quinta-feira, 31 de março de 2011

Peter Pan

Deitado na areia quente da praia. Era assim que eu estava quando vi aquele pedaço de mal caminho. Cabelo curto balançando ao vento, biquíni meio anos setenta, um corpo de dar água na boca. Meus sensores acusaram na hora: era amor à primeira vista. Digo isso porque meu coração foi a duzentos por hora com aquele jeitinho dela de chutar a água. E o sorriso? Não havia nada igual... Ela tinha uma covinha do lado direito e ria sozinha ao pensar em qualquer coisa engraçada. Estava  distraída, ouvindo música, curtindo a solidão dos seres mágicos à beira do mar. Tinha olhos doces, e suas mãos entregavam uma vida de possíveis pequenos luxos - unhas feitas, dedos finos como os de uma pianista. Ela poderia seguramente ser uma professora, poeta, cantora de músicas que se canta baixinho, ao pé do ouvido. Ela poderia ser qualquer coisa que quisesse, mas naquele momento era somente a garota mais bonita que já me  havia aparecido; não me ocorria outra coisa senão olhar pra ela. Era isso - iria ficar ali pelo tempo que fosse, só para vê-la ir e vir.

Não demorou muito para que um sujeito grandalhão, meio desengonçado e consideravelmente acima do peso se aproximasse. Sentou-se ao seu lado com certa intimidade, e percebi que toda ela murchou de repente. Tirou os fones de ouvido e pôs-se a olhar o mar, absorta em seus próprios pensamentos. O sujeito falava muito, gesticulava bastante, ao que ela não mostrava sinal algum de descrença, mágoa ou contentamento. Senti que ela queria apenas ficar ali por alguns instantes mais, ouvindo o que as ondas iriam dizer. Talvez elas dissessem que aquela garota bonita deveria olhar para trás e me ver, que seus olhos doces deveriam encontrar os meus; depois, vai saber... 

Como num conto de fadas ela olhou para trás, e me viu boquiaberto a encará-la sem querer, sem poder, sem saber se era certo. Quando ela se levantou, senti um aperto no peito, e por um segundo pensei em erguer-me num salto e correr para bem longe - já era tarde. Com o frescor da juventude a embalar-lhe o passo, ela aproximou-se devagar. Antes que dissesse alguma coisa, decidi começar:

Você é a mulher mais bonita que eu já vi e eu quero me casar com você.

Ela me olhou com surpresa antes de me olhar com ternura. Logo respondeu:

Ah, que gracinha... Fala isso praquele cara ali, porque ele já se casou comigo e não parece muito satisfeito, não. Mas acho que se você pegar a bola de tênis que está na boca do seu cachorro e me entregar, ele vai ficar bem mais feliz.

Ela afagou meus cabelos e despediu-se com o mais belo sorriso.  Como é que pode um camarada com uma mulher daquelas pensando em bola de tênis? Naquele momento, soube que a vida adulta me levaria a dois caminhos - seria o rei da rua... ou mais um ser humano patético a integrar o tenebroso universo masculino. Decidi voltar ao video game e não pensar mais nisso.


Peter Pan

Deitado na areia quente da praia. Era assim que eu estava quando vi aquele pedaço de mal caminho. Cabelo curto balançando ao vento, biquíni meio anos setenta, um corpo de dar água na boca. Meus sensores acusaram na hora: era amor à primeira vista. Digo isso porque meu coração foi a duzentos por hora com aquele jeitinho dela de chutar a água. E o sorriso? Não havia nada igual... Ela tinha uma covinha do lado direito e ria sozinha ao pensar em qualquer coisa engraçada. Estava  distraída, ouvindo música, curtindo a solidão dos seres mágicos à beira do mar. Tinha olhos doces, e suas mãos entregavam uma vida de possíveis pequenos luxos - unhas feitas, dedos finos como os de uma pianista. Ela poderia seguramente ser uma professora, poeta, cantora de músicas que se canta baixinho, ao pé do ouvido. Ela poderia ser qualquer coisa que quisesse, mas naquele momento era somente a garota mais bonita que já me  havia aparecido; não me ocorria outra coisa senão olhar pra ela. Era isso - iria ficar ali pelo tempo que fosse, só para vê-la ir e vir.

