Ela saiu às 5 da tarde de uma quarta-feira qualquer. Levava consigo doses de coragem espalhadas na mala, na mala uma confusão de coisas das quais desejava não precisar mais. Simples não era; nada o seria, bradava o coração louco por uma resposta. As pernas se moviam confusas, sem certeza iniciaram uma rota que haveria de compensar a dormência dos pés e das mãos. Parou para sentir sua presença de repente - as bochechas ardiam-lhe como balões a gás. Espasmos involuntários a despertaram do transe de poucos em poucos minutos. Então isso é decidir... Riu de si para si um riso sem alegria ao constatar que o corpo a abandonava. No alto da torre a cabeça funcionava sozinha.
Esse blog é destinado a compartilhar viagens literárias, e está aberto a seres humanos e afins... Divirtam-se!
quarta-feira, 30 de julho de 2014
quinta-feira, 24 de julho de 2014
Partilha
Te encontrei no meio de uma papelada sem fim; sob os olhos chovia fino. Já carregava a sensação há algum tempo, sem saber se ela crescia ou só se alastrava, sem previsão de trégua. E eis que no meio de tantas outras letras e palavras e frases e tramas inteiras, você me chamou a atenção pelo nome em cima daquele montinho de coisas escritas: Partilha. Tomei seu corpinho amassado nas mãos trêmulas e me ocorreu um bocado de ideias, todas tristes. Renascer é triste porque temos que morrer primeiro e morrer, ah, morrer é triste demais, mas morrer em vida, nossa... dói. De alguma forma relacionei a partilha a essa separação dentro de nós que por motivos incertos nos é imposta - por nós mesmos. É como divorciar-se de um pedaço seu, e fazer um esforço para que a decisão seja consensual, para que todas as partes possam dizer amém a essa espécie de morte de uma para a outra. A partilha me lembrou o The road not taken e o orgulho que ostentamos por nossas escolhas. Ou isso ou a paranoia da grama do vizinho (e convenhamos que de paranoia o inferno tá cheio). Tomei seu corpinho amassado nas mãos trêmulas e me ocorreu um bocado de ideias, todas tristes. Entendo hoje que a felicidade se compra a prestação, com os mesmos pesos e medidas de um financiamento imobiliário. É um investimento em uma necessidade básica, suado, a longo prazo, com pagamentos a perder de vista e benefícios para quem for capaz de dar mais. Cada um faz o que pode e o mercado acompanha, e a vida segue, e a gente vai caminhando devagar e desejando sempre um pouco mais de compreensão, de compaixão, de carinho e gentileza, de entrega, de uma mão segurando a sua quando a chuva passar e seu corpo estiver preparado pra rir desse e daquele jeito, pra contar outras histórias e abraçar aquelas que sem cerimônia lhe afagarem os ouvidos. Preferi deixar o que você ia me dizer para um momento mais calmo, e pedi secretamente que esse momento nunca existisse. Porque dói e já doeu um tanto; e eu ainda agora às voltas com os pesos e medidas da vida... Hoje bateu dona curiosidade à porta e me perguntei por onde você andaria. No fundo de uma gaveta escura, dentro de uma caixa perfumada, nas garras de uma vassoura aborrecida? Com fé há de ter com você uma moça boa e despreocupada, que chama de bonito tudo o que é triste e trata com a maior doçura as coisas do coração.
segunda-feira, 30 de junho de 2014
On the road
Destino: Brasília. Expectativa: well, well, well... Visitas anteriores: mais que duas, menos que dez - contextos diversos. Finalidade: visitar a família. Finalidade semi-secreta: sair da minha vida e levar o corpo junto pra passear. Primeiro passo: comprar a passagem (créditos à minha amiga Marina, que mudou a minha vida com esse lema). Planejamento: my plan's no plan, Sam.
E foi assim que eu resolvi deixar a copa e tudo mais pra lá e passar quase um mês em Brasília. Meu primo e minha tia sempre convidavam, o tempo nunca deixava... e eis que eu resolvi - talvez pela primeira vez em sei lá quantos anos - matar meu tempo no peito, segurá-lo com as suas mãos e falar firme ao seu ouvido "campeão, agora quem manda sou eu". Nesse mesmo dia comprei a passagem; quase um mês depois, plantava-me à porta de casa com a velha malinha vermelha em punho; na outra mão, o telefone antenado ao Easy taxi. Catei meu Kerouac 3 em 1 e fui ao encontro de uma bela manhã cinzenta, sem saber ao certo o que esperar de meus próximos dias.
