Fui eu quem partiu, mas o desconforto prossegue. A dor insiste em doer. Me disseram certa vez que quem quer sair não sofre; só sente calafrio e mal-estar da lembrança quem queria ficar e lutar ou só permanecer. À medida que o tempo passa, tudo vai mudando de forma sempre e lentamente, como o bailar das nuvens num dia qualquer. Da janela do quarto avistamos o mesmo céu, e talvez por isso seja difícil compreender a natureza de tanta diferença no que a gente vê. Temo tornar meus passos cognitivos demais, mas se você degustasse minha sequência de palavras escritas com uma boa xícara de chá, veria que não era medo nem ilusão, que tudo fazia sentido. Ando pelo meu pequeno mundo e me abasteço de carinho a prestação - levo um pacotinho de coragem no bolso esquerdo do vestido. Sinto o calor na pele clara, sinto o vento a mudar-me as feições e escolho viver mais um pouco, mesmo sem estar inteira ou pronta pra outra surpresa... troco a decepção por uma pilha de trabalho, guardo minhas cartas embaixo da mesa e tento não pensar que mais uma vez pode não dar certo, ou que tinha tudo pra ser incrível numa outra ocasião.
Esse blog é destinado a compartilhar viagens literárias, e está aberto a seres humanos e afins... Divirtam-se!
sábado, 16 de agosto de 2014
domingo, 10 de agosto de 2014
Fechada pra balanço
Há alguns anos uma psicóloga que me atendia na época me disse que a arte era a forma mais nobre de extravasamento. Isso foi logo depois de eu dizer a ela que escrevia nas horas vagas. Esse meu breve comentário fez brilharem os olhos dela, como se acabasse de se desenhar ali uma luz ou uma resposta. Tinha acabado de me casar e ainda não havia conseguido me conectar àquele novo personagem, apesar de minha monogamia e carência latentes. Esses sintomas faziam com que eu quisesse sair por aí e beber pela estrada afora, como um cavalo manso que sai a galope pelos pastos, trota e relincha com sua crina brilhante ao vento... e faz o caminho de casa religiosamente pelo prazer da praxe. Sentia uma mistura de culpa, solidão e necessidade de alguma coisa que não estava dentro daquela caixa meticulosamente organizada chamada vida a dois. Escrevia para heróis platônicos que viriam me resgatar da minha placidez, que dariam outro sentido à minha existência - falas fora do script. Escrevia e sonhava com o soldadinho de chumbo em dia de folga, de bermuda, chinelo e camiseta, tocando sua caixa do lado esquerdo do meu peito, numa louca tarde de verão. Fui escrevendo, sonhando, pensando tanto no que não estava que o que ficou virou uma confusão. Ia vivendo como se fosse obrigada a viver, como se não houvesse outra alternativa a não ser respirar, acordar, trabalhar, suspirar e falar sobre tudo isso. Às vezes me perguntava pra onde tinha ido a leveza que nos fazia sorrir e andar pra frente sem pensar em casamento, filhos, sem nem pensar no dia de amanhã. No começo, passamos um bom tempo sem entender direito o que sentíamos, sem saber sequer o que é que estava movendo aquela bola pra frente. Estávamos lá, sem nos desligarmos direito das outras pessoas e coisas que ficaram pra trás. Demorou um bocado pra gente entender que estávamos de fato juntos, que era hora de erradicar os coadjuvantes de plantão. Ninguém pediu; só aconteceu, sem aflição, sem cobrança, sem qualquer expectativa. Depois de anos, me peguei pensando no quanto a tranquilidade afetiva é valiosa, no quanto é importante saber que você escolheu alguém que te escolhe todos os dias - essa escolha mútua não é sempre óbvia, mas as nuvens passam e o sentimento fica... só assim dá pra saber. Ainda assim, bebia e consumia como se o mundo fosse acabar amanhã, sem me aninhar às minhas novas perspectivas. Não era culpa