terça-feira, 21 de outubro de 2014

Transcendence

... e foi assim, de um jeito que não se explica, em dia que não se lembra. Num daqueles dias em que a gente acha que era feliz; saber, mas se nem agora dá pra se saber de coisa alguma...

Fiquei um bom tempo achando que falava demais - que nesse mundo de verdades veladas eu sinto e demonstro tudo... me aprazia o som da minha própria voz, e com fás e sois iam-se histórias, gracejos, balelas de todo tipo... risadas e dores sinceras. Sonhando como o homem ridículo que tomou o coração de Dostoiévski nos braços cansados, febril no meu devaneio idiota da bondade (vulgo maneira simples de querer, ser, viver e sentir) ocorreu-me um dia o desejo de calar-me. Por um dia e outras horas, por tempos alheios ao todo dia comum. Quando foi não posso ao certo dizer-lhe, mas bons ventos me dizem que talvez não seja lá tão importante assim. 

E de repente estava ali, cantando sem poder cantar; falando sem conseguir, garganta arranhando sem querer... e eu só pensava nos tantos cantos e contos que eu ainda tinha que contar, nas cantigas de ninar que sussurraria para os meus filhos queridos em uma noite de chuva tão bonita quanto agora, com porções de carinho sobre a mesa farta de ideias, luz, paz e oração. Veio-me à cabeça tudo que eu diria em prol da civilidade, da poesia, da educação, da serenidade, porque é isso o que eu busco - é por isso que eu luto: por um caminho bonito, por um destino certo. Pensei, pensei... e entendi que há de chegar a hora em que meus olhos te dirão com um sorriso tudo o que o calor do meu corpo te confessa sem pretensão - que o universo é quem nos orienta; que sem ouvir meu canto você assovia a minha canção. 

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Sobre margaridas e piscinas

Numa noite dessas acordei com frio e sem saber o que fazer. Não era frio de coberta, não - tava mais praquele frio da Margarida Friorenta, que só sossega com beijo, suspiro e cafuné. Fiquei pensando naquelas histórias de princesas, em como desde pequenas fomos ensinadas a esperar, a sermos escolhidas ao invés de escolher, a sofrermos caladas ao invés de procurar, de dizer, de ir à luta. Lutar por um amor é discriminado na nossa cultura - é sinal de fraqueza, de carência. Inconformada, leio essas certezas no rosto das pessoas e penso que é exatamente o contrário - ir atrás do que você quer com verdade dentro do peito é sinal de coragem, de força, de vontade de ser mais feliz. Se isso se aplica à sua vida profissional, acadêmica e até pessoal, por que diabos não seguir os mesmos passos na vida afetiva? Já ouvi algumas vozes sussurrarem a palavra "vulgar" ao ouvirem histórias de mulheres que se expuseram por amor, que colocaram as cartas na mesa, todas viradas pra cima, sem medo de perder o jogo, que amar e jogar são duas coisas diferentes demais, que sentimento é pra se trocar com a única ressalva do querer. Se a gente pensar em sinônimos pra palavra "vulgar", vai encontrar indecente, indelicado, ofensivo, de mal gosto: nenhum tem a ver com amor. Nessa noite em que acordei com frio e sem saber o que fazer, abri o computador e perguntei ao father google o significado da palavra "amor". Encontrei esse aqui: Amor é um sentimento de carinho e demonstrações de afeto que se desenvolve entre seres que possuem a capacidade de o demonstrar. Concordei. É necessário que a gente seja feito de mais do que carne e osso pra amar direito - tem também mel, algodão, chuva fina, sol da manhã, lua, música e mágica. Nunca me arrependi de chamar alguém pra dançar, mesmo quando os passos foram incompatíveis. Se a felicidade é a gente quem faz, esperar calada acaba não fazendo sentido algum. Queria que essa nova leva de seres humanos conhecesse as delícias da entrega, da constância, do querer bem e mais e muito a cada dia, do beijo no rosto que vem com um abraço quente, apertado, dos cinco minutos a mais antes de sair da cama, cabeça descansando sobre o peito que respira sossego, mão e mão, conversa baixinha que é pro corpo acordar sem pressa. A ressalva, como eu disse, é só uma: o querer de mão dupla. Ninguém precisa alimentar a alma com migalhas - pule de cabeça naquela piscina onde aquele cara que faz seu coração bater mergulha tranquilo... e espera poder nadar com você.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Príncipe

