sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Leali

Nessa noite sozinha, sem lua e sem estrela, caminhei mais uma vez para casa, resignada por meu próprio cansaço. Sonhava com pés descalços e brisa fresca antes de recolher-me à minha significância, porque dias que não cabem nos dias ressignificam a noção de privilégio, oprimem a de escolha. Descalça e despenteada, arrastei-me até o suco de uva que esperava encontrar na geladeira e acabei por parar os olhos em três vasos de violetas bronzeando-se à janela. Lembrei-me subitamente dos meus. Também eram três; também bronzeavam-se à janela, perfumavam minha alma. Acarinhava-os pela manhã, contava-lhes da minha vida e os sentia atentos a cada um dos meus devaneios. Certo dia, um deles parou de florir - os outros dois deram a acompanhar o malogro. Comecei a adoecer. Se me deixarem minhas doces amigas, como poderei aninhar-me novamente no vazio da minha solidão? Não, não, não. Voltei-me para meu pequeno jardim em súplica, pedindo a minhas florezinhas que lutassem - senão por elas, por mim -, que esse negócio de insistir é a alma do negócio quando tudo o que se quer é viver pra amar mais, pra amar de novo, pra amar somente, pra sentir o que se sente e sorrir de um jeito que traga paz. Já naquela ocasião chorar não cabia em meu relógio apertado como meu coração. As lágrimas, no entanto, choveram sem querer, sem saber que me limpavam o peito e davam ao meu jardim substância de sonho, de moça que quer ser menina, de pureza grata, desejo de ser mais, de crescer. E pouco a pouco elas nasceram; sorridentes floresceram sem pudor, sem traquejo, sem cerimônia ou refinamento. Com elas renasceu minha esperança. Por isso hoje, ao olhar para aquelas lindas mocinhas cor de violeta, meus olhos choraram um pouco mais - ao partir, fui-me embora sem olhar para trás; ainda hoje minhas amigas bronzeiam-se à janela da minha lembrança. 

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Sudoku

Fui apresentada ao Sudoku nesse fim de semana. O que posso dizer é que nada havia me ensinado mais sobre persistência e superação. Sempre bato nessa tecla em minhas aulas, quando vejo alunos desmotivados antes mesmo de tentarem descomplicar o que de complicado não tem nada. E lá vem o tal de "faça o que eu digo, não o que eu faço". O Sudoku é um jogo que começa inocente, mas que requer sua atenção e um pedaço da sua cabeça - a parte boa, aquela que funciona. Ainda que você demore, o importante é não desistir. Não desista. Não pare o jogo no meio - olhe de novo, só mais uma vez. Não vai demorar muito pra você achar aquele número que até pouco tempo atrás não estava lá. Nesse jogo, o ímpeto do impulso é seu maior inimigo. É preciso ter calma pra achar o caminho mais apropriado, mais coerente com a verdade dos fatos. "Não adianta fugir nem mentir pra si mesmo"; como uma onda no mar você deve prosseguir. Os obstáculos surgirão inevitavelmente, aos montes, só pra te fazer parar e pensar. É assim que se deixa as mazelas pra trás... que se evolui. Muitos de nós carregam todo o tipo de complexos, ainda que de forma inconsciente. Nesse contexto, é natural sentir-se desestimulado ao menor sinal de dificuldade. Mas você quer muito mais dessa vida, não é mesmo? Você quer um amor pra chamar de seu, quer sexo bom e carinho no cabelo de madrugada, quer uma casinha com a cara da sua nova família, com filho e cachorro e uma companheira admirável e grande admiradora. Você quer um trabalho do qual se orgulhe, quer contribuir para a sociedade de forma efetiva, quer fazer a diferença nesse mundo a começar pela forma como você vive. Você quer ser mais altruísta, mais presente em sua própria vida, mais verdadeiro com você mesmo, porque você sabe que essa é a chave pra você espalhar luz, paz e verdade - essa é a chave para a sua tranquilidade afetiva, psicológica, carnal e espiritual. Você sabe que não veio a esse mundo a passeio, que o dinheiro vem sempre que a gente sua a camisa, que quem madruga tem seu lugar ao sol. Você quer brilhar de dentro pra fora - só não tem a paciência de percorrer o caminho, de dar uma ré e começar a subir a ladeira mais uma vez depois de derrapar na terra. Aprendi que o Sudoku se faz a lápis, que é pra gente apagar e começar de novo se for necessário, quantas vezes quiser. Faço um convite a quem quiser se reinventar de forma consciente: que possamos usar nossos paradigmas sobre nós mesmos como ponto de partida e não poças de areia movediça. Sempre vai ter um cobertor de coisas boas pra cada noite fria, fora daquele lugar em que a gente pode ser melhor, sabe? Seu mundo será um lugar melhor sempre que você tentar outra vez.

