terça-feira, 10 de agosto de 2010

Heresia Express

Estou pagando meus pecados a prestação.
Alguns dias
os bons ventos passam por mim
com tanta covardia
que o ofício sai do padrão.
Torna-se extenso.
Tenso.
Lento.
Eficiente ao extremo.
Nunca soube a resposta
para minha indignação 
e nem respondi sim ou não
à sua pergunta
sobre as coisas que temo.
Apago um cigarro
no seu machucado
e peço às divindades
que sejam por mim?
Ah, mas nem se eu der dinheiro à igreja
(muito menos assim!)
Enquanto não entendo de dois mais dois,
estouro cartões pelo mundo
e espero
(meio calma, meio aflita)
pelo que
certamente
há de vir depois. 

Heresia Express

Estou pagando meus pecados a prestação.
Alguns dias
os bons ventos passam por mim
com tanta covardia
que o ofício sai do padrão.
Torna-se extenso.
Tenso.
Lento.
Eficiente ao extremo.
Nunca soube a resposta
para minha indignação 
e nem respondi sim ou não
à sua pergunta
sobre as coisas que temo.
Apago um cigarro
no seu machucado
e peço às divindades
que sejam por mim?
Ah, mas nem se eu der dinheiro à igreja
(muito menos assim!)
Enquanto não entendo de dois mais dois,
estouro cartões pelo mundo
e espero
(meio calma, meio aflita)
pelo que
certamente
há de vir depois. 

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O conto da princesa subversiva

Ela dizia
que cansara-se da vida
e queria ser artista
de rua ou televisão.
Ela queria
que cedo ou tarde
o mundo coubesse
na sua mão
Sabia
que seu destino
estava ali, não acolá
e nutria muita raiva
por quem andava devagar...
Ela dizia, dizia, dizia
e de novo não lhe ocorria nada
andava por horas a fio
sem encontrar a estrada
até que um belo dia
olhou
pensou
e parou a caminhada
esperou ser temida
ou cortejada
entendeu que a ferida
haveria de ser fechada
sem mais dor...
Abriu os braços
fechou os olhos
e esperou.
Por duas primaveras
dobrou seus sonhos
e em segredo os guardou.
Um dia abriu a caixa
e então soube o que fazer:
tão bonitos eles eram
tão coloridos
que o melhor mesmo
foi soprá-los como poeira
para dentro dos contos
poemas
e canções
que ela criava
enquanto dormia
e acordava sem saber.
Quer saber o que eu disse?
Nem não, nem sim.
Muda, calada,
leio o mundo dela
todo dia
cada palavra
e deixo meus olhos
falarem por mim.

O conto da princesa subversiva

Ela dizia
que cansara-se da vida
e queria ser artista
de rua ou televisão.
Ela queria
que cedo ou tarde
o mundo coubesse
na sua mão
Sabia
que seu destino
estava ali, não acolá
e nutria muita raiva
por quem andava devagar...
Ela dizia, dizia, dizia
e de novo não lhe ocorria nada
andava por horas a fio
sem encontrar a estrada
até que um belo dia
olhou
pensou
e parou a caminhada
esperou ser temida
ou cortejada
entendeu que a ferida
haveria de ser fechada
sem mais dor...
Abriu os braços
fechou os olhos
e esperou.
Por duas primaveras
dobrou seus sonhos
e em segredo os guardou.
Um dia abriu a caixa
e então soube o que fazer:
tão bonitos eles eram
tão coloridos
que o melhor mesmo
foi soprá-los como poeira
para dentro dos contos
poemas
e canções
que ela criava
enquanto dormia
e acordava sem saber.
Quer saber o que eu disse?
Nem não, nem sim.
Muda, calada,
leio o mundo dela
todo dia
cada palavra
e deixo meus olhos
falarem por mim.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Tempo certo

Não entendo de computador, não sei nada dessas coisas. Acho estranhíssimo quando as pessoas ligam aquele troço e se vêem pela televisão, falam umas com as outras. No meu tempo, a gente escrevia cartas. Elas levavam um beijo, um cheirinho do perfume preferido, às vezes até uma mecha de cabelo. Cabia à outra parte imaginar o resto. Era assim que as pessoas se viam - num fechar demorado de olhos, a carta apertada contra o peito, aquele perfume... Vinha então a lembrança nítida da voz, os contornos do rosto. Dava para sentir a textura das mãos, o pulsar de um coração apressado, aflito, que nunca se cansa de bater... e esperar. Pode ser que ainda hoje o amor seja bonito, mas no meu tempo ele certamente era mais importante. 

Tempo certo

Não entendo de computador, não sei nada dessas coisas. Acho estranhíssimo quando as pessoas ligam aquele troço e se vêem pela televisão, falam umas com as outras. No meu tempo, a gente escrevia cartas. Elas levavam um beijo, um cheirinho do perfume preferido, às vezes até uma mecha de cabelo. Cabia à outra parte imaginar o resto. Era assim que as pessoas se viam - num fechar demorado de olhos, a carta apertada contra o peito, aquele perfume... Vinha então a lembrança nítida da voz, os contornos do rosto. Dava para sentir a textura das mãos, o pulsar de um coração apressado, aflito, que nunca se cansa de bater... e esperar. Pode ser que ainda hoje o amor seja bonito, mas no meu tempo ele certamente era mais importante. 

Ilha do Sono

Quanto tempo faz? Longo... curto? Já não sei, não faz mais a menor diferença. Padeço de patologia desconhecida, escondo-me em esquinas que se esqueceram de notar meu estar ali. No italiano ser é estar; no inglês também. Neste momento me pergunto por que foi que em algum momento teimamos em estabelecer tal distinção. Não estou triste - eu sou triste, e o bem estar me faz algumas visitas ocasionais. Eu creio no que não existe - cá entre nós, há nessa vida algo mais desgastante? Aqui não está bom - lá vai ser? Preciso mesmo me encontrar em algum lugar dessa terra? . Preciso findar a guerra que há tempos travei comigo. Deixar ir o que não puder ficar, assumir a culpa, culpar o cigarro ou a televisão. Leio, leio e creio mais em minha imaginação e menos no rumo das coisas a cada página. Confuso, mas talvez a alienação fantástica seja a máscara mais leve e mais bonita. O show de Truman mora ao lado... Não consigo respirar, como me dói a cabeça! O que fazer quando não se é e não se está? Minhas asas foram quebradas e ainda assim tento sair... Complicada, cem por cento errada. Cantar ou escrever? Pode ser essa a solução do meu problema. Cantar e escrever, ser sem deixar de estar. Acreditar que nunca é tarde para programar minha partida.