segunda-feira, 9 de março de 2020

Medo de flor

"Não vim da sua costela - você é que veio do meu útero". Certamente a gênese do antigo testamento foi escrita por um homem que queria demonstrar sua superioridade em relação à mulher, não? Juro que eu nunca na vida tinha interpretado essa frase dessa forma, porque se uma mulher veio da costela de um cara e a humanidade inteira veio do bucho da mulher, esse início talvez tenha parecido pra mim sem importância. Talvez por minha postura em relação à minha condição de mulher eu não tenha me atentado tanto pra essa parte. Não sou negra, não sou gay, nem bi, nem trans, nem pobre - será que é por isso que eu me amo, me perdôo, me aceito e agradeço às minhas chances diárias de ser alguém melhor? Talvez - mas conheço mulheres negras, gays, bi, trans e pobres que vêem nos obstáculos constantes oportunidades de crescimento e que se amam e se respeitam muito mais do que eu. E digo mais: mulher branca, hetero e rica também escolhe homem vagabundo, também é traída, maltratada, subjugada e oprimida - meu analista diria: e o que você pretende fazer com isso? Minha leitura de opções: 1. chorar; 2. tomar Rivotril e chorar; 2. culpar alguém; 3. culpar a mim mesma pelas minhas escolhas e atitudes; 4. reclamar até fazer alguma coisa; 5. pensar até a cabeça doer e vir algum tipo de resposta; 6. todas as alternativas anteriores até tentar transformar minha conduta - agir e evoluir. Não é tão fácil e não é tão ruim.

E o que você precisa para evoluir? Me diz o que você precisa pra sair daí?

Vejo a forma como a sociedade foi instituída no que diz respeito ao papel de homens e mulheres no mundo, e percebo com espanto o que algumas religiões e ideologias, em pleno século XXI, ainda esperam da mulher: submissão, permissividade, amor incondicional, esforço irrestrito... padecer no paraíso ou florescer no inferno? Não vou ser nem a primeira nem a última a te dizer: o inferno é aqui. Um velho amigo que trabalhou como médico em Moçambique me disse certa vez: I'm in hell. A violência, o ódio, o desprezo, a inveja, a luxúria, a intolerância, a imprudência, a maledicência, tudo isso está bem diante do seu nariz. Opa! Diante do seu nariz se você decidir se olhar no espelho pra início de conversa. Somos todos dignos de um bom nananananão. E de repente as mulheres odeiam os homens, os vilões, opressores, tiranos, feminicidas, fascistas dos homens. A merda do patriarcado é a bola da vez. É uma merda mesmo, e em meio a discursos de ódio, eu me pergunto: as mulheres se amam? De verdade mesmo? Se elas não se amam é culpa dos homens? E elas amam umas às outras quando mandam beijim no ombro prazinimiga? Mais fácil mesmo é legitimar o meu direito de não operar a mudança pelo exemplo. Não acho que o verdadeiro respeito se consegue no grito e acredito que as causas devam ser separadas em movimentos distintos para pessoas com diferentes opiniões políticas e não menos engajadas pela vontade de mudar as coisas poderem participar também. Gostaria de ter estado em uma manifestação pedindo por qualidade de vida para todas as mulheres - pedindo pelo fim da violência, por igualdade de salários, de cargos, pelo nosso reconhecimento, pelo nosso sossego. No entanto, não desejo que o Lula volte a governar meu país, não odeio os homens e acho que tenho - a passos pequenos e constantes - conquistado meu lugar e minha dignidade nesse mundo sem odiar ninguém. Vejo que as coisas estão mudando no momento em que homens se colocam do lado das mulheres e reconhecem que precisam sair do modelo patriarcal de pensamento para serem felizes ao lado delas e para garantirem a elas o direito de coexistir em harmonia nesse mundão de Deus. Não são todos, mas já são muitos. Vejo homens cruéis, de índole ruim, e - pasmem - mulheres também. A proporção não é digna de comparação - ainda tem muito mais homem escroto e psicopata que mulher aí fora, pela própria criação dos papeis sociais, que não se deu hoje nem ontem nem ano passado. A questão é que, antes de sermos homens ou mulheres, somos todos seres humanos que transitam por esse mundo aqui temporariamente, esperando (ou não) aprender alguma coisa. Cada um evolui à sua maneira, e os movimentos sociais precisam refletir seu caráter evolucionista. Sem isso voltamos à era de Moisés, do olho por olho e dente por dente (e salve-se quem puder, deve ter faltado pedra pra ele escrever). Ser mulher pra mim é, por si só, uma virtude, uma bênção e um motivo de orgulho - orgulho por batalhar, por incentivar os meus alunos, meus amigos e familiares a fazerem o mesmo, por si e pelos irmãos espalhados por esse planeta - COM RESPEITO. Respeito não se ganha com tiro, porrada e bomba. Não tenho medo de ganhar flor no dia das mulheres - acho até bem legal, se for dada de coração. O cara que dá flor de manhã e sopapo de tarde é o mesmo que dá o dízimo e maltrata o funcionário; que frequenta a missa e deixa a mãe mofar num asilo; que trai o amigo, rouba do pai e bate no irmão - dar flor não significa ser esse cara, e ficar feliz ao recebê-la não é um convite a ser maltratada e agredida. A criação por si só não pode ser - e não é - desculpa pra esses babacas agirem como pragas e destruírem o que tocam: são seres tóxicos (outra palavra da moda). Precisam ser educados, ensinados, remodelados em termos de ideias e comportamentos. Alguém aí se habilita? Temos muito pelo que lutar - a começar, lutar por mais amor e respeito, pelo sagrado feminino, pelo fim dessa torre de Babel onde raiva é a língua comum. Tóxico é quem não tolera que exista o outro lado da moeda. Não tenho medo de flor - medo mesmo eu tenho é de quem se recusa a receber.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Blur

