Mas afinal, o que é que sobrou do amor? Direitos, deveres e identidades intactas? Plano de saúde com dependente, cota do clube e contas conjuntas? Não. Já fui chamada de passarinha arisca, de cavalo bravo, de bicho que não aceita cabresto. Pode até ser - sou leal aos meus princípios, não me exija mais! Mas... não queria falar nada disso. Queria só dizer que o amor entre duas pessoas é trabalho em equipe: você e o outro contra os males do mundo (e de quebra vivendo uns momentinhos felizes daqui e dali...). O que sobrou do amor é cada um no seu canto juntando os cacos pra não ferir quem por ali passar; é uma tentativa de construir outro castelo, e esperar devagar por um sinal para que ele possa ser lentamente povoado, sem certeza de nada; é a vontade de rir e confiar e entregar sua porção de maior valor; é o medo de a vida passar e você não entender que tudo fez sentido, que seremos felizes do melhor jeito, que o que sobrou é esse dia de sol cheio de afazeres e lembranças.
Esse blog é destinado a compartilhar viagens literárias, e está aberto a seres humanos e afins... Divirtam-se!
terça-feira, 6 de outubro de 2015
Night gown
É, e eu não me canso, não é mesmo? Talvez por estar tão cansada de tanta coisa ao mesmo tempo. Quanta intensidade, meu Deus! A gente sabe que o cansaço é passageiro, que a própria vida passa rápido e às vezes bate uma vontade de rir e brincar e acreditar que nosso universo particular nos quer bem e em paz... Lembro-me de quando contava estrelas debaixo do céu que era teto da rodoviária velha, deitada sobre os paralelepípedos, olhos brilhantes de cachaça, desfrutando essa embriaguez democrática que me corava as bochechas, amolecia as pernas. Contava estrelas sem pular as pequenas, sem pesar as grandes, sem pensar por um segundo sequer no capítulo que me esperava ao sair daquele transe. Contava era grãos de sorte pelo jardim da noite, lívida ao vê-los se desgarrarem do mural celeste para pousarem ressabiados sobre a minha face, braços e pernas e olhos e peitos fartos de coragem... Em meus pés desenhavam asas, contavam histórias para as palmas das minhas mãos. O que se seguia a esses instantes não mora mais aqui dentro. A sina de ser envolvida pelo perfume das damas da noite que abraçavam a praça, no entanto, volta e meia me sussurra ao pé do ouvido que "valeu a pena" deve ser sempre combustível para os nossos sonhos.
sexta-feira, 2 de outubro de 2015
Playmate
São 21.20 de um dia comum e eu estou aqui a falar de mim comigo mesma, dentro de uma sala de aula que coabita a minha existência, prisão de mentira. Liguei uma música clássica durante a prova e os alunos me olharam sem entenderem se era inspiração, tédio ou agonia. Decepção, reflexão de praxe talvez, sensação de que aquele sapato não me serve mais. Cheguei a um ponto da vida em que apresentar um seminário na disciplina do doutorado com calafrios de febre deixou de ser um drama pessoal pra virar evento corriqueiro. Afinal das contas que acerto com meus lençóis de algodão - e sem essa de dia sim dia não! - eu passo a vida correndo e pensando em nós, correndo e pensando em vocês, correndo de carro ou a pé, sempre querendo chegar... sempre... De sala em sala, uma breve passada em casa, um beijo na mãe, um oi pro sobrinho que cresceu e agora acha que beijar a tia é careta pra caralho, um oi pras irmãs via SMS, um beijo no pai que mora perto-longe via email, uma superhipermega otimização do meu tempo "livre" pra pedir colo. Esses momentos de prova, em que espero até o último aluno sair da sala, são uma prova também pra mim, que a minha cabeça pensa sem parar, que entender o outro não é brincadeira, que colocar uma cerca ao redor da casa pode ser uma tarefa complicada se o dono dela não gostar da cor. Fico tentando entender se quando acabar o maluco sou eu, mas tem tanta coisa além da minha compreensão hoje em dia que às vezes eu nem consigo chorar, nem gritar bem alto pra neguinho entender que eu não nasci pra brincar de casinha e contar pra minha mãe que um menino bobo e feio puxou o meu cabelo só porque eu pedi a ele que me ajudasse a arrumar a bagunça depois da festa. Onde está o cuidado que mora nos sonhos de toda mulher? Muitas mulheres abriram mão de recebê-lo pelo status da companhia. Acho tão bonita a palavra ALTERIDADE, que aprendi ao estudar sobre a relação professor-aluno... muito bonita e pouco conhecida - e ainda que estivesse na ponta da língua de quem quer que fale nosso bom português, palavra não é ato, não é fato e não enche barriga de quem tem fome do fazer, saudade do acontecer e pressa pra realizar. Construir mete medo; caminhar gera dúvida; ceder, admitir e evoluir passam longe do dicionário usado pelo autossuficiente, autoindulgente que não erra jamais. Sensação de que aquele sapato não me serve mais, que talvez nunca serviu, que eu só pus no pé pra ser princesa... sem cavalo, sem vestido, sem príncipe ou castelo.
