São 21.20 de um dia comum e eu estou aqui a falar de mim comigo mesma, dentro de uma sala de aula que coabita a minha existência, prisão de mentira. Liguei uma música clássica durante a prova e os alunos me olharam sem entenderem se era inspiração, tédio ou agonia. Decepção, reflexão de praxe talvez, sensação de que aquele sapato não me serve mais. Cheguei a um ponto da vida em que apresentar um seminário na disciplina do doutorado com calafrios de febre deixou de ser um drama pessoal pra virar evento corriqueiro. Afinal das contas que acerto com meus lençóis de algodão - e sem essa de dia sim dia não! - eu passo a vida correndo e pensando em nós, correndo e pensando em vocês, correndo de carro ou a pé, sempre querendo chegar... sempre... De sala em sala, uma breve passada em casa, um beijo na mãe, um oi pro sobrinho que cresceu e agora acha que beijar a tia é careta pra caralho, um oi pras irmãs via SMS, um beijo no pai que mora perto-longe via email, uma superhipermega otimização do meu tempo "livre" pra pedir colo. Esses momentos de prova, em que espero até o último aluno sair da sala, são uma prova também pra mim, que a minha cabeça pensa sem parar, que entender o outro não é brincadeira, que colocar uma cerca ao redor da casa pode ser uma tarefa complicada se o dono dela não gostar da cor. Fico tentando entender se quando acabar o maluco sou eu, mas tem tanta coisa além da minha compreensão hoje em dia que às vezes eu nem consigo chorar, nem gritar bem alto pra neguinho entender que eu não nasci pra brincar de casinha e contar pra minha mãe que um menino bobo e feio puxou o meu cabelo só porque eu pedi a ele que me ajudasse a arrumar a bagunça depois da festa. Onde está o cuidado que mora nos sonhos de toda mulher? Muitas mulheres abriram mão de recebê-lo pelo status da companhia. Acho tão bonita a palavra ALTERIDADE, que aprendi ao estudar sobre a relação professor-aluno... muito bonita e pouco conhecida - e ainda que estivesse na ponta da língua de quem quer que fale nosso bom português, palavra não é ato, não é fato e não enche barriga de quem tem fome do fazer, saudade do acontecer e pressa pra realizar. Construir mete medo; caminhar gera dúvida; ceder, admitir e evoluir passam longe do dicionário usado pelo autossuficiente, autoindulgente que não erra jamais. Sensação de que aquele sapato não me serve mais, que talvez nunca serviu, que eu só pus no pé pra ser princesa... sem cavalo, sem vestido, sem príncipe ou castelo.
Esse blog é destinado a compartilhar viagens literárias, e está aberto a seres humanos e afins... Divirtam-se!
sexta-feira, 2 de outubro de 2015
segunda-feira, 21 de setembro de 2015
"Os olhos que não queriam dormir"*
A gente tem sempre aquele dia de tensão, de confusão que dói a cabeça, embaralha as ideias. Não importa o que a vida te diga - na verdade entender o que a vida te diz é uma arte no fim das contas. Naquele dia de tensão a gente não diz que sim nem que não... fica meio a ver navios no mar que é sempre mais verde pra uns do que pra outros. Temo não descobrir por que a gente sonha com coisa ruim, por que é assim tão complicado crer no que está lá pra gente ver - ai de mim! Se o ontem se chama passado, por que diabos ele se espalha pelo dia de hoje, por que me aflige tanto, por que me confunde a ponto de doer a cabeça... por que ocupa uma parte tão grande das minhas sôfregas ideias? Obrigo-me a viver a bonança enquanto a tempestade brada lá fora, e fecho as janelas e tomo um chá e tento ler um livro e desejo que o sono chegue logo pra que eu me esqueça do quanto pode ser paradoxal a gente querer se bastar mesmo sendo bicho que nasceu pra viver junto. Ontem me abracei à minha velha almofada cor-de-rosa e me aninhei à metade da cama. Tinha brisa, chocolate, mate e sanduíche; tinha resquício de banho de lagoa na pele, sol nos cabelos, Gabriel García Marques e arquivos piscando pela noite afora. Em sonho um homem invadiu a minha casa. Eram três horas da manhã e eu tive medo de me levantar, de procurar, de checar, de viver. Me invadiu o medo de passar por isso sozinha, de acordar mais uma vez às três da manhã e rezar e tomar um copo dágua e voltar pra cama e falar com meus botões e ler outro conto peregrino em voz alta e pedir a Deus que por amor a qualquer coisa me deixe dormir porque às segundas fico cansada demais, porque agora tenho que acordar mais cedo, sair mais cedo de casa, me preparar melhor pra zarpar às 6:30 e retornar às 23:30 com cara de pessoa bonita e descansada. Não é o tipo de coisa que gera qualquer alarde - o problema de todo mundo é do mesmo tamanho, blablabla. O que eu queria mesmo era sentir o corpo, a alma e o coração em paz, como se finalmente meus olhos pudessem dormir.