Um dia desses, recebi por whatzapp a fala de um capitão da PM, Styvenson Valentim, durante audiência pública cujo tema era a insegurança nas escolas públicas de Natal. O capitão, que há cerca de um ano atua com sua equipe na Escola Estadual Maria Ilka Moura, na zona oeste de Natal, parece contra-argumentar com uma professora da rede pública no vídeo, alegando, entre outras coisas, que a pedagogia adotada é visivelmente falha, dado o índice de violência, criminalidade e retenção de alunos nas escolas públicas da periferia. Assim como as igrejas que se aproveitam da carência de seu "eleitorado" para distorcer as palavras contidas na bíblia, há quem parta desse discurso de 8 minutos para taxar Paulo Freire de energúmeno subversivo ou, da mesma forma, para rotular a ação da polícia como fascista e opressora. Curiosamente, ao ouvir o relato do capitão, constatei que todo o seu plano de ação se baseia na pedagogia freiriana, de inclusão, construção, cidadania, justiça social - visibilidade a quem nasceu invisível. Se o aluno aprende que o asseio, o esforço que vem com a disciplina e o respeito às  regras e às pessoas garantem a ele oportunidades de ser visto, ouvido e tratado com dignidade, não seria esse o desejo principal do maior educador de todos os tempos? Falta respeito.

