segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Expectativa

 Viver é difícil, sabemos bem. Difícil mesmo, contudo, é não esperar em nada nem ninguém. Criam-se sonhos mudos, segredos parrudos na imaginação; a boca sorri um tudo bem enquanto os olhos falam só que não. Assim é quando a gente aperta dentro do peito o desejo de gostar, quando a gente engole seco a vontade de falar que quer, que vai, que se vê ali depois de amanhã... Chamam de responsabilidade afetiva não permitir que o outro espere em você - mas e se for exatamente isso o que você quer? Planos loucos, projetos descabidos que cabem certinho no seu coração - vontades de corpo, de alma, de amizade sincera, de afeto que espera pra virar lealdade, respeito, liberdade, deveres e direitos, via de mão dupla, perdões e desculpas, doce emoção :) Quem espera sabe que plantou flores de sonho pra colher verdade... e que um belo dia, em pé no alpendre, vai ver lá longe a cor da felicidade. Viver sem esperar é impossível - quem diz estar vivendo sem expectativas está cobrindo seu castelo de cimento com areia invisível.

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Com amor e com medo

 É assim que eu vivo: uns dias com mais amor, outros com mais medo. Fiquei feliz ao ver que a paranoia do Raul está também (d)escrita pelas linhas da minha vida. Se Deus nos acompanha todo o tempo, como é que a gente respira sem pensar nessa falta de privacidade, que nem no show de Truman tinha pay-per-view sem edição? Se alguma coisa da minha cabeça cai numa folha de papel ou vira recado virtual, bate a angústia de A contar pra B sem a minha permissão. Fico querendo falar de amor com medo de quem vai ouvir, meditando e sonhando sem me dar sequer o direito de me distrair... Quanto amor abrigo no meu ser! E quanto medo de ficar presa em minha própria caverna do dragão... Nesse mundo redondo de tão quadrado, nesse dia curto e espaçado, calor e medo, amor azedo tornam abafada minha intenção de comer bem e dormir cedo, de amar além e trocar - já não é segredo - a culpa pelo perdão. Um dia hei de abrir essa porta que conecta o peso do dia-a-dia ao meu desapego. Até lá, que o medo se agaste, se desgaste e que o amor dê um xeque-mate na insatisfação.

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Dedo de moça

 Num sopro de vida, a gente vira a folha, bem sem querer nada... Sente-se cansada, casada, infundada - o fim da discórdia a cada nova rolha. Sol de anestesia, goles de água fria pel'alma gelada... Ao sair da bolha, pílulas avant-garde de cada dia... Terapia que desmonta, desconcentra, abarrota a cabeça tonta desde a placenta até o fim do mundo: reza santa em terra de cego sem rei revolvendo a revolta do mar profundo. A cada partida uma despedida de quem nadou fundo em água cristalina de torpor e mágoa... Do céu cai a água que te purifica, que te mumifica e rola bandida por suas faces ora contidas, simples, rosadas, cheias de fadiga, saídas de um conto de moça boba, pudica, que ao dormir entrega seus cabelos aos mais belos pentes de fadas. Num sopro de vida, a gente se sopra e reza pra cair pra cima; rola, se esfola, volta aos tempos de menina crua, cheia de pureza genuína, que ria e achava que o mundo era baião de dois; que a vida, lá no fundo, era muito mais que baby-liss e pó-de-arroz. Depois o nós vira eu e Deus, esperança de sonhar o sonho que ontem me pertenceu, de calçar um sapato folgado. De apertado chega o nó  preso à garganta, a impotência que me afronta diante do mero estar - de me enxergar tão pequena quando o que vale a pena é se entregar. Amar desse jeito crava no seu peito um buraco ateu - sem choro nem vela, despenca singela a fé naquela história, fruto da beleza, do sonho, da glória que Deus prometeu. Coração medonho, rouxinol tristonho a se procurar - guerra inconsciente do que é presente com o que vai passar. Num sopro de vida a gente respira... e sorve o que não fira tato ou paladar.