O trajeto foi solitário, saudável. Pude desfrutar da minha própria companhia pra variar. Sentada à janela, pensei nos motivos pelos quais algumas pessoas tinham medo de voar. Era uma coisa que eu realmente não conseguia entender. Sempre achei incrível ver aquele pássaro gigante cheio de gente correr pista afora até levantar vôo. Era um momento dos mais bonitos. A cidade ia aos poucos desaparecendo e dando lugar a outras cidades, que se estendiam em fileiras de luzes por entre as montanhas e os lagos, ao longo de matas e pradarias. Vinha-me à mente a extensão do meu país, com seus palácios e casebres espremidos no meio de tanta gente. Ri sozinha ao pensar nos colombianos que assaltaram pedestres em Belo Horizonte (pessoal, por favor parem de roubar nossos empregos) e concluí com certa tranquilidade que espaço, diversão e surpresa não faltariam aos visitantes de plantão.
Voltei a confabular sobre a questão de espaço ao pisar em Brasília. Puta merda - quanto espaço! Joguei as malas no carro da minha tia e fui comendo a cidade com os olhos. Gramados a perder de vista, castigados pelo sol e pelo tempo seco. Grama que não acabava mais; grama inabitada sem ser virgem... natureza que não tem cara de natureza. Mas o espaço entre as ruas, entre os prédios, entre os blocos trazia conforto, e o verde aumentava a sensação de liberdade. Vim a entender mais tarde o espaço entre as pessoas com um certo alívio. Em Brasília arranha-céus não são permitidos - hooray! Dá pra ver o céu de onde você estiver. Essa pequena descoberta me encheu de alegria, e passei muitos dias testando minha nova teoria. Faz bem pra alma sair de casa com qualquer roupa, pra qualquer lugar, sentindo o céu sobre a cabeça sem esperar nada de ninguém ou lugar algum, sem que esperem nada de você. Ainda que porventura queiram saber quem você é, não faz diferença - você é só um forasteiro, alguém que tem um certo orgulho de não pertencer a esse novo lugar e nem ao lugar de onde saiu. Você é o que vê quando olha no espelho - alguém prestes a se reinventar, do jeito que for e sob qualquer circunstância.
Comecei a ler meu On the road em um banco de praça. Sim, passei muito tempo sozinha - a única pessoa de férias na cidade era eu. Essa é outra coisa muito legal sobre Brasília - você pode sair do apartamento e escolher qualquer rota, mas não demora muito até o próximo bar, banco, parque, salão. Tudo igual; tudo diferente. Não importava o que iria encontrar - decidi que meu livro caminharia comigo por cada uma daquelas ruas carentes de calor humano; em novas esquinas, travávamos as mais fascinantes conversações. Diferente de Sal Paradise, eu sorvia minha nova realidade com prazer e cautela - queria me curar, não me perder. Sentia os lábios queimarem ao sol e os cobria de água e óleo. Pescava minhas vontades pela boca com um cartão de débito - há muito não queria depender de ninguém. Sentada na grama de uma praça próxima, assistia tranquila ao vai e vem fluorescente dos corredores, suando a camisa em qualquer tempo com seu foco costumeiro. A saga de Kerouac ia mudando de cor sob os meus olhos, e eu só pensava que ele devia ter lido Dostoiévski na adolescência - e que Fiódor deveria ter escrito em suas capas "não tente isso em casa" como sinal de advertência.
sexta-feira, 27 de junho de 2014
Ai de mim que sou assim...
"I know (I know) you belong
To somebody new
But tonight
You belong to me
Although (although) we're apart
You are a part of my heart
But tonight
You belong to me
Wait down by the stream
How sweet it will seem
Once more just to dream in
The moonlight
My honey I know
With the dawn
That you will be gone
But tonight
You belong to me
But tonight
You belong
To me"
https://www.youtube.com/watch?v=OUStIV3NUeo
To somebody new
But tonight
You belong to me
Although (although) we're apart
You are a part of my heart
But tonight
You belong to me
Wait down by the stream
How sweet it will seem
Once more just to dream in
The moonlight
My honey I know
With the dawn
That you will be gone
But tonight
You belong to me
But tonight
You belong
To me"
https://www.youtube.com/watch?v=OUStIV3NUeo
Times they are-a-changing
"Garotas e rapazes da América têm curtido momentos realmente tristes quando estão juntos; a artificialidade os força a se submeterem imediatamente ao sexo, sem os devidos diálogos preliminares. Não me refiro a galanteios - mas sim um profundo diálogo de almas, porque a vida é sagrada e cada momento é precioso" (Kerouac, On the road, 1951).
