O carinho é uma coisa perigosa. Vira arma branca na mão de quem pode oferecer... e moeda de troca valiosa pra quem quer receber. É um paliativo pros que sofrem de solidão (e de quebra arranca sorrisinhos de todos os tipos daqui e dali). Já vi gente dar meia-volta e caminhar a passos largos na direção oposta por um pouco de carinho. Só um pouquinho... E como se não bastasse, a noção de carinho acabou que meio que se perdeu. Hoje em dia carinho é sexo, é um carro novo, uma lipo, um "e aí, comequitá?", uma linha cafajeste no whatzapp. Raros são aqueles que se dispõem a pôr a mão na massa. Mas vocês me conhecem: quando eu cismo com uma coisa, é difícil dar outras cores pra ela na minha cabeça. E eu cismei que carinho é algo que vem de dentro, de graça, quando se tem vontade. É mesmo, né? Só tem um detalhe: pra ele valer, meu coração tem que bater três vezes. Parece bobagem, mas é impressionante o que acontece quando ele bate. Moral da história: a gente dá é muita trela pro nosso coração...
Esse blog é destinado a compartilhar viagens literárias, e está aberto a seres humanos e afins... Divirtam-se!
sexta-feira, 27 de junho de 2014
quarta-feira, 25 de junho de 2014
Piscina térmica
Era uma quinta-feira. Já passava das 15 horas e eu procurava aflita uma vaga nas redondezas do consultório. Cheguei esbaforida à portaria; a zeladora sorriu um sorriso de solidariedade (faltou uma palavra melhor) e abriu o portãozinho de ferro para que eu pudesse passar. O elevador chegou logo. Oito andares depois, lá estava eu, em frente ao número 803. Diferente das experiências que me faziam pesar prós e contras, como tomar banho em água fria, pular de ponta na piscina, trocar de roupa no inverno ou nas férias, essa não trazia necessariamente aquele sentimento de "valeu a pena". Falar de mim, tocar nas minhas feridas mais íntimas, senti-las arder e por algum motivo não conseguir tirá-las de lá... nossa, isso pode ser muito martirizante. Carência, solidão, medo, tristeza, desespero, vazio, dúvida... Ei, Érika, tudo bem? Gulp! Nada dá mais medo do que enfrentar o desconhecido quando o desconhecido é você mesmo. O mobiliário não era exatamente acolhedor, mas talvez fosse essa a proposta - nada de relaxar demais: vamos direto ao ponto, for time changes the size of my pocket. O profissional tinha sempre um ar cansado difícil de explicar. Não era cansado do tipo can't stand it anymore; era mais um "você está pra gritar bingo há um ano, minha filha - presta mais atenção ao jogo pelamordideus!". Convencionalidades à parte, adentrei a saleta e busquei o sofá como de costume. Aquela coisa de deitar no divã me dava uma sensação de que eu era uma pobre coitada lamurienta - ainda que eu fosse, o estigma não me caía bem. Tirei os sapatos, cruzei as pernas e recomecei (sim! REcomecei) a listar minhas insatisfações, como a percorrer um caminho conhecido, um labirinto do qual, por algum motivo, eu não podia (ou não queria?) sair. Nadei meus 2000 metros rasos habituais naquela piscina térmica de desgostos e dilemas que vinham bem a calhar, quando o profissional saiu da sua cruzada de pernas passiva, trouxe o corpo pra frente, direcionou um olhar fuzilante ao meu par de olhos pseudoinocentes e disse: você já parou pra se perguntar o que é que você quer? O que você quer? Pergunta boba, pensei. Sabia que não precisava responder naquela hora, que ficar calada e parecer confusa era o esperado, que após 10 segundos no máximo ele diria Semana que vem? e se levantaria devagar pra eu ter tempo de pegar o dinheiro da seção na carteira. Aí então ele guardaria o dinheiro em algum lugar próximo sem alarde e, calmamente, se dirigiria para a porta e repetiria o dia e horário da próxima consulta enquanto apertaria a minha mão breve e cordialmente. Foi exatamente o que ele fez.
