segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Mr. Jones

Há uns dois anos escrivinhei uma palavra em mim pra atravessar as dificuldades com confiança e resignação - attraversiamo. Hoje ela envolveu meu corpo e me carregou pelo turbilhão do dia - Mr. Jones, depois de muito penar, beijou os filhos e a esposa com um aceno de cabeça e correu pro abraço do segundo tempo, um tempo de paz, mais justo conosco. Hoje meu marido e sua irmã perderam o pai; a mãe deles, o amor de uma vida inteira. O céu ganhou uma estrela; o paraíso, um benfeitor. A família foi abençoada com beijos e abraços perto e longe, conforto e orações - amigos que não acabam mais. E entre a luta e a além-vida, o amor por ele ganhou mais um capítulo - o da imortalidade. Nesse velho mundo novo ele há de regenerar seu perispírito e ser de novo bonito, brincalhão e forte. Tem muita gente pra te receber, tem outras coisas pra se aprender (nisso eu acredito). Esse é  só um novo tom à sua caminhada, porque soube de muitas bocas que desafios e lutas são a sua praia. Por dias, você lutou para que a mente vencesse o corpo já cansado, e não foi em vão, João... saiba hoje, agora, que não foi em vão. Como lutou esse seu herói, hein, Dex? Lutou para, com um breve mover de dedos ou um balançar esporádico de sim e não, mostrar aos seus que ainda estava lá - dos olhos inertes pingaram lágrimas que foi-me sofrido ver. Preparou-se para nos preparar, sempre um passo à frente de quem quer que fosse pra proteger o Rô, a Beta e a Xó. A casa ficou grande, sabe? A gente ocupa, ocupa os cantos vazios, acampa lá por uns tempos e tudo tem cara de casa que é sua, de caxiice, de caminhada, alegria, música - de interação, hihihi… de saudade. A saudade é possessiva, João - com todos os percalços do caminho, a gente queria mesmo é você por perto. Sei que o bem te guia agora, que em breve você vai poder até dar um pulo aqui pra ver como estão as coisas, depois de te ensinarem outras não menos importantes. Enquanto isso, estou aqui - mesmo sem, muitas vezes, ter qualquer pista do que fazer. Acalme-se. Vai ficar tudo bem. Agora é hora de ouvir, de se resignar, se perdoar e servir com alegria. Te juro que se eu tivesse uns bônus-hora, eles seriam todos seus, mas seu porquinho já deve estar cheio. Sigo conversando com nosso divino mestre e pedindo a ele que carregue sua família nos braços enquanto eu recarrego as baterias no amor e na prece, que eu preciso ajudar. Pode contar comigo sempre - tamos juntos nessa estrada que só acaba quando termina nossa pá de obrigações. Você vai fazer muita falta... Fica firme, em paz. Coragem pra todos nós! Até a volta...

