E eis que numa tarde quente de um dia comum sinto a sua falta e te procuro pelas páginas do meu computador desde sempre tão atarefado. Descubro um caminho secreto, um lado b, sinto-me inteligente ao encontrá-lo à minha espera e logo após me lembro que essa descoberta não partiu de mim. Alguém me ensinou a te encontrar tempos atrás, alguém que já me ensinou tanta coisa porque eu nunca deixei de pedir. E agora, descrevendo meus pensares por essa folha branca e tão familiar, penso na importância de nos expressarmos com liberdade, sem dor e sem exposição. Tenho andado distraída, cabeça ocupada por ideias mirabolantes, idealismos vários, pequenas vontades concretas de cuidar de mim, de fazer mais pelo meu corpo, de descansar meu coração e acarinhar a minha alma com sentimentos bons e atitudes sólidas, verdadeiras. Meus ombros já não pesam mais. Meu cansaço me abraça com um sorriso ao cair a madrugada - sorriso de dever cumprido, de proteção divina, de privilégio. Escolhi andar devagar, com a cabeça erguida e a mente quieta; em troca sou envolvida por essa paz de quem nunca se cansará de colher o que planta; aquela paz de alguém que experimenta a oportunidade de plantar com sabedoria, com fé, com amor... que conta com a sorte, com os bons amigos, com o tempero de cada novidade. Meu baú virtual, fiel escudeiro e guardião de tantas aventuras, foi invadido por alguém que não sabe o que faz. Ainda bem que eu soube o que fazer para abrigar em sua memória mais uma das minhas felizes descobertas. Sou finalmente dona de mim, meu caro amigo - jogo lixo no lixo, tenho o direito e o dever de ir e vir, como o que gosto, faço algo de bom por mim diariamente, leio muito, vou ao cinema quase sempre e trabalho com a alegria de quem vê em sua ocupação um belo propósito. Se alguma coisa doer, tomo um suco de açaí, como uma pizza de abobrinha ou me entrego a uma taça de morango com leite condensado. A vida tem dessas coisas bonitas, dessas coisas simples, dessas coisas que a gente não entende mas aprende a agradecer porque é o único caminho que nos faz bem. Em nome da minha liberdade consciente para expressar o que quer que caiba na área total da minha existência em meia dúzia ou meio mundo de palavras, agradeço ao meu doce e querido garrastazu...
Esse blog é destinado a compartilhar viagens literárias, e está aberto a seres humanos e afins... Divirtam-se!
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015
sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
Carta ao meu pai
Querido, muito querido papai,
O
ano passado não foi nem um pouco fácil pra mim. Nem um pouco. Só agora
estou começando a respirar com mais tranquilidade, mas não menos confusa
em relação a tudo.
A fé, o amor incondicional e a capacidade de perdoar
ao invés de julgar são os três pilares nos quais devemos nos apoiar,
pai. Hoje e sempre.
Um beijo da sua filha que se orgulha muito disso,
Érika
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
Doe a quem doar
As pessoas de forma geral entendem que cortesia e
gentileza dentro de casa são itens opcionais no cardápio do dia-a-dia. Atenção:
não é uma boa ideia ser gentil e cortês em família - é uma regra. Por muitos
anos compartilhei a vida com um cara que bancava todos os sonhos dos pais. Em
outras palavras, se a mãe dele ligasse às 5 da manhã pedindo pra ele capinar o
jardim e construir uma piscina no lugar, lá estava ele. Voltava no fim da tarde
sujo, suado, mãos escalavradas, sorriso no rosto e muitas novidades. Estranho
seria se eu quisesse por uma semana sequer me relacionar com alguém diferente.