sábado, 14 de junho de 2014
Soubesse
Não me lembro de em qualquer tempo ter sido assolada por tantas perguntas. E se, mas como, por quê, será, quando é que, aonde... e o tal do amanhã, sem forma concreta, invade o meu hoje e me impede de viver como dizem que é melhor - com tranquilidade. Não adianta nada se preocupar, você vem logo me dizer. Mas a preocupação é como o amor - não tem muita razão de ser (a própria razão os jogaria pra escanteio anyway). Não é bom, não é saudável, não é possível... e lá estamos nós, apaixonados por aquele novo dilema, por aquele cara que acha que quis e sente que não quer mais. Vivo em um mundo que prega o altruísmo, a sinceridade, a força e a gentileza... tudo isso atrelado à supremacia dos dogmas da igreja, com o único objetivo de gerar a máxima culpa em quem falhar durante o percurso individual de engrandecimento. Nunca senti tanta culpa quanto no momento em que decidi me conhecer sem mas ou porquês. À medida em que as falhas iam surgindo, encabuladas e aflitas numa fila indiana a perder de vista, percebi que DEFINITIVAMENTE não somos preparados para aceitarmos nossas fraquezas. Se de um lado os best-sellers de autoajuda enchem os bolsos daqueles que fingem lidar melhor com suas tragédias pessoais, de outro a ideologia social de massa insiste em considerar a mediocridade um triunfo. Vidas de plástico ou vira-latas de vanguarda? Cheguei a um ponto em que não sei mais no que ou em quem eu acredito. Tanto fiz e você tanto fez que agora tanto faz... Vejo essas pessoas plugadas no myself-mode e sinto como se todo mundo estivesse na contramão de si mesmo... Desilusão ou insensatez? Recentemente tirei minha bicicleta velha da memória e fui percorrer com ela algumas ruas da vida. Fiquei tonta, aturdida... e entendi que essa coisa de ser livre e desimpedida é uma arte, é quase um dom, é tarefa árdua demais - coisa pra uma outra vez.
segunda-feira, 9 de junho de 2014
Just the way it is...
Well, you asked me if I'll forget my baby
I guess I will
Some day
I don't like it, but I guess things happen that way
You asked me if I'll get along
I guess I will
Some way
I don't like it, but I guess things happen that way
God gave me the girl to lean on
Then he put me on my own
Heaven help me be a man
and have the strings to stand alone
I don't like it, but I guess things happen that way
You asked me if I'll miss her kisses
I know I will
Every day
I don't like it, but I guess things happen that way
You asked me if I'll find another
I don't know
I can't say
I don't like it, but I guess things happen that way...
I guess I will
Some day
I don't like it, but I guess things happen that way
You asked me if I'll get along
I guess I will
Some way
I don't like it, but I guess things happen that way
God gave me the girl to lean on
Then he put me on my own
Heaven help me be a man
and have the strings to stand alone
I don't like it, but I guess things happen that way
You asked me if I'll miss her kisses
I know I will
Every day
I don't like it, but I guess things happen that way
You asked me if I'll find another
I don't know
I can't say
I don't like it, but I guess things happen that way...
segunda-feira, 2 de junho de 2014
Someday
Keep your heart somewhere safe
and make me a key
hide it in your left-side pocket
where no one else can see
and as you walk through life
it shall move by the sound of your heartbeat
and remind you of feelings
you might someday dare to live...
and make me a key
hide it in your left-side pocket
where no one else can see
and as you walk through life
it shall move by the sound of your heartbeat
and remind you of feelings
you might someday dare to live...
