quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Capítulo 7 - Happy Slapping

Fala, gente,

Hoje vou contar pra vocês algumas situações que acontecem com uma certa frequência por aqua - pelo menos de acordo com os jornaizinhos do metrô... Como aqui o governo ajuda bastante as pessoas de baixa renda, não é tão comum se deparar com pickpockets, essas pessoas que enfiam a mão na sua bolsa ou até no seu bolso sem você perceber, ou muggers, na nossa língua: pivetes, ladrões, marginais, esse naipe. Em compensação, os crimes daqui são - se não mais - tão bárbaros quanto os nossos, mas parecem ser oriundos de outras fontes, como obsessões, compulsões, perversões e outros problemas de ordem psicológica. Não que eles não aconteçam no Brasil, mas acho - talvez ingenuamente - que aqui a coisa é um pouco pior nesse sentido.

Por exemplo, entrei numa lojinha na semana passada e havia um cartaz com uma manchete dizendo algo do tipo "busca por armas recomeça com a volta as aulas". Estranho, não? Pra mim foi bem estranho, principalmente se considerarmos que essas escolas não estão no meio das favelas e comunidades mais perigosas da região, nossa desculpa pra esse absurdo.

Uma coisa bem na moda aqui no momento é o tal de "happy slapping", que consiste basicamente em um grupo de adolescentes, geralmente entre 13 e 16 anos; esse grupo escolhe alguém sozinho na rua pra dar porrada, e existem vários critérios de escolha. Enquanto uns batem, os outros filmam nos celulares e colocam na internet depois. Eu até assisti a um filme sobre isso antes de vir pra cá chamado "Valente" - com Jodie Foster e Naveen Andrews, aquele indiano do Lost, que aliás eu soube que era viciado em heroina, but it's none of my business anyway, ok, going back... - e antes disso nunca tinha ouvido falar em nada parecido - além dos skin heads, claro. No filme, o cara morre com o espancamento, o que me chocou ainda mais. Mas tudo bem, tem uns filmes que impressionam a gente mesmo, mas depois passa, não é assim? Nada, gente, passa não.

Pois que estava eu chegando na estação de metrô quando recebi um jornal - ah, não contei, todo dia eles distribuem um jornalzinho gratuito na porta da estação, e pra pessoas como eu, que NUNCA, repito, NUNCA lêem jornal, é até um passatempo interessante. Inclusive, as pessoas aqui tem uma coisa com a Kate Moss impressionante - todo dia tem uma foto ou uma matéria sobre ela no jornal, sempre born to be wild, e parece que ela é a unica modelo da Inglaterra, porque ela simplesmente está em TODAS as campanhas publicitárias, de shampoo, roupa, maquiagem, esmalte, enfim, tipo a Ivete Sangalo aí - acho que se ela cantasse então seria foda! Mas tentando sempre voltar ao assunto, recebi o jornalzinho - que tinha obviamente uma matéria da Kate Moss, em que ela, ao assistir a um desfile, levantou e começou a desfilar para delírio dos fãs, antes de (a?)baixar as calças e fazer xixi no jardim do evento (ui, tão peculiar...) - e depois de muita diversão com as noticias sobre as celebridades UK/USA, li uma nota sobre uma garota de 16 anos que havia sido brutalmente espancada num desses "happy slapping" (vcs tão percebendo a doença? Se isso é happy, imaginem o sad…). Obviamente a primeira coisa que me veio à mente foi o filme da Jodie Foster - aliás ela fez uns filmes que ninguém esquece, né? Aquele "Silêncio dos Inocentes", por exemplo, puta madre!!! - e comecei (claro!) a pensar sobre isso. Pensei, pensei... e passou, parei de pensar.