Ao mesmo tempo, sugere o capitão que, no momento da matrícula, os professores busquem a origem de cada família para identificar a origem das mazelas de cada aluno - como se para nós, professores, isso fosse novidade. Sei, pelos meus 20 anos de experiência como educadora, que o professor de corpo, alma e coração sabe a vida de cada um dos seus alunos - quem cria, quem educa, quem bate, quem abusa. A gente reza por eles, conversa individualmente, procura a família, recomenda leituras, dá conselhos, oferece o carinho e a inspiração que muitas vezes eles não recebem em casa ou na rua. A gente se envolve - vai à coordenação, à diretoria, à associação do bairro, ao conselho tutelar... A gente sofre pensando em jeitos de eles não sofrerem. Já recebi um bilhete certa vez em que o aluno pedia compreensão, uma vez que o único lugar em que se sentia seguro e acolhido era a sala de aula. Sei que, como eu, há milhares de professores por esse Brasil afora que acreditam na educação - e entendo a educação como um pacote que carrega em si afeto, compreensão, observação, ação, construção de saberes, mas também disciplina, foco, cumprimento de regras, estabelecimento de metas. Isso é respeito: preparar o ser humano para gozar de oportunidades dignas para seu crescimento pessoal e profissional. A escola que não reprova, que não dá advertência, que não chama o aluno na chincha, que não exige material, vestuário adequado, dever de casa ou uma conduta socialmente aceitável com professores, colegas e funcionários não está cumprindo seu papel, apontado nos principais documentos reguladores da educação no Brasil, de capacitar o aluno ética, humana e intelectualmente - essa escola, na minha humilde opinião, não é formadora de cidadãos, e seu projeto político-pedagógico realmente precisa ser revisitado. Não sou fascista nem marxista - sou alguém que desde muito cedo tem tentado absorver o melhor de todas as falas, os discursos, os credos e as opiniões, sem, ao mesmo tempo, impor minha linha de pensamento - até porque aprendo tanto observando ao meu redor todos os dias que permito aos meus achismos revalidação de votos. Creio que me respeito. Se os alunos de hoje precisam da ajuda de policiais atuando como cidadãos para respeitarem a escola, uma vez que se aproveitam de brechas no sistema para enfiarem criminalidade e violência goela abaixo dos demais sem qualquer limite, por que insistir em deixar o professor lutar sozinho? O professor deveria estar sendo amparado pela coordenação pedagógica e pela direção, mas lavam as mãos enquanto ele lida com grupos muitas vezes ameaçadores de 40 a 50 a portas fechadas. A segurança que era garantida somente pela autoridade do professor, proferida pelo alto escalão da instituição escolar, deu lugar ao escárnio, à pena, à indiferença por esse profissional mal-pago e mal-assegurado. O amor cura - e amor também é limite. Como estabelecer regras para um aluno que ameaça o professor com uma arma, que o agride fisicamente e por vezes o executa? Assim como o policial não sabe nada de pedagogia, ensino e cultura escolar, o professor não é obrigado a lidar com facções criminosas, tráfico e porte de armas por menores dentro de sua sala de aula. Não é o professor quem tem que levar uma arma para a escola (aliás, ninguém tem que levar arma a lugar algum), mas creio ser necessário agir conforme o contexto - se a única figura temida ou respeitada é a do policial, a escola deve poder contar com a expertise de cidadãos que trabalham como policiais, mas querem contribuir enquanto seres humanos e habitantes daquela comunidade para uma mudança no cenário que já nos é familiar. Chega de tentar tapar o sol com a peneira - os professores não aguentam mais. O amor cura - e amor também é disciplina. Ao ver a foto dos alunos uniformizados, limpos e com seus cabelos penteados em fila, lembrei-me das minhas aulas de ballet. Tinha que chegar com antecedência suficiente para colocar o uniforme - collant preto, saia preta, meia-calça e sapatilha rosa. O coque tinha que estar perfeito, sem um fio solto, com gel, grampos e rede. A aula começava pontualmente, e havia um ritual a ser seguido de forma rigorosa - aquecimento, barra, centro. Nunca fui tão feliz - não havia diferença entre nós, e, ainda que alguns tivessem mais aptidão que os outros, os direitos e deveres eram iguais, sem privilégios. Esforço-me para compreender onde está o respeito à diversidade em um mundo onde o preconceito é pago com preconceito - onde o gordo odeia o magro, o pobre odeia o rico, o preto odeia o branco, o gay odeia o hetero, onde só existe o seu V ou F. Falta respeito.

