Como é ruim a sensação de não pertencer a lugar nenhum! Falta de amarras gera tanta culpa e angústia... Culpa por não pensar no que faz parte da minha vida agora como o que deveria fazer; angústia ao estender o mapa mundi sobre a mesa, olhar para todos aqueles lugares e não saber para onde ir, porque nenhum deles me sorri, nenhum deles me convida a largar tudo e me entregar. Um outro lugar não pode te prometer uma outra vida, mas estou cheia de tentar sair do lugar que eu insisto em ocupar dentro de mim... exausta! Entendo mas não acho que consigo aprender - não dá tempo! Sinto-me perdida em meio a tanta opinião, tanta pressão, tantas bocas cheias de razão proclamando o absurdo aos quatro ventos sobre minha vida sem que eu ao menos peça... Convivo vinte e quatro horas comigo mesma e ainda não sei o que fazer. Trabalho, trabalho, durmo e acordo pensando no trabalho sem ver a cor do dinheiro. Trabalho sabendo que não vou ascender, trabalho para pagar, para esquecer, para sobreviver nessa capitania tão provinciana quanto longe da praia. Trabalho e engulo sapos que me deixam rouca - mas insisto em cantar. Trabalho e quando chego em casa trabalho mais, e não consigo dormir pensando no trabalho - mas insisto em acordar e dançar. Trabalho para bancar meus luxos, meus caprichos, e às vezes penso que com um pouco mais de vontade poderia guardar o dinheiro dessas pequenas anestesias diárias e deixar-me sofrer muitíssimo, até que esse sofrimento forçasse uma mudança. Um projeto audacioso: botar a vida na mala e ir de encontro ao destino como em um casamento arranjado; dar o seu melhor num lugar melhor, e ter a esperança que qualquer lugar no mundo deve ser mais interessante que esse em que você trabalha, reclama e vê televisão.Tenho medo, mas afinal, a gente sempre tem medo quando sabe que tem que mudar. Seja como for, na alegria ou na tristeza, na saúde ou na doença, não acredito mais em sorrir sem sair do lugar. Dói o peito ao pensar no que não poderei levar comigo. Egoista, desculpadamente humana... capricorniana, uai! Pode deixar que darei o primeiro passo assim que tiver pra mim que o preço é justo.
Esse blog é destinado a compartilhar viagens literárias, e está aberto a seres humanos e afins... Divirtam-se!
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
Lugar-comum
Como é ruim a sensação de não pertencer a lugar nenhum! Falta de amarras gera tanta culpa e angústia... Culpa por não pensar no que faz parte da minha vida agora como o que deveria fazer; angústia ao estender o mapa mundi sobre a mesa, olhar para todos aqueles lugares e não saber para onde ir, porque nenhum deles me sorri, nenhum deles me convida a largar tudo e me entregar. Um outro lugar não pode te prometer uma outra vida, mas estou cheia de tentar sair do lugar que eu insisto em ocupar dentro de mim... exausta! Entendo mas não acho que consigo aprender - não dá tempo! Sinto-me perdida em meio a tanta opinião, tanta pressão, tantas bocas cheias de razão proclamando o absurdo aos quatro ventos sobre minha vida sem que eu ao menos peça... Convivo vinte e quatro horas comigo mesma e ainda não sei o que fazer. Trabalho, trabalho, durmo e acordo pensando no trabalho sem ver a cor do dinheiro. Trabalho sabendo que não vou ascender, trabalho para pagar, para esquecer, para sobreviver nessa capitania tão provinciana quanto longe da praia. Trabalho e engulo sapos que me deixam rouca - mas insisto em cantar. Trabalho e quando chego em casa trabalho mais, e não consigo dormir pensando no trabalho - mas insisto em acordar e dançar. Trabalho para bancar meus luxos, meus caprichos, e às vezes penso que com um pouco mais de vontade poderia guardar o dinheiro dessas pequenas anestesias diárias e deixar-me sofrer muitíssimo, até que esse sofrimento forçasse uma mudança. Um projeto audacioso: botar a vida na mala e ir de encontro ao destino como em um casamento arranjado; dar o seu melhor num lugar melhor, e ter a esperança que qualquer lugar no mundo deve ser mais interessante que esse em que você trabalha, reclama e vê televisão.Tenho medo, mas afinal, a gente sempre tem medo quando sabe que tem que mudar. Seja como for, na alegria ou na tristeza, na saúde ou na doença, não acredito mais em sorrir sem sair do lugar. Dói o peito ao pensar no que não poderei levar comigo. Egoista, desculpadamente humana... capricorniana, uai! Pode deixar que darei o primeiro passo assim que tiver pra mim que o preço é justo.
