No dia primeiro de março de 2014, em meio à folia do carnaval, ocorreu-me uma questão importante: exatamente na mesma época do ano anterior, participava de um congresso latino-americano de linguística aplicada na Universidade de Brasília. Na ocasião, o senador Cristovam Buarque, convidado a abrir o evento, foi representado por seu assessor, que aproveitou a oportunidade para relatar algumas das propostas do senador para a educação brasileira. O assessor inclinou levemente a cabeça para iniciar a leitura das propostas. A primeira: passar o piso salarial do professor da rede básica de ensino para nove mil reais. A sala estava lotada: todos os presentes - inclusive eu - puseram-se a rir convulsivamente. Levou algum tempo para o público se recompor; qual não foi a surpresa geral ao constatarem, um a um, que o assessor levantara o olhar para a plateia e não esboçava qualquer sorriso. Acho que o que senti não foi exatamente constrangimento, mas pena - pena de quem se dispõe a lutar por algo em que a própria classe não acredita; pena da classe, que não tem qualquer incentivo para acreditar em melhoria alguma. Lembrei-me de quando era professora de inglês em um cursinho na zona sul e ouvia dos alunos de escolas particulares, durante as greves, que jamais ficariam sem aulas porque seus professores eram muito bem pagos - esse era o discurso dos próprios professores. Em outras palavras: foda-se os que não são. Que se engalfinhem por alguma migalha bem longe da minha rota. Pensei em nossa insatisfação com um bocado de coisas proporcionalmente à falta de informação da maioria - natural seria que minha palavra de ordem para o ano que começa fosse fundamentação. No dia primeiro de março, contudo, diante daquela irmandade de completos estranhos em prol da folia, pensei na importância da cumplicidade para trazer ao menos riqueza às relações. Alegria. Senso de pertencimento. Verdade. Desejo de estar junto. De mudar junto. De começar do zero se assim for. Quero que essa cumplicidade se estenda ao longo da minha existência, e que eu esteja sempre pronta para acolhê-la em toda a sua importância.
Esse blog é destinado a compartilhar viagens literárias, e está aberto a seres humanos e afins... Divirtam-se!
terça-feira, 4 de março de 2014
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
12 steps to the doorway
I don't know if it's just because I've been feeling so lonely lately, but I was listening to this song in the car this morning and I suddenly burst into tears... Not leaving is a promise we definitely cannot make, isn't it? I'm so very tired of hoping for things to be different... I feel like I needed to be somebody else when I realize I'm once again wanting what I don't (and maybe cannot) have. God and I know how much I've struggled to do what would be best for everyone. I've been hurt so bad that just the thought of hurting somebody else truly kills me. Unfortunately, however, I won't be able to cope with this part of my life for much longer. My heart is aching and I keep having to deal with the price I'll pay for each choice I decide to make. No one can save me from my own choices. Yesterday I heard something interesting: "the key to happiness is pessimism". In other words, when it comes to expecting, just keep it low, buddy. Well, putting things this way, I might have no money for a while, or maybe I'll leave my comfortable and predictable life for a world of sexism, lack of hope and (what would be a real punch in my stomach) no true love, companionship and commitment. At all. Such possibility consumes me to a point it's hard to breathe. I was born to live love fully, to feel alive and complete with that other person standing close to me. I'm sorry to say that I can't (and don't want to) change my life by myself. I know sharing a life is not exactly easy, but how come it has to be so hard? Does this mean I have to settle down and forget about how it would feel to change things for the better? I don't have the money to eat, pray and love somewhere else and I honestly can't tell if I'll have the guts to go through with this. The one thing I know is that life's damn hard, but we gotta live it. I gotta live it. No more lies, right? Even though, up to this point, I've made myself believe it was all true.
domingo, 23 de fevereiro de 2014
Carnavale
Devaneio com os pés no chão
titubeio em conspiração
te desejo
em plena luz do dia...
Puxo o arreio
paz e oração
bamboleio
sombra e canção
fosse um beijo
me acordaria...