PS: Essa pessoa fofa na foto é meu querido aluno (e Sudoku master) Nathan ;)

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

E eu que nada sei, que em nada acredita...

"Das duas nenhuma: ou ela estava doente ou amava em demasia.

- Demasia?

Modari rejeitou o conselho. Que o amor é como o mar: sendo infinito espera ainda em outra água se completar. Não abrando, gritou ela. E foi falar com seu homem que complacentou - amar-se-iam sempre, mas ela que deixasse na cabeceira o controlo remoto. Pelo menos durante o enquanto. Entre risos e lábios, se entrelaçaram. Pela primeira vez nessa noite Modari sentiu o morder da ternura. O sabor do beijo resvala entre lábio e dente, entre vida e morte. 
(...) 
Ele a tomou nos braços e a acarinhou, cedido, sedento. Os que beijam são sempre príncipes. No beijo todas são belas e adormecidas." (Mia Couto)

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Eu sei

Sei
que as incertezas do universo
abrigam minha iminente desistência
que há vários nomes para o que corrompe
ou massageia
a nossa essência;
que também é assim
que você pensa.
Sei
que o que não pode ser
fica pra trás
que tentar fugir
há muito não me satisfaz
que meu corpo chama a sua insensatez
pelo primeiro nome;
que essa sede nos seus olhos
me consome.
Que o seu querer me despe
num segundo
que fazemos amor
pelos cantos mais simples
do nosso entender.
Sei
que agora é cedo
ou tarde
que sem muito alarde
vamos prosseguir
vamos conseguir
vamos descobrir
o sabor da novidade
a dificuldade
irregularidade
que é você sem mim
e eu sem você.
Sei
que é hora
de pagar pra ver.
Se anoitecer
e você não dormir
diga meu nome;
antes de ir
te beijarei inteiro
e te direi "não some"
mesmo sabendo
que você não vai sumir.
Se eu me entristecer
pegue o violão
e toque a canção
que eu queria ouvir.
Por algum motivo
sei
que você sempre
me fará sorrir.


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Pareado

Se há uma coisa que deve-se ter em mente quando o coração quer entrar na brincadeira é que sua futura dupla na vida deve andar lado a lado com você. E quando digo lado a lado, me refiro a características essenciais, valores, vontades, impressões da vida e o que mais for importante. Estar com alguém que você considera muita areia pro seu caminhão traz uma insegurança insuportável; o resultado disso é você procurando defeitos no outro pra tentar se convencer de que ele não é tãaaaao bacana assim. Elogios nem pensar - de um jeito cruel demais com você mesmo, elogiar o outro te diminui. Você não banca. Fim de papo. É maior do que você esse sentimento de incômodo que te faz catar problema na pessoa que está ali tentando ser legal. Da mesma forma, estar com alguém que você acha menos tudo que você gera uma falsa segurança misturada a análises profundas de você com você em busca do furo na sua autoestima. E não estamos falando de bens materiais, mas de equilíbrio, preparo, ponderação, vontade, altruísmo. Você acha que está tudo bem e secretamente confabula com seus botões Mas eu já cheguei até aqui em termos de autoconhecimento, autoconfiança, autoafirmação, autossuficiência, autoajuda... e minha dupla na vida simplesmente não me acompanha. No fim você desdenha, trata mal, se impacienta. E a pessoa está ali tentando ser legal. O que eu acho legal de verdade é quando duas pessoas boas, saudáveis e bem-resolvidas se encontram por esse mundo de Deus. Sem pudor elas vão emendando conversas que saem do papel e arrastam-se por dias e noites inteiras e viram encontros gostosos e trocas inimagináveis. Ainda não entendo porque caí de paraquedas no meio de um tanto de caras da minha idade que carregam pedras nos bolsos e andam na ponta dos pés. Não entendo o porquê da recusa em entregar-se a um mar de novidades, de desejo, de sonho que vira verdade e abre os olhos do seu lado quando o sol acorda de manhã. Sou pró-Dostoiévski, isso já é sabido; acredito na intensidade, olho no olho, pele na pele, boca com boca pintando devagar novos capítulos de uma história acima de tudo e antes de tudo extraordinária. Porque ele mesmo já dizia, lá no século XIX, que um momento de júbilo vale por toda uma vida. Espero o tempo que for pro outro lado da linha dizer amém. 