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
O dia em que eu andei pela estrada afora bem sozinha
Hoje por acaso acabei reparando nas coisas em que eu escrevo. Passei pelo fundo do poço, pela beira do rio, sujei os pés e pulei do alto mais alto, foi mais ou menos isso o que eu fui sentindo. Sorvi o feio e o bonito, absorvi os estragos da tristeza que sempre purifica, redesenhei minha estrada com a ajuda das migalhas graúdas salpicadas por essa saga de incontáveis peripécias. Banhei-me em minha própria alma, nesse emaranhado de idéias longas, confusas, e o gosto foi suave. Ando devagar e presto mais atenção, novas virtudes simpáticas que vieram para me dizer uma coisa - e eu ouvi porque agora ouço e por isso sei de onde vêm as histórias. Por tantas vezes abri os braços em meus contos, por tantas vezes fechei os olhos em meus poemas... como esperei! Mas em que plano isso acontece? À sombra da vida eu vou assim: braços junto ao corpo, mãos nos bolsos ou em um lugar seguro; sorrisos curtos, olhos abertos presos ao nó na garganta, olhos que não sonham mais. Medo de esperar. Medo de você. Medo de mim e dessa luz que me obriga a escolher pão ou vinho. Como eu queria, mas não, não espero; não abro os braços; não fecho os olhos - ando devagar e presto mais atenção, novas virtudes simpáticas que me convenceram a ficar e, quando o coração apertar... escrever.
O dia em que eu andei pela estrada afora bem sozinha
Hoje por acaso acabei reparando nas coisas em que eu escrevo. Passei pelo fundo do poço, pela beira do rio, sujei os pés e pulei do alto mais alto, foi mais ou menos isso o que eu fui sentindo. Sorvi o feio e o bonito, absorvi os estragos da tristeza que sempre purifica, redesenhei minha estrada com a ajuda das migalhas graúdas salpicadas por essa saga de incontáveis peripécias. Banhei-me em minha própria alma, nesse emaranhado de idéias longas, confusas, e o gosto foi suave. Ando devagar e presto mais atenção, novas virtudes simpáticas que vieram para me dizer uma coisa - e eu ouvi porque agora ouço e por isso sei de onde vêm as histórias. Por tantas vezes abri os braços em meus contos, por tantas vezes fechei os olhos em meus poemas... como esperei! Mas em que plano isso acontece? À sombra da vida eu vou assim: braços junto ao corpo, mãos nos bolsos ou em um lugar seguro; sorrisos curtos, olhos abertos presos ao nó na garganta, olhos que não sonham mais. Medo de esperar. Medo de você. Medo de mim e dessa luz que me obriga a escolher pão ou vinho. Como eu queria, mas não, não espero; não abro os braços; não fecho os olhos - ando devagar e presto mais atenção, novas virtudes simpáticas que me convenceram a ficar e, quando o coração apertar... escrever.