segunda-feira, 21 de setembro de 2015
"Os olhos que não queriam dormir"*
A gente tem sempre aquele dia de tensão, de confusão que dói a cabeça, embaralha as ideias. Não importa o que a vida te diga - na verdade entender o que a vida te diz é uma arte no fim das contas. Naquele dia de tensão a gente não diz que sim nem que não... fica meio a ver navios no mar que é sempre mais verde pra uns do que pra outros. Temo não descobrir por que a gente sonha com coisa ruim, por que é assim tão complicado crer no que está lá pra gente ver - ai de mim! Se o ontem se chama passado, por que diabos ele se espalha pelo dia de hoje, por que me aflige tanto, por que me confunde a ponto de doer a cabeça... por que ocupa uma parte tão grande das minhas sôfregas ideias? Obrigo-me a viver a bonança enquanto a tempestade brada lá fora, e fecho as janelas e tomo um chá e tento ler um livro e desejo que o sono chegue logo pra que eu me esqueça do quanto pode ser paradoxal a gente querer se bastar mesmo sendo bicho que nasceu pra viver junto. Ontem me abracei à minha velha almofada cor-de-rosa e me aninhei à metade da cama. Tinha brisa, chocolate, mate e sanduíche; tinha resquício de banho de lagoa na pele, sol nos cabelos, Gabriel García Marques e arquivos piscando pela noite afora. Em sonho um homem invadiu a minha casa. Eram três horas da manhã e eu tive medo de me levantar, de procurar, de checar, de viver. Me invadiu o medo de passar por isso sozinha, de acordar mais uma vez às três da manhã e rezar e tomar um copo dágua e voltar pra cama e falar com meus botões e ler outro conto peregrino em voz alta e pedir a Deus que por amor a qualquer coisa me deixe dormir porque às segundas fico cansada demais, porque agora tenho que acordar mais cedo, sair mais cedo de casa, me preparar melhor pra zarpar às 6:30 e retornar às 23:30 com cara de pessoa bonita e descansada. Não é o tipo de coisa que gera qualquer alarde - o problema de todo mundo é do mesmo tamanho, blablabla. O que eu queria mesmo era sentir o corpo, a alma e o coração em paz, como se finalmente meus olhos pudessem dormir.
*Esse é o nome de uma das historinhas mais lindas que já li. Fica aqui a homenagem.
segunda-feira, 24 de agosto de 2015
Mudança
Toda vez em que eu me olho no espelho vejo algo diferente - uma sarda nova, uma linha que se acentua, um fio de cabelo que perde a cor. A expressão, no entanto, não se altera. Continuam a brilhar meus olhos pensativos, meus dentes que adoram convidar para uma gargalhada ou ao menos um sorriso sincero. Vejo as formas do meu corpo e me sinto feliz ao percebê-lo bem-cuidado, saudável sem exageros. Penso em toda essa informação a se desenhar sobre a minha carcaça sem pedir licença... fico desejando sorver mais um gole dessa mudança que me esquenta o peito sem drama e sem pressa. O sabor das novidades que laçam meu momento de vida dá água na boca, conforta como sorvete que a gente prova pela primeira vez. Timidamente flerto com minhas pequenas-grandes conquistas e agradeço por ser adulta em terra de criança, que ser adulta me tira o medo de trocar o estar pelo ser, me faz querer permanecer essa moça-menina que não acredita em meta-romance ou pseudo-escolha. É hora de fazer as malas: por dentro, medo mineiro de onda grande - mar bravio a me espreitar com seus olhos de sonho e temperança.