quarta-feira, 28 de maio de 2014
Rebirth
Meu renascer não depende de você ou dos planos que vieram daí ou daqui. Não tem tempo certo e não demanda uma morte física. É o resultado de um processo que culmina em muita dor, fraqueza, impotência diante do mal, necessidade de fuga que apaga as luzes de uma estrada que luta para se formar diante dos meus olhos, uma estrada construída pelo meu inconsciente bom e puro, pela minha fé, fé em mim mesma, em tudo de bom que eu carrego aqui dentro para mim e para todos os outros que cruzarem o meu caminho. Ainda prefiro ser o príncipe Míchkin ou o homem ridículo que acredita no amor e nas mais belas virtudes, mas a tristeza busca a todo custo entortar esse caminho reto. Não quero mais ser triste, ainda que me tenham dado um coração de poeta. Quero ter paz para merecer o afeto de alguém que caminha rumo à luz; quero ser forte para compartilhar dessa luz e ser feliz para fazer esse alguém feliz. Não dependente, não inseguro - só feliz mesmo, pleno e satisfeito com a relação, sentimento sincero inundando o peito de tranquilidade e alento. Não estou pronta para amar e ser amada como eu gostaria, mas hoje, nessa quarta-feira com jeito de sexta, como quero estar! Hoje deixo para trás o que reconheço que não me faz bem; hoje abro meu coração para receber o carinho de quem quer que eu me levante e lute pela paz do meu espírito, pelo bem e pelo amor que sempre hei de compartilhar. Hoje acordei disposta a curar cada uma das minhas feridas, e regá-las com pureza até que flores lindas brotem de cada pedaço de mim. Hoje quero estar forte para que os males do mundo passem longe, para que minha alma emane alegria e simplicidade. Hoje tracei uma rota para chegar mais perto do sol, para me banhar na luz divina. Sei que é para isso que vim a essa terra - tudo o que eu precisava era renascer, me dar à luz.
quinta-feira, 22 de maio de 2014
Passarinha
Era uma vez um menino que de tanto olhar pra cima ficou com os olhos da cor do céu. O motivo? Ele era fascinado por passarinhos. Quando pequeno, passava as tardes de domingo sentado em frente à lagoa, desenhando cada bichinho bicudo voador em seu ângulo mais favorável. Rapidamente derramava cores sobre a imagem em HB, olhos atentos a cada nuance. De tão curioso, o menino ficou esperto - mais esperto que qualquer outro menino da sua idade. Não conversava muito; preferia observar as conversas de gente que entendia das coisas. Às vezes perguntava como, às vezes por quê; cada resposta ia enchendo seu jarro de ideias, iluminando seus doces olhos azuis. O menino era puro e alimentava-se de verdades verdadeiras. À primeira mentira, encarou a cena com um sobressalto. Havia sido informado de que o pintinho que ganhou na feira viveria muito tempo. Depois vieram os peixinhos dourados, a tartaruga e o coelho de bolso. Ah, mas isso é história pra outra história. Voltemos ao menino e seu gosto por passarinhos. Dos desenhos vieram vontades de segui-los, ver onde viviam. Mas eles tinham asas, ora essa! Certamente moravam em um lugar limpo e tranquilo - era o que eu faria se tivesse um par de asas ligeiras, ele pensou. Foi uma certa manhã com o pai ao mercado central, e sentiu uma mistura de sentimentos que plantaram uma dúvida entre as suas sobrancelhas. Havia passarinhos de todas as cores e tamanhos, de várias belezas... mas estavam dentro de gaiolas. Todos eles. Esses aqui precisam ficar presos, disse o vendedor, eles não conseguem viver sozinhos. São dependentes, domesticáveis e não têm instinto caçador. São dóceis e só anseiam por comida e água fresca. O menino olhou para os muitos passarinhos dentro de uma só gaiola no meio de tantas outras. Esses eram pequenos e coloridos, com uma máscara branca ao redor dos olhos astutos. Cantavam sem parar e logo, logo começaram a incomodar o pai. Vamos, meu filho: escolha um passarinho desses e eu o darei a você de presente. Os olhos do menino percorreram a loja com ansiedade. Em poucos minutos ele teria seu próprio passarinho! Olhou de novo para a gaiola dos bichinhos cantadores e fixou-os em uma passarinha cor de rosa. Era frágil e delicada. Não