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Ziggy e eu


Vi Ziggy Marley pela primeira vez em um anúncio do OLX. Meio improvável aquele labradorzinho branco dos olhos azuis! Parecia um bichinho de pelúcia. Liguei para o anunciante. Quero esse. Mal ouvi sua insistente ladainha Tem vários outros tão bonitos quanto, sei quê, sei quê... Amanhã. Endereço? Horário? Comuniquei ao cônjuge - achei. Vamos buscá-lo. Fomos buscá-lo. Em uma ninhada de dez filhotinhos, sentei-me no banco do alpendre e peguei um qualquer que me dava as costas. Qual não foi minha surpresa ao ver seus olhinhos azuis se abrindo pra mim! Deitou no meu colo e lá ficou até irmos embora. Não ouvi mais nada. Não era negociável. Havíamos nos encontrado por essa vida louca, no meio da pandemia, e meu peito se encheu de esperança e coragem - ele me esperava. Ele me amava e me amou durante os seis meses em que estivemos juntos. Alguns dias o que me alegrava era saber que ia acordar e ele estaria ali, e viria de qualquer lugar só com o som da minha voz; que podíamos ser felizes fazendo qualquer coisa juntos; que ele iria aonde eu fosse, e me esperaria chegar e me encheria de carinho sempre que me visse. Ziggy teve roupinha, foto de primeira e segunda vez no veterinário. Tem caminha fofa e muitos brinquedos, a melhor ração, casa com piscina, um jardim só dele - uma vida de rei. Fiquei triste ao chegar com ele na minha nova casa - tinha amor, muito amor, amor puro, amor de mim e amor de Deus, amor de todos os santos e todas as coisas. Tinha amor, caminha nova, comida, brinquedos. Tinha meu tempo pra passear com ele o dia todo se fosse preciso. Tinha minha paciência, meu respeito, minha vontade. Mas não tinha espaço. Não tinha mais as folhas secas que ele passava o dia mastigando, a piscina onde ele já entra sozinho, o quintal que ele atravessava como um raio depois de nadar ou quando os sprinklers estavam ligados. Nâo tinha a porta da sala onde ele via TV até dormir, não tinha barulho de grilo e passarinhos. Não tinha o líder da matilha, que o educava e o levava pra passear de noite ou de manhã. O amor não basta, não cura, não manda a dor embora, não seca as lágrimas que eu derramo toda vez que eu penso que por amor eu o devolvi à sua vida feliz, cercado de carinho e cuidado. 

Ziggy sempre será meu filhote que eu espero ver crescer até ele ficar do meu tamanho e pular com as patas de terra no meu vestido branco... Um bichinho feito de amor, um camaradinha pra me lamber quando eu estiver triste, pra dormir comigo no jardim numa tarde de sol, pra me chamar pra dar comida antes da hora, pra vir correndo quando eu aparecer e andar do meu lado sempre - nem à frente, nem atrás. Um guardião do meu amor incondicional, um comparsa nesses tempos de cólera que nunca se vão. A gente vai envelhecer juntos, Nínim. Ainda vou plantar uma cadeira de balanço na varanda e esperar gentilmente o pôr do sol com seu corpo quentinho a me esquentar os pés. Por favor não me esqueça - te amo nessa vida e nas outras que virão, porque nessa minha bagunça organizada sei que essa vida só não me basta pra corrigir tanta coisa. Sou estranha e errada, mas sou sua mãe, mãe que faz festa todo dia 15 e que vai acender uma velinha a cada 15 de abril pra contar seus anos. Ainda vamos bagunçar juntos, curtir a vida adoidado. Prometo que vou trabalhar muito até ter uma casa com quintal pra você morar, mesmo que só de vez em quando. O nosso amor é que nem o amor de Deus - se multiplica, nos preenche, não se explica, nunca acaba. Um dia a gente vai ficar junto desse jeito perto; um dia a gente vai rir dessa peça que Jesus pregou na gente. Até lá, fique com Deus e se lembre de nós. 



















sábado, 3 de outubro de 2020

Chama

 Vivi felicidade fina

Com jardim, piscina

Sonho de pequena.