sexta-feira, 7 de agosto de 2015
O atropelador de velhinhas
Andava distraído, ideias lançadas ao vento. No banco do passageiro, papeis lembravam-no de seu destino e propósito. De dentro do carro o sol ia alto e brilhava sem queimar ninguém - a fome o devorava. O clarão escondia novos capítulos que se desenrolavam nas ruas; o som falava bobagens que não interessavam mais. Das contas aos contos do vigário, dos planos ao pleno exercício da cidadania que vira chacota paga, vivia por viver, fazia por merecer e não acreditava em muita coisa, não. Andava distraído quando algo o impediu de seguir. Era uma senhora de uns sessenta anos, bem vestida, que atravessara a rua sem muita atenção. Saiu do carro, uma confusão embaralhou seus nervos e o que ocorreu depois, ah, isso não se sabe ao certo. Pegou o telefone no bolso, chamou por socorro e atendeu aos trâmites burocráticos de praxe. Foi para casa e tomou um banho demorado. "O ideal é evitarmos situações que podem gerar um desconforto futuro como forma de preservação de nós mesmos e de nossas relações humanas", era a voz da analista misturando-se à água quente que amolecia os ombros duros de inconsciente aflição. "E quando já aconteceu, como consertar?" "Não tem jeito, não se desfaz o que já foi feito: o tempo apaga essas marcas, e a sua conduta pessoal cria novas verdades e perspectivas." Enrolado na toalha, ligou para a senhora. Tudo bem. Respirou aliviado, riu ao pensar na sua falta de sorte, concluiu que tinha sorte afinal e foi jogar bola pensando no prejuízo que engordaria o bolso do lanterneiro. Tomou cachaça, foi ao cinema e pensou que é isso aí, que não foi tão mal assim, que viver o presente tem dessas coisas... que papel timbrado conta a história que ele quiser contar, sem choro, vela ou testemunha. Relatou o caso a uma meia dúzia, guardou as opiniões no lado esquerdo da camisa e quis que houvesse gente em casa. Adormeceu ao som da televisão, coração sussurrando notas preocupadas, cabeça doendo de angústia.
segunda-feira, 3 de agosto de 2015
Dez minutos
O que dá pra escrever em dez minutos? Talvez alguma impressão sobre o que me intriga mais... É só parar o relógio por uns momentos pra lembrar que tenho me sentido estranha, confusa até, querendo ser uma coisa só, engolir minhas preocupações com farinha, não pensar em nada, ir vivendo mesmo, correndo, comendo, fazendo o que eu acho certo e me convencendo de que a vileza alheia é exatamente o que é: alheia. Em dez minutos piso no chão quente da praia, sonho que corro sem cansar pela areia fofa e fico ansiando por mais um pouco, e peço a Deus que por favor me leve pra pescar num lago que tenha peixes e jogue a rede por mim. Em dez minutos eu tomo banho e choro baixinho sem saber sabendo de onde vem esse quê de desespero com cara de desesperança; desejo em silêncio que as pessoas boas tenham uma vida boa, que as ruins aprendam a viver direito, que as fracas queiram com todas as forças resistir às fraquezas terrenas - que a nossa carne seja nobre de tão forte, que o nosso espírito tome a frente do que nos resta e, como o doce Falkor, irrompa pelas nuvens da superficialidade que assola nosso tempo e me convença a confiar em gente grande, a acreditar que há outros como eu, que veem o que é bonito sem precisarem olhar, que aprenderam a apreciar a própria companhia, que respeitam o outro porque sabem se respeitar, que comemoram cada nascer do dia, que caem sempre mas dificilmente no mesmo lugar. Em dez minutos eu passo os olhos por esse grande livro de memórias com nome difícil e percorro as tantas ruas da minha vida, hoje vazias. Novas ruas se estendem sob meus pés descalços e eu fico aqui pensando que em dez minutos daria pra chegar esbaforida àquela praça, dizer eu te amo e parar de ouvir o rádio, o som do motor... pousar o corpo em seu coração falante até o medo se dissolver na respiração - sobre a cabeça luz, paz e o canto dos passarinhos.
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