Essa exposição de ideias nada tem a ver com correntes de pensamento comunistas, até porque um regime que conta com uma minoria de ditadores milionários de um lado e uma nação indigente e oprimida de outro de fato não me representa. Quem é a burguesia na fila do pão da imposição servil, não é mesmo? Por outro lado, também não compactuo com regimes pseudo-democratas onde os tubarões estão à solta e a massa vai sendo empurrada pra lá e pra cá, sempre oprimida e ameaçada, escravizada, suando de manhã pra comer à noite enquanto meia dúzia de babacas dita as regras com o bolso cheio de dinheiro nosso. Sempre trabalhei, e entra governo, sai governo, ainda estou aqui - alguns dias mais, outros menos satisfeita. Sempre fui professora - e todos os governos que o Brasil já teve desde que eu comecei a lecionar ferraram a educação de uma maneira ou de outra - hipócrita é não admitir isso. Todos. Os governos. Ferraram. A educação. Se você duvida, veja há quantos anos não existe aumento substancial nos salários, quantas greves já foram realizadas nos últimos 20 anos e quantos benefícios já perdemos durante esse tempo - direitos adquiridos com muita luta que nos foram tirados. É assim que eu sinto; é assim que eu vejo. Se você achar que não, tudo bem - não vou tentar te convencer, mas sempre vou querer saber dos seus fatos, do repentino aumento da satisfação, do bem-estar, da segurança física, emocional e financeira da classe em qualquer momento da nossa história de 2000 pra cá, que é pra eu ligar dois mais dois e levar meus achismos pra um lugar mais seguro. Se cada belo discurso sobre respeito pudesse se transformar em ato concreto, a gente estaria se tratando melhor, fazendo parcerias com pessoas realmente diferentes, que por isso mesmo têm tanto a nos acrescentar. Recentemente assisti ao filme The Nightingale. Para mim ficou clara a desconstrução do racismo a partir de uma parceria improvável entre uma branca prisioneira e um negro aborígene. O preconceito branco, pago com desdém negro, dá lugar a uma situação de cooperação por necessidade que, interessantemente, se transforma, mais tarde, em solidariedade, proteção e afeto - dois bastardos para o mundo em que habitavam, duas pessoas que não suportavam mais serem subjugadas, caçadas e torturadas por sua origem se unem em prol da libertação, da liberdade. Nas críticas, o filme é considerado irresponsável por "evocar uma vingança feminista branca". Falta sensibilidade. Falta profundidade. Faltam awkward silences, que a gente quer constantemente preencher com qualquer bobagem. Falta respeito. 

Falo por você e por mim, por esse momento cheio de meias-verdades em que ninguém quer se entender. Está na hora de a gente derrubar esse muro de Berlim e puxar quem estiver por perto pra um abraço apertado. O amor não tem efeitos colaterais; o respeito só machuca se estiver mascarado de orgulho e vaidade. Precisamos de nós mesmos, uns dos outros e de mais fé nas bases que buscamos construir. Sem esse compromisso, a hipocrisia vai se sentir no direito de assombrar nossos sonhos mais lindos...


