quarta-feira, 20 de maio de 2020

Forrest Grump

Certa vez um amigo me disse que para saber como eu estava ele checava meu blog. Pensei como, para um analista de profissão como ele, devia ser divertido traçar um perfil praticamente fidedigno com base no que eu escrevo. Expresso-me, é verdade, de forma muito transparente. Não sei se alguma vez escrevi alguma coisa que não condiz com o que eu penso - até os contos e os poemas têm uma acidez particular, ideias que saíram da minha cabeça, das minhas leituras tão peculiares de conversas no elevador, comentários no ponto de ônibus, awkward silences. E agora essas pequenezas do dia-a-dia simplesmente não existem mais. Há mais de dois meses o estar perto é restrito. Enquanto uns alimentam a paranóia, outros se deprimem. A gente bebe pra esquecer que desistiu do workout virtual, que o Netflix basta, que passar o dia de pijama é mais confortável que sair na rua. Tenho um novo amigo, um filhotinho de labrador que ia se mudar comigo pra uma casa com quintal. A cada dia de vida dele, o apartamento diminui e a preocupação aumenta. E enquanto minha vida passa, não deixo de observar que, em plena quarentena, a vizinha mal educada do andar de cima continua desfilando de salto pela casa. Não gosto desse apartamento - falta espaço, sobra barulho. Meu cachorro não pode passear - EU NÃO POSSO PASSEAR. Vamos os dois ter que aprender a brincar juntos nesse apertamento, até que possamos nos mudar pra algum lugar com um pedacinho de céu aberto, de sol pra nós dois. Sinto falta dos meus alunos, das minhas idas à academia, dos rituais da minha rotina, e ao invés de fingir que eu sei quando tudo vai ficar bem, comprei uns Chandelles, Passatempo, biscoito de maizena que eu AMO molhar no leite gelado, muito chá, torrada, água de coco e tapioca pra eu comer com queijo. Tenho uns amigos que só falam de política - todos torcem para o mesmo time e ainda tentam me convencer a "debater" com eles. Preguiça. Preguiça de conversa no zoom, de videochamada, de vídeo escroto, de vídeo fofo, de vídeo das filhas das minhas primas a cada 5 minutos, de fotos, de lives... de gente. Só não passo o dia inteiro sonhando com mundos melhores porque o Ziggy precisa comer, brincar e dormir no meu colo de vez em quando, minha bola branca de olhos azuis. Estou começando a achar que a gente se basta, e sinto um alívio estranho no peito ao pensar que podemos de fato viver assim, só os dois, à espera de um milagre -  até a próxima encarnação.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Enjoei