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Mudança

Há poucas horas, entre momentos, parei inconscientemente frente ao meu guarda-roupas. Portas abertas, me convidava a dar uma boa olhada em tudo o que eu tinha reunido até aquela hora. Nos cabides, passei as mãos pelos vestidos, pelas saias longas, pelas blusas, camisas e jaquetas, pelas calças de vários tipos e materiais. Nas prateleiras, saias, shorts, bolsas, mochilas, malas, sacolas de feira hippie, de feira gringa... Sentei-me ao pé da cama para ver mais de perto meus sapatos. Sandálias coloridas, saltos e rasteiras, tamancos e chinelos, botas e tênis - uma sapatilha. Comecei a pensar no motivo para o que faltava... O respirar tranquilo trouxe devagar a resposta: estava lá tudo o que me agradava, só a mim. Percebi ao vaguear os olhos pelo quarto que só ficou o que me importa. Levantei e passeei pela casa: uma casa bem morável - meia dúzia de móveis que me representam + uns eletrodomésticos que me ajudam. Os quadros que vieram são aqueles que contam histórias, mandam beijos e dizem pra eu não me distrair, que a felicidade é bem aqui - logo ali está a sua, é só procurar no lugar certo. Doei tantos sapatos que me davam calos, tantos vestidos que não se encaixavam, livros que li e que não leria, que adorei e que não... Pedaços de felicidades que não são mais ou nunca foram minhas - hoje eu sei e sou feliz pelas Cinderelas agraciadas por cada peça desse ex-closet chamado a gente tentando se encontrar. A gente quer mais sempre. Quero uma casa no campo sem cerca, com cachorro correndo enquanto brinco de mexer no jardim e meu marido brinca de cozinhar algo gostoso com uma taça de vinho e um Jack Johnson no background - e olha que ele nem brinca, cozinha mesmo ;) Quero um carro bom na garagem, umas duas viagens legais por ano e muito amor pra gente se presentear e dar de presente. E de tanto querer, a gente resolve anunciar o carro, pôr a casa à venda. Seguimos em busca da felicidade que estará lá à nossa espera. Se esse plano é satisfação garantida, por que então essa dor no peito ao ler o anúncio? Parece que de uma hora para a outra aquela casa escura que não te cabia tornou-se aconchegante, espaçosa, bem localizada, cheia de potencial! E aquele carro oneroso de marca desconhecida, além de lindo, é o mais potente, econômico e guerreiro da categoria. Peraí: então é errado querer aquela casa gostosa com cheiro de mato e família e segurança e prosperidade? É errado querer aquele carro mais alto, pronto pra guerra e mais vendável? Errado eu não diria, que é uma palavra danada de subjetiva. Como diria minha tia Leléia, é diferente. É toda uma outra vida, todo um novo propósito. Volto ao meu guarda-roupas, à minha estante de livros, à meia dúzia de móveis que me representam + uns eletrodomésticos que me ajudam. Essa vida é breve demais, é frágil demais, exige coragem, fé e autoconhecimento em um nível que talvez a gente nem tenha pra dar. Outro dia meu sogro estava tomando uma cerveja com o nome da nossa terra - agora, luta para dar aos filhos e à esposa um mínimo sinal de que ainda está ali, apesar do corpo imóvel, do olhar distante. Hoje disseram que ele ouve tudo - que seja então feliz ao som de boa música, embalado por doces memórias de mocidade, de vida adulta, de amor à vida, de trabalho e responsabilidades, de boas risadas entre os seus. Penso nisso e me dá um aperto na boca do estômago... Uma vergonha tão grande de ser feliz que enche meu peito de desespero e urgência, que a felicidade é esse agora que nos rouba uma fatia de fé por minuto ao mesmo tempo em que quer que a gente espere, que chore, que queira, que agradeça por estar nessa vida de passagem, nesse quando sem motivo algum, sempre a fazer as malas, sempre a olhar pra trás.

domingo, 1 de setembro de 2019

Desistir: verbo intransitivo

Não sei se é impressão minha, mas me parece que hoje em dia as pessoas têm se colocado em situações estranhas para justificar sua insistência no que não deu e não vai dar certo. E lá vão elas, insistindo em continuar bebendo quando já viram que passaram da conta; em procurar diversão onde há muito não encontram; em se convencerem de que o que já acabou vai, de alguma forma, continuar. Mudamos constantemente, e assim deve acontecer com nossas escolhas e preferências. Imaginem se até hoje eu estivesse insistindo em dançar ballet! Estaria no mínimo frustrada com o fato de que eu não nasci pra isso, definitivamente. Ah, mas tudo dá certo se você insiste, se rola uma dedicação... NÃO. Ser humano é saber desistir quando já não dá pé, quando não faz bem, quando a gente percebe que a realidade é só uma. Nessa hora, tenha a dignidade de pular do barco, leve, decidida, sem neuras e com novas perspectivas. Ninguém é tão péssimo que não possa recomeçar a vida em um outro lugar, com hábitos mais saudáveis e um sorriso no rosto. Muitas vezes, o que importa não é de que se desiste - o que importa é desistir, é deixar pra lá, é renovar os pensamentos e as atitudes. Desistir é ganhar o direito a uma vida nova, cuja felicidade só depende mesmo de você.   

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Passe

Para quem não sabe, aplicar passes é muito mais simples do que se imagina. Basta fazer um curso (no centro em que frequento esse curso durou um final de semana somente) e ter boa vontade e disponibilidade para integrar uma das equipes da casa. Pede-se que o passista se prepare no dia do passe e no anterior, evitando a ingestão de bebida alcoólica e também carne vermelha. No dia do passe, é importante que o passista esteja bem disposto e tranquilo, a fim de se doar à tarefa. É uma tarefa bonita, nobre, porque servimos de canal para que a energia divina chegue até as pessoas que adentram a sala em busca de luz. Como integro a equipe que aplica passes nas reuniões de tratamento, tenho a oportunidade de ver muitas figurinhas carimbadas, pessoas que vão semanalmente ao centro, que sentam-se sob uma luz azul e, completamente desarmadas, fecham os olhos e confiam na energia que recebem, emanada de mãos dedicadas e prontas a servir. Seria maravilhoso se esses trabalhadores estivessem sempre tranquilos e preparados. A questão é que somos humanos, e, como tal, passíveis de dias ruins, de fases complicadas, noites mal dormidas, dilemas e questões de todo tipo. Reconhecemos a importância da preparação, da meditação, da sublimação do que anda estranho ou errado, mas a angústia paralisa, o medo afoba. Tem dias em que é o passista quem precisa de um passe longo, poderoso, cheio de luz que não se apaga, calor que não se dissipa - passe que não passa. Compreendemos que nossa existência, única em nome e endereço, não passa de uma passagem; crucial, contudo, é passearmos por ela com mais paciência, repassarmos as páginas borradas a limpo, passarinharmos por nossa bela essência. Nessa luta por mais ciência e mais aprendizado, a humildade pede coração apurado, e a gratidão só é sincera quando atribuímos valor ao nosso passe. Os dissabores passam, como passam também dias de sol. Que possamos sorver com sabedoria cada sopro de vida destinado a passar por nós.