*Esse é o nome de uma das historinhas mais lindas que já li. Fica aqui a homenagem.
segunda-feira, 24 de agosto de 2015
Mudança
Toda vez em que eu me olho no espelho vejo algo diferente - uma sarda nova, uma linha que se acentua, um fio de cabelo que perde a cor. A expressão, no entanto, não se altera. Continuam a brilhar meus olhos pensativos, meus dentes que adoram convidar para uma gargalhada ou ao menos um sorriso sincero. Vejo as formas do meu corpo e me sinto feliz ao percebê-lo bem-cuidado, saudável sem exageros. Penso em toda essa informação a se desenhar sobre a minha carcaça sem pedir licença... fico desejando sorver mais um gole dessa mudança que me esquenta o peito sem drama e sem pressa. O sabor das novidades que laçam meu momento de vida dá água na boca, conforta como sorvete que a gente prova pela primeira vez. Timidamente flerto com minhas pequenas-grandes conquistas e agradeço por ser adulta em terra de criança, que ser adulta me tira o medo de trocar o estar pelo ser, me faz querer permanecer essa moça-menina que não acredita em meta-romance ou pseudo-escolha. É hora de fazer as malas: por dentro, medo mineiro de onda grande - mar bravio a me espreitar com seus olhos de sonho e temperança.
sexta-feira, 7 de agosto de 2015
O atropelador de velhinhas
Andava distraído, ideias lançadas ao vento. No banco do passageiro, papeis lembravam-no de seu destino e propósito. De dentro do carro o sol ia alto e brilhava sem queimar ninguém - a fome o devorava. O clarão escondia novos capítulos que se desenrolavam nas ruas; o som falava bobagens que não interessavam mais. Das contas aos contos do vigário, dos planos ao pleno exercício da cidadania que vira chacota paga, vivia por viver, fazia por merecer e não acreditava em muita coisa, não. Andava distraído quando algo o impediu de seguir. Era uma senhora de uns sessenta anos, bem vestida, que atravessara a rua sem muita atenção. Saiu do carro, uma confusão embaralhou seus nervos e o que ocorreu depois, ah, isso não se sabe ao certo. Pegou o telefone no bolso, chamou por socorro e atendeu aos trâmites burocráticos de praxe. Foi para casa e tomou um banho demorado. "O ideal é evitarmos situações que podem gerar um desconforto futuro como forma de preservação de nós mesmos e de nossas relações humanas", era a voz da analista misturando-se à água quente que amolecia os ombros duros de inconsciente aflição. "E quando já aconteceu, como consertar?" "Não tem jeito, não se desfaz o que já foi feito: o tempo apaga essas marcas, e a sua conduta pessoal cria novas verdades e perspectivas." Enrolado na toalha, ligou para a senhora. Tudo bem. Respirou aliviado, riu ao pensar na sua falta de sorte, concluiu que tinha sorte afinal e foi jogar bola pensando no prejuízo que engordaria o bolso do lanterneiro. Tomou cachaça, foi ao cinema e pensou que é isso aí, que não foi tão mal assim, que viver o presente tem dessas coisas... que papel timbrado conta a história que ele quiser contar, sem choro, vela ou testemunha. Relatou o caso a uma meia dúzia, guardou as opiniões no lado esquerdo da camisa e quis que houvesse gente em casa. Adormeceu ao som da televisão, coração sussurrando notas preocupadas, cabeça doendo de angústia.