Doce entrega
há de vir em condição
quem se nega perde
dia e hora de chegar
Velhos sonhos
vão subir nesse avião
Dois ponteiros
esperando a hora de mudar:
cozinhando a sorte em seu lugar...
titubeio em conspiração
te desejo
em plena luz do dia...
Puxo o arreio
paz e oração
bamboleio
sombra e canção
fosse um beijo
me acordaria...
Doce entrega
há de vir em condição
quem se nega perde
dia e hora de chegar
Velhos sonhos
vão subir nesse avião
Dois ponteiros
esperando a hora de mudar:
cozinhando a sorte em seu lugar...
Porcelain
É preciso muita coragem para que um homem se declare. Ainda mais quando esse homem é oficialmente orgulhoso. Ele prefere deixar aquela mulher que mudará toda a sua vida passar a descer do palanque. Sim, ele sabe que aquela ali não é qualquer uma; ele sabe também que, se lutasse por ela de verdade, sem pensar em muita coisa ela o seguiria. É claro que ele sabe. Mas esse é o problema do orgulho: quem é oficialmente orgulhoso não joga pra perder. O interessante é concluir que exatamente por esse motivo ele perde. Perde, mas não sofre. Há sempre um plano B - aquela ex da escola, a atual que jamais haverá de abalar sua zona de conforto, sempre a exaltar sua masculinidade... a que deu mole na festa do trabalho, na casa da prima, na viagem à praia. E naquele relacionamento que não chove nem molha, ele salta sorrateiro como um gato em direção à próxima aventura. Não quer nada sério, só aquele frio na barriga que já não sente com a namorada de muito tempo ou a de pouca conexão. Aí ele conhece você. Éééééééé, ele pensa: estou oficialmente na dessa menina. Segue-se a isso um Puta merda!; atordoado, ele resolve estragar tudo com um comentário fora de hora ou uma das suas piores tentativas de sedução. Ela entende e decide estragar a sua festa - ri do seu palavreado, aceita a sua proposta. Trancado no quarto, ele faz que não com a cabeça, bate a mão na testa. E assim ele está oficialmente encrencado, até pedir baixinho que sua falta de palavras nade pra além-mar e reflita uma resposta que nada de bom vem a dizer. Devagar, ainda que ela espere acordada por uma última palavra, a luz perde a chama e se apaga; a memória daqueles olhos castanhos finalmente abandona-lhe o corpo cansado... lança-se em uma chuva de novas esperanças pelas cores do amanhecer.
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
Apprenticeship
Oggi sono un giorno più vicina a un vecchio sogno: insegnare l'inglese e anche il portoghese alle persone che, come me, vogliono fare della educazione brasiliana qualche cosa di più bello, di più rilevante. Il mio percorso è cominciato tanto tempo fa, ma questa è la magia di essere una professoressa: ogni giorno c'è un nuovo inizio. Ci sono sempre nuove persone in classe, piene delle più diverse aspettative. Io invece non aspetto niente - solo provo a credere che il sole cambierà il colore del mio viso semplicemente perché fa troppo caldo qui. Non c'è nessun mistero: voglio fare del bene, dunque ce la farò. Ho imparato con i migliori maestri - quelli che sognano di mattina e portano con sé un sacco di dubbi a casa quando arriva la notte.
