sexta-feira, 7 de agosto de 2015

O atropelador de velhinhas

Andava distraído, ideias lançadas ao vento. No banco do passageiro, papeis lembravam-no de seu destino e propósito. De dentro do carro o sol ia alto e brilhava sem queimar ninguém - a fome o devorava. O clarão escondia novos capítulos que se desenrolavam nas ruas; o som falava bobagens que não interessavam mais. Das contas aos contos do vigário, dos planos ao pleno exercício da cidadania que vira chacota paga, vivia por viver, fazia por merecer e não acreditava em muita coisa, não. Andava distraído quando algo o impediu de seguir. Era uma senhora de uns sessenta anos, bem vestida, que atravessara a rua sem muita atenção. Saiu do carro, uma confusão embaralhou seus nervos e o que ocorreu depois, ah, isso não se sabe ao certo. Pegou o telefone no bolso, chamou por socorro e atendeu aos trâmites burocráticos de praxe. Foi para casa e tomou um banho demorado. "O ideal é evitarmos situações que podem gerar um desconforto futuro como forma de preservação de nós mesmos e de nossas relações humanas", era a voz da analista misturando-se à água quente que amolecia os ombros duros de inconsciente aflição. "E quando já aconteceu, como consertar?" "Não tem jeito, não se desfaz o que já foi feito: o tempo apaga essas marcas, e a sua conduta pessoal cria novas verdades e perspectivas." Enrolado na toalha, ligou para a senhora. Tudo bem. Respirou aliviado, riu ao pensar na sua falta de sorte, concluiu que tinha sorte afinal e foi jogar bola pensando no prejuízo que engordaria o bolso do lanterneiro. Tomou cachaça, foi ao cinema e pensou que é isso aí, que não foi tão mal assim, que viver o presente tem dessas coisas... que papel timbrado conta a história que ele quiser contar, sem choro, vela ou testemunha. Relatou o caso a uma meia dúzia, guardou as opiniões no lado esquerdo da camisa e quis que houvesse gente em casa. Adormeceu ao som da televisão, coração sussurrando notas preocupadas, cabeça doendo de angústia.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Dez minutos

O que dá pra escrever em dez minutos? Talvez alguma impressão sobre o que me intriga mais... É só parar o relógio por uns momentos pra lembrar que tenho me sentido estranha, confusa até, querendo ser uma coisa só, engolir minhas preocupações com farinha, não pensar em nada, ir vivendo mesmo, correndo, comendo, fazendo o que eu acho certo e me convencendo de que a vileza alheia é exatamente o que é: alheia. Em dez minutos piso no chão  quente da praia, sonho que corro sem cansar pela areia fofa e fico ansiando por mais um pouco, e peço a Deus que por favor me leve pra pescar num lago que tenha peixes e jogue a rede por mim. Em dez minutos eu tomo banho e choro baixinho sem saber sabendo de onde vem esse quê de desespero com cara de desesperança; desejo em silêncio que as pessoas boas tenham uma vida boa, que as ruins aprendam a viver direito, que as fracas queiram com todas as forças resistir às fraquezas terrenas - que a nossa carne seja nobre de tão forte, que o nosso espírito tome a frente do que nos resta e, como o doce Falkor, irrompa pelas nuvens da superficialidade que assola nosso tempo e me convença a confiar em gente grande, a acreditar que há outros como eu, que veem o que é bonito sem precisarem olhar, que aprenderam a apreciar a própria companhia, que respeitam o outro porque sabem se respeitar, que comemoram cada nascer do dia, que caem sempre mas dificilmente no mesmo lugar. Em dez minutos eu passo os olhos por esse grande livro de memórias com nome difícil e percorro as tantas ruas da minha vida, hoje vazias. Novas ruas se estendem sob meus pés descalços e eu fico aqui pensando que em dez minutos daria pra chegar esbaforida àquela praça, dizer eu te amo e parar de ouvir o rádio, o som do motor... pousar o corpo em seu coração falante até o medo se dissolver na respiração - sobre a cabeça luz, paz e o canto dos passarinhos.  

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Reckless bear

Pare!

