A gente inventa, né? Inventa mesmo umas modas que é pra mudar a estação, pra parar de chover ou pra cair mais água lá de cima, pra ser visto, pra criar expectativas de um amanhã mais... personalizado. A gente faz que gosta porque sorrir é mais barato - rir então é de graça, não há mais dúvida disso. Nos descobrimos um bocado de coisas e esboçamos um quê de falsa surpresa, e no atropelo da mudança de episódio desligamos a tv pra fazer algo politicamente incorreto - só porque é disso que a gente gosta. Não tem essa de criar motivos, de perceber, de entender, porque sabendo ou não a estrada aponta pro mesmo lugar - a gente só faz o que quer, porque esse querer é a razão de tudo, é o chicote no lombo do coração arriado, último suspiro. Não interessa quem quer mais: a gente quer junto e junto a gente vai mudar o mundo, correr na praia, participar de movimentos populares e individuais, olhar pra dentro de um jeito nu e cru que dói dor generalizada; junto a gente vai perder o medo do escuro, pular de um lugar alto e gargalhar em um momento triste do filme porque a gente achou cliché. A gente vai passar uma noite junto de mãos dadas com a luz acesa, pra se misturar no calor da penumbra dois dias depois - a gente vai ser feliz! Já disse que sou bem inofensiva - gosto de livros, crianças e bichos e rezo por um tanto de gente de uma vez. Talvez eu seja mesmo, mas a gente... a gente inventa moda, pinta o sete e se joga n'água fria sem contar até três ;)
Esse blog é destinado a compartilhar viagens literárias, e está aberto a seres humanos e afins... Divirtam-se!
segunda-feira, 15 de dezembro de 2014
terça-feira, 9 de dezembro de 2014
Aliasas
Passei os últimos dias pensando em alguma coisa bonita pra escrever... mas não me vinha. Nada de palavra que fosse só minha, nada de mantra, tantra ou esperança florida. Parei de sentir. Parei de querer. Devagar fui entender que no meu tempo não há espaço pra drama, trama de novela - e fui agradecer porque lá fora ninguém deseja que haja. Não há sequer um grama de tristeza nessa descoberta: me encontrei pequena-grande no alpendre daquela casinha... querendo ser eu, sozinha, sem sombra de desconforto, sem tromba d'água, sem chuva. Caí em mim como uma luva e soube que não era egoísta nem narcisista me amar assim desse jeito em que eu me aceito, me guio, faço promessas sem fim pra viver sem pressa, pra ter apreço por quem me interessa e pra ser sem estar lá - pra deixar uma doce lembrança no sofá, na cozinha, na grama da praça enquanto acho graça em um filme que passa do outro lado da cidade tão minha, curtindo a minha própria companhia sem me expor, sem doer, sem pensar no que eu fiz ou deixei de fazer, sem tentar compreender por que é que eu olho pra você e não sinto nada além de uma vontade enorme de voltar, de deitar na areia da praia e ouvir o barulho do mar e não ter hora pra sair nem dia pra chegar. Subo em meu barco pequeno demais pra nós dois e navego em minha própria vida e me sinto querida mas sobretudo desejada, e deixo toda essa saliva se afogar em conversa fiada enquanto espero pelo próximo momento em que eu me farei feliz ao perceber que por um triz minha resignação daria espaço à vontade de, como todo mundo, ter um coração. Ele não vai bater se você passar, azar... não sinto nada. Nem fome de cheiro, nem sede de gosto, nem vontade de esperar. Não há fruta mais macia que sorriso na boca e cabeça vazia, suspira de alívio meu paladar.