No início do ano meu sogro foi hospitalizado; 21 dias depois ele veio a falecer. Tudo completamente surreal. Lembro-me daquela madrugada de domingo pra segunda, quando o telefone tocou e meu marido começou a se vestir e eu não conseguia me mexer nem ouvir o que ele estava dizendo, tudo meio disforme, momento mais fora de foco... Antes de entrar no carro, uma sacudida e um recado: segure a onda. E eu segurei. Não derramei uma lágrima. Era a primeira vez que alguém partia bem na minha frente. Mas tudo bem: sou espírita, tenho mais é que saber lidar com isso, não é? Tive a ligeira impressão que era isso que ele e a família esperavam de mim - que eu fosse forte, sábia e que pudesse ajudar ao invés de dar mais trabalho. Fui lidando com aquilo tudo por fora. Na vida real, contudo, estava meio como o Brasil: começando a se recuperar da lambança financeira, esboçando colocar o nariz pra fora da toca e eis que chega a pandemia da anestesia. Nada como uma roupinha nova  ou aqueles tênis foda pra ir da sala pro banheiro e do banheiro pra cozinha, não é mesmo? Sim, isso mesmo. Dia 16 fui informada sobre a quarentena no meu trabalho - e já tinha recebido orientações para não comparecer por conta do meu quadro gripal na semana anterior. Não foi o bastante. Já tinha caído na teia do enjoei.com. Durante esse período, que começou meio inocente e foi tomando corpo, passava o mesmo período de tempo em frente às vitrines virtuais que um desocupado passa se desocupando no facebook (ah, não, agora é instagram; ah, não, agora é twitter - I say fuck'em all ;) - and now you're probably thinking fuck you your shallow prick). Diversão? I truly doubt it. Se você faz uma coisa que te gera ressaca moral, legal é que não pode ser. Como Santo Cristo, não entendia como a vida funcionava (você compra aqui e falta dinheiro ali pro essencial - e esse papo de you only live once é a bullshit da bullshit). E ao invés de ir direto a Salvador pra tentar achar resposta, aproveitei o longo tempo que me surgiu para brincar de ficar mais atenta. Comecei a prestar atenção à manipulação descarada da mídia, à falta de estabilidade do nosso governo, mais preocupado em lutar de espadinha do que em se unir e tranquilizar a população, à multiplicidade de discursos (em especial àqueles que de forma nem um pouco velada se ocuparam em fazer uma lavagem cerebral na massa a ponto de convencer as pessoas de que morrer de fome é mais digno e mais heróico que morrer de coroa vírus, meu apelido carinhoso a esse amigo que estamos carecas de conhecer, que conhecemos mais que nossos direitos, incluindo os fundamentais, como o de ir e vir e prover para nossas famílias). Assisti intrigada aos mandos e desmandos do general Kalil, ao fechamento das praças, à ordem recente de máscaras para todos na rua, à proposta de restrição do consumo de bebidas alcoólicas - dream on, hahahaha... Nessa (a)tenç/são toda, resolvi prestar atenção também (e por que não, gente?) às possíveis mensagens subliminares do meu site preferido. Topei com duas propagandas: 1. coloca esses óculos escuros pra fazer cara de quem não viu os boletos chegando (vixe!); 2. aproveite esses lookinhos pra assistir Netflix. Putz, esse último me atingiu como uma bomba. Era bem isso que estava fazendo - comprando coisas que eu nem sabia quando ia poder usar for Christ's sake! De repente, parece que caiu o cenário do show de Truman e vi, nos bastidores, centenas de mulheres realmente compulsivas, vendendo mil peças de roupa com etiqueta, uma coleção inteira de tênis raros com duzentos pares nunca usados - imaginei quantos outros itens esses guarda-frustrações devem carregar aos trancos e barrancos. E ao mesmo tempo em que doar é muito legal, comprar uma pra doar outra coisa não interrompe o ciclo do consumo - só dá a ele combustível mais "sustentável". Não posso negar que esse tempo foi e está sendo muito precioso. Afinal, é tempo, e tempo é tudo que a gente precisa pra olhar em volta, para ser mais justo, mais amigo, mais leal, menos infantil, mais presente, mais grato e menos egoísta (ainda que não tenha topado até o momento com um camarada a favor do isolamento sem emprego, sem perspectiva e com família pra bancar). Me reuni mais com meus parentes esses dias do que em toda a minha vida. Procurei amigos sumidos pra desejar bom dia, saúde, feliz páscoa. Tornei-me melhor? Não, meio que nem Natal, quando a gente resolve perdoar todo mundo e pedir a Deus pela união dos povos. Nessa brincadeira de princesa que acostumou na fantasia, meu marido perdeu o pai, e o tempo (ou a falta dele) engoliu minha capacidade de compreender que se o meu aparece a cada 3 ou 4 meses pra resmungar (é isso: cansei de ser politicamente correta, fofa e romântica), o dele ensinou tudo que ele sabe; viveu por ele; ensinou-o a ser positivo. Nem princesa nem gata borralheira - não aguento mais nada calada: nem a minha dificuldade de ser eu mesma. Só bem recentemente entendi que a gente coloca no tempo a culpa pela nossa própria desatenção, pela nossa inalteridade. É fácil demais não ter tempo - voltar atrás dói quando você se preocupa demais com a opinião de quem fica te esperando um passo à frente pronto pro brinde. Difícil mesmo é entender que estamos nos enganando e sendo enganados cada vez que alimentamos o jogo da espera, em que esperamos do outro a maturidade que não está em nós, que talvez nunca tenha sequer chegado perto. Sabe essa atitude de defensiva misturada com expectativa misturada com birra e regada a anestesia? Pois é, enjoei. 