Ainda que cada gesto meu te diga 
"cale-se"
tome o que é seu
seja meu céu
sem pudor
atrase-me
pra que um belo dia
cheio de alegria
seu amor se espalhe em mim...


segunda-feira, 20 de julho de 2015

República Adoecida da Treta que Pariu

As ferramentas do meu blog estão cada vez mais restritas - menos a opção "nova postagem". Essa nunca falhou. Significa que quem quer que tenha invadido o meu espaço sabe que eu tenho muita coisa pra falar e que não consigo fazer isso em 40 minutos de terapia por semana. Uma outra coisa que tenho achado muito interessante é o fato de agora ele não estar mais exatamente acessível. Achei isso ruim no começo, mas agora, sem facebook nem whatzapp, essa inacessibilidade relativa caiu como uma luva no estilo de vida que decidi adotar. Não quero saber o que não vierem me contar e é isso - o tempo que gastaria tentando descobrir o furo na conduta de alguém que SE engana eu gasto escolhendo móveis pra minha casa nova, estudando novos projetos pessoais e profissionais, tocando com meus amigos, tricotando com minhas bffs e divagando sobre coisas que só fazem sentido pra mim e meia dúzia de pessoas. Tenho acompanhado umas conversas sobre a corrupção no governo, o trabalho escravo nas confecções das lojas grandes, o massacre da classe média, os crimes bárbaros realizados por menores e os argumentos contra a redução da maioridade penal, muito bem fundamentados. Bom, vamos lá. O governo é corrupto desde que o Brasil é Brasil, vamos combinar - o que mudou foi o acesso geral à informação + a união que faz a força via fb e twitter + a facada no peito chamada "votei no PT pensando na melhoria de vida das classes C e D e agora nem o fato de o nosso país ter saído da linha da miséria compensa a roubalheira generalizada que nos leva para o túmulo dia após dia". A própria situação de "bonança econômica" que ecoou nos últimos anos parece agora ter sido de fachada, tão fachada quanto a Serra do Curral, praticamente um cenário, cartão postal pros desavisados (desavisados, a Serra do Curral é uma meia serra, i.e., só existe na frente - atrás ela já foi toda destruída pelas mineradoras do nosso belo estado). Em relação ao trabalho escravo, também muito antigo, acho engraçado as pessoas se indignarem com isso e pagarem uma média de 2.000,00 para seu lindo filho estudar em uma escola bilíngue que paga ao seu professor 14 pilas (isso mesmo!) pela hora de trabalho, incluindo preparação de aula, provas e uma encheção de saco inacreditável que a coordenação chama de "controle de qualidade". Isso sem contar o carnaval que vira o horário do professor, que é obrigado a dar pelo menos 40% de disponibilidade a mais do que o número de horas de trabalho pretendidas e geralmente é presenteado com uma coleção de horários vagos que não permitem que ele faça outra coisa naquela hora além de ficar na escola, porque nem juntos eles são. Me impressiona ver, por exemplo, que eu tenho 15 anos de carreira e que tenho corrido atrás do meu lugar ao sol desde que eu me entendo por gente que trabalha, tudo pra contar moedas no final do mês e agradecer quando sobra qualquer trocado. Tem gente no meu país sem um terço da minha qualificação ou experiência que ganha cem vezes mais dinheiro explorando a falta de noção alheia. Sim, porque no Brasil as pessoas em geral têm a cultura patética de pagar pela embalagem - o produto que se exploda. Se todo mundo se consulta com a fulaninha nutricionista que cobra 300 mangos pelo atendimento, por que raios preciso saber se ela já trabalhou alguma vez na vida, se tem algum tipo de experiência prévia? Afinal, ela é jovem, bonita, educada, sorridente... e magra! É nessas horas que me pergunto se a classe média está mesmo perto da extinção. Até esse bando de babacas ser processado por inadimplência dou uns bons 10 aninhos pra continuarem comendo piaba e arrotando caviar. Já sobre a maioridade penal, acho que a questão faz um gancho com todo o resto e fecha meu raciocínio. Pensem comigo: a redução da maioridade penal é um erro, porque claramente os jovens do nosso país precisam de condições básicas para viverem com dignidade, como moradia, alimentação, saúde e educação de qualidade, oportunidades de emprego. Certo? Indubitavelmente! Mas analisemos um detalhe: estamos no Brasil, país em que nem a classe média tem acesso a tais condições. OK, então sejamos a favor dessa redução, porque, afinal, esses marginais só estão cometendo toda a sorte de crimes hediondos porque sabem que não há punição real pelos crimes que cometem - na verdade muitos deles são inclusive recompensados pelos mandantes, com dinheiro e proteção que não experimentariam em nenhum outro setor da sociedade. A questão é: se levarem o de 12, tem o de 11, o de 10 e o de 9 viciados em crack com uma arma na mão. Cadê as instituições públicas que acolhem dependentes químicos? Cadê a possibilidade de um menino desse estudar sem ter que pedir dinheiro no sinal? Cadê a comida dele na mesa? Cadê a roupa, os sapatos? Cadê o direito de escolha de quem nasceu nessa vida? O Brasil é o país do empurra-empurra, da batata quente que não vai queimar a minha mão; o Brasil é a terra da treta, da maracutaia, do jeitinho. Basta dar uma pesquisada no número de advogados por metro quadrado, ávidos por mais uma fatia desse bolo recheado de brechas com as quais nos presenteia o legislativo. Aqui é a terra do cada um por si, da ociosidade que gera renda (éééééééééé!), da desonestidade justificada, da falha fundamentada num histórico de canalhices sem dia e hora pra acabar. Mas pra que se exaltar com tudo isso? Bom mesmo é passar horas acompanhando as fofocas desse povo bonito, sarado, bronzeado, com muito dente e pouca roupa, rolando pelo seu feed de notícias. Curtiu? Que pena, aqui não tem like ;)