de ninguém, nem de mim mesma, ainda que a falta de experiência pra lidar com algo novo tenha talvez me impedido de suavizar as coisas, de levá-las mais na brincadeira. Em cada canto, procurava pela leveza. Percebi um dia, com dor e surpresa, que não a encontraria mais dentro daquela caixa. Tem mas acabou, é assim. No lugar, frio na barriga e brilho nos olhos, uma sensação totalmente fora de contexto e de propósito, foi-se abrigando em mim. Coisas da vida, né? Mas não foi pra isso mesmo que eu vim?... Outro dia um amigo me disse que queria que eu escrevesse mais pra ele entender melhor minha relação com as palavras. Queria que eu escrevesse sobre coisas que não fossem minhas. Aí lembrei da psicóloga. Escrever é meu melhor (se não único) jeito de colocar as coisas pra fora. É um jeito de me enganar quando precisar voar com fadas para o reino da Cinderela, e de falar a verdade quando não quiser ouvi-la de outro alguém. A vida dá tantas voltas que é natural a gente confundir tanto as coisas. Preciso ser mais leve comigo mesma e passar mais tempo sozinha debaixo das cobertas, vendo um bom filme enquanto o "e se..." sai de fininho pela rua deserta, sem saber se não ou se sim.
Magnifying glass
Abriu a porta num impulso - meus olhos não encontraram sua descrença.
Ela pensou que fossem minhas suas expectativas
e chamou de cautela toda a minha indiferença;
de prudência minha intolerância;
de espaço a minha ausência.
Acreditou que eu merecia a sua confiança
e esperou paciente pelo fim da minha inconstância;
deu novas cores à minha inconsistência.
Não fazia isso em sã consciência
mas priorizou essa e aquela palavra
maquiou um ou outro gesto
confirmou o que deu-se a entender
abraçou-se a vozes do além
que diziam ser sabedoria
o meu medo de querer -
na boca o gosto indigesto
da minha indecisão.
Com um suspiro
ela tirou seu coração das minhas mãos
e o guardou na bolsa.
Caminhou até a porta
e jogou a lupa fora com força
aquela que há muito aumentava
o tamanho da minha intenção.
Ela pensou que fossem minhas suas expectativas
e chamou de cautela toda a minha indiferença;
de prudência minha intolerância;
de espaço a minha ausência.
Acreditou que eu merecia a sua confiança
e esperou paciente pelo fim da minha inconstância;
deu novas cores à minha inconsistência.
Não fazia isso em sã consciência
mas priorizou essa e aquela palavra
maquiou um ou outro gesto
confirmou o que deu-se a entender
abraçou-se a vozes do além
que diziam ser sabedoria
o meu medo de querer -
na boca o gosto indigesto
da minha indecisão.
Com um suspiro
ela tirou seu coração das minhas mãos
e o guardou na bolsa.
Caminhou até a porta
e jogou a lupa fora com força
aquela que há muito aumentava
o tamanho da minha intenção.
segunda-feira, 4 de agosto de 2014
Andanças
Ontem tive um sonho que já tinha tido outra vez, tempos atrás. Eu corria em um campo aberto cheio de flores, braços ajudando as pernas, o corpo inteiro sentindo com prazer cada raio de sol. Eu corria com os olhos febris e a ânsia de quem quer chegar, e pensava no mar e na brisa que me modelava os cabelos com seus dedos macios e pacientes. Corria com disciplina e leveza, coração batendo com pressa, lágrimas desenhando-se pelos meus olhos escuros e o gosto de doces promessas invadindo meus lábios entreabertos num sorriso. Corria e sorvia o perfume e observava as cores ao redor e sentia meu peito cantar em uníssono a canção dos novos tempos. Fechei os olhos por um segundo e senti o calor de um abraço demorado. Corpos e bocas e cheiros que naturalmente se aproximavam, gestos suaves e encompassados... milhões de borboletas bateram suas asas delicadas dentro de mim e disseram sim, esse é o caminho bonito que trilhamos pra você seguir.