Eis que estava eu, essa pessoa que vcs conhecem, depois de umas pints, andando por Camden Town com meu amigo belo horizontino-brasiliense Leo - estão lembrando, aquele bairro alternativo, cheio de punks e afins? - bem distraída e tranquila - imaginem a cena por favor, dá mais emoção! -, me sentindo sensacional. Ótimo, né? Passa por mim nesse momento um cachorrinho, lindo, boxer - adoro boxer - e eu, achando em meu doce devaneio que ele era só mais uma parte boa do meu dia assaz agradável, disse pra ele um "hey, doggy!". O cachorro me olhou de relance e deu um latido. OK, cachorros latem mesmo, uai, normal, ele nem me conhece... Aí é que vem a bomba: a dona do cachorro. A dona do cachorro olhou pra mim com um ódio latejante e gritou "Walk!". Gente, que isso, né, deve ser uma pegadinha, não é possível! Pensando assim, olhei pra ela e disse calmamente "Excuse me, are you talking to ME?", ao que ela respondeu quase espumando a boca "Who the hell would I be talking to? I said WALK!" Não acreditei. Saí da minha nuvem rosa e falei do jeito mais suave que eu consegui "Look, tell YOUR DOG to walk, not me. I've never seen you before, I've got nothing to do with you and I didn't do anything to you OR to your dog". Queeeeeeeeee iiiiiiissssssssssssso!!! A mulher pirou. Só pra vcs visualizarem a situação um pouco melhor: a mulher era na verdade uma menina, de uns 16 anos, estilo revoltadinha punkzinha com os amiguinhos caricaturinhas. Essa mesma mulher-menina-punk-rage quase que não esperou eu acabar de falar - deu um passo grande pra frente como se quisesse mostrar que estava vindo pra cima, ao que os amiguinhos fizeram que iam segurá-la, e lançou um "Walk! Are you bloody deaf? Get out of my fucking sight-right-now", ao que eu respondi dando meia volta - só porque o Leo insistiu, claro... - e andando rapidinho, preparada até pra pedir desculpa e beijar o cão danado se fosse o caso... Eu, hein?

VOLTA PRO MAR, OFERENDA!!!

Bjos e hasta luego!

Capítulo 7 - Happy Slapping

Fala, gente,

Hoje vou contar pra vocês algumas situações que acontecem com uma certa frequência por aqua - pelo menos de acordo com os jornaizinhos do metrô... Como aqui o governo ajuda bastante as pessoas de baixa renda, não é tão comum se deparar com pickpockets, essas pessoas que enfiam a mão na sua bolsa ou até no seu bolso sem você perceber, ou muggers, na nossa língua: pivetes, ladrões, marginais, esse naipe. Em compensação, os crimes daqui são - se não mais - tão bárbaros quanto os nossos, mas parecem ser oriundos de outras fontes, como obsessões, compulsões, perversões e outros problemas de ordem psicológica. Não que eles não aconteçam no Brasil, mas acho - talvez ingenuamente - que aqui a coisa é um pouco pior nesse sentido.

Por exemplo, entrei numa lojinha na semana passada e havia um cartaz com uma manchete dizendo algo do tipo "busca por armas recomeça com a volta as aulas". Estranho, não? Pra mim foi bem estranho, principalmente se considerarmos que essas escolas não estão no meio das favelas e comunidades mais perigosas da região, nossa desculpa pra esse absurdo.

Uma coisa bem na moda aqui no momento é o tal de "happy slapping", que consiste basicamente em um grupo de adolescentes, geralmente entre 13 e 16 anos; esse grupo escolhe alguém sozinho na rua pra dar porrada, e existem vários critérios de escolha. Enquanto uns batem, os outros filmam nos celulares e colocam na internet depois. Eu até assisti a um filme sobre isso antes de vir pra cá chamado "Valente" - com Jodie Foster e Naveen Andrews, aquele indiano do Lost, que aliás eu soube que era viciado em heroina, but it's none of my business anyway, ok, going back... - e antes disso nunca tinha ouvido falar em nada parecido - além dos skin heads, claro. No filme, o cara morre com o espancamento, o que me chocou ainda mais. Mas tudo bem, tem uns filmes que impressionam a gente mesmo, mas depois passa, não é assim? Nada, gente, passa não.