Não demorou muito para que um sujeito grandalhão, meio desengonçado e consideravelmente acima do peso se aproximasse. Sentou-se ao seu lado com certa intimidade, e percebi que toda ela murchou de repente. Tirou os fones de ouvido e pôs-se a olhar o mar, absorta em seus próprios pensamentos. O sujeito falava muito, gesticulava bastante, ao que ela não mostrava sinal algum de descrença, mágoa ou contentamento. Senti que ela queria apenas ficar ali por alguns instantes mais, ouvindo o que as ondas iriam dizer. Talvez elas dissessem que aquela garota bonita deveria olhar para trás e me ver, que seus olhos doces deveriam encontrar os meus; depois, vai saber... 

Como num conto de fadas ela olhou para trás, e me viu boquiaberto a encará-la sem querer, sem poder, sem saber se era certo. Quando ela se levantou, senti um aperto no peito, e por um segundo pensei em erguer-me num salto e correr para bem longe - já era tarde. Com o frescor da juventude a embalar-lhe o passo, ela aproximou-se devagar. Antes que dissesse alguma coisa, decidi começar:

Você é a mulher mais bonita que eu já vi e eu quero me casar com você.

Ela me olhou com surpresa antes de me olhar com ternura. Logo respondeu:

Ah, que gracinha... Fala isso praquele cara ali, porque ele já se casou comigo e não parece muito satisfeito, não. Mas acho que se você pegar a bola de tênis que está na boca do seu cachorro e me entregar, ele vai ficar bem mais feliz.

Ela afagou meus cabelos e despediu-se com o mais belo sorriso.  Como é que pode um camarada com uma mulher daquelas pensando em bola de tênis? Naquele momento, soube que a vida adulta me levaria a dois caminhos - seria o rei da rua... ou mais um ser humano patético a integrar o tenebroso universo masculino. Decidi voltar ao video game e não pensar mais nisso.


segunda-feira, 28 de março de 2011

Novo testamento

Antes eu achava que Deus sempre sabia o que estava fazendo. Que mesmo com esse mar de gente ele estava também de olho em você. Você, aquela pessoinha emputecida que acha que tamanho não é documento mas adora gente grande. Você, que quer falar pra todo mundo tudo o que se passa, passaria ou passou pela sua cabeça nos últimos trinta e poucos anos. Você, que à primeira oportunidade de lazer, sai pela rua como um cachorro doido que só passeia uma vez por mês, e quer interagir com todo mundo que aparece. Você tem tanta necessidade de extravasar que acaba se perdendo por aí, pisando nos próprios pés, arrumando calos garganta afora. Você fala em verborreia - eu chamo isso de overdose do discurso.Você fala tanto, mas tanto, mas tanto que um dia tem que parar de falar por uma questão patológica - aquela voz que enche os lugares e modifica as pessoas... acabou. Como consequência, você é obrigado a passar um certo tempinho olhando pra si, ouvindo. Se alguém se convenceu de que o que hoje te impede de falar é o tamanho dos sapos que  você engole todo dia, eu te digo que o que eu vejo é a mão de alguém a te tampar a boca, a te olhar nos olhos, a te dizer "não; agora não; ainda não; de novo não - entenda". Você fala em patologias - eu penso em intervenção divina. Numa tarde ensolarada de fevereiro,  com vinte e poucos anos e dez reais no bolso, fumei tantos cigarros de uma vez que o dia virou noite de repente. Nunca mais consegui sequer segurar outro - nem pro amigo amarrar o sapato. Pela primeira vez foi-me tirada a voz, e pude ouvir com clareza as batidas do meu coração, a cadência do meu respirar, o barulho da rua, vozes de tanta gente ecoando pela minha cabeça, uma disputa emocionante de sentimentos a inundar-me o peito. Religião e religiosidade à parte, antes eu achava que Deus sempre sabia o que estava fazendo. Agora eu tenho certeza.

