Julio nasceu assim: pobre, puto e com nome de imperador. Ferrou a vida aos doze, quando decidiu que seria artista de televisão. Fez o que lhe foi possível com muita maromba e pouca instrução: foi bailarino, amante profissional e personal trainer antes de a sorte lhe sorrir: havia sido contratado como gerente operacional de uma campanha política assaz promissora - a ponte certeira entre ele e a multidão. Deu o sangue que nenhum político jamais pensou em dar, mobilizou mundos e fundos do seu universo particular por um ideal (além da grana) desconhecido. Seu candidato tão aclamado, tão querido, perdeu a eleição, e consequentemente ele simplesmente não recebeu um centavo pelos muitos dias de suor. Rebelou-se e foi para a Praça Sete mostrar ao mundo que não tinha vindo a passeio. Levava na mão uma tocha de fogo; na bolsa restos de material da campanha, a Biblia e um discurso sobre os onze mandamentos. Lembrou-se do pai, da velha história que insistia em contar: primeiro ele explicava cada um dos dez mandamentos em detalhe, para logo depois anunciar o décimo primeiro - seja um político que você pode mandar os outros dez pras cucuias! Seu José dizia isso e ria-se da pilhéria; fazia piada do infortúnio coletivo que há anos se arrastava como uma doença sem cura. Ele é que sabia viver, agora Julio entendia. Encheu o peito de coragem e aproximou-se dos irmãos: queria contar sua história, dizer que era possível, organizar a luta. Queria o rádio e os jornais, a fome por justiça tirou-lhe a malícia. Pouco pôde fazer no entanto - o que é que um camarada forte, bem vestido e por demais bem apessoado fazia ali, falando de política, levantando bandeiras? De modo que alguns cidadãos comuns, tão insatisfeitos quanto temerosos, tomaram de Julio a tocha que levava consigo e o amarraram de costas para o Pirulito, antigo ponto de encontro onde outros cidadãos comuns faziam suas reivindicações. Caçoaram dele, disseram que nem Jesus era tão bonito. Atearam-lhe fogo. Como Jesus, Julio não reagiu. Antes de morrer, com decência e dificuldade, ele olhou para o céu e rogou a Deus: quando se refere à política, perdoai-lhes, Senhor - eles nunca hão de saber o que fazem...
Esse blog é destinado a compartilhar viagens literárias, e está aberto a seres humanos e afins... Divirtam-se!
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Os onze mandamentos
Julio nasceu assim: pobre, puto e com nome de imperador. Ferrou a vida aos doze, quando decidiu que seria artista de televisão. Fez o que lhe foi possível com muita maromba e pouca instrução: foi bailarino, amante profissional e personal trainer antes de a sorte lhe sorrir: havia sido contratado como gerente operacional de uma campanha política assaz promissora - a ponte certeira entre ele e a multidão. Deu o sangue que nenhum político jamais pensou em dar, mobilizou mundos e fundos do seu universo particular por um ideal (além da grana) desconhecido. Seu candidato tão aclamado, tão querido, perdeu a eleição, e consequentemente ele simplesmente não recebeu um centavo pelos muitos dias de suor. Rebelou-se e foi para a Praça Sete mostrar ao mundo que não tinha vindo a passeio. Levava na mão uma tocha de fogo; na bolsa restos de material da campanha, a Biblia e um discurso sobre os onze mandamentos. Lembrou-se do pai, da velha história que insistia em contar: primeiro ele explicava cada um dos dez mandamentos em detalhe, para logo depois anunciar o décimo primeiro - seja um político que você pode mandar os outros dez pras cucuias! Seu José dizia isso e ria-se da pilhéria; fazia piada do infortúnio coletivo que há anos se arrastava como uma doença sem cura. Ele é que sabia viver, agora Julio entendia. Encheu o peito de coragem e aproximou-se dos irmãos: queria contar sua história, dizer que era possível, organizar a luta. Queria o rádio e os jornais, a fome por justiça tirou-lhe a malícia. Pouco pôde fazer no entanto - o que é que um camarada forte, bem vestido e por demais bem apessoado fazia ali, falando de política, levantando bandeiras? De modo que alguns cidadãos comuns, tão insatisfeitos quanto temerosos, tomaram de Julio a tocha que levava consigo e o amarraram de costas para o Pirulito, antigo ponto de encontro onde outros cidadãos comuns faziam suas reivindicações. Caçoaram dele, disseram que nem Jesus era tão bonito. Atearam-lhe fogo. Como Jesus, Julio não reagiu. Antes de morrer, com decência e dificuldade, ele olhou para o céu e rogou a Deus: quando se refere à política, perdoai-lhes, Senhor - eles nunca hão de saber o que fazem...
sábado, 30 de outubro de 2010
Essence
I don't care who you think you are;
I don't care what you think you've done;
I've seen through you, I've told you so.
Your soul has spoken to me
in dreams
and has revealed
the most beautiful scenes
priceless landscapes
the best bits of you
unique indeed...
I knew what I had to know.
Then your dreams
spoke to your soul
told her to hide it all away -
you chose to go with the flow
and now you think you're safe...
and sound.
Well, sorry to let you down
when I so eagerly tried to show
that I loved you without a cause;
you've been trying to make sense
out of why and because
but if you check deep inside
you shall see a rose in your heart
which my own bare hands have grown.
I don't care what you think you've done;
I've seen through you, I've told you so.
Your soul has spoken to me
in dreams
and has revealed
the most beautiful scenes
priceless landscapes
the best bits of you
unique indeed...
I knew what I had to know.
Then your dreams
spoke to your soul
told her to hide it all away -
you chose to go with the flow
and now you think you're safe...
and sound.