sexta-feira, 27 de março de 2020

Onze dias

Garrastazu. Sinusite dos diabos! Cama. Chá. Bolinhas de açúcar. Cama. Netflix. Aulas online. Alunos... Suspensão das aulas presenciais. Outra aula online. Suspensão das aulas online. Álcool gel. Oops, sem álcool gel. Sem academia. Sem restaurante. Tiquim de tensão. Supermercado = novo parque de diversão. Supermercado = interação social. Supermercado = egoísmo do caramba. Supermercado = eu tenho, você não tem, hehe. Cama. Chá. Nebulização. Máscara. Manheeeeeeeeeeeeeee... Meditação. Aulas de funcional na sala. Solzim na laje. Céu bonito. Friozinho bom. Pazes. Altas. Confinamento em dupla. Cervejinha. Risadinha. Vinhozinho. Filmezinho. ID. Comedy. Desavenças inesperadas. Quasi-despedidas. Rupturas. Recomeços. Esperança a toda. Leituras. Amigos. AMIGOS. Família. FAMÍLIA. Escolhas saudáveis. Força! Oração. Insônia. Tantão de tensão. Céu bonito até. Música linda, sô... Vidinha simples, simples. Nós desatados. Game over. Game other. Game. Culpa só que não. Sonho. Privilégio. Alegria. Amanhã...

segunda-feira, 16 de março de 2020

Quarentena

De dentro da minha casa acompanho o girar do mundo mesmo sem querer. Abro meu pequeno laptop e as palavras e os vídeos, os fatos e as fotos vêm me atravessando sem eu pedir. Olho meu whatzapp e minha mãe me pede pra não ir à casa dela, que ela tem 67 e não pode nem sair na rua, e minhas amigas não virão me ver porque eu posso estar infectada, mesmo sem casos confirmados, mesmo ter ido ao shopping Oi esse ano, mesmo sem sintomas. No meu trabalho já me proibiram de aparecer, e na academia me olharam com terror quando, com muita educação, espirrei no meu braço. Hoje fui ao médico - a única pessoa que me tratou como um ser humano normal nesses últimos dias. De lá fui almoçar em um pequeno restaurante e me acomodei com facilidade. Entrei muda e saí calada pra ninguém perceber meu nariz entupido. Trabalhei o dia todo pelo computador até os dedos doerem de lástima e a cabeça latejar de pura preguiça. Passei o dia recebendo notícias sobre prevenção, contaminação, sugestão, falta de comida, medo pela vida de quem pode de fato morrer. Mas não é essa nossa única certeza? Meu pai disse hoje que pode estar infectado - ele tem 71 e tá longe de ser dos mais saudáveis. Putz, aí não... Sem frieza ou egoísmo, informo que tudo bem - diga ao povo que fico aqui bem quieta, trabalhando do meu quarto. Dia 18 entraremos oficialmente em quarentena, e a quarentona que se vire pra ficar boa sem remédio, sem colo de mãe e sem abraço de mais ninguém.

segunda-feira, 9 de março de 2020

Medo de flor

"Não vim da sua costela - você é que veio do meu útero". Certamente a gênese do antigo testamento foi escrita por um homem que queria demonstrar sua superioridade em relação à mulher, não? Juro que eu nunca na vida tinha interpretado essa frase dessa forma, porque se uma mulher veio da costela de um cara e a humanidade inteira veio do bucho da mulher, esse início talvez tenha parecido pra mim sem importância. Talvez por minha postura em relação à minha condição de mulher eu não tenha me atentado tanto pra essa parte. Não sou negra, não sou gay, nem bi, nem trans, nem pobre - será que é por isso que eu me amo, me perdôo, me aceito e agradeço às minhas chances diárias de ser alguém melhor? Talvez - mas conheço mulheres negras, gays, bi, trans e pobres que vêem nos obstáculos constantes oportunidades de crescimento e que se amam e se respeitam muito mais do que eu. E digo mais: mulher branca, hetero e rica também escolhe homem vagabundo, também é traída, maltratada, subjugada e oprimida - meu analista diria: e o que você pretende fazer com isso? Minha leitura de opções: 1. chorar; 2. tomar Rivotril e chorar; 2. culpar alguém; 3. culpar a mim mesma pelas minhas escolhas e atitudes; 4. reclamar até fazer alguma coisa; 5. pensar até a cabeça doer e vir algum tipo de resposta; 6. todas as alternativas anteriores até tentar transformar minha conduta - agir e evoluir. Não é tão fácil e não é tão ruim.