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
Rowing
Quem já amou uma vez fica com aquele amor no coração sem sombra de outra possibilidade. Compara, se abala e não vê a verdadeira verdade. Pelo tempo que for, do jeito que tiver que ser, conscientemente ou não, quem já amou dá voltas e voltas pelo salão em busca de alguém melhor, sem ver no novo uma oportunidade. Quem já amou tem medo do diferente, e faz de conta que não sente o coração descongelar lá dentro do peito com um sorriso, uma palavra amiga, um gosto, cheiro ou gesto recente. Quem já amou demais tem mania de colocar aquela pessoa que já não o fazia feliz em um altar resplandecente, com fotos e lembranças de um tempo que não volta mais. Quem já amou uma vez não passa um dia sem olhar pra trás... enquanto à frente pede passagem alguém interessante, incandescente, alguém que deixaria sua vida quente e macia sem por quês ou mas. Amar é saber que muita coisa vale a pena, que o que fica é resultado do que se esvai... que para cada lua que chega serena há um sol que se põe - que amanhã a janela vai se abrir e te mostrar o que o mundo propõe: um sopro de vida em águas tranquilas, sem uivos ou ais.
sexta-feira, 21 de novembro de 2014
Microcosmo
Não é novidade que eu ando sempre apressada, como o coelho da Alice. Relógio em punho, passo o dia brincando de contar minutos - calculo o tempo máximo para realizar uma tarefa e espremo o comer, beber e tomar banho no espaço entre duas atividades estacionadas na minha trilha mental. No computador música clássica, vã tentativa de fazer a cabeça borbulhar menos um pouquinho. E aí vem o trânsito... Escolhi a tarde para dirigir loucamente, nesse esquema de cronometrar cada segundo até chegar em todo e qualquer lugar. À tarde não tem jeito - me atraso. Carro demais, gente demais fazendo sabe-se lá o que naquele horário em que deveriam estar todos trancados no escritório. Eu? Pateta no trânsito, of course! E lá se vai a coelhinha simpática... Trilha sonora: Strokes, Ramones, Prodigy, Delinquent Habits, DMX (auuuuu), Cypress Hill. No talo. Vou cantando alto, trocando de pista como se dançasse um bolero pela estrada afora, cabelo mais desgrenhado a cada esquina. Coração batendo forte. Lembro que tenho um coração quando aquela adrenalina faz formigar meu corpo todo, até eu entender - bem devagar - que pra gente ser muito importante na vida de alguém tem que primeiro ser pouco importante; que a prática é inimiga da novidade; que adulto também gosta de passear de carro; que querer só é poder se você deixar pra lá e ligar o foda-se; que foda-se é uma palavra muito libertadora; que não precisar de chapa ou escova é motivo de sobra pra agradecer, porque você pode deixar o vento entrar e fazer a festa. Ligo meus rocks e raps bem alto e percebo o quanto esse momento é importante por ser um tempinho meu comigo, uns minutinhos pra eu ficar alheia a tudo o que me cansa e me consome - rio sozinha, fico achando que canto bem, faço coreografias, passo umas coisas no rosto pra dar um up, checo meu telefone e até leio uns textos quando o tráfego permite. Particular, eu sei; peculiar também. Abro a porta do carro e saio cantando, descabelada, até a próxima tarefa. Na cabeça, a vaga lembrança de que estou viva, muito viva... pronta pra fazer o que for preciso e receber o que tiver que ser meu em algum momento que não demande tanto da minha paciência ;)
quinta-feira, 13 de novembro de 2014
Twinkled
E lá vem me encher a cabeça a tal diferença entre fazer e realizar. Junto com ela caminha o medo de o mundo se acabar sem aviso e eu não saber se é aqui onde eu deveria estar. Ah, a doce arte de começar... e aos poucos revelar pequenas importâncias, verdades inofensivas a adentrarem brilhantes por sua porta entreaberta. Com um pouco de pudor você vai ver quem é que canta do lado de fora e estende metade do seu corpo em direção à praia deserta. Avisto ao longe conchas de todos os tamanhos e todas as cores sobre a areia branca e com elas visto meus cabelos recém-preparados na maior falta de pressa. Sem lenço ou perfume, o corpo ganha uma nova dimensão na imensidão do universo - de repente somos fortes, e essa grandeza nos enche de coragem. Bravura e clareza nos rondam com calma, aquela calma boa de quem não espera. Quando eu era pequena gostava de contar estrela e escrever novelas semanais sobre meus colegas. Não era por nada, não; só vontade de sonhar de noite e sorrir de dia... de abrir a porta e sentar no sofá e inventar minhas próprias novidades. Meu pai explicava que estrela era coisa de outro planeta; minha mãe dizia que eram almas voluntárias com a tarefa de um dia enfeitarem o céu. Ficava bêbada sempre que olhava pra cima - tonta de tanto achar beleza naquelas luzes que acendiam por vontade própria, só porque brilhar pra elas era tão natural. E depois disso não quis entender mais nada, não - pus o coração na frente e saí por aí cruzando campos coloridos, floridos até nos espinhos. Engraçado pensar assim, mas tenho pra mim que meu peito virou meu escudo. Ainda agora a cabeça volta no tempo e eu me vejo em mais uma escola nova, desenvoltura por conta de outros sorrisos, olhos curiosos a esperarem pelo próximo capítulo da saga que em pouco tempo encheria a sala de redação. Mar de pura poesia soprou sua brisa de alegria tranquila e banhou meu corpo de paz, calor e sorte, sentimento forte que devagar vem plantando estrelas pelos meus dias, suaves como chuva de prata em tardes de verão.