quarta-feira, 30 de julho de 2014
Partilha
Ela saiu às 5 da tarde de uma quarta-feira qualquer. Levava consigo doses de coragem espalhadas na mala, na mala uma confusão de coisas das quais desejava não precisar mais. Simples não era; nada o seria, bradava o coração louco por uma resposta. As pernas se moviam confusas, sem certeza iniciaram uma rota que haveria de compensar a dormência dos pés e das mãos. Parou para sentir sua presença de repente - as bochechas ardiam-lhe como balões a gás. Espasmos involuntários a despertaram do transe de poucos em poucos minutos. Então isso é decidir... Riu de si para si um riso sem alegria ao constatar que o corpo a abandonava. No alto da torre a cabeça funcionava sozinha.
quinta-feira, 24 de julho de 2014
Partilha
Te encontrei no meio de uma papelada sem fim; sob os olhos chovia fino. Já carregava a sensação há algum tempo, sem saber se ela crescia ou só se alastrava, sem previsão de trégua. E eis que no meio de tantas outras letras e palavras e frases e tramas inteiras, você me chamou a atenção pelo nome em cima daquele montinho de coisas escritas: Partilha. Tomei seu corpinho amassado nas mãos trêmulas e me ocorreu um bocado de ideias, todas tristes. Renascer é triste porque temos que morrer primeiro e morrer, ah, morrer é triste demais, mas morrer em vida, nossa... dói. De alguma forma relacionei a partilha a essa separação dentro de nós que por motivos incertos nos é imposta - por nós mesmos. É como divorciar-se de um pedaço seu, e fazer um esforço para que a decisão seja consensual, para que todas as partes possam dizer amém a essa espécie de morte de uma para a outra. A partilha me lembrou o The road not taken e o orgulho que ostentamos por nossas escolhas. Ou isso ou a paranoia da grama do vizinho (e convenhamos que de paranoia o inferno tá cheio). Tomei seu corpinho amassado nas mãos trêmulas e me ocorreu um bocado de ideias, todas tristes. Entendo hoje que a felicidade se compra a prestação, com os mesmos pesos e medidas de um financiamento imobiliário. É um investimento em uma necessidade básica, suado, a longo prazo, com pagamentos a perder de vista e benefícios para quem for capaz de dar mais. Cada um faz o que pode e o mercado acompanha, e a vida segue, e a gente vai caminhando devagar e desejando sempre um pouco mais de compreensão, de compaixão, de carinho e gentileza, de entrega, de uma mão segurando a sua quando a chuva passar e seu corpo estiver preparado pra rir desse e daquele jeito, pra contar outras histórias e abraçar aquelas que sem cerimônia lhe afagarem os ouvidos. Preferi deixar o que você ia me dizer para um momento mais calmo, e pedi secretamente que esse momento nunca existisse. Porque dói e já doeu um tanto; e eu ainda agora às voltas com os pesos e medidas da vida... Hoje bateu dona curiosidade à porta e me perguntei por onde você andaria. No fundo de uma gaveta escura, dentro de uma caixa perfumada, nas garras de uma vassoura aborrecida? Com fé há de ter com você uma moça boa e despreocupada, que chama de bonito tudo o que é triste e trata com a maior doçura as coisas do coração.
segunda-feira, 30 de junho de 2014
On the road
Destino: Brasília. Expectativa: well, well, well... Visitas anteriores: mais que duas, menos que dez - contextos diversos. Finalidade: visitar a família. Finalidade semi-secreta: sair da minha vida e levar o corpo junto pra passear. Primeiro passo: comprar a passagem (créditos à minha amiga Marina, que mudou a minha vida com esse lema). Planejamento: my plan's no plan, Sam.