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Um coração simples
Tem dias em que a gente fica assim: não sabe se olha pra um lado ou pro outro, não entende muito bem se são duas ou cinco, quinta ou segunda. Tem dias em que a gente coloca o livro na mesa, prepara o terreno e não consegue reunir forças suficientes para abri-lo. Aí a gente liga a tevê e não tem nada bom. Checa o calendário para ter certeza de que os dias têm passado, de que o futuro tem se tornado menor a cada manhã. Sempre ansiei pelo simples, até ler uma obra-prima de Flaubert chamada "Um coração simples" e ser dilacerada pelo valor atribuído à mediocridade. Concluí que talvez por nunca tê-lo percebido, acabo me esgueirando pelo complicado. É aí que começa nossa história.
Ao cair da noite, sempre me enamorava daquela luzinha pequena bem no alto da montanha. Por noites incontáveis fiz o pedido à primeira estrela, por anos e anos. Não sei mais quando comecei com isso, ou quem havia profetizado o ritual. Apenas aconteceu de alguém me dizer que era de praxe fazer um pedido à primeira estrela a surgir no céu - assim o fiz. Todas as noites esperava que ela aparecesse, para, então, recitar minha prece - num segundo nada doía: estava salva. Outro dia me disseram que a minha estrela é sempre a mesma: o planeta Vênus. Jamais havia me ocorrido que o simples pudesse ser assim tão idiota. Respirei com dificuldade e decidi abrir os braços para a novidade; precisava do imprevisível.
Hoje um bicho enorme chegou fazendo muito barulho pela janela da frente - caiu no chão e não fez mais barulho nenhum. Senti uma pontada na boca do estômago, um incômodo físico indescritível que sempre vem junto com a presença inesperada de um bicho enorme. Dei-me um banho de pânico; mergulhei de cabeça em todas as dores e os dissabores de um encontro inoportuno. Levantei-me da mesa com a sensação de que iria desmaiar a qualquer momento e caminhei trêmula até a porta da varanda. É esse o meu pedido de hoje, Senhor: só peço para conseguir fechar essa porta sem que esse bicho me engula viva ou me paralise para sempre com um toque gélido de horror! Por conta principalmente da idade, não achei que seria capaz de manobra tão audaciosa. Agarrei-me à porta como ao último copo de cerveja da festa e as duas metades se encontraram em fração de segundos. Sentei-me devagar e tentei, com o pouco de classe que restava, ajeitar o cabelo e me recompor. O bicho continuava lá, aquele ser absolutamente intragável dentro da minha casa! Um animal vil, capaz de tolher minha liberdade, invadir completamente meu espaço. Lembrei-me de um tio muito interessante que me respondeu quando eu o convidei para uma visita: Olha, Érika, isso eu não vou prometer, porque visita é tão chata para quem faz quanto para quem recebe. Você está na sua casa tranquilo, com sua cueca velha e sua blusa furada, quando o interfone toca e a visita forçosamente alegre anuncia que resolveu dar uma passadinha. Nada mais inconveniente. Pensei muito nisso até, sem saber exatamente como, chegar ao seguinte raciocínio: a tal criatura poderia ser ingênua, quem sabe até amiga? Poderia ter se perdido ao voltar para casa, poderia estar triste ou machucada. Imaginei-me naquela cena clássica: a menina que ama o natural, que não tem medo da relva, que estabelece com os amigos do campo uma espécie de comunhão, pegando o bichinho pela mão e devolvendo-o à natureza selvagem... Desse pensamento veio a idéia de que talvez ele tivesse algo a me dizer - talvez eu devesse respirar fundo e deixá-lo entrar. Afinal, ele poderia ser minha conexão com o mundo espiritual, e certamente eu contaria essa história para algum conhecedor do assunto e ele me diria com ar desolado que esse tipo de contato só se dá a cada duzentos anos, e que a cigarra-besouro-louva-deus era na verdade um dos mil disfarces de Jesus. A essa altura, já não sabia que horas eram; o telefone tocava e eu não queria atender - e se eu atrapalhasse o fluxo de energia? Ouvi um barulho na porta - ah, não, agora não! Rezei, pedi a Deus perdão por não ter sabido conduzir a situação de forma a praticamente boicotar meu enlace cósmico, e já ia me levantar novamente quando me dei conta que a porta abrindo era a do vizinho. Assustei-me e espirrei.