Molhei-me dos pés à cabeça

em baldes de água fresca

pel'alma morena.

Sonhei que volitava alto

e bem dentro, de um salto

compreendi enfim

que a vida que nos vem terrena

vai valer a pena

sem jardim, piscina,

sem ouro e sem mina

se eu cuidar de mim.


terça-feira, 29 de setembro de 2020

Borboleta pequenina

 Vi uma lagarta escalando a parede

a passos curtos, cheia de pernas - 

sem pressa e sem preguiça.

Saiu de sua casa engraçada

querendo virar borboleta

indócil, mestiça.

Sem não e sem pare ela vinha

Deslizava pela pedra fria

Atravessava.

Sem barreira ela não se detinha

Pés descalços em marcha de um dia

Direcionava.

Vai nascer bicho livre na rede,

sem fome e sem sede,

sem vida comum.

Vai-se embora num sopro da noite

sem coro e sem dono

sem pesar algum.







domingo, 27 de setembro de 2020

SubstanDIVA

 Olha só que coisa: tive que assistir a umas mais de cinquenta lives, ler uns 8 livros e milhares de comentários no youtube pra entender que é possível listar dez motivos diários para agradecer. Em alguns dias, confesso que é bem difícil chegar ao dez. Lá pelo quatro já começo a espremer cada momento em busca de algo bom. Agora vem o mais intrigante: percebi que na verdade nossos motivos pra agradecer encheriam uma folha em poucos minutos a cada hora em que decidíssemos fazer isso... e a dificuldade está intimamente ligada ao peso que damos às situações ruins, ao que não aconteceu como o esperado, ao que nos tirou do prumo, da tranquilidade que tentamos construir logo de manhã, com uma meditação, uma prece, uma lista de tudo o que faz com que nos sintamos abençoados. A pedra no sapato afeta mais que o vento fresco atravessando uma onda de calor; mais que as roupas leves e os calçados mais confortáveis que contam um pouquinho de você e te levam pra passear do melhor jeito... dói e você se esquece do dia de sol, do chá com bolo, de que você está voando solo porque, diferente da andorinha, você é capaz de fazer verão e correr pro abraço da primavera.

Curioso pensar que fiz terapia minha vida inteira pra tentar me convencer de que sou uma pessoa boa. Esses tais defeitos trucando coerentes julgamentos... Uma vez fui chamada de inofensiva. Até hoje me vejo às voltas com esse adjetivo! É fato que não causo ofensa ou mal aos outros (pelo menos não deliberadamente), mas (será que sou só eu? Pensem aí vocês:) essa palavra me dá um certo desconforto porque me passa a impressão de submissão, de passividade. Minha tranquilidade foi muitas vezes confundida com uma submissividade (submissão + passividade) que não me habita, não me pertence e definitivamente não me representa. Outro dia, durante uma constelação, precipitei-me a responder "quem é você?" com adjetivos - e descobri que a nossa raiz é, de fato, substantiva. Sou filha de alguém, neta de alguém, bisneta de alguém. Sou parte de uma engrenagem que vem girando muito antes de eu entender que precisava nascer e honrar essas pessoas que me abriram o caminho pra crescer na dor e na luta. Não me disseram que seria fácil ou que eu teria que suportar isso ou aquilo. Suportar não me cabe - entala no quadril, aperta o joanete. Suportar não me atende. Em sincerês trivial: tenho vergonha do que já suportei, do que já me permiti viver, e me invade um incômodo pesaroso até cada vez em que penso no que já ouvi, no que deixei acontecer. Engoli o antinatural como alguém sem referência, sem essência de lutadora, vencedora, doadora de boas energias e suaves memórias. Carrego no sangue a escaldante fervura de mulheres à frente de seu tempo que desconhecem suas sete léguas de vantagem. Corro na contramão do improvável procurando pouso, cansada de arremessos, tropeços, contínuos e incansáveis recomeços. 

Se chama de dentro, procura sua essência de óculos até encontrar. Olha bem...até se enxergar substantiva aumentativa singular.