E foi assim que eu resolvi deixar a copa e tudo mais pra lá e passar quase um mês em Brasília. Meu primo e minha tia sempre convidavam, o tempo nunca deixava... e eis que eu resolvi - talvez pela primeira vez em sei lá quantos anos - matar meu tempo no peito, segurá-lo com as suas mãos e falar firme ao seu ouvido "campeão, agora quem manda sou eu". Nesse mesmo dia comprei a passagem; quase um mês depois, plantava-me à porta de casa com a velha malinha vermelha em punho; na outra mão, o telefone antenado ao Easy taxi. Catei meu Kerouac 3 em 1 e fui ao encontro de uma bela manhã cinzenta, sem saber ao certo o que esperar de meus próximos dias.
O trajeto foi solitário, saudável. Pude desfrutar da minha própria companhia pra variar. Sentada à janela, pensei nos motivos pelos quais algumas pessoas tinham medo de voar. Era uma coisa que eu realmente não conseguia entender. Sempre achei incrível ver aquele pássaro gigante cheio de gente correr pista afora até levantar vôo. Era um momento dos mais bonitos. A cidade ia aos poucos desaparecendo e dando lugar a outras cidades, que se estendiam em fileiras de luzes por entre as montanhas e os lagos, ao longo de matas e pradarias. Vinha-me à mente a extensão do meu país, com seus palácios e casebres espremidos no meio de tanta gente. Ri sozinha ao pensar nos colombianos que assaltaram pedestres em Belo Horizonte (pessoal, por favor parem de roubar nossos empregos) e concluí com certa tranquilidade que espaço, diversão e surpresa não faltariam aos visitantes de plantão.
Voltei a confabular sobre a questão de espaço ao pisar em Brasília. Puta merda - quanto espaço! Joguei as malas no carro da minha tia e fui comendo a cidade com os olhos. Gramados a perder de vista, castigados pelo sol e pelo tempo seco. Grama que não acabava mais; grama inabitada sem ser virgem... natureza que não tem cara de natureza. Mas o espaço entre as ruas, entre os prédios, entre os blocos trazia conforto, e o verde aumentava a sensação de liberdade. Vim a entender mais tarde o espaço entre as pessoas com um certo alívio. Em Brasília arranha-céus não são permitidos - hooray! Dá pra ver o céu de onde você estiver. Essa pequena descoberta me encheu de alegria, e passei muitos dias testando minha nova teoria. Faz bem pra alma sair de casa com qualquer roupa, pra qualquer lugar, sentindo o céu sobre a cabeça sem esperar nada de ninguém ou lugar algum, sem que esperem nada de você. Ainda que porventura queiram saber quem você é, não faz diferença - você é só um forasteiro, alguém que tem um certo orgulho de não pertencer a esse novo lugar e nem ao lugar de onde saiu. Você é o que vê quando olha no espelho - alguém prestes a se reinventar, do jeito que for e sob qualquer circunstância.
Comecei a ler meu On the road em um banco de praça. Sim, passei muito tempo sozinha - a única pessoa de férias na cidade era eu. Essa é outra coisa muito legal sobre Brasília - você pode sair do apartamento e escolher qualquer rota, mas não demora muito até o próximo bar, banco, parque, salão. Tudo igual; tudo diferente. Não importava o que iria encontrar - decidi que meu livro caminharia comigo por cada uma daquelas ruas carentes de calor humano; em novas esquinas, travávamos as mais fascinantes conversações. Diferente de Sal Paradise, eu sorvia minha nova realidade com prazer e cautela - queria me curar, não me perder. Sentia os lábios queimarem ao sol e os cobria de água e óleo. Pescava minhas vontades pela boca com um cartão de débito - há muito não queria depender de ninguém. Sentada na grama de uma praça próxima, assistia tranquila ao vai e vem fluorescente dos corredores, suando a camisa em qualquer tempo com seu foco costumeiro. A saga de Kerouac ia mudando de cor sob os meus olhos, e eu só pensava que ele devia ter lido Dostoiévski na adolescência - e que Fiódor deveria ter escrito em suas capas "não tente isso em casa" como sinal de advertência.
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