terça-feira, 9 de julho de 2019

Morava

Não fomos morar juntos - eu fui morar com você. Na sua casa. Com as suas coisas. As suas regras. Seu tempo e espaço. Cheguei com uma meia dúzia de malas, muitos livros e alguns velhos cadernos que uso pra rascunhar passos certos e errados. Minha vida sacudia dentro de uma camioneta, como se em quase meio século de existência eu só tivesse aquilo ali - roupas, livros, cacarecos de estimação, um lugar pra estudar, um pra ler, uns pra guardar as coisas. Enfeite não podia - não me cabia naquela vida que há tanto você montara. Uma geladeira nova, microondas, televisão vieram pedindo licença. Pra me caber na sua vida te assisti, bem sem querer, abrir mão de uma TV, um móvel antigo e duas cadeiras que não combinavam com você. Valia a pena o sacrifício só pra ter alguém dividindo as contas, regando as plantas e arrumando a casa compulsivamente? Ah, é. Tem o amor. Por amor, vontade de dar certo, foi-se embora a TV do quarto, maior arrependimento. Do lado de cá, se foi uma casa pronta, vida sossegada com vista pro mato, carro quitado, sonho de ser mãe, dinheiros e dinheiros, gratidão por estar viva, saudável e com a faca e o queijo na mão pra mudar tudo isso. Fui caminhando e tirando dos bolsos porções gordas de amor próprio pra ficar amor somente, aquele sofrido que vem com resiliência, humildade, paciência e dor do dedinho do pé até o fio mais arrepiado do cabelo. Tenho certeza que a vida é muito maior do que isso que eu sinto agora, essa síndrome do passarinho sem ninho que me arrebata a cada cinco minutos, mas preciso dizer que a coisa mais difícil é perceber-se ganhando quando ao seu redor tudo insiste em te convencer que você está de fato perdendo. Estranhamente estranho, contudo, é sentir dentro de mim uma força enorme, explosiva, que nem aqueles clipes do Chemical Brothers em que a batida invade o corpo e a alma das pessoas, toma o controle. Difícil explicar, mas é como se muita gente estivesse ao meu redor e decidissem todos me carregar, que agora eu estou cansada mas até que sou gente boa, então bora quebrar o galho dessa moça, bora levar ela pra rua, bora pedir pra melhor amiga ligar e chamar pra uma volta de bicicleta, bora criar desculpas pra ela sair de Belo Horizonte, sair do país, sair de casa num dia frio pra tomar açaí na Almeida, bora carregá-la pra atravessarmos com ela no colo essa areia movediça, bora dar tanto amor pra essa menina que ela vai perder o medo e a vergonha de amar daquele jeito de amor somente, aquele sofrido que vem com resiliência, humildade, paciência e dor do dedinho do pé até o fio mais arrepiado do cabelo - e emoção também, uma emoção tão grande que eu fico até sem graça de sentir. Uma batida que nem a do Chemical Brothers, que tira a gente pra dançar. Puta merda, Jesus, véi! Filho de Deus, vá lá... Mas esse seu escrever certo por linhas tortas, essa matemática louca pra me explicar que o morava me preparou para morar em minha própria pele, dentro e fora de mim... Nu! Você é foda. Valeu, mano. Tamo junto.