segunda-feira, 3 de agosto de 2015
Dez minutos
O que dá pra escrever em dez minutos? Talvez alguma impressão sobre o que me intriga mais... É só parar o relógio por uns momentos pra lembrar que tenho me sentido estranha, confusa até, querendo ser uma coisa só, engolir minhas preocupações com farinha, não pensar em nada, ir vivendo mesmo, correndo, comendo, fazendo o que eu acho certo e me convencendo de que a vileza alheia é exatamente o que é: alheia. Em dez minutos piso no chão quente da praia, sonho que corro sem cansar pela areia fofa e fico ansiando por mais um pouco, e peço a Deus que por favor me leve pra pescar num lago que tenha peixes e jogue a rede por mim. Em dez minutos eu tomo banho e choro baixinho sem saber sabendo de onde vem esse quê de desespero com cara de desesperança; desejo em silêncio que as pessoas boas tenham uma vida boa, que as ruins aprendam a viver direito, que as fracas queiram com todas as forças resistir às fraquezas terrenas - que a nossa carne seja nobre de tão forte, que o nosso espírito tome a frente do que nos resta e, como o doce Falkor, irrompa pelas nuvens da superficialidade que assola nosso tempo e me convença a confiar em gente grande, a acreditar que há outros como eu, que veem o que é bonito sem precisarem olhar, que aprenderam a apreciar a própria companhia, que respeitam o outro porque sabem se respeitar, que comemoram cada nascer do dia, que caem sempre mas dificilmente no mesmo lugar. Em dez minutos eu passo os olhos por esse grande livro de memórias com nome difícil e percorro as tantas ruas da minha vida, hoje vazias. Novas ruas se estendem sob meus pés descalços e eu fico aqui pensando que em dez minutos daria pra chegar esbaforida àquela praça, dizer eu te amo e parar de ouvir o rádio, o som do motor... pousar o corpo em seu coração falante até o medo se dissolver na respiração - sobre a cabeça luz, paz e o canto dos passarinhos.
quarta-feira, 29 de julho de 2015
Reckless bear
Pare!
Ainda que cada gesto meu te diga
"cale-se"
tome o que é seu
seja meu céu
sem pudor
atrase-me
pra que um belo dia
cheio de alegria
seu amor se espalhe em mim...
Ainda que cada gesto meu te diga
"cale-se"
tome o que é seu
seja meu céu
sem pudor
atrase-me
pra que um belo dia
cheio de alegria
seu amor se espalhe em mim...
segunda-feira, 20 de julho de 2015
República Adoecida da Treta que Pariu
As ferramentas do meu blog estão cada vez mais restritas - menos a opção "nova postagem". Essa nunca falhou. Significa que quem quer que tenha invadido o meu espaço sabe que eu tenho muita coisa pra falar e que não consigo fazer isso em 40 minutos de terapia por semana. Uma outra coisa que tenho achado muito interessante é o fato de agora ele não estar mais exatamente acessível. Achei isso ruim no começo, mas agora, sem facebook nem whatzapp, essa inacessibilidade relativa caiu como uma luva no estilo de vida que decidi adotar. Não quero saber o que não vierem me contar e é isso - o tempo que gastaria tentando descobrir o furo na conduta de alguém que SE engana eu gasto escolhendo móveis pra minha casa nova, estudando novos projetos pessoais e profissionais, tocando com meus amigos, tricotando com minhas bffs e divagando sobre coisas que só fazem sentido pra mim e meia dúzia de pessoas. Tenho acompanhado umas conversas sobre a corrupção no governo, o trabalho escravo nas confecções das lojas grandes, o massacre da classe média, os crimes bárbaros realizados por menores e os argumentos contra a redução da maioridade penal, muito bem fundamentados. Bom, vamos lá. O governo é corrupto desde que o Brasil é Brasil, vamos combinar - o que mudou foi o acesso geral à informação + a união que faz a força via fb e twitter + a facada no peito chamada "votei no PT pensando na melhoria de vida das classes C e D e agora nem o fato de o nosso país ter saído da linha da miséria compensa a roubalheira generalizada que nos leva para o túmulo dia após dia". A própria situação de "bonança