Novo testamento

Antes eu achava que Deus sempre sabia o que estava fazendo. Que mesmo com esse mar de gente ele estava também de olho em você. Você, aquela pessoinha emputecida que acha que tamanho não é documento mas adora gente grande. Você, que quer falar pra todo mundo tudo o que se passa, passaria ou passou pela sua cabeça nos últimos trinta e poucos anos. Você, que à primeira oportunidade de lazer, sai pela rua como um cachorro doido que só passeia uma vez por mês, e quer interagir com todo mundo que aparece. Você tem tanta necessidade de extravasar que acaba se perdendo por aí, pisando nos próprios pés, arrumando calos garganta afora. Você fala em verborreia - eu chamo isso de overdose do discurso.Você fala tanto, mas tanto, mas tanto que um dia tem que parar de falar por uma questão patológica - aquela voz que enche os lugares e modifica as pessoas... acabou. Como consequência, você é obrigado a passar um certo tempinho olhando pra si, ouvindo. Se alguém se convenceu de que o que hoje te impede de falar é o tamanho dos sapos que  você engole todo dia, eu te digo que o que eu vejo é a mão de alguém a te tampar a boca, a te olhar nos olhos, a te dizer "não; agora não; ainda não; de novo não - entenda". Você fala em patologias - eu penso em intervenção divina. Numa tarde ensolarada de fevereiro,  com vinte e poucos anos e dez reais no bolso, fumei tantos cigarros de uma vez que o dia virou noite de repente. Nunca mais consegui sequer segurar outro - nem pro amigo amarrar o sapato. Pela primeira vez foi-me tirada a voz, e pude ouvir com clareza as batidas do meu coração, a cadência do meu respirar, o barulho da rua, vozes de tanta gente ecoando pela minha cabeça, uma disputa emocionante de sentimentos a inundar-me o peito. Religião e religiosidade à parte, antes eu achava que Deus sempre sabia o que estava fazendo. Agora eu tenho certeza.

domingo, 27 de março de 2011

Oh captain, my captain

No dia de hoje, diga não à fuga. Não fuja de você, de mim ou dos problemas que têm que existir para que a vida faça algum sentido. Não fuja da raia, da praia, da onda - encare o que não vai bem no fundo dos olhos, com um suspiro franco de quem procura pela resposta certa. Hoje tente não falar nem mais nem menos do que o necessário para um bom entendedor, e tire do seu vocabulário um tal de "doa a quem doer". Afinal, sempre dói mais em você...

Oh captain, my captain

No dia de hoje, diga não à fuga. Não fuja de você, de mim ou dos problemas que têm que existir para que a vida faça algum sentido. Não fuja da raia, da praia, da onda - encare o que não vai bem no fundo dos olhos, com um suspiro franco de quem procura pela resposta certa. Hoje tente não falar nem mais nem menos do que o necessário para um bom entendedor, e tire do seu vocabulário um tal de "doa a quem doer". Afinal, sempre dói mais em você...

sexta-feira, 25 de março de 2011

Handwriting

Dentre o preto
e o branco
escolho
o amarelo
mesmo que o verde
me chame a atenção
e que o azul
seja sinal
de liberdade.
Dentre o certo
e o errado
bebo o incômodo,
como o complicado
;
pros sonhos tortos
de todo dia
há sempre
uma canção
plena de dor
dúvida
e mocidade.
Se é breve na vida
que fique;
vou seguindo
com passo
arrastado
os seus passos
rabiscam
meu peito
 de aço:
escrevem
"saudade".