Como saber se a gente gosta mesmo de alguém? Tricky question. Você não gosta só porque a outra pessoa gosta de você, ou só porque ela é legal e tem as melhores intenções. Você até dispensa pessoas que estão dispostas a cuidarem de você, que te compreendem do jeito que você é, que só querem o seu bem. Você tenta criar conjuntos de regras na sua cabeça, faz desenhos e organogramas pra tentar definir do que é que você precisa. Você fica aflita até os 48 do segundo tempo pensando que gosta de alguém que não gosta de você. Good old orgulho ferido que vira amor no coração de quem não se curte. Passada essa fase, está na hora do checklist existencial. Bom, morno, morno não dá; o cara tem que me querer. Ele tem que me elogiar e fazer questão da minha companhia. Além disso seria interessante que ele fosse mais alto do que eu - aquela velha ideia de proteção. Outra coisa importante é que a pessoa tenha alguma perspectiva, que esteja em busca de evoluir, de ser alguém melhor. Coerência nas atitudes é fundamental, porque um cara que diz que busca um relacionamento sério, que não há nada melhor do que viver e amar e quer te levar pra um lugar reservado no segundo encontro, ah, esse ninguém merece. E assim você vai colhendo os caquinhos de todas essas experiências passadas, refletindo sobre esses esteriótipos que a vida a dois nos oferece, até entender que o amor é uma coisa que acontece. De repente. Inesperadamente. Em um lugar inusitado, de um jeito engraçado, que é pra lembrar e rir depois. Já ouviram dizer que o príncipe encantado mora ao lado? Pra que ele apareça, no entanto, você precisa acima de tudo... se conhecer. Saber quem você é pode ser a chave para que aquele mortal cheio de imperfeições dê de cara com a sua cara... e queira ficar ali só mais um minuto, só mais algumas horas, poucos dias, meses, tempo atemporal que dança ao ritmo da compatibilidade de gênios, da intensidade dos sorrisos, da harmonia pacífica que se instaura quando não há para onde fugir. Da viagem à praia ao fim de semana John e Yoko, nada cansa, nada pesa, nada é tão complicado que não possa ficar melhor só porque é simples. Saiba que para cada boba romântica sem muito jeito pra essas coisas vai ter um espectador que acha essa falta de destreza algo gracioso. Para cada capricorniana séria e preocupada em ser adulta há alguém que admira tais valores, que vibra com essa vontade, com essa força. Alguém pra passar a mão no seu cabelo e dizer Calma, você está indo bem. Calma, vai ficar tudo bem porque você quer, porque eu te quero bem demais. Calma - é por tudo que você representa que eu estou aqui.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Carta aberta ao meu analista