econômica" que ecoou nos últimos anos parece agora ter sido de fachada, tão fachada quanto a Serra do Curral, praticamente um cenário, cartão postal pros desavisados (desavisados, a Serra do Curral é uma meia serra, i.e., só existe na frente - atrás ela já foi toda destruída pelas mineradoras do nosso belo estado). Em relação ao trabalho escravo, também muito antigo, acho engraçado as pessoas se indignarem com isso e pagarem uma média de 2.000,00 para seu lindo filho estudar em uma escola bilíngue que paga ao seu professor 14 pilas (isso mesmo!) pela hora de trabalho, incluindo preparação de aula, provas e uma encheção de saco inacreditável que a coordenação chama de "controle de qualidade". Isso sem contar o carnaval que vira o horário do professor, que é obrigado a dar pelo menos 40% de disponibilidade a mais do que o número de horas de trabalho pretendidas e geralmente é presenteado com uma coleção de horários vagos que não permitem que ele faça outra coisa naquela hora além de ficar na escola, porque nem juntos eles são. Me impressiona ver, por exemplo, que eu tenho 15 anos de carreira e que tenho corrido atrás do meu lugar ao sol desde que eu me entendo por gente que trabalha, tudo pra contar moedas no final do mês e agradecer quando sobra qualquer trocado. Tem gente no meu país sem um terço da minha qualificação ou experiência que ganha cem vezes mais dinheiro explorando a falta de noção alheia. Sim, porque no Brasil as pessoas em geral têm a cultura patética de pagar pela embalagem - o produto que se exploda. Se todo mundo se consulta com a fulaninha nutricionista que cobra 300 mangos pelo atendimento, por que raios preciso saber se ela já trabalhou alguma vez na vida, se tem algum tipo de experiência prévia? Afinal, ela é jovem, bonita, educada, sorridente... e magra! É nessas horas que me pergunto se a classe média está mesmo perto da extinção. Até esse bando de babacas ser processado por inadimplência dou uns bons 10 aninhos pra continuarem comendo piaba e arrotando caviar. Já sobre a maioridade penal, acho que a questão faz um gancho com todo o resto e fecha meu raciocínio. Pensem comigo: a redução da maioridade penal é um erro, porque claramente os jovens do nosso país precisam de condições básicas para viverem com dignidade, como moradia, alimentação, saúde e educação de qualidade, oportunidades de emprego. Certo? Indubitavelmente! Mas analisemos um detalhe: estamos no Brasil, país em que nem a classe média tem acesso a tais condições. OK, então sejamos a favor dessa redução, porque, afinal, esses marginais só estão cometendo toda a sorte de crimes hediondos porque sabem que não há punição real pelos crimes que cometem - na verdade muitos deles são inclusive recompensados pelos mandantes, com dinheiro e proteção que não experimentariam em nenhum outro setor da sociedade. A questão é: se levarem o de 12, tem o de 11, o de 10 e o de 9 viciados em crack com uma arma na mão. Cadê as instituições públicas que acolhem dependentes químicos? Cadê a possibilidade de um menino desse estudar sem ter que pedir dinheiro no sinal? Cadê a comida dele na mesa? Cadê a roupa, os sapatos? Cadê o direito de escolha de quem nasceu nessa vida? O Brasil é o país do empurra-empurra, da batata quente que não vai queimar a minha mão; o Brasil é a terra da treta, da maracutaia, do jeitinho. Basta dar uma pesquisada no número de advogados por metro quadrado, ávidos por mais uma fatia desse bolo recheado de brechas com as quais nos presenteia o legislativo. Aqui é a terra do cada um por si, da ociosidade que gera renda (éééééééééé!), da desonestidade justificada, da falha fundamentada num histórico de canalhices sem dia e hora pra acabar. Mas pra que se exaltar com tudo isso? Bom mesmo é passar horas acompanhando as fofocas desse povo bonito, sarado, bronzeado, com muito dente e pouca roupa, rolando pelo seu feed de notícias. Curtiu? Que pena, aqui não tem like ;)
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