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Mr. Jones

Há uns dois anos escrivinhei uma palavra em mim pra atravessar as dificuldades com confiança e resignação - attraversiamo. Hoje ela envolveu meu corpo e me carregou pelo turbilhão do dia - Mr. Jones, depois de muito penar, beijou os filhos e a esposa com um aceno de cabeça e correu pro abraço do segundo tempo, um tempo de paz, mais justo conosco. Hoje meu marido e sua irmã perderam o pai; a mãe deles, o amor de uma vida inteira. O céu ganhou uma estrela; o paraíso, um benfeitor. A família foi abençoada com beijos e abraços perto e longe, conforto e orações - amigos que não acabam mais. E entre a luta e a além-vida, o amor por ele ganhou mais um capítulo - o da imortalidade. Nesse velho mundo novo ele há de regenerar seu perispírito e ser de novo bonito, brincalhão e forte. Tem muita gente pra te receber, tem outras coisas pra se aprender (nisso eu acredito). Esse é  só um novo tom à sua caminhada, porque soube de muitas bocas que desafios e lutas são a sua praia. Por dias, você lutou para que a mente vencesse o corpo já cansado, e não foi em vão, João... saiba hoje, agora, que não foi em vão. Como lutou esse seu herói, hein, Dex? Lutou para, com um breve mover de dedos ou um balançar esporádico de sim e não, mostrar aos seus que ainda estava lá - dos olhos inertes pingaram lágrimas que foi-me sofrido ver. Preparou-se para nos preparar, sempre um passo à frente de quem quer que fosse pra proteger o Rô, a Beta e a Xó. A casa ficou grande, sabe? A gente ocupa, ocupa os cantos vazios, acampa lá por uns tempos e tudo tem cara de casa que é sua, de caxiice, de caminhada, alegria, música - de interação, hihihi… de saudade. A saudade é possessiva, João - com todos os percalços do caminho, a gente queria mesmo é você por perto. Sei que o bem te guia agora, que em breve você vai poder até dar um pulo aqui pra ver como estão as coisas, depois de te ensinarem outras não menos importantes. Enquanto isso, estou aqui - mesmo sem, muitas vezes, ter qualquer pista do que fazer. Acalme-se. Vai ficar tudo bem. Agora é hora de ouvir, de se resignar, se perdoar e servir com alegria. Te juro que se eu tivesse uns bônus-hora, eles seriam todos seus, mas seu porquinho já deve estar cheio. Sigo conversando com nosso divino mestre e pedindo a ele que carregue sua família nos braços enquanto eu recarrego as baterias no amor e na prece, que eu preciso ajudar. Pode contar comigo sempre - tamos juntos nessa estrada que só acaba quando termina nossa pá de obrigações. Você vai fazer muita falta... Fica firme, em paz. Coragem pra todos nós! Até a volta...

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Mudança

Há poucas horas, entre momentos, parei inconscientemente frente ao meu guarda-roupas. Portas abertas, me convidava a dar uma boa olhada em tudo o que eu tinha reunido até aquela hora. Nos cabides, passei as mãos pelos vestidos, pelas saias longas, pelas blusas, camisas e jaquetas, pelas calças de vários tipos e materiais. Nas prateleiras, saias, shorts, bolsas, mochilas, malas, sacolas de feira hippie, de feira gringa... Sentei-me ao pé da cama para ver mais de perto meus sapatos. Sandálias coloridas, saltos e rasteiras, tamancos e chinelos, botas e tênis - uma sapatilha. Comecei a pensar no motivo para o que faltava... O respirar tranquilo trouxe devagar a resposta: estava lá tudo o que me agradava, só a mim. Percebi ao vaguear os olhos pelo quarto que só ficou o que me importa. Levantei e passeei pela casa: uma casa bem morável - meia dúzia de móveis que me representam + uns eletrodomésticos que me ajudam. Os quadros que vieram são aqueles que contam histórias, mandam beijos e dizem pra eu não me distrair, que a felicidade é bem aqui - logo ali está a sua, é só procurar no lugar certo. Doei tantos sapatos que me davam calos, tantos vestidos que não se encaixavam, livros que li e que não leria, que adorei e que não... Pedaços de felicidades que não são mais ou nunca foram minhas - hoje eu sei e sou feliz pelas Cinderelas agraciadas por cada peça desse ex-closet chamado a gente tentando se encontrar. A gente quer mais sempre. Quero uma casa no campo sem cerca, com cachorro correndo enquanto brinco de mexer no jardim e meu marido brinca de cozinhar algo gostoso com uma taça de vinho e um Jack Johnson no background - e olha que ele nem brinca, cozinha mesmo ;) Quero um carro bom na garagem, umas duas viagens legais por ano e muito amor pra gente se presentear e dar de presente. E de tanto querer, a gente resolve anunciar o carro, pôr a casa à venda. Seguimos em busca da felicidade que estará lá à nossa espera. Se esse plano é satisfação garantida, por que então essa dor no peito ao ler o anúncio? Parece que de uma hora para a outra aquela casa escura que não te cabia tornou-se aconchegante, espaçosa, bem localizada, cheia de potencial! E aquele carro oneroso de marca desconhecida, além de lindo, é o mais potente, econômico e guerreiro da categoria. Peraí: então é errado querer aquela casa gostosa com cheiro de mato e família e segurança e prosperidade? É errado querer aquele carro mais alto, pronto pra guerra e mais vendável? Errado eu não diria, que é uma palavra danada de subjetiva. Como diria minha tia Leléia, é diferente. É toda uma outra vida, todo um novo propósito. Volto ao meu guarda-roupas, à minha estante de livros, à meia dúzia de móveis que me representam + uns eletrodomésticos que me ajudam. Essa vida é breve demais, é frágil demais, exige coragem, fé e autoconhecimento em um nível que talvez a gente nem tenha pra dar. Outro dia meu sogro estava tomando uma cerveja com o nome da nossa terra - agora, luta para dar aos filhos e à esposa um mínimo sinal de que ainda está ali, apesar do corpo imóvel, do olhar distante. Hoje disseram que ele ouve tudo - que seja então feliz ao som de boa música, embalado por doces memórias de mocidade, de vida adulta, de amor à vida, de trabalho e responsabilidades, de boas risadas entre os seus. Penso nisso e me dá um aperto na boca do estômago... Uma vergonha tão grande de ser feliz que enche meu peito de desespero e urgência, que a felicidade é esse agora que nos rouba uma fatia de fé por minuto ao mesmo tempo em que quer que a gente espere, que chore, que queira, que agradeça por estar nessa vida de passagem, nesse quando sem motivo algum, sempre a fazer as malas, sempre a olhar pra trás.