E o que você precisa para evoluir? Me diz o que você precisa pra sair daí?

Vejo a forma como a sociedade foi instituída no que diz respeito ao papel de homens e mulheres no mundo, e percebo com espanto o que algumas religiões e ideologias, em pleno século XXI, ainda esperam da mulher: submissão, permissividade, amor incondicional, esforço irrestrito... padecer no paraíso ou florescer no inferno? Não vou ser nem a primeira nem a última a te dizer: o inferno é aqui. Um velho amigo que trabalhou como médico em Moçambique me disse certa vez: I'm in hell. A violência, o ódio, o desprezo, a inveja, a luxúria, a intolerância, a imprudência, a maledicência, tudo isso está bem diante do seu nariz. Opa! Diante do seu nariz se você decidir se olhar no espelho pra início de conversa. Somos todos dignos de um bom nananananão. E de repente as mulheres odeiam os homens, os vilões, opressores, tiranos, feminicidas, fascistas dos homens. A merda do patriarcado é a bola da vez. É uma merda mesmo, e em meio a discursos de ódio, eu me pergunto: as mulheres se amam? De verdade mesmo? Se elas não se amam é culpa dos homens? E elas amam umas às outras quando mandam beijim no ombro prazinimiga? Mais fácil mesmo é legitimar o meu direito de não operar a mudança pelo exemplo. Não acho que o verdadeiro respeito se consegue no grito e acredito que as causas devam ser separadas em movimentos distintos para pessoas com diferentes opiniões políticas e não menos engajadas pela vontade de mudar as coisas poderem participar também. Gostaria de ter estado em uma manifestação pedindo por qualidade de vida para todas as mulheres - pedindo pelo fim da violência, por igualdade de salários, de cargos, pelo nosso reconhecimento, pelo nosso sossego. No entanto, não desejo que o Lula volte a governar meu país, não odeio os homens e acho que tenho - a passos pequenos e constantes - conquistado meu lugar e minha dignidade nesse mundo sem odiar ninguém. Vejo que as coisas estão mudando no momento em que homens se colocam do lado das mulheres e reconhecem que precisam sair do modelo patriarcal de pensamento para serem felizes ao lado delas e para garantirem a elas o direito de coexistir em harmonia nesse mundão de Deus. Não são todos, mas já são muitos. Vejo homens cruéis, de índole ruim, e - pasmem - mulheres também. A proporção não é digna de comparação - ainda tem muito mais homem escroto e psicopata que mulher aí fora, pela própria criação dos papeis sociais, que não se deu hoje nem ontem nem ano passado. A questão é que, antes de sermos homens ou mulheres, somos todos seres humanos que transitam por esse mundo aqui temporariamente, esperando (ou não) aprender alguma coisa. Cada um evolui à sua maneira, e os movimentos sociais precisam refletir seu caráter evolucionista. Sem isso voltamos à era de Moisés, do olho por olho e dente por dente (e salve-se quem puder, deve ter faltado pedra pra ele escrever). Ser mulher pra mim é, por si só, uma virtude, uma bênção e um motivo de orgulho - orgulho por batalhar, por incentivar os meus alunos, meus amigos e familiares a fazerem o mesmo, por si e pelos irmãos espalhados por esse planeta - COM RESPEITO. Respeito não se ganha com tiro, porrada e bomba. Não tenho medo de ganhar flor no dia das mulheres - acho até bem legal, se for dada de coração. O cara que dá flor de manhã e sopapo de tarde é o mesmo que dá o dízimo e maltrata o funcionário; que frequenta a missa e deixa a mãe mofar num asilo; que trai o amigo, rouba do pai e bate no irmão - dar flor não significa ser esse cara, e ficar feliz ao recebê-la não é um convite a ser maltratada e agredida. A criação por si só não pode ser - e não é - desculpa pra esses babacas agirem como pragas e destruírem o que tocam: são seres tóxicos (outra palavra da moda). Precisam ser educados, ensinados, remodelados em termos de ideias e comportamentos. Alguém aí se habilita? Temos muito pelo que lutar - a começar, lutar por mais amor e respeito, pelo sagrado feminino, pelo fim dessa torre de Babel onde raiva é a língua comum. Tóxico é quem não tolera que exista o outro lado da moeda. Não tenho medo de flor - medo mesmo eu tenho é de quem se recusa a receber.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Blur