Pois que estava eu chegando na estação de metrô quando recebi um jornal - ah, não contei, todo dia eles distribuem um jornalzinho gratuito na porta da estação, e pra pessoas como eu, que NUNCA, repito, NUNCA lêem jornal, é até um passatempo interessante. Inclusive, as pessoas aqui tem uma coisa com a Kate Moss impressionante - todo dia tem uma foto ou uma matéria sobre ela no jornal, sempre born to be wild, e parece que ela é a unica modelo da Inglaterra, porque ela simplesmente está em TODAS as campanhas publicitárias, de shampoo, roupa, maquiagem, esmalte, enfim, tipo a Ivete Sangalo aí - acho que se ela cantasse então seria foda! Mas tentando sempre voltar ao assunto, recebi o jornalzinho - que tinha obviamente uma matéria da Kate Moss, em que ela, ao assistir a um desfile, levantou e começou a desfilar para delírio dos fãs, antes de (a?)baixar as calças e fazer xixi no jardim do evento (ui, tão peculiar...) - e depois de muita diversão com as noticias sobre as celebridades UK/USA, li uma nota sobre uma garota de 16 anos que havia sido brutalmente espancada num desses "happy slapping" (vcs tão percebendo a doença? Se isso é happy, imaginem o sad…). Obviamente a primeira coisa que me veio à mente foi o filme da Jodie Foster - aliás ela fez uns filmes que ninguém esquece, né? Aquele "Silêncio dos Inocentes", por exemplo, puta madre!!! - e comecei (claro!) a pensar sobre isso. Pensei, pensei... e passou, parei de pensar.

Eis que estava eu, essa pessoa que vcs conhecem, depois de umas pints, andando por Camden Town com meu amigo belo horizontino-brasiliense Leo - estão lembrando, aquele bairro alternativo, cheio de punks e afins? - bem distraída e tranquila - imaginem a cena por favor, dá mais emoção! -, me sentindo sensacional. Ótimo, né? Passa por mim nesse momento um cachorrinho, lindo, boxer - adoro boxer - e eu, achando em meu doce devaneio que ele era só mais uma parte boa do meu dia assaz agradável, disse pra ele um "hey, doggy!". O cachorro me olhou de relance e deu um latido. OK, cachorros latem mesmo, uai, normal, ele nem me conhece... Aí é que vem a bomba: a dona do cachorro. A dona do cachorro olhou pra mim com um ódio latejante e gritou "Walk!". Gente, que isso, né, deve ser uma pegadinha, não é possível! Pensando assim, olhei pra ela e disse calmamente "Excuse me, are you talking to ME?", ao que ela respondeu quase espumando a boca "Who the hell would I be talking to? I said WALK!" Não acreditei. Saí da minha nuvem rosa e falei do jeito mais suave que eu consegui "Look, tell YOUR DOG to walk, not me. I've never seen you before, I've got nothing to do with you and I didn't do anything to you OR to your dog". Queeeeeeeeee iiiiiiissssssssssssso!!! A mulher pirou. Só pra vcs visualizarem a situação um pouco melhor: a mulher era na verdade uma menina, de uns 16 anos, estilo revoltadinha punkzinha com os amiguinhos caricaturinhas. Essa mesma mulher-menina-punk-rage quase que não esperou eu acabar de falar - deu um passo grande pra frente como se quisesse mostrar que estava vindo pra cima, ao que os amiguinhos fizeram que iam segurá-la, e lançou um "Walk! Are you bloody deaf? Get out of my fucking sight-right-now", ao que eu respondi dando meia volta - só porque o Leo insistiu, claro... - e andando rapidinho, preparada até pra pedir desculpa e beijar o cão danado se fosse o caso... Eu, hein?