domingo, 1 de setembro de 2019

Desistir: verbo intransitivo

Não sei se é impressão minha, mas me parece que hoje em dia as pessoas têm se colocado em situações estranhas para justificar sua insistência no que não deu e não vai dar certo. E lá vão elas, insistindo em continuar bebendo quando já viram que passaram da conta; em procurar diversão onde há muito não encontram; em se convencerem de que o que já acabou vai, de alguma forma, continuar. Mudamos constantemente, e assim deve acontecer com nossas escolhas e preferências. Imaginem se até hoje eu estivesse insistindo em dançar ballet! Estaria no mínimo frustrada com o fato de que eu não nasci pra isso, definitivamente. Ah, mas tudo dá certo se você insiste, se rola uma dedicação... NÃO. Ser humano é saber desistir quando já não dá pé, quando não faz bem, quando a gente percebe que a realidade é só uma. Nessa hora, tenha a dignidade de pular do barco, leve, decidida, sem neuras e com novas perspectivas. Ninguém é tão péssimo que não possa recomeçar a vida em um outro lugar, com hábitos mais saudáveis e um sorriso no rosto. Muitas vezes, o que importa não é de que se desiste - o que importa é desistir, é deixar pra lá, é renovar os pensamentos e as atitudes. Desistir é ganhar o direito a uma vida nova, cuja felicidade só depende mesmo de você.   

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Passe

Para quem não sabe, aplicar passes é muito mais simples do que se imagina. Basta fazer um curso (no centro em que frequento esse curso durou um final de semana somente) e ter boa vontade e disponibilidade para integrar uma das equipes da casa. Pede-se que o passista se prepare no dia do passe e no anterior, evitando a ingestão de bebida alcoólica e também carne vermelha. No dia do passe, é importante que o passista esteja bem disposto e tranquilo, a fim de se doar à tarefa. É uma tarefa bonita, nobre, porque servimos de canal para que a energia divina chegue até as pessoas que adentram a sala em busca de luz. Como integro a equipe que aplica passes nas reuniões de tratamento, tenho a oportunidade de ver muitas figurinhas carimbadas, pessoas que vão semanalmente ao centro, que sentam-se sob uma luz azul e, completamente desarmadas, fecham os olhos e confiam na energia que recebem, emanada de mãos dedicadas e prontas a servir. Seria maravilhoso se esses trabalhadores estivessem sempre tranquilos e preparados. A questão é que somos humanos, e, como tal, passíveis de dias ruins, de fases complicadas, noites mal dormidas, dilemas e questões de todo tipo. Reconhecemos a importância da preparação, da meditação, da sublimação do que anda estranho ou errado, mas a angústia paralisa, o medo afoba. Tem dias em que é o passista quem precisa de um passe longo, poderoso, cheio de luz que não se apaga, calor que não se dissipa - passe que não passa. Compreendemos que nossa existência, única em nome e endereço, não passa de uma passagem; crucial, contudo, é passearmos por ela com mais paciência, repassarmos as páginas borradas a limpo, passarinharmos por nossa bela essência. Nessa luta por mais ciência e mais aprendizado, a humildade pede coração apurado, e a gratidão só é sincera quando atribuímos valor ao nosso passe. Os dissabores passam, como passam também dias de sol. Que possamos sorver com sabedoria cada sopro de vida destinado a passar por nós.