domingo, 30 de junho de 2019

Mãe

Mãe sofre. Mãe acredita nos seus filhos até o fim. Mãe desacredita também. Grita. Xinga. Mete a mão. Chama a polícia. Interna. É, mãe é gente como a gente, a fim demais de ter uma vida boa. Cada surto é um sopro de esperança; cada chacoalhada renova as ideias, borbulha o sangue que vai pro coração. Dizem que mãe tem que aguentar. Mãe tem é que se orgulhar, uai! Pôr pra fora uma massa enorme, desconfortável e, agora, dependente. Não deve ser fácil. Que ele coma primeiro, que durma primeiro, que seja feliz primeiro. De repente a mãe não tem vontade própria - e é condenada se tiver. De repente o filho é o centro do mundo e pronto. E mesmo com todo o ceder, não dá pra saber quando acaba o sorriso, o abraço, a chuva de cartinhas com desenhos coloridos... por que em uma mesma noite a rainha vira abóbora, saco de batatas? Relegada a segundo plano, ela resiste. É ela quem permite? Seria rechaçada se não permitisse? Do outro lado da sala, o pai - impassível, incólume... protegido pelo peso da tradicional inércia. Mãe é ser humano, gente que quer ser gente, viver com dignidade. Mãe quer criar os filhos e seguir a vida e esperar por dias bons, alguns milagres e poucas aventuras. Mães ficam amargas. Choram. Pensam em como seriam suas vidas se não tivessem sido mães. Ninguém pra cuidar além de si mesmas. Talvez por isso mesmo elas tenham sido mães - pra ressignificar as noções de tempo, espaço, necessidade, prioridade, sonho, centro de tudo. Será que eu não pude ser pra centrar tudo em mim? Mas não fica bem egoísta? O pior é não poder gerar um filho biologicamente e ceder sua liberdade de tomar um picolé no fim da tarde a uma pessoa qualquer, sem laços consanguíneos, sem direito adquirido, sem bandeira da paz a tiracolo, sem amizade no rosto, sem mãos sobre pedras. A cada terremoto uma erosão, uma fissura no terreno mal-embasado, um banho mais demorado que o usual, um chá pra você e sua cabeça, um pentear de cabelos com a mais pura introspecção. Mãe acredita e sofre, quer e reza, troca o certo pelo incerto, faz o impossível para cuidar, criar, esquecer de si só para lembrar do outro - mãe paga e padece e evolui e se enobrece. Que Deus livre do mal as que não tiveram o mesmo privilégio.

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Invernal

Hoje é o primeiro dia do inverno. Aniversário do meu amigo André Santana, que há alguns anos sumiu sem deixar rastro. Lembro-me exatamente do dia em que ele me disse Cheguei junto com o inverno. Partiu em pleno verão, devaneio praiano. A cada 21 de junho me lembro do André, do Stereographic, do trance darkzera que ele fazia. Era forte. Sabia que era elaborado, que era profundo, mas desorganizava as minhas ideias. Ele ficou famoso e mais tarde aquele som desorganizou as dele também. A balada. A droga. A bebida. A bebida. A bebida. A droga...! Tem gente com discurso pronto pra explicar que tem controle sobre isso. Deixa eu explicar uma coisa: ninguém tem controle sobre o vazio. The void. Não se trata de controlar o uso de uma substância que suga a sua energia hoje pra te derrubar amanhã - um verdadeiro knockout. Trata-se de controlar sua ânsia por um pouco de adrenalina, de invencibilidade, de descontrole... por uma vida menos ordinária. E assim vem o sexo desprotegido, a vulnerabilidade do não saber, o frio na barriga quando você acorda e nem imagina o que aconteceu depois das seis horas de ontem. A gente bebe pra esquecer e se lembra mais, se lembra enquanto o corpo derrete embaixo do chuveiro. De medo. De pena. Regrets. Ah, foda-se - amanhã vai ser outro dia e logo adiante lá estará você repetindo o ciclo. Tranquilo seria se você fosse um ser à parte, sozinho no mundo, sem amarras. Mas tem a sua mãe. O seu pai. A sua irmã. A sua esposa. Seus filhos? Olá, alguém aí acordado pensando nisso? Quando o André se foi eu pensei. Eram tantas mensagens no facebook, tantas pistas falsas, tantos "ele foi visto aqui e ali"... E do outro lado da tela a mãe e o irmão seguiam cada fio daquela meada ensandecida. Um dia ele era um cara dos mais bonitos, ciclista, saudável. No outro a paranóia virava de quando em vez o seu pescoço. Qualquer barulho era sinal de alerta. As pessoas estavam sempre armando alguma coisa. O mundo tornou-se um lugar opressivo demais. Sufocante. Na hora do sufoco bom mesmo é chorar aquelas lágrimas que doem pra sair; gritar bem alto num lugar distante; caminhar com uma porrada no ouvido pra virar feto com um mantra de relaxamento uma hora depois; falar palavrão por escrito; tomar sol, tomar chuva, tomar arco-íris na cara. Abraçar a sua sogra antes e depois do chá, do bolo com pão de queijo e daquela conversa, se perder naquele abraço que revigora, naquele laço que se criou no princípio de tudo. Abri a porta do elevador e senti aquele frio invernal balançar as folhas da minha saudade já latente, e quis voltar e dizer obrigada por tudo. As coisas parecem doer mais no inverno, como se todo mundo estivesse ocupado demais preparando algo bem gostoso pra comer sozinho antes de dormir.