi: o modelo que o senhor acabou de adquirir já apresentou defeito após apenas dois meses de uso. Irreversível, porque hoje em dia o trabalho para consertar não compensa - há muitas opções mais baratas e compatíveis com suas predileções. Não vale a pena sequer refletir sobre a forma como o senhor utiliza o produto. Se o bem recém adquirido é frágil ou demanda maiores cuidados, não é o senhor quem tem que se desdobrar para ser servido com eficiência. O senhor nada mais é do que uma vítima da sociedade, mais um indivíduo ludibriado pela promessa de funcionamento pleno do aparelho conforme suas ordens, condições e necessidades. Se me permite uma sugestão, ao menor sinal de dúvida, TROQUE. Nas novas versões, o senhor pode configurar, além do idioma, posicionamento político, preferências esportivas e comportamento in e outdoors. Além disso, a opção "diálogo" pode ser desativada a qualquer momento ou mesmo desinstalada. Tudo isso inteiramente grátis e sem sair de casa! Esses modelos com armazenamento de memória e kit opinião própria estão saindo de linha - simplesmente obsoletos. Desprovidos de kit co-dependência, mais parecem um Pense Bem que um Playstation (e convenhamos, quem quer passar momentos preciosos a montar quebra-cabeças sobre si e sobre o outro? Foi-se o tempo em que esforço gerava realização). As opções Construção Colaborativa e Demanda de Esforço da Outra Parte têm gradualmente dado lugar a configurações mais atuais, como Me, Myself and I e Venha a Nós. Não há algo mais fora de moda hoje em dia que o senhor ter que aprender a manusear e acondicionar o aparelho. Nada de se preocupar com ele! Os modelos disponíveis no mercado são cem por cento programáveis a partir do primeiro uso e se alimentam do que o senhor se propuser a oferecer - e o melhor: com um simples comando de voz. Obsolescência programada, ora essa! Eu diria felicidade instantânea - infinita até a próxima troca.
sexta-feira, 25 de maio de 2018
Change
Hoje me peguei pensando nessa palavra. Essa mesmo. Change. Tantas mudanças de uma só vez que a dificuldade para assimilá-las todas tem por vezes dado lugar à aflição, ao medo de ser, de ter, de ver minha vida florescer só porque eu mereço... Só? As palavras teimam em brincar comigo em dia de coração que pega fogo, em hora que passa devagar e de repente já está - a consolidar ideias tímidas, a levantar bandeira de um simples duvidoso demais. Contra qualquer profecia, magia, liturgia, heresia há o meu passo marcado por todo o meu dia-a-dia; há o meu olhar de passarinha aturdida, resistindo pra colorir os olhos de tristeza, ânsia e dúvida que pousam, de quando em vez, sobre os meus. Olhares dizem tanto... quase tanto quanto as palavras que me fogem dos dedos, cheias de constatações e vontades, imposições e maldades, malícia que o outro derrama e me queima a retina, adormece as carnes trêmulas do meu coração, faz gelar lá dentro da barriga, num lugar estranho que não foi preparado pra absorver tanta angústia, tanta confusão... Por muito tempo tudo o que eu queria fazer era... to change. Change jobs, change my lifestyle, change the way I feel about things, change my mind about the fact that some things cannot be changed. Change my idea of family, love, joy, freedom and responsibility. Change my conception of merit, choice, reward. Change myself from inside out to be less needy, more optimistic, less distracted, more assertive... change the way I used to believe in achievement, in a secret stored into some people's minds to make the most of this life. O que me veio à mente de forma muito sutil, logo hoje, dia difícil, dia grande, compulsoriamente ocioso, é que change também é troco, esse que a gente recebe quando paga a mais, quando dá mais do que o outro espera receber. Olho pra baixo e penso no quanto o que estou vestindo agora me define - uma calça jeans, botas que andaram pra cá e pra lá, um agasalho quente sem pretensões de ser outra coisa. E mesmo assim existe toda essa mensagem, toda essa passagem pelos olhos alheios, essa miragem criada no imaginário de quem não te conhece, essa linhagem que você carrega sem perceber, que não sabe precisar de quando vem, pra onde vai, se vai só... Só? Informação demais guardada no HD do outro: um sorriso que muda de cor, um par de olhos que mudam de tom, um olhar parado, em direção a coisa alguma, olhar daqueles que falam baixo pra você não ouvir, que parecem achar o que procuravam muito longe de onde você está. Nem sempre foi assim. We need change, so when it hurts too bad we can stick to the remains of what we once gave away and feel grateful for having so much faith in nothing other than ourselves.