terça-feira, 9 de julho de 2019

Morava

Não fomos morar juntos - eu fui morar com você. Na sua casa. Com as suas coisas. As suas regras. Seu tempo e espaço. Cheguei com uma meia dúzia de malas, muitos livros e alguns velhos cadernos que uso pra rascunhar passos certos e errados. Minha vida sacudia dentro de uma camioneta, como se em quase meio século de existência eu só tivesse aquilo ali - roupas, livros, cacarecos de estimação, um lugar pra estudar, um pra ler, uns pra guardar as coisas. Enfeite não podia - não me cabia naquela vida que há tanto você montara. Uma geladeira nova, microondas, televisão vieram pedindo licença. Pra me caber na sua vida te assisti, bem sem querer, abrir mão de uma TV, um móvel antigo e duas cadeiras que não combinavam com você. Valia a pena o sacrifício só pra ter alguém dividindo as contas, regando as plantas e arrumando a casa compulsivamente? Ah, é. Tem o amor. Por amor, vontade de dar certo, foi-se embora a TV do quarto, maior arrependimento. Do lado de cá, se foi uma casa pronta, vida sossegada com vista pro mato, carro quitado, sonho de ser mãe, dinheiros e dinheiros, gratidão por estar viva, saudável e com a faca e o queijo na mão pra mudar tudo isso. Fui caminhando e tirando dos bolsos porções gordas de amor próprio pra ficar amor somente, aquele sofrido que vem com resiliência, humildade, paciência e dor do dedinho do pé até o fio mais arrepiado do cabelo. Tenho certeza que a vida é muito maior do que isso que eu sinto agora, essa síndrome do passarinho sem ninho que me arrebata a cada cinco minutos, mas preciso dizer que a coisa mais difícil é perceber-se ganhando quando ao seu redor tudo insiste em te convencer que você está de fato perdendo. Estranhamente estranho, contudo, é sentir dentro de mim uma força enorme, explosiva, que nem aqueles clipes do Chemical Brothers em que a batida invade o corpo e a alma das pessoas, toma o controle. Difícil explicar, mas é como se muita gente estivesse ao meu redor e decidissem todos me carregar, que agora eu estou cansada mas até que sou gente boa, então bora quebrar o galho dessa moça, bora levar ela pra rua, bora pedir pra melhor amiga ligar e chamar pra uma volta de bicicleta, bora criar desculpas pra ela sair de Belo Horizonte, sair do país, sair de casa num dia frio pra tomar açaí na Almeida, bora carregá-la pra atravessarmos com ela no colo essa areia movediça, bora dar tanto amor pra essa menina que ela vai perder o medo e a vergonha de amar daquele jeito de amor somente, aquele sofrido que vem com resiliência, humildade, paciência e dor do dedinho do pé até o fio mais arrepiado do cabelo - e emoção também, uma emoção tão grande que eu fico até sem graça de sentir. Uma batida que nem a do Chemical Brothers, que tira a gente pra dançar. Puta merda, Jesus, véi! Filho de Deus, vá lá... Mas esse seu escrever certo por linhas tortas, essa matemática louca pra me explicar que o morava me preparou para morar em minha própria pele, dentro e fora de mim... Nu! Você é foda. Valeu, mano. Tamo junto.