se mexia muito e não cantava. Respirava com dificuldade no fundo da gaiola lotada, encolhida, como se não pertencesse àquele ambiente. Passava o bico sobre as penas rosadas com doçura e, achou o menino, uma certa classe. Quero essa - o menino contorceu o corpo até aproximar o dedo da passarinha, que o olhava quieta. Olha, essa não vale a pena - está com a asa machucada, disse o vendedor. Mas ele queria mesmo assim. O pai tentou dissuadi-lo: olha bem, meu filho, tem tanto passarinho aqui e você vai querer logo essa que está doente e não pode voar? Qual é a graça? Vou cuidar dela, foi só o que ele disse. O pai sabia que com aquele ali não se podia discutir - se era aquilo, era aquilo mesmo. O vendedor abriu a gaiola e o menino pediu para tirar a passarinha de lá (não queria vê-la nas mãos de mais ninguém). Quando sentiu a penugem macia entre suas mãos quentes e puras, entendeu que havia ali um laço indissolúvel: estava apaixonado por ela. Com cuidado, colocou-a dentro do ninho e foi conversando com sua menina por todo o caminho de casa. Pediu ao pai que construísse um viveiro do tamanho dele para que eles pudessem brincar. Comprou a melhor ração e inventou remédios naturais para curar sua asinha machucada. Ela agradecia com cantorias diárias e pousava em seu ombro pontualmente às oito horas da manhã. Os dias corriam felizes. Com o tempo, o menino foi crescendo e fazendo outros amigos. Acumularam-se as responsabilidades na escola e ele começou a gostar das coisas que a gente compra, das coisas que os outros têm. Em uma gaveta bonita do seu pensamento morava a passarinha. Numa manhã de sol quis ver a criaturinha rosada que mesmo de longe lhe trazia as mais belas alegrias. Como ela estava magra! Um maço de penas havia-lhe abandonado o corpo indefeso. Não podia voar; sua asa descansava imóvel sobre o dorso pequenino. Alguém que não tem nada a ver com esse conto poderia inclusive dizer que a passarinha chorava. O menino a envolveu com o calor de suas mãos macias, mas a passarinha não se aquecia. Com nuvens de súplica sobre os olhos de céu, ele tentou acolhê-la em seus braços - a passarinha não se aninhava. Vou cuidar de você, porque eu te amo - e foi assim que o menino beijou a passarinha e colocou-a no colo. Buscou as folhas e flores mais bonitas do jardim e fez um remédio perfumado. Acrescentou a ele uma lágrima sincera. A partir desse dia, o menino passou a visitar a passarinha diariamente. Fazia-lhe cafuné, contava pedaços da sua vida de menino e cuidava de suas feridas. Em pouco tempo a passarinha ficou linda e forte. Suas penas rosadas ganharam brilho e as asas recuperaram o movimento. Arriscou-se a batê-las sem muito jeito, mas logo passou a fazê-lo com graça e desenvoltura. Quis chamar o menino. Cantou, cantou até que ele veio. O menino mal podia acreditar no que via: a passarinha rodopiava no ar, subia e descia num ballet charmoso e coordenado. Como você está linda! E forte! Venha, quero mostrar a todos como você é bonita e elegante! O menino abriu a porta do viveiro e convidou a passarinha a sair. Ela não correspondeu - todo o seu corpo tremia em êxtase. De repente o menino entendeu tudo. Entrou no viveiro e sentou-se próximo à passarinha, que o fitava nervosamente. Quando te vi pela primeira vez, você era uma linda passarinha assustada com a asa ferida. Te trouxe para casa e cuidei de você com todo o amor até que ficasse boa. E sabia que um dia você aprenderia a bater as asas. Sabia que você iria voar para longe. Não me arrependo de um minuto sequer em sua companhia, mas entendo que você precisa ir. Adeus, passarinha. Te amarei por toda a minha vida. A passarinha aproximou-se do menino e acarinhou seu rosto pueril. Quis mergulhar naqueles olhos azuis e perder-se neles por toda a eternidade. Olhou para cima e soube que outras cores a esperavam. Sim, ela fez com a cabeça. Levaria aquele olhar dentro do peito por cada um dos seus dias. O menino lhe estendeu a mão. Ficou na ponta dos pés, esticou o braço e a levou até a porta do céu. De olhos fechados, a passarinha voou.
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