quinta-feira, 30 de outubro de 2014
Lugar comum
Ontem a palestra no centro espírita foi sobre a imortalidade. Não consegui prestar muita atenção, porque só me vinha à mente que o fato de eu estar ali sentada às oito da noite não havia sido ao acaso. Estava aprendendo a compreender que o sepultamento de uma história serviria certamente como ponto de partida para novas perspectivas, novos rumos, contos mais felizes. Fácil, ah, fácil não é. Por muito tempo agradeci pela certeza de não precisar procurar mais por uma dupla na vida. Agradecia com lágrimas nos olhos porque essa comunhão de corpos e espíritos sempre me foi importante. Enfim a busca havia cessado. E os anos se passaram... Com a cabeça cheia pedi a Deus que guardasse meu coração, que me trouxesse alento e alimentasse a minha fé com esperança. Pedi pelo respeito ao meu corpo, pela resignação da minha alma. Aqui não se morre; só se nasce de novo uma e outra vez, a fim de que se possa amar e ajudar ao próximo como você merece também ser ajudado. Que Deus cuide de nós, e que haja sempre um lugar muito especial para abrigar cada uma de nossas memórias mais felizes, que é pra gente lembrar que cada segundo valeu a pena, que esses instantes que viram sombras de solidão possam acolher a nós mesmos... com mais serenidade, mais leveza, mais alegria e fé em cada passo do caminho. Ele há de ser bonito, escuto meu anjo da guarda sussurrando ao meu ouvido como se me contasse um segredo. Por enquanto, sorrio para mim mesma ao me lembrar da minha saúde, do meu corpo perfeito e da minha cabeça que trabalha sem parar, do direito que me dou de mudar de opinião, de atividade física e de escolher meu sustento pela minha vocação. Sei que estou longe de fazer a diferença, mas peço sempre um pouco de calma nessa hora, que é para agradecer pelo que é bom de verdade. Que a gente não desista de acreditar que a vida é boa conosco, e que nada nem ninguém morre - as coisas só mudam de lugar dentro do nosso coração.
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
Bonito
Vem.
Tô cheia de trabalho, sério.
Fiz legumes cozidos.
Hum... Não vale!
Acho que você devia vir...
Queria muito, de verdade.
Mas...
É, bom e velho mas.
Fica pra uma outra vez então.
Vou querer!
Aqui...
Oi.
Só mais uma coisa.
Fala.
Fechei os olhos e vi a gente caminhando junto.
...
Pela vida, sabe? De mãos dadas...
E o que você achou?
Achei bonito.
Tô cheia de trabalho, sério.
Fiz legumes cozidos.
Hum... Não vale!
Acho que você devia vir...
Queria muito, de verdade.
Mas...
É, bom e velho mas.
Fica pra uma outra vez então.
Vou querer!
Aqui...
Oi.
Só mais uma coisa.
Fala.
Fechei os olhos e vi a gente caminhando junto.
...
Pela vida, sabe? De mãos dadas...
E o que você achou?
Achei bonito.
Assinar:
Postagens (Atom)