Um dia desses, recebi por whatzapp a fala de um capitão da PM, Styvenson Valentim, durante audiência pública cujo tema era a insegurança nas escolas públicas de Natal. O capitão, que há cerca de um ano atua com sua equipe na Escola Estadual Maria Ilka Moura, na zona oeste de Natal, parece contra-argumentar com uma professora da rede pública no vídeo, alegando, entre outras coisas, que a pedagogia adotada é visivelmente falha, dado o índice de violência, criminalidade e retenção de alunos nas escolas públicas da periferia. Assim como as igrejas que se aproveitam da carência de seu "eleitorado" para distorcer as palavras contidas na bíblia, há quem parta desse discurso de 8 minutos para taxar Paulo Freire de energúmeno subversivo ou, da mesma forma, para rotular a ação da polícia como fascista e opressora. Curiosamente, ao ouvir o relato do capitão, constatei que todo o seu plano de ação se baseia na pedagogia freiriana, de inclusão, construção, cidadania, justiça social - visibilidade a quem nasceu invisível. Se o aluno aprende que o asseio, o esforço que vem com a disciplina e o respeito às  regras e às pessoas garantem a ele oportunidades de ser visto, ouvido e tratado com dignidade, não seria esse o desejo principal do maior educador de todos os tempos? Falta respeito.