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
Away with the fairest
Quando você tiver a minha idade, vai achar que era linda dez anos atrás. Vai pensar que a cor do seu cabelo combinava perfeitamente com o tom da sua pele; vai lembrar que exercitava o corpo sem perceber, e que ia vivendo um dia depois do outro, um namorado depois do outro, sem temer o tique-taque do relógio. Quando você chegar onde eu cheguei, vai sentir um quê de nostalgia ao ver fotos da galera, ao passar por lugares que te conheceram muito mais leve, ao acaso, pencas de ideias a balançar-lhe os cabelos molhados sem reparador de pontas ou leave-in. Pode ser que você esteja solteira, caçando o gato porque o cão já saiu de linha - vale tudo pra chamar alguém de amor ou xuxu no facebook. Pela casa, post-its com dietas gluten-free, horários dos cremes, pílulas de colágeno, doses de chá verde, sessões de carboxi, telefone da analista e do personal. Pode ser que esteja casada, correndo atrás do prejuízo com as mesmas receitas de juventude, varrendo a sujeira conjugal para debaixo do tapete ou montando clubes do livro para discutir o que fazer quando há tanta coisa errada no seu relacionamento, carta do mico a queimar-lhe a mão esquerda, aquela pergunta roçando-lhe a garganta ao encontrar encabuladamente seus olhos no espelho: "E agora, José?". Pode ser que tenha dado um basta nessa tragédia anunciada e componha agora o time das separadas. Provavelmente você integra nesse momento uma das seguintes categorias: as que acreditam em alma gêmea caindo de paraquedas na sua sala de aula, as que querem mais é fazer paracadá na vã e as que limitaram o "atirar pra todo lado" ao campo profissional. Ainda que eu acredite piamente que, quando você tiver a minha idade, vestidos justos, curtos, decotados, peitos à mostra e fotos com v e beijinho já sejam carta fora do baralho, suas escolhas jamais me dirão respeito. Só queria que você pensasse que foram as suas pernas que te trouxeram até onde você está, e não o coração, a cabeça ou o dinheiro do seu pai/marido, como você teima em concluir tantas vezes. Essa caminhada pode ser bem mais física do que se imagina - é cansativa, e de tão cansada a gente fica mais forte, e de tão forte a gente acredita mais na gente, e acreditando a gente consegue se ver bem mais bonita e iluminada do que quando começou todo o processo. The point being: se depois de andar tanto você ainda achar que precisa ter vinte anos outra vez, tome um Dreher. Ou pegue uma carona com o Raul sem lenço e sem documento: há muita gente nesse mundo querendo que você tente outra vez.
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
Nike Air Max
- Ela disse não. Sua mãe, ela disse não. Sinto muito.
Ainda hoje, ao me lembrar disso, dói o corpo todo. Eu disse que não seria assim, que não seria fácil. Não havia culpados agora. Vagarosamente e sem conseguir esconder o peso da vergonha que se apossava do meu corpo mirrado, sentei-me no pouf da loja e comecei a desamarrar, primeiro, o pé esquerdo. Ao redor, quatro estranhos me olhavam com 50% de decepção misturados a 50% de dó. Ai, dó não... Tudo, menos dó, eu pensava enquanto descalçava com cuidado meus pés inexperientes. Tentei esboçar um sorriso a la tudo bem, e o que se seguiu a esse momento virou cinza não lançada no mar; pedaços de histórias cruzadas que acham que ensinam, que creem na redenção de pés calejados como os meus, os seus ou os de alguém que talvez conheçamos. A singeleza desse tipo de lembrança se traduz na claridade que emana de sentimentos sinceros. Em meio à penumbra, tive pena da menina rica que havia provado um modelo idêntico ao meu lado e agora levava para casa o presente que eu tão avidamente quisera receber - tive pena ao vê-la triste por mim. Honestamente não sei se conseguiria, mesmo hoje, demonstrar tamanha solidariedade. Se eu merecia um não? A pergunta é, na verdade, se alguém, em qualquer tempo, me ensinaria a lidar com ele. Na dúvida, a vida assume seu papel de mãe dos órfãos de espírito e cria uma espécie de roleta russa auto-explicativa sem trégua, para que só os espertos conheçam os benefícios de se puxar o gatilho. Questionei-me inesgotavelmente sobre a real necessidade dessa memória, até descobrir que havia atrelado a ela toda a minha possibilidade de merecimento, toda a minha urgência por prazeres que, de tão momentâneos, excedessem os meus sentidos - pequenas e escandalosas doses de luxúria a enfeitar minha estante, a lembrar-me que sim, I'm more than ordinary. Sim, I'm good enough at last.
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