terça-feira, 23 de junho de 2015

Non ho paura

Entrar aqui hoje, depois de tanto tempo, me encheu de medo. É como se eu estivesse visitando os escombros da minha história, como se meu esconderijo tivesse sido encontrado por alguma frente ditatorial reacionária e bombardeado até a próxima vida. Ainda consigo entrar, pensei por um breve segundo. E logo quis tomar mais uma página do único lugar em que me sinto segura e acolhida para compartilhar o meu medo. Que medo de viver! Pessoas e lugares passam por mim, notícias que eu não quero ler, coisas sobre as quais não me interessa saber porque quero que sobre espaço na minha cabeça pra sonhar, imaginar dias felizes em que eu trabalho com afinco e à noite tomo uma xícara de chá bem quente depois do banho, dias em que eu checo o saldo da minha conta bancária e sorrio ao concluir que vou conseguir pagar as minhas contas e ainda ter dinheiro pra tomar um picolé no domingo à tarde, dançar loucamente num sábado à noite ou simplesmente ver muitos filmes e comer várias coisas gostosas sem medo de engordar, sem medo de o fim de semana acabar e eu me sentir menos jovem por não estar por aí bebendo até o dia clarear. Corro atrás dos meus ideais, carrego no peito um amuleto pra me lembrar da minha fé insistente, da minha crença de que sou protegida e abençoada, que aprender é meu combustível pra ensinar... e ainda assim que medo de tudo! Medo de querer amar, de amar demais, de amar de menos, de falhar, de a cabeça não aguentar, de o corpo sucumbir, de não ganhar um abraço apertado e um beijo demorado ao final do dia, de ver de novo aquele filme ruim, de dar ouvidos àquela voz que por tantos anos me disse que eu não iria conseguir sozinha, que não ter a presença de um pai me tornaria eternamente frágil e dependente da boa vontade alheia, que sem ajuda não teria pra onde ir. Mas olha só onde eu estou, ora essa! Surfando em uma nuvem branca de paz e oportunidades, de sorte e possibilidades, de gana, grana contada que não tem cara de vaca magra, magra de viver, linda de sofrer e emergir da água fria com a mesma classe de uma garota fantástica dos anos 80 que eu acabo sendo ao sair do chuveiro! Nessa de tentar entender as pessoas a gente acaba se entendendo, se perdoando, se perdendo no meio de tantos e tantos sonhos que nos catam pelo braço e gritam: Aqui, você é aquela que sabe, a que quer aprender ou um saco de batata palha, que vai virar história em 5 minutos de strogonoff na mesa? Não é fácil andar pelos caminhos da sua ex-vida e catar os pedaços; não é fácil se reinventar preservando a essência da fé, do pensamento e do coração; não é fácil viver de um jeito que você não esperava, ser velha pra maioria das coisas, até pra planejar. Há quem diga que esse medo do desconhecido nos impulsiona a viver com intensidade, mas eu sou muito mulherzinha pra enfiar o pé na jaca sem pensar no amanhã. Pensamento de quem se banca sem se bastar, de quem aprende enquanto alguém espera que você possa ensinar, de quem não queria precisar de ninguém mas adora a companhia... Ah, mas o danado do medo... esse tá só me enchendo de medo mesmo, medo de que tudo se acabe e só me reste esse medo de crescer.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Mamma mia