sábado, 16 de agosto de 2014

Threshold

Fui eu quem partiu, mas o desconforto prossegue. A dor insiste em doer. Me disseram certa vez que quem quer sair não sofre; só sente calafrio e mal-estar da lembrança quem queria ficar e lutar ou só permanecer. À medida que o tempo passa, tudo vai mudando de forma sempre e lentamente, como o bailar das nuvens num dia qualquer. Da janela do quarto avistamos o mesmo céu, e talvez por isso seja difícil compreender a natureza de tanta diferença no que a gente vê. Temo tornar meus passos cognitivos demais, mas se você degustasse minha sequência de palavras escritas com uma boa xícara de chá, veria que não era medo nem ilusão, que tudo fazia sentido. Ando pelo meu pequeno mundo e me abasteço de carinho a prestação - levo um pacotinho de coragem no bolso esquerdo do vestido. Sinto o calor na pele clara, sinto o vento a mudar-me as feições e escolho viver mais um pouco, mesmo sem estar inteira ou pronta pra outra surpresa... troco a decepção por uma pilha de trabalho, guardo minhas cartas embaixo da mesa e tento não pensar que mais uma vez pode não dar certo, ou que tinha tudo pra ser incrível numa outra ocasião.

domingo, 10 de agosto de 2014

Fechada pra balanço

Há alguns anos uma psicóloga que me atendia na época me disse que a arte era a forma mais nobre de extravasamento. Isso foi logo depois de eu dizer a ela que escrevia nas horas vagas. Esse meu breve comentário fez brilharem os olhos dela, como se acabasse de se desenhar ali uma luz ou uma resposta. Tinha acabado de me casar e ainda não havia conseguido me conectar àquele novo personagem, apesar de minha monogamia e carência latentes. Esses sintomas faziam com que eu quisesse sair por aí e beber pela estrada afora, como um cavalo manso que sai a galope pelos pastos, trota e relincha com sua crina brilhante ao vento... e faz o caminho de casa religiosamente pelo prazer da praxe. Sentia uma mistura de culpa, solidão e necessidade de alguma coisa que não estava dentro daquela caixa meticulosamente organizada chamada vida a dois. Escrevia para heróis platônicos que viriam me resgatar da minha placidez, que dariam outro sentido à minha existência - falas fora do script. Escrevia e sonhava com o soldadinho de chumbo em dia de folga, de bermuda, chinelo e camiseta, tocando sua caixa do lado esquerdo do meu peito, numa louca tarde de verão. Fui escrevendo, sonhando, pensando tanto no que não estava que o que ficou virou uma confusão. Ia vivendo como se fosse obrigada a viver, como se não houvesse outra alternativa a não ser respirar, acordar, trabalhar, suspirar e falar sobre tudo isso. Às vezes me perguntava pra onde tinha ido a leveza que nos fazia sorrir e andar pra frente sem pensar em casamento, filhos, sem nem pensar no dia de amanhã. No começo, passamos um bom tempo sem entender direito o que sentíamos, sem saber sequer o que é que estava movendo aquela bola pra frente. Estávamos lá, sem nos desligarmos direito das outras pessoas e coisas que ficaram pra trás. Demorou um bocado pra gente entender que estávamos de fato juntos, que era hora de erradicar os coadjuvantes de plantão. Ninguém pediu; só aconteceu, sem aflição, sem cobrança, sem qualquer expectativa. Depois de anos, me peguei pensando no quanto a tranquilidade afetiva é valiosa, no quanto é importante saber que você escolheu alguém que te escolhe todos os dias - essa escolha mútua não é sempre óbvia, mas as nuvens passam e o sentimento fica... só assim dá pra saber. Ainda assim, bebia e consumia como se o mundo fosse acabar amanhã, sem me aninhar às minhas novas perspectivas. Não era culpa de ninguém, nem de mim mesma, ainda que a falta de experiência pra lidar com algo novo tenha talvez me impedido de suavizar as coisas, de levá-las mais na brincadeira. Em cada canto, procurava pela leveza. Percebi um dia, com dor e surpresa, que não a encontraria mais dentro daquela caixa. Tem mas acabou, é assim. No lugar, frio na barriga e brilho nos olhos, uma sensação totalmente fora de contexto e de propósito, foi-se abrigando em mim. Coisas da vida, né? Mas não foi pra isso mesmo que eu vim?... Outro dia um amigo me disse que queria que eu escrevesse mais pra ele entender melhor minha relação com as palavras. Queria que eu escrevesse sobre coisas que não fossem minhas. Aí lembrei da psicóloga. Escrever é meu melhor (se não único) jeito de colocar as coisas pra fora. É um jeito de me enganar quando precisar voar com fadas para o reino da Cinderela, e de falar a verdade quando não quiser ouvi-la de outro alguém. A vida dá tantas voltas que é natural a gente confundir tanto as coisas. Preciso ser mais leve comigo mesma e passar mais tempo sozinha debaixo das cobertas, vendo um bom filme enquanto o "e se..." sai de fininho pela rua deserta, sem saber se não ou se sim.