quarta-feira, 7 de março de 2018
Trem das onze
E para transformar solidão em solitude (letra feia forçada em caderno de caligrafia que não termina), lembrei-me de contar casos pra mim mesma no meu cantinho esquecido, cachorro molhado de ficar pra fora em dia de chuva, sem memória de quem o deixou ali - só com memória de amor. Escrever era nada obrigação, era ritual mesmo, um barulhar de teclas que me levava a mundos distantes, castelos encantados, desventuras, insatisfações e desapegos e verdades e gratidões de muitos jeitos e luzes... sempre luzes. Eu me levantava sorrindo da cadeira, como se tivesse acabado de fazer uma acrobacia num lugar impossível. É, eu gosto de rituais. São como sonhos no meio desse mundo de pedra, conforto nessa areia fofa e quente que a gente atravessa todo dia até ficar cansado. Há algum tempo meu ritual de terça à noite é sair do trabalho às dez e quarenta e sentar num bar perto de casa. Peço sempre a mesma coisa, chamo um livro pra me fazer companhia e saboreio cada página com churrasco e cerveja. Hoje, depois de um dia grande demais, umas horinhas de descuido e redenção. Redenção. Abordou-me um senhor bem apessoado, de uns 60 anos, com a cortesia que ao bar sempre foi habitual. Fiz aquele pedido que nunca vai dar errado e o senhor se afastou, calmo e resignado. Podia jurar que estava feliz. Vi aquelas pessoas às onze da noite com bebês de colo no meio do boteco e tentei pensar se eu não faria a mesma coisa - estava calor, ele precisava dar uma volta... Sem mais. Chegou a cerveja. O churrasco veio logo depois. Dei a ficha ao moço jovem e sorridente enquanto ele deixava meu jantar sobre a mesa e tirei a outra do bolso esquerdo da camisa. "Essa é a ficha da cerveja. Esqueceram de pegar". O rapaz agradeceu, olhou pra trás e avistou o senhor. "Pai, o senhor esqueceu de pegar a ficha da moça". O pai respirou e assentiu com a cabeça sem esboço de sono, tristeza... personagem de um filme longo demais até pra ele mesmo. O gole desceu difícil. Lembrei-me da série La casa de papel, Denver e Moscou: pai e filho tropeçando pela estrada da vida, colegas, irmãos de esperança. O herói vira companheiro de condução, de pito, de papo. Dependente no imposto de renda, parceiro nos pequenos delitos que se justificam pelo sobreviver. Modelo de conduta, de lealdade, de ser humilde, de estar aqui e lá pra você comer, meu filho, palavras que moldam todo um jeito de viver, sonos e sonhos que tomam outras formas quando a vida te chama na responsa e te fala "Anda! Sacode! Vive do jeito certo, do que tem mais amor". Tem gente que é tão pobre que só tem dinheiro, ouvi esses dias alguém dizer. O resto a gente acha num boteco em plena terça-feira às onze da noite, numa ficha guardada no bolso esquerdo da camisa... doida pra fazer a diferença.