Ao mesmo tempo, sugere o capitão que, no momento da matrícula, os professores busquem a origem de cada família para identificar a origem das mazelas de cada aluno - como se para nós, professores, isso fosse novidade. Sei, pelos meus 20 anos de experiência como educadora, que o professor de corpo, alma e coração sabe a vida de cada um dos seus alunos - quem cria, quem educa, quem bate, quem abusa. A gente reza por eles, conversa individualmente, procura a família, recomenda leituras, dá conselhos, oferece o carinho e a inspiração que muitas vezes eles não recebem em casa ou na rua. A gente se envolve - vai à coordenação, à diretoria, à associação do bairro, ao conselho tutelar... A gente sofre pensando em jeitos de eles não sofrerem. Já recebi um bilhete certa vez em que o aluno pedia compreensão, uma vez que o único lugar em que se sentia seguro e acolhido era a sala de aula. Sei que, como eu, há milhares de professores por esse Brasil afora que acreditam na educação - e entendo a educação como um pacote que carrega em si afeto, compreensão, observação, ação, construção de saberes, mas também disciplina, foco, cumprimento de regras, estabelecimento de metas. Isso é respeito: preparar o ser humano para gozar de oportunidades dignas para seu crescimento pessoal e profissional. A escola que não reprova, que não dá advertência, que não chama o aluno na chincha, que não exige material, vestuário adequado, dever de casa ou uma conduta socialmente aceitável com professores, colegas e funcionários não está cumprindo seu papel, apontado nos principais documentos reguladores da educação no Brasil, de capacitar o aluno ética, humana e intelectualmente - essa escola, na minha humilde opinião, não é formadora de cidadãos, e seu projeto político-pedagógico realmente precisa ser revisitado. Não sou fascista nem marxista - sou alguém que desde muito cedo tem tentado absorver o melhor de todas as falas, os discursos, os credos e as opiniões, sem, ao mesmo tempo, impor minha linha de pensamento - até porque aprendo tanto observando ao meu redor todos os dias que permito aos meus achismos revalidação de votos. Creio que me respeito. Se os alunos de hoje precisam da ajuda de policiais atuando como cidadãos para respeitarem a escola, uma vez que se aproveitam de brechas no sistema para enfiarem criminalidade e violência goela abaixo dos demais sem qualquer limite, por que insistir em deixar o professor lutar sozinho? O professor deveria estar sendo amparado pela coordenação pedagógica e pela direção, mas lavam as mãos enquanto ele lida com grupos muitas vezes ameaçadores de 40 a 50 a portas fechadas. A segurança que era garantida somente pela autoridade do professor, proferida pelo alto escalão da instituição escolar, deu lugar ao escárnio, à pena, à indiferença por esse profissional mal-pago e mal-assegurado. O amor cura - e amor também é limite. Como estabelecer regras para um aluno que ameaça o professor com uma arma, que o agride fisicamente e por vezes o executa? Assim como o policial não sabe nada de pedagogia, ensino e cultura escolar, o professor não é obrigado a lidar com facções criminosas, tráfico e porte de armas por menores dentro de sua sala de aula. Não é o professor quem tem que levar uma arma para a escola (aliás, ninguém tem que levar arma a lugar algum), mas creio ser necessário agir conforme o contexto - se a única figura temida ou respeitada é a do policial, a escola deve poder contar com a expertise de cidadãos que trabalham como policiais, mas querem contribuir enquanto seres humanos e habitantes daquela comunidade para uma mudança no cenário que já nos é familiar. Chega de tentar tapar o sol com a peneira - os professores não aguentam mais. O amor cura - e amor também é disciplina. Ao ver a foto dos alunos uniformizados, limpos e com seus cabelos penteados em fila, lembrei-me das minhas aulas de ballet. Tinha que chegar com antecedência suficiente para colocar o uniforme - collant preto, saia preta, meia-calça e sapatilha rosa. O coque tinha que estar perfeito, sem um fio solto, com gel, grampos e rede. A aula começava pontualmente, e havia um ritual a ser seguido de forma rigorosa - aquecimento, barra, centro. Nunca fui tão feliz - não havia diferença entre nós, e, ainda que alguns tivessem mais aptidão que os outros, os direitos e deveres eram iguais, sem privilégios. Esforço-me para compreender onde está o respeito à diversidade em um mundo onde o preconceito é pago com preconceito - onde o gordo odeia o magro, o pobre odeia o rico, o preto odeia o branco, o gay odeia o hetero, onde só existe o seu V ou F. Falta respeito.

Essa exposição de ideias nada tem a ver com correntes de pensamento comunistas, até porque um regime que conta com uma minoria de ditadores milionários de um lado e uma nação indigente e oprimida de outro de fato não me representa. Quem é a burguesia na fila do pão da imposição servil, não é mesmo? Por outro lado, também não compactuo com regimes pseudo-democratas onde os tubarões estão à solta e a massa vai sendo empurrada pra lá e pra cá, sempre oprimida e ameaçada, escravizada, suando de manhã pra comer à noite enquanto meia dúzia de babacas dita as regras com o bolso cheio de dinheiro nosso. Sempre trabalhei, e entra governo, sai governo, ainda estou aqui - alguns dias mais, outros menos satisfeita. Sempre fui professora - e todos os governos que o Brasil já teve desde que eu comecei a lecionar ferraram a educação de uma maneira ou de outra - hipócrita é não admitir isso. Todos. Os governos. Ferraram. A educação. Se você duvida, veja há quantos anos não existe aumento substancial nos salários, quantas greves já foram realizadas nos últimos 20 anos e quantos benefícios já perdemos durante esse tempo - direitos adquiridos com muita luta que nos foram tirados. É assim que eu sinto; é assim que eu vejo. Se você achar que não, tudo bem - não vou tentar te convencer, mas sempre vou querer saber dos seus fatos, do repentino aumento da satisfação, do bem-estar, da segurança física, emocional e financeira da classe em qualquer momento da nossa história de 2000 pra cá, que é pra eu ligar dois mais dois e levar meus achismos pra um lugar mais seguro. Se cada belo discurso sobre respeito pudesse se transformar em ato concreto, a gente estaria se tratando melhor, fazendo parcerias com pessoas realmente diferentes, que por isso mesmo têm tanto a nos acrescentar. Recentemente assisti ao filme The Nightingale. Para mim ficou clara a desconstrução do racismo a partir de uma parceria improvável entre uma branca prisioneira e um negro aborígene. O preconceito branco, pago com desdém negro, dá lugar a uma situação de cooperação por necessidade que, interessantemente, se transforma, mais tarde, em solidariedade, proteção e afeto - dois bastardos para o mundo em que habitavam, duas pessoas que não suportavam mais serem subjugadas, caçadas e torturadas por sua origem se unem em prol da libertação, da liberdade. Nas críticas, o filme é considerado irresponsável por "evocar uma vingança feminista branca". Falta sensibilidade. Falta profundidade. Faltam awkward silences, que a gente quer constantemente preencher com qualquer bobagem. Falta respeito. 