Tem muita gente achando que trata os pais e irmãos com carinho sem bancar os
sonhos, sem colocar a mão na massa. Dá um beijinho na testa no fim de semana,
agradece na frente dos amigos pelo exemplo de bravura e superação... e está
sempre muito ocupado para ouvir, para ajudar. É o momento de construir um
império, você pensa com seus botões. É a forma de compensar o esforço dos
velhos, você se justifica e conclui com seriedade e certeza que ter condições
materiais para, entre outras coisas, ampará-los durante a velhice vai compensar
a sua ausência ou o fato de você tê-los taken for granted (essa expressão
inclusive é tão boa no que ela quer dizer que ainda não consegui achar um
correspondente à altura na nossa língua). Se você negligencia ou destrata seus
pais POR QUALQUER MOTIVO, ainda existem coisas bem grandes pra serem revistas
aí dentro. Coisas de você com você. Fazer trabalhos voluntários e não arrumar a
própria cama, carregar quilos de alimentos não perecíveis pela estrada afora e
deixar que sua mãe carregue as compras do supermercado não é coerente. Visitar
velhinhos doentes e deixar que seu pai envelheça sem cuidado ou afeto em um
lugar que não te interessa é, no mínimo, intrigante. Aprendi um dia que quando
se aponta um dedo para alguém, os outros quatro estão apontados pra você. Ainda
assim, agora, do alto dos meus 35 verões, saio na rua e vejo uma preocupação
tão exacerbada com o EU que me enjoa. É necessário que se entenda que sim, todo
mundo que tem dinheiro é bonito hoje. Os procedimentos estéticos e recursos da
cosmética atual têm homogeneizado a pele, o cabelo, peitos, bunda, pernas,
braços, sorrisos. As roupas têm insistido em mostrar mais até do que se espera
ver. Perde-se, assim, o espaço para a imaginação, a cortesia, o amor gentil, a
vontade de conhecer, de caminhar rumo à intimidade sem pressa, de ser ao invés
de estar. Hoje as pessoas se conhecem e se curtem por foto; hoje foto é tirada
de qualquer jeito em qualquer lugar. Online todo mundo tem assunto, tem
coragem, tem frases feitas pra tirar do bolso. O especial pede passagem
sem sucesso... Já tem livro ensinando a arte da conquista e as pessoas
compram sem nem parar pra pensar que a conexão que se pauta no estético, no
efêmero, na estratégia dificilmente levará a um encontro de almas, de valores,
de transparência e tranquilidade afetiva. Que nesse ano que se inicia tenhamos
saúde para organizarmos o tempo de um jeito que possamos compreender o que realmente
gostaríamos de receber. Só assim poderemos nos doar de forma pura, leve,
indolor e linda de tão singular.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2014
Pão de mel
A gente inventa, né? Inventa mesmo umas modas que é pra mudar a estação, pra parar de chover ou pra cair mais água lá de cima, pra ser visto, pra criar expectativas de um amanhã mais... personalizado. A gente faz que gosta porque sorrir é mais barato - rir então é de graça, não há mais dúvida disso. Nos descobrimos um bocado de coisas e esboçamos um quê de falsa surpresa, e no atropelo da mudança de episódio desligamos a tv pra fazer algo politicamente incorreto - só porque é disso que a gente gosta. Não tem essa de criar motivos, de perceber, de entender, porque sabendo ou não a estrada aponta pro mesmo lugar - a gente só faz o que quer, porque esse querer é a razão de tudo, é o chicote no lombo do coração arriado, último suspiro. Não interessa quem quer mais: a gente quer junto e junto a gente vai mudar o mundo, correr na praia, participar de movimentos populares e individuais, olhar pra dentro de um jeito nu e cru que dói dor generalizada; junto a gente vai perder o medo do escuro, pular de um lugar alto e gargalhar em um momento triste do filme porque a gente achou cliché. A gente vai passar uma noite junto de mãos dadas com a luz acesa, pra se misturar no calor da penumbra dois dias depois - a gente vai ser feliz! Já disse que sou bem inofensiva - gosto de livros, crianças e bichos e rezo por um tanto de gente de uma vez. Talvez eu seja mesmo, mas a gente... a gente inventa moda, pinta o sete e se joga n'água fria sem contar até três ;)
terça-feira, 9 de dezembro de 2014
Aliasas
Passei os últimos dias pensando em alguma coisa bonita pra escrever... mas não me vinha. Nada de palavra que fosse só minha, nada de mantra, tantra ou esperança florida. Parei de sentir. Parei de querer. Devagar fui entender que no meu tempo não há espaço pra drama, trama de novela - e fui agradecer porque lá fora ninguém deseja que haja. Não há sequer um grama de tristeza nessa descoberta: me encontrei pequena-grande no alpendre daquela casinha... querendo ser eu, sozinha, sem sombra de desconforto, sem tromba d'água, sem chuva. Caí em mim como uma luva e soube que não era egoísta nem narcisista me amar assim desse jeito em que eu me aceito, me guio, faço promessas sem fim pra viver sem pressa, pra ter apreço por quem me interessa e pra ser sem estar lá - pra deixar uma doce lembrança no sofá, na cozinha, na grama da praça enquanto acho graça em um filme que passa do outro lado da cidade tão minha, curtindo a minha própria companhia sem me expor, sem doer, sem pensar no que eu fiz ou deixei de fazer, sem tentar compreender por que é que eu olho pra você e não sinto nada além de uma vontade enorme de voltar, de deitar na areia da praia e ouvir o barulho do mar e não ter hora pra sair nem dia pra chegar. Subo em meu barco pequeno demais pra nós dois e navego em minha própria vida e me sinto querida mas sobretudo desejada, e deixo toda essa saliva se afogar em conversa fiada enquanto espero pelo próximo momento em que eu me farei feliz ao perceber que por um triz minha resignação daria espaço à vontade de, como todo mundo, ter um coração. Ele não vai bater se você passar, azar... não sinto nada. Nem fome de cheiro, nem sede de gosto, nem vontade de esperar. Não há fruta mais macia que sorriso na boca e cabeça vazia, suspira de alívio meu paladar.