quinta-feira, 27 de abril de 2017
Nada
Hoje cheguei em casa pensando em você. Meio estranho. Caminhei pela casa e constatei que é casa de mulher solteira - as fotos, as cores, as coisas. Pensei em tudo o que já te dei e você perdeu. Fotos na parede, no porta-retratos da sala principal que passaram ao outro quarto e depois foram jogadas fora. As roupas, as gavetas, a chave de casa. O que ficou foi uma falta de fé que tira meu sono. Pensei na proposta cruel que você se fez e que tanto se assemelha a uma hora de natação: competir consigo mesmo, ser melhor que ontem, pior que amanhã. Uma merda isso de estar na posição de quem tem que virar o jogo, e me vejo como uma espectadora que te observa nadar e beber água, nadar e dizer que vai bater o próprio recorde, nadar e se deixar afogar só pra não ter que nadar mais. Só por hoje. Só mais uma vez. Só... Pensei na árvore frondosa que plantei na esquina da sua vida e que foi, às vezes aos poucos e às vezes de uma vez, dando as folhas ao azar, ao egoísmo, à incerteza, à ironia, à raiva. O que restou não tampa o sol forte que nos faz olhar pequeno e querer procurar uma sombra pra descansar. Pra descansar. Meu cansaço me angustia. Minha angústia me paralisa. Quero vender tudo e ir pra Itália, ir pra Brasília, ir pra longe dessa bagunça tão solitária. Naquele exercício do teatro de fechar os olhos e se deixar cair nos braços de alguém, naquele exercício de confiança, caí no chão e fiquei insegura, dura, peito contraído, cheio de caroço ao redor do coração. Câncer é doença da alma, sabia? Minha alma fica embolada, doída dentro desse corpo que prioriza o dinheiro ao alimento, ao repouso. Onde é que eu estou nessa nossa equação que não se equaliza, nesse balé desencontrado em que cada um vai pra um lado e insiste em dar a mão? Não sei o que você quer de mim, mas em mim tudo dói, dentro e fora. Tá tudo errado aqui dentro também. Olho pros lados e não sei o que fazer. Coloco os dedos longos dentro dos meus pequenos bolsos e penso em tudo que eu não pude ter. Vontade de chorar até e mandar todo o resto à merda. Hoje foi pesado, amanhã acordo cedo. É assim que acabam minhas reflexões.
segunda-feira, 11 de julho de 2016
Re-feel
Keep thriving.
Struggle to achieve
a better place than
the ones who're
sliding
through the hollow
ground underneath
our trying
through the things
revealed and yet
inspiring...
Try to shut the door
but the birds keep whistling;
try to let it go
but that scent is missing
that last song
we'll dream on
thriving
sliding
hiding...
insisting.
Struggle to achieve
a better place than
the ones who're
sliding
through the hollow
ground underneath
our trying
through the things
revealed and yet
inspiring...
Try to shut the door
but the birds keep whistling;
try to let it go
but that scent is missing
that last song
we'll dream on
thriving
sliding
hiding...
insisting.
quarta-feira, 6 de abril de 2016
Inspire
Esses dias assisti a uma palestra com um autor de livros, todos os tipos de livros. Nem um pouco interessante - a tecnologia realmente emburrece as pessoas e tolhe todo o tipo de criatividade. Fiquei pensando que se o Power Point não abrisse por qualquer motivo, ele provavelmente não teria um plano B. Um autor de livros, todos os tipos de livros. Um escritor que ministra oficinas de escrita literária para uma pá de jovens sonhadores, aspirantes a atrevidos. Não deve ser barato - afinal ele tem o nome estampado em um monte de capas de todas as cores e tamanhos, ainda que muita gente não conheça nem ele nem as obras. Após a "palestra", um bate-papo com os alunos. Uma chuva de perguntas interessantes, que ele não respondeu nem à altura, nem não. Devaneou, como se estivesse em um tempo muito diferente do nosso, em uma esteira móvel que vai dar num lugar confortável, conveniente, um apartamento antigo com memórias óbvias e respostas curtas de tão longas. Enquanto isso, os alunos trotavam em cavalos alados pelos bosques do infindável, do inimaginável, da sede que molha a boca quando a gente sabe que pode, que pode ser, que pode ir, que pode virar qualquer coisa porque a moda agora é se arriscar, correr perigo - e voltar pro casulo não menos óbvio que aquele apartamento antigo. Uma pergunta me intrigou pela pureza da resposta que ela teria: como é que você se inspira para escrever? A resposta, nem boa nem ruim, só sincera, também me rendeu reminders de indigestão pela tarde afora, um incômodo que sentou em cima das minhas convicções, me pesou as costas. Pegue uma palavra, ele disse. Por exemplo, a palavra RIO. Faça uma lista das palavras que têm a ver com RIO - córrego, água, cachoeira, mar, correr, nascente, margem. Agora tente colocar essas palavras juntas e comece a escrever. Não é como Chico Xavier, ele completou com um risinho irônico, não é só colocar a mão na cabeça e deixar vir - a gente precisa das técnicas certas. Fiquei murcha na cadeira. Ele me olhou e sorri um sorriso meio amarelo, meio complacente. Meus olhos diziam com todas as letras que eu não concordava. No dia em que técnica tiver o mesmo nome que inspiração, a inspiração vai ter que mudar de cidade, cortar o cabelo, calçar a cara e dizer Inspiração, não: me chamo outra coisa.
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