Cardiopatia
O carinho é uma coisa perigosa. Vira arma branca na mão de quem pode oferecer... e moeda de troca valiosa pra quem quer receber. É um paliativo pros que sofrem de solidão (e de quebra arranca sorrisinhos de todos os tipos daqui e dali). Já vi gente dar meia-volta e caminhar a passos largos na direção oposta por um pouco de carinho. Só um pouquinho... E como se não bastasse, a noção de carinho acabou que meio que se perdeu. Hoje em dia carinho é sexo, é um carro novo, uma lipo, um "e aí, comequitá?", uma linha cafajeste no whatzapp. Raros são aqueles que se dispõem a pôr a mão na massa. Mas vocês me conhecem: quando eu cismo com uma coisa, é difícil dar outras cores pra ela na minha cabeça. E eu cismei que carinho é algo que vem de dentro, de graça, quando se tem vontade. É mesmo, né? Só tem um detalhe: pra ele valer, meu coração tem que bater três vezes. Parece bobagem, mas é impressionante o que acontece quando ele bate. Moral da história: a gente dá é muita trela pro nosso coração...
quarta-feira, 25 de junho de 2014
Piscina térmica
Era uma quinta-feira. Já passava das 15 horas e eu procurava aflita uma vaga nas redondezas do consultório. Cheguei esbaforida à portaria; a zeladora sorriu um sorriso de solidariedade (faltou uma palavra melhor) e abriu o portãozinho de ferro para que eu pudesse passar. O elevador chegou logo. Oito andares depois, lá estava eu, em frente ao número 803. Diferente das experiências que me faziam pesar prós e contras, como tomar banho em água fria, pular de ponta na piscina, trocar de roupa no inverno ou nas férias, essa não trazia necessariamente aquele sentimento de "valeu a pena". Falar de mim, tocar nas minhas feridas mais íntimas, senti-las arder e por algum motivo não conseguir tirá-las de lá... nossa, isso pode ser muito martirizante. Carência, solidão, medo, tristeza, desespero, vazio, dúvida... Ei, Érika, tudo bem? Gulp! Nada dá mais medo do que enfrentar o desconhecido quando o desconhecido é você mesmo. O mobiliário não era exatamente acolhedor, mas talvez fosse essa a proposta - nada de relaxar demais: vamos direto ao ponto, for time changes the size of my pocket. O profissional tinha sempre um ar cansado difícil de explicar. Não era cansado do tipo can't stand it anymore; era mais um "você está pra gritar bingo há um ano, minha filha - presta mais atenção ao jogo pelamordideus!". Convencionalidades à parte, adentrei a saleta e busquei o sofá como de costume. Aquela coisa de deitar no divã me dava uma sensação de que eu era uma pobre coitada lamurienta - ainda que eu fosse, o estigma não me caía bem. Tirei os sapatos, cruzei as pernas e recomecei (sim! REcomecei) a listar minhas insatisfações, como a percorrer um caminho conhecido, um labirinto do qual, por algum motivo, eu não podia (ou não queria?) sair. Nadei meus 2000 metros rasos habituais naquela piscina térmica de desgostos e dilemas que vinham bem a calhar, quando o profissional saiu da sua cruzada de pernas passiva, trouxe o corpo pra frente, direcionou um olhar fuzilante ao meu par de olhos pseudoinocentes e disse: você já parou pra se perguntar o que é que você quer? O que você quer? Pergunta boba, pensei. Sabia que não precisava responder naquela hora, que ficar calada e parecer confusa era o esperado, que após 10 segundos no máximo ele diria Semana que vem? e se levantaria devagar pra eu ter tempo de pegar o dinheiro da seção na carteira. Aí então ele guardaria o dinheiro em algum lugar próximo sem alarde e, calmamente, se dirigiria para a porta e repetiria o dia e horário da próxima consulta enquanto apertaria a minha mão breve e cordialmente. Foi exatamente o que ele fez.
Assinar:
Postagens (Atom)