Nesse momento, nosso irmão camarada, talvez por causa do barulho, talvez porque estava na hora, começou a se mexer. Vou dizer uma coisa a vocês, bem entre nós, e que Deus me perdoe: se esse bicho era Jesus, é fácil compreender porque o inferno está cheio. A mosca geneticamente modificada - que com meus invejáveis conhecimentos botânicos classifiquei como cigarra por causa dos gritos - ressuscitou das cinzas e começou a debater-se furiosamente contra o vidro da porta. Ao constatar que não conseguia entrar, ela caiu no chão e emitiu um gemido de dor, de tédio, de qualquer coisa que demonstrasse a mais profunda insatisfação. A cada episódio, eu entrava em transe - fazia um saco com as próprias mãos e respirava desordenadamente, tentando resgatar qualquer outro tipo de reação sem qualquer tipo de sucesso. Imaginei as inúmeras vezes em que acampei, os banhos de rio, os mergulhos em cachoeiras, os pés descalços em terras desconhecidas... ONDE FOI QUE EU ARRUMEI CORAGEM? Fechei todas as portas e janelas, entrei debaixo do cobertor sem sequer sentir os nossos vinte e nove graus, liguei a televisão no máximo e trouxe o telefone comigo, caso precisasse contactar o SAMU. Tomara que esse bicho morra ou desapareça - o importante é ele não estar aqui amanhã, pensei com meus botões. Acomodei-me em meu travesseiro macio e pensei em Flaubert. Consegui enfim enxergar a beleza de ser medíocre.
Um coração simples
Tem dias em que a gente fica assim: não sabe se olha pra um lado ou pro outro, não entende muito bem se são duas ou cinco, quinta ou segunda. Tem dias em que a gente coloca o livro na mesa, prepara o terreno e não consegue reunir forças suficientes para abri-lo. Aí a gente liga a tevê e não tem nada bom. Checa o calendário para ter certeza de que os dias têm passado, de que o futuro tem se tornado menor a cada manhã. Sempre ansiei pelo simples, até ler uma obra-prima de Flaubert chamada "Um coração simples" e ser dilacerada pelo valor atribuído à mediocridade. Concluí que talvez por nunca tê-lo percebido, acabo me esgueirando pelo complicado. É aí que começa nossa história.
Ao cair da noite, sempre me enamorava daquela luzinha pequena bem no alto da montanha. Por noites incontáveis fiz o pedido à primeira estrela, por anos e anos. Não sei mais quando comecei com isso, ou quem havia profetizado o ritual. Apenas aconteceu de alguém me dizer que era de praxe fazer um pedido à primeira estrela a surgir no céu - assim o fiz. Todas as noites esperava que ela aparecesse, para, então, recitar minha prece - num segundo nada doía: estava salva. Outro dia me disseram que a minha estrela é sempre a mesma: o planeta Vênus. Jamais havia me ocorrido que o simples pudesse ser assim tão idiota. Respirei com dificuldade e decidi abrir os braços para a novidade; precisava do imprevisível.