Pois é. Mais de um ano aos trancos e barrancos, querendo e não querendo caminhar até aquela porta. O tempo passou e dentro dele couberam quase uma meia dúzia de escapadelas. Como tudo na vida, no entanto, a dificuldade/fragilidade/necessidade me fez voltar ao elevador que dá pro corredor que leva à porta branca. Voltei sem saber o que esperar, pensando vagamente em acolhimento, em entendimento, em conforto ou alento. Os meses foram andando e me dei conta de que ir até aquele consultório representava uma espécie de punição, uma parte do meu dia em que eu pagava pelo meu próprio julgamento - e saía muito pior do que entrava. Fiz uma vez, duas, três, muitas. Será que isso está mesmo certo? Será que, além das minhas próprias cobranças pessoais, preciso tirar uma hora da minha semana pra me cobrar um pouco mais, dessa vez com qualquer tipo de embasamento? Vi esse comportamento se reproduzir em relacionamentos passados, futuros - pessoas que me queriam por perto desde que... Carcaça intacta, está na hora de reprogramar a máquina. Menos emotiva, mais segura, menos sincera, mais linha dura, menos dócil, mais perversa, menos generosa, mais política, menos aberta, mais vingativa. Por que é que você se entrega? Por que não se resguarda? Por que sorri se a vida está uma merda? Por que chorar se você pode começar tudo de novo, desde que... ? Esse toque lacaniano ferrou com a minha cabeça - me fez pensar em mim como um hamster dentro de uma bolinha que nunca vai mudar de lugar; me fez acreditar que quem me quisesse desde que... me faria um favor; me fez questionar tudo isso pra me questionar depois: será que você não está fugindo dos fatos? Será que está buscando as coisas certas? Será que estar sempre insatisfeito com você é um caminho de todo ruim? Será que encarar suas imperfeições com dureza não seria a chave pra um tipo de redenção? Não. Quero carinho, abraço, afeto que possa vir do meu coração para o meu corpo - quero rir de mim mesma, me achar bonita com qualquer cabelo, em qualquer espelho; quero sentir que sou cortejada, estimada e desejada por ser quem eu sou. Quero poder preparar um discurso pra secretária eletrônica e dar um pulo da cadeira quando ele atender o telefone fora de hora. Quero me embananar se do outro lado da linha aquela voz conhecida me chegar ao ouvido, e poder corar com um elogio ou um convite inesperado. Quero poder admirar-me dessas pequenas verdades sem explicação, medo ou culpa, porque perfeito é o que de perfeito não tem nada. Não desisti de evoluir nem de contar com a ajuda de alguém que faça questão de me conhecer. Só não acho que a palavra ajuda signifique sofrer ou se diminuir. Isso tudo é só pra dizer adeus - decidi que não desejo voltar mais.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Leali

Nessa noite sozinha, sem lua e sem estrela, caminhei mais uma vez para casa, resignada por meu próprio cansaço. Sonhava com pés descalços e brisa fresca antes de recolher-me à minha significância, porque dias que não cabem nos dias ressignificam a noção de privilégio, oprimem a de escolha. Descalça e despenteada, arrastei-me até o suco de uva que esperava encontrar na geladeira e acabei por parar os olhos em três vasos de violetas bronzeando-se à janela. Lembrei-me subitamente dos meus. Também eram três; também bronzeavam-se à janela, perfumavam minha alma. Acarinhava-os pela manhã, contava-lhes da minha vida e os sentia atentos a cada um dos meus devaneios. Certo dia, um deles parou de florir - os outros dois deram a acompanhar o malogro. Comecei a adoecer. Se me deixarem minhas doces amigas, como poderei aninhar-me novamente no vazio da minha solidão? Não, não, não. Voltei-me para meu pequeno jardim em súplica, pedindo a minhas florezinhas que lutassem - senão por elas, por mim -, que esse negócio de insistir é a alma do negócio quando tudo o que se quer é viver pra amar mais, pra amar de novo, pra amar somente, pra sentir o que se sente e sorrir de um jeito que traga paz. Já naquela ocasião chorar não cabia em meu relógio apertado como meu coração. As lágrimas, no entanto, choveram sem querer, sem saber que me limpavam o peito e davam ao meu jardim substância de sonho, de moça que quer ser menina, de pureza grata, desejo de ser mais, de crescer. E pouco a pouco elas nasceram; sorridentes floresceram sem pudor, sem traquejo, sem cerimônia ou refinamento. Com elas renasceu minha esperança. Por isso hoje, ao olhar para aquelas lindas mocinhas cor de violeta, meus olhos choraram um pouco mais - ao partir, fui-me embora sem olhar para trás; ainda hoje minhas amigas bronzeiam-se à janela da minha lembrança. 