Mamãe tem fotos minhas com bochechas gordinhas e cara amarrada - eu estava sempre brava ou pensativa, talvez porque ela sempre cortava meu cabelo Joãozinho e me vestia com roupas que eu achava que eram de menino. Mamãe dizia que era pro cabelo crescer forte e bonito quando chegasse a hora. Não economizava com material escolar porque sabia que eu amava os lápis, as borrachas, os estojos e os cadernos mais bonitos. Tinha aquelas caixas de 36 lápis de cor e achava que de um pra outro era uma diferença danada - mamãe fazia que sim com a cabeça. Íamos pra casa da vovó Fia e eu já tinha um lugar à mesa pra colocar minha pastinha e tirar de lá os livros de colorir da Moranguinho. Adorava desenhar roupas, minha vó achava que eu tinha talento e levava super a sério os meus desenhos - quase tanto a sério quanto eu. Mamãe ria. Eu olhava pra ela e ficava imaginando o que ela achava que eu ia ser. Até hoje ela lembra de umas coisas engraçadas que eu dizia (acho que eu era espirituosa, hihihi...) - conta os casos em detalhes (o do dia em que eu nasci ela conta pelo menos umas 4 vezes por ano). Mamãe tirava foto de cada momento meu ou nosso porque eu sou a filha mais velha. Me levou a tiracolo pra todos os lugares, e chorava quando ia trabalhar porque eu chorava e não queria que ela fosse. Quis que eu aprendesse a nadar, falar inglês e estudar nas melhores escolas. Mamãe vendeu as férias para que eu viajasse aos 15 anos. Escolheu o vestido mais bonito para o meu baile de debutantes e depois para minha formatura. Deu vários palpites que eu fingia ignorar no começo e acabava aceitando sem jeito mais tarde. Depois de tantos capítulos de várias cores e teores, mamãe ainda fica surpresa quando eu faço um agradinho. Mamãe faz tanto agradinho que até presente de dia dos professores ela me dá todo ano. Nas suas conjecturas arquitetônicas de outras vidas, mamãe criou uma casa pra mim dentro da casa dela. Não entendia por que ela brigava tanto comigo como se eu estivesse fazendo tudo errado, até descobrir que na verdade bem verdade mesmo ela só tinha certeza de que eu poderia fazer muito mais certo. Tem uma lupa no coração dela que me vê grande, capaz das maiores coisas, das mais bonitas. É só por isso que eu nunca desisto de tentar alcançá-las. Obrigada, mamãe, por sempre despertar o melhor em mim, por me mostrar que o que eu faço por você é muito pouco... por me ensinar de um jeito só seu o que é o amor!

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Hide-and-seek

E eis que numa tarde quente de um dia comum sinto a sua falta e te procuro pelas páginas do meu computador desde sempre tão atarefado. Descubro um caminho secreto, um lado b, sinto-me inteligente ao encontrá-lo à minha espera e logo após me lembro que essa descoberta não partiu de mim. Alguém me ensinou a te encontrar tempos atrás, alguém que já me ensinou tanta coisa porque eu nunca deixei de pedir. E agora, descrevendo meus pensares por essa folha branca e tão familiar, penso na importância de nos expressarmos com liberdade, sem dor e sem exposição. Tenho andado distraída, cabeça ocupada por ideias mirabolantes, idealismos vários, pequenas vontades concretas de cuidar de mim, de fazer mais pelo meu corpo, de descansar meu coração e acarinhar a minha alma com sentimentos bons e atitudes sólidas, verdadeiras. Meus ombros já não pesam mais. Meu cansaço me abraça com um sorriso ao cair a madrugada - sorriso de dever cumprido, de proteção divina, de privilégio. Escolhi andar devagar, com a cabeça erguida e a mente quieta; em troca sou envolvida por essa paz de quem nunca se cansará de colher o que planta; aquela paz de alguém que experimenta a oportunidade de plantar com sabedoria, com fé, com amor... que conta com a sorte, com os bons amigos, com o tempero de cada novidade. Meu baú virtual, fiel escudeiro e guardião de tantas aventuras, foi invadido por alguém que não sabe o que faz. Ainda bem que eu soube o que fazer para abrigar em sua memória mais uma das minhas felizes descobertas. Sou finalmente dona de mim, meu caro amigo - jogo lixo no lixo, tenho o direito e o dever de ir e vir, como o que gosto, faço algo de bom por mim diariamente, leio muito, vou ao cinema quase sempre e trabalho com a alegria de quem vê em sua ocupação um belo propósito. Se alguma coisa doer, tomo um suco de açaí, como uma pizza de abobrinha ou me entrego a uma taça de morango com leite condensado. A vida tem dessas coisas bonitas, dessas coisas simples, dessas coisas que a gente não entende mas aprende a agradecer porque é o único caminho que nos faz bem. Em nome da minha liberdade consciente para expressar o que quer que caiba na área total da minha existência em meia dúzia ou meio mundo de palavras, agradeço ao meu doce e querido garrastazu...