Hoje um bicho enorme chegou fazendo muito barulho pela janela da frente - caiu no chão e não fez mais barulho nenhum. Senti uma pontada na boca do estômago, um incômodo físico indescritível que sempre vem junto com a presença inesperada de um bicho enorme. Dei-me um banho de pânico; mergulhei de cabeça em todas as dores e os dissabores de um encontro inoportuno. Levantei-me da mesa com a sensação de que iria desmaiar a qualquer momento e caminhei trêmula até a porta da varanda. É esse o meu pedido de hoje, Senhor: só peço para conseguir fechar essa porta sem que esse bicho me engula viva ou me paralise para sempre com um toque gélido de horror! Por conta principalmente da idade, não achei que seria capaz de manobra tão audaciosa. Agarrei-me à porta como ao último copo de cerveja da festa e as duas metades se encontraram em fração de segundos. Sentei-me devagar e tentei, com o pouco de classe que restava, ajeitar o cabelo e me recompor. O bicho continuava lá, aquele ser absolutamente intragável dentro da minha casa! Um animal vil, capaz de tolher minha liberdade, invadir completamente meu espaço. Lembrei-me de um tio muito interessante que me respondeu quando eu o convidei para uma visita: Olha, Érika, isso eu não vou prometer, porque visita é tão chata para quem faz quanto para quem recebe. Você está na sua casa tranquilo, com sua cueca velha e sua blusa furada, quando o interfone toca e a visita forçosamente alegre anuncia que resolveu dar uma passadinha. Nada mais inconveniente. Pensei muito nisso até, sem saber exatamente como, chegar ao seguinte raciocínio: a tal criatura poderia ser ingênua, quem sabe até amiga? Poderia ter se perdido ao voltar para casa, poderia estar triste ou machucada. Imaginei-me naquela cena clássica: a menina que ama o natural, que não tem medo da relva, que estabelece com os amigos do campo uma espécie de comunhão, pegando o bichinho pela mão e devolvendo-o à natureza selvagem... Desse pensamento veio a idéia de que talvez ele tivesse algo a me dizer - talvez eu devesse respirar fundo e deixá-lo entrar. Afinal, ele poderia ser minha conexão com o mundo espiritual, e certamente eu contaria essa história para algum conhecedor do assunto e ele me diria com ar desolado que esse tipo de contato só se dá a cada duzentos anos, e que a cigarra-besouro-louva-deus era na verdade um dos mil disfarces de Jesus. A essa altura, já não sabia que horas eram; o telefone tocava e eu não queria atender - e se eu atrapalhasse o fluxo de energia? Ouvi um barulho na porta - ah, não, agora não! Rezei, pedi a Deus perdão por não ter sabido conduzir a situação de forma a praticamente boicotar meu enlace cósmico, e já ia me levantar novamente quando me dei conta que a porta abrindo era a do vizinho. Assustei-me e espirrei.
Nesse momento, nosso irmão camarada, talvez por causa do barulho, talvez porque estava na hora, começou a se mexer. Vou dizer uma coisa a vocês, bem entre nós, e que Deus me perdoe: se esse bicho era Jesus, é fácil compreender porque o inferno está cheio. A mosca geneticamente modificada - que com meus invejáveis conhecimentos botânicos classifiquei como cigarra por causa dos gritos - ressuscitou das cinzas e começou a debater-se furiosamente contra o vidro da porta. Ao constatar que não conseguia entrar, ela caiu no chão e emitiu um gemido de dor, de tédio, de qualquer coisa que demonstrasse a mais profunda insatisfação. A cada episódio, eu entrava em transe - fazia um saco com as próprias mãos e respirava desordenadamente, tentando resgatar qualquer outro tipo de reação sem qualquer tipo de sucesso. Imaginei as inúmeras vezes em que acampei, os banhos de rio, os mergulhos em cachoeiras, os pés descalços em terras desconhecidas... ONDE FOI QUE EU ARRUMEI CORAGEM? Fechei todas as portas e janelas, entrei debaixo do cobertor sem sequer sentir os nossos vinte e nove graus, liguei a televisão no máximo e trouxe o telefone comigo, caso precisasse contactar o SAMU. Tomara que esse bicho morra ou desapareça - o importante é ele não estar aqui amanhã, pensei com meus botões. Acomodei-me em meu travesseiro macio e pensei em Flaubert. Consegui enfim enxergar a beleza de ser medíocre.