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Sudoku

Fui apresentada ao Sudoku nesse fim de semana. O que posso dizer é que nada havia me ensinado mais sobre persistência e superação. Sempre bato nessa tecla em minhas aulas, quando vejo alunos desmotivados antes mesmo de tentarem descomplicar o que de complicado não tem nada. E lá vem o tal de "faça o que eu digo, não o que eu faço". O Sudoku é um jogo que começa inocente, mas que requer sua atenção e um pedaço da sua cabeça - a parte boa, aquela que funciona. Ainda que você demore, o importante é não desistir. Não desista. Não pare o jogo no meio - olhe de novo, só mais uma vez. Não vai demorar muito pra você achar aquele número que até pouco tempo atrás não estava lá. Nesse jogo, o ímpeto do impulso é seu maior inimigo. É preciso ter calma pra achar o caminho mais apropriado, mais coerente com a verdade dos fatos. "Não adianta fugir nem mentir pra si mesmo"; como uma onda no mar você deve prosseguir. Os obstáculos surgirão inevitavelmente, aos montes, só pra te fazer parar e pensar. É assim que se deixa as mazelas pra trás... que se evolui. Muitos de nós carregam todo o tipo de complexos, ainda que de forma inconsciente. Nesse contexto, é natural sentir-se desestimulado ao menor sinal de dificuldade. Mas você quer muito mais dessa vida, não é mesmo? Você quer um amor pra chamar de seu, quer sexo bom e carinho no cabelo de madrugada, quer uma casinha com a cara da sua nova família, com filho e cachorro e uma companheira admirável e grande admiradora. Você quer um trabalho do qual se orgulhe, quer contribuir para a sociedade de forma efetiva, quer fazer a diferença nesse mundo a começar pela forma como você vive. Você quer ser mais altruísta, mais presente em sua própria vida, mais verdadeiro com você mesmo, porque você sabe que essa é a chave pra você espalhar luz, paz e verdade - essa é a chave para a sua tranquilidade afetiva, psicológica, carnal e espiritual. Você sabe que não veio a esse mundo a passeio, que o dinheiro vem sempre que a gente sua a camisa, que quem madruga tem seu lugar ao sol. Você quer brilhar de dentro pra fora - só não tem a paciência de percorrer o caminho, de dar uma ré e começar a subir a ladeira mais uma vez depois de derrapar na terra. Aprendi que o Sudoku se faz a lápis, que é pra gente apagar e começar de novo se for necessário, quantas vezes quiser. Faço um convite a quem quiser se reinventar de forma consciente: que possamos usar nossos paradigmas sobre nós mesmos como ponto de partida e não poças de areia movediça. Sempre vai ter um cobertor de coisas boas pra cada noite fria, fora daquele lugar em que a gente pode ser melhor, sabe? Seu mundo será um lugar melhor sempre que você tentar outra vez.

PS: Essa pessoa fofa na foto é meu querido aluno (e Sudoku master) Nathan ;)

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

E eu que nada sei, que em nada acredita...

"Das duas nenhuma: ou ela estava doente ou amava em demasia.

- Demasia?

Modari rejeitou o conselho. Que o amor é como o mar: sendo infinito espera ainda em outra água se completar. Não abrando, gritou ela. E foi falar com seu homem que complacentou - amar-se-iam sempre, mas ela que deixasse na cabeceira o controlo remoto. Pelo menos durante o enquanto. Entre risos e lábios, se entrelaçaram. Pela primeira vez nessa noite Modari sentiu o morder da ternura. O sabor do beijo resvala entre lábio e dente, entre vida e morte. 
(...) 
Ele a tomou nos braços e a acarinhou, cedido, sedento. Os que beijam são sempre príncipes. No beijo todas são belas e adormecidas." (Mia Couto)