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
Rowing
Quem já amou uma vez fica com aquele amor no coração sem sombra de outra possibilidade. Compara, se abala e não vê a verdadeira verdade. Pelo tempo que for, do jeito que tiver que ser, conscientemente ou não, quem já amou dá voltas e voltas pelo salão em busca de alguém melhor, sem ver no novo uma oportunidade. Quem já amou tem medo do diferente, e faz de conta que não sente o coração descongelar lá dentro do peito com um sorriso, uma palavra amiga, um gosto, cheiro ou gesto recente. Quem já amou demais tem mania de colocar aquela pessoa que já não o fazia feliz em um altar resplandecente, com fotos e lembranças de um tempo que não volta mais. Quem já amou uma vez não passa um dia sem olhar pra trás... enquanto à frente pede passagem alguém interessante, incandescente, alguém que deixaria sua vida quente e macia sem por quês ou mas. Amar é saber que muita coisa vale a pena, que o que fica é resultado do que se esvai... que para cada lua que chega serena há um sol que se põe - que amanhã a janela vai se abrir e te mostrar o que o mundo propõe: um sopro de vida em águas tranquilas, sem uivos ou ais.
sexta-feira, 21 de novembro de 2014
Microcosmo
Não é novidade que eu ando sempre apressada, como o coelho da Alice. Relógio em punho, passo o dia brincando de contar minutos - calculo o tempo máximo para realizar uma tarefa e espremo o comer, beber e tomar banho no espaço entre duas atividades estacionadas na minha trilha mental. No computador música clássica, vã tentativa de fazer a cabeça borbulhar menos um pouquinho. E aí vem o trânsito... Escolhi a tarde para dirigir loucamente, nesse esquema de cronometrar cada segundo até chegar em todo e qualquer lugar. À tarde não tem jeito - me atraso. Carro demais, gente demais fazendo sabe-se lá o que naquele horário em que deveriam estar todos trancados no escritório. Eu? Pateta no trânsito, of course! E lá se vai a coelhinha simpática... Trilha sonora: Strokes, Ramones, Prodigy, Delinquent Habits, DMX (auuuuu), Cypress Hill. No talo. Vou cantando alto, trocando de pista como se dançasse um bolero pela estrada afora, cabelo mais desgrenhado a cada esquina. Coração batendo forte. Lembro que tenho um coração quando aquela adrenalina faz formigar meu corpo todo, até eu entender - bem devagar - que pra gente ser muito importante na vida de alguém tem que primeiro ser pouco importante; que a prática é inimiga da novidade; que adulto também gosta de passear de carro; que querer só é poder se você deixar pra lá e ligar o foda-se; que foda-se é uma palavra muito libertadora; que não precisar de chapa ou escova é motivo de sobra pra agradecer, porque você pode deixar o vento entrar e fazer a festa. Ligo meus rocks e raps bem alto e percebo o quanto esse momento é importante por ser um tempinho meu comigo, uns minutinhos pra eu ficar alheia a tudo o que me cansa e me consome - rio sozinha, fico achando que canto bem, faço coreografias, passo umas coisas no rosto pra dar um up, checo meu telefone e até leio uns textos quando o tráfego permite. Particular, eu sei; peculiar também. Abro a porta do carro e saio cantando, descabelada, até a próxima tarefa. Na cabeça, a vaga lembrança de que estou viva, muito viva... pronta pra fazer o que for preciso e receber o que tiver que ser meu em algum momento que não demande tanto da minha paciência ;)
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