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Top 30
Isso... agora olha pra cá. Vira a cabeça devagar. Vai virando... calma... excelente! Faz uma coisa bem doida aí - você é bailarina ou não é? Então? Faz tipo uma pirueta. Já sei! Faz uma abertura. Se vira aí, minha filha, faz alguma coisa bem interessante porque você é a última. Vai fechar com chave de ouro, hein? O sapato você arruma um seu mesmo, pode ser preto, qualquer um. Uma meia preta, viu? Traz também uma meia preta bem preta que aí não tem erro. Agora no seu cabelo... seu cabelo tá curto, né? Uai... vamo colocar ele pra cima então, bem pra cima, cheio de ponta pra todo lado, bem louco. Que estilo! Só falta a maquiagem. Me empresta a sombra e o lápis aí, gente. Iiiiissssssooooooo. Vou fazer uns riscos vermelhos de batom aqui no olho que é pra gente ter uma noção. O blush pode ser essa sombra meio laranja mesmo. Vem comigo, quero te mostrar pra todo mundo. Enquanto isso vai tentando andar nesse sapato da loja do lado. Isso, até lá dá certo - só não vale cair, hein, hahaha... Atenção: olha que linda a minha modelo! Produção própria, bem - sei ou não sei das coisas? Ela não é modelo, é professora de inglês da Cultura Inglesa, cliente minha. Vai trabalhar que nem uma palhaça, com maquiagem e cabelo, vai sair do trabalho correndo e chegar aqui correndo pra fechar o meu desfile. Não ficou um luxo? Ela vai me fazer um favor, porque pagar não tô podendo. O vestido tá um pouco grande, mas qualquer coisa a gente dá um nozinho nas alças, qual o problema? Desfile é assim: tem menina que desfila com sapato 39 e calça 35, é despojado mesmo.
(diálogo entre uma ex-wannabe-modelo lojista e uma ex-aspirante a modelo de 30 anos)
Background information: Há exatos 15 anos, a ex-aspirante a modelo que hoje beira os 31 foi chamada de bonita. Foi dito a ela inclusive que seria possível viver dessa beleza incomum (leia-se: extrema magreza beirando a inanição, braços extra-longos e pernas parecidas com os braços). A menina de 15 anos sonhou, sonhou, ... e chegou em casa. A mãe não concordou e pronto. Quando a mãe concordou, acharam uma agência no Centro (a parte caradepaumente chamada de Lourdes) que fez uma oferta irrecusável: morar em São Paulo e trabalhar na MTV. Um pequeno detalhe: as modelos não receberiam visitas dos pais pelos primeiros seis meses. Como eu disse, só um detalhe. E a carreira meteórica da bela feia acabou aí. A menina achou que era feia por mais alguns anos e virou um bom bocado de páginas feias ao descobrir que era bonita. No ápice de seus 30, ela é chamada para desfilar - o orgulho apaixona-se cegamente pela vaidade.
(diálogo - parte 2)
Mas qual o problema com a roupa? A roupa tava linda, gente, um pouco mais largo é o charme... Dá o nozinho, não tem problema nenhum. Meia preta e sapato preto ou meia bege e sapato bege. Se arruma em casa, se vira, às oito e cinco você tá lá, né? Claro que vai dar tempo, se você trabalha até as oito não vejo problema em você chegar às oito e cinco. Vem do trabalho maquiada com o sapato e a meia. Dá uma olhada no lugar onde você vai desfilar - quando chegar, vai direto pra lá. Que isso, como as pessoas tão falando que o vestido não tá bom? Já te expliquei que em desfile não tem dessas coisas. Bom, se você também tá achando, é melhor deixar pra lá. Vou arrumar outra pra entrar no seu lugar, vai ficar melhor assim. Agora tô cheia de coisas pra resolver, não tô podendo perder meu tempo com isso. Pode deixar que vou achar alguém pra te substituir. Tira a roupa e dá pra moça colocar no cabide. Pede pra moça tirar o seu nome que tá escrito na roupa, tá bom? Brigada, querida. Tchau.
OBRIGADA, MÃE. AINDA BEM QUE EU literalmente TOQUEI A VIDA.
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