Falo por você e por mim, por esse momento cheio de meias-verdades em que ninguém quer se entender. Está na hora de a gente derrubar esse muro de Berlim e puxar quem estiver por perto pra um abraço apertado. O amor não tem efeitos colaterais; o respeito só machuca se estiver mascarado de orgulho e vaidade. Precisamos de nós mesmos, uns dos outros e de mais fé nas bases que buscamos construir. Sem esse compromisso, a hipocrisia vai se sentir no direito de assombrar nossos sonhos mais lindos...


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Mr. Jones

Há uns dois anos escrivinhei uma palavra em mim pra atravessar as dificuldades com confiança e resignação - attraversiamo. Hoje ela envolveu meu corpo e me carregou pelo turbilhão do dia - Mr. Jones, depois de muito penar, beijou os filhos e a esposa com um aceno de cabeça e correu pro abraço do segundo tempo, um tempo de paz, mais justo conosco. Hoje meu marido e sua irmã perderam o pai; a mãe deles, o amor de uma vida inteira. O céu ganhou uma estrela; o paraíso, um benfeitor. A família foi abençoada com beijos e abraços perto e longe, conforto e orações - amigos que não acabam mais. E entre a luta e a além-vida, o amor por ele ganhou mais um capítulo - o da imortalidade. Nesse velho mundo novo ele há de regenerar seu perispírito e ser de novo bonito, brincalhão e forte. Tem muita gente pra te receber, tem outras coisas pra se aprender (nisso eu acredito). Esse é  só um novo tom à sua caminhada, porque soube de muitas bocas que desafios e lutas são a sua praia. Por dias, você lutou para que a mente vencesse o corpo já cansado, e não foi em vão, João... saiba hoje, agora, que não foi em vão. Como lutou esse seu herói, hein, Dex? Lutou para, com um breve mover de dedos ou um balançar esporádico de sim e não, mostrar aos seus que ainda estava lá - dos olhos inertes pingaram lágrimas que foi-me sofrido ver. Preparou-se para nos preparar, sempre um passo à frente de quem quer que fosse pra proteger o Rô, a Beta e a Xó. A casa ficou grande, sabe? A gente ocupa, ocupa os cantos vazios, acampa lá por uns tempos e tudo tem cara de casa que é sua, de caxiice, de caminhada, alegria, música - de interação, hihihi… de saudade. A saudade é possessiva, João - com todos os percalços do caminho, a gente queria mesmo é você por perto. Sei que o bem te guia agora, que em breve você vai poder até dar um pulo aqui pra ver como estão as coisas, depois de te ensinarem outras não menos importantes. Enquanto isso, estou aqui - mesmo sem, muitas vezes, ter qualquer pista do que fazer. Acalme-se. Vai ficar tudo bem. Agora é hora de ouvir, de se resignar, se perdoar e servir com alegria. Te juro que se eu tivesse uns bônus-hora, eles seriam todos seus, mas seu porquinho já deve estar cheio. Sigo conversando com nosso divino mestre e pedindo a ele que carregue sua família nos braços enquanto eu recarrego as baterias no amor e na prece, que eu preciso ajudar. Pode contar comigo sempre - tamos juntos nessa estrada que só acaba quando termina nossa pá de obrigações. Você vai fazer muita falta... Fica firme, em paz. Coragem pra todos nós! Até a volta...