Well, sorry to let you down
when I so eagerly tried to show
that I loved you without a cause;
you've been trying to make sense
out of why and because
but if you check deep inside
you shall see a rose in your heart
which my own bare hands have grown.
Essence
I don't care who you think you are;
I don't care what you think you've done;
I've seen through you, I've told you so.
Your soul has spoken to me
in dreams
and has revealed
the most beautiful scenes
priceless landscapes
the best bits of you
unique indeed...
I knew what I had to know.
Then your dreams
spoke to your soul
told her to hide it all away -
you chose to go with the flow
and now you think you're safe...
and sound.
Well, sorry to let you down
when I so eagerly tried to show
that I loved you without a cause;
you've been trying to make sense
out of why and because
but if you check deep inside
you shall see a rose in your heart
which my own bare hands have grown.
I don't care what you think you've done;
I've seen through you, I've told you so.
Your soul has spoken to me
in dreams
and has revealed
the most beautiful scenes
priceless landscapes
the best bits of you
unique indeed...
I knew what I had to know.
Then your dreams
spoke to your soul
told her to hide it all away -
you chose to go with the flow
and now you think you're safe...
and sound.
Well, sorry to let you down
when I so eagerly tried to show
that I loved you without a cause;
you've been trying to make sense
out of why and because
but if you check deep inside
you shall see a rose in your heart
which my own bare hands have grown.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Ser ou...?
Só passei pra dizer que a vida cansa. Estou cansada de querer ter, fazer e ser outra coisa, outra pessoa que provavelmente me desagradaria porque ela não é diferente. Quero ter um filho por medo de não poder ter um; quero me divertir por medo de em breve não querer mais; quero saber por medo de um dia não me lembrar. Acho que só vivo por medo de a vida acabar de repente e eu me achar aqui, num canto escuro onde há tempos apagaram a luz. Brigo pelo presente porque o passado me dói; sofro porque percebo. Um dia me disseram que minhas habilidades detetivescas eram um fiasco. Pode até ser: pode ser que viver não seja nada disso - mesmo assim engulo todo o resto com o único propósito de amar direito.
Ser ou...?
Só passei pra dizer que a vida cansa. Estou cansada de querer ter, fazer e ser outra coisa, outra pessoa que provavelmente me desagradaria porque ela não é diferente. Quero ter um filho por medo de não poder ter um; quero me divertir por medo de em breve não querer mais; quero saber por medo de um dia não me lembrar. Acho que só vivo por medo de a vida acabar de repente e eu me achar aqui, num canto escuro onde há tempos apagaram a luz. Brigo pelo presente porque o passado me dói; sofro porque percebo. Um dia me disseram que minhas habilidades detetivescas eram um fiasco. Pode até ser: pode ser que viver não seja nada disso - mesmo assim engulo todo o resto com o único propósito de amar direito.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
Head shoulders knees and toes por Érika Amâncio
Da cabeça só falta mesmo sair fumaça. Os ombros viraram tábua de bater bife. Os joelhos têm aquele básico problema de junta: junta tudo e joga fora! Tocar os dedos do pé dá direito a uma torta de limão ao final do dia. Esse é o retrato de várias mulheres do século XXI, que devido à insistência burra em direitos iguais, agora choram por carregar meio mundo nas costas. E obviamente a diversão não acaba aí. Tem também as ites e as ias. Vamos a um bem comum: miopia. É muito engraçado esse negócio de não enxergar direito, principalmente se, como eu, você é aquela pessoa que acredita no 0.01% de chance de uma cirurgia dar errado. Por esse motivo não retirei um cisto das cordas vocais, que foi detectado há alguns anos como um brinde no pacote de nome Érika Amâncio - nasceu, cresceu, casou-se, teve filhos e não quer morrer de jeito nenhum. Fico possessa com as infelicidades que consigo produzir oralmente em várias ocasiões, mas não poder produzi-las at all transformaria meu coração num tumor maligno. Trato, controlo, mas está lá. O mesmo acontece com os olhos - minha miopia pede óculos, chegamos a esse ponto. Mas quem? Onde? Por quê? E nessa onda a gente vai driblando as limitações com descontração, jogo de cintura... e lentes de contato. Posso dormir com as minhas por cinco dias, mas no quinto dia impreterivelmente devo retirá-las, fechar os olhos e reencontrá-las alegremente na manhã seguinte. Devo repetir esse procedimento nove vezes, e ao final de quarenta e cinco dias, é necessário descartá-las e usar outras. O primeiro problema é a matemática. Você calcula quanto tem por mês pra gastar no supermercado, quantas vezes deve comer por quantas horas, quantas calorias o dia te oferece, quanto tempo falta para tomar a próxima pílula e ainda tem que calcular quantos dias você tem para tirar, pôr e mandar a lente pro inferno sem direito a purgatório. O segundo e não menos importante é o sofrimento para colocá-las. Se ao menos vendessem aquele aparato do Laranja Mecânica para abrir os olhos... Mas não: é o seu-vizinho da mão esquerda puxando a pele do olho embaixo, o fura-bolo segurando a lente e o pai-de-todos da mão direita abrindo o olho em cima. Em outras palavras: ninguém merece. Quando nossa amiga finalmente se acopla ao olho, após várias lágrimas e a vontade constante dela de ir embora, é hora de repetir o procedimento para o olho esquerdo. Isso significa que quando estou atrasada saio porta afora e só enxergo o que Deus quiser. E quer saber? Por incrível que pareça, ter que falar menos e não enxergar direito nos dias de hoje pode ser ideal - pense nisso... Com bons ouvidos e um nariz que fareja confusão, você está mais que preparada para dias de chuva e tardes de sol :)
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