VOLTA PRO MAR, OFERENDA!!!

Bjos e hasta luego!

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Amor pra mim

Amor
Amor pra
Amor pra mim
E pra você.
Amor pra mim?
Sim, pra você.
Amor pra quê?
Não sei, mas é.
Você não vê?
Você não quer?

Amor
Amor pra
Amor pra mim
E só pra mim.
E pra você?
Bem, vamos ver:
você não quer
você não vê.

Amor pra mim -
primeiro eu!
E pra você
amor, amor
mas não o meu.

Amor pra mim

Amor
Amor pra
Amor pra mim
E pra você.
Amor pra mim?
Sim, pra você.
Amor pra quê?
Não sei, mas é.
Você não vê?
Você não quer?

Amor
Amor pra
Amor pra mim
E só pra mim.
E pra você?
Bem, vamos ver:
você não quer
você não vê.

Amor pra mim -
primeiro eu!
E pra você
amor, amor
mas não o meu.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Capítulo 6 - A Filipina

Ei, gente,

Bem, nem queria que minha mãe estivesse incluída nesse capítulo, porque vou contar algo muito estranho que aconteceu comigo essa semana. Em casa de Madame Satã existe uma faxineira - que conversa muito mais do que faxina, but it's none of my business, anyway - que aproveitou a primeira saída da nossa old lady para oferecer quartos para nós. Sempre muito sorridente e prestativa, nossa nova amiga logo soube - por minha amiga tcheca - que alguém precisaria de uma moradia com uma certa urgência, e se pôs logo a exercer seu papel fraterno-maternal.

Como a senhora landlady se ausentou por uma semana, ela tratou de afixar os três telefones principais de sua casa na geladeira: o de seu filho, seu celular e o de Myra, a ajudante. Sabendo que Myra tinha quartos a oferecer, deixei uma mensagem em seu telefone, que nunca atendia - parecendo o de alguém que eu conheço -, pedindo que ela entrasse em contato a respeito dos quartos.

No sábado, estou eu lendo Madame Bovary em inglês, com meu amigo dicionário sempre ao lado, quando bate a campainha inoportuna: era Myra. Muito tranquila, a faxineira filipina me pediu que a encontrasse na esquina de minha casa para procurarmos por apartamentos, já que seu namorado - segundo ela - se encaixava exatamente nesse ramo de atuação. Chegando lá, o que vi foi uma pessoa pequena e aflita, com os dentes cheios de arame e outros aparatos. Rapidamente ela tomou minha mão e me pediu para entrar no prédio em frente a onde estávamos. Segui as instruções e, subindo uma escada suja e mal-cuidada, chegamos ao que chamam de apartamento. Nunca vi nada igual na vida. As pessoas que moram no Brasil muitas vezes alimentam falsas expectativas com relação a outro país, mas digo a vocês que moquifo é o que não falta nessa cidade onde cada um tem o seu Deus e ninguém acredita nele no final das contas.

Quando entrei na pocilga = apartamento, uma senhora filipina e sua filha se espremiam no quarto-sala-copa, enquanto minha nova amiga rapidamente colocava tudo que havia no seu quarto dentro de suas gigantescas sacolas de plástico - soube que elas são um sucesso entre os indigentes por aqui. Não entendendo do que se tratava, apenas fiz o que me foi instruído, ou seja, guarde tudo dentro dessas sacolas, estou partindo. Em seguida, um táxi foi chamado, e a cada uma de minhas perguntas, uma resposta diferente - agora entendo porque os agentes da imigração perguntam várias vezes a mesma coisa de formas diferentes...

Voltamos à casa de Madame Falsary, pegamos as bagagens e fomos para a rua mais movimentada de Kilburn - um bairro bem localizado mas simples, onde tudo é barato. Lá ela desembarcou, no meio do centro de BH, com umas 6 malas com uma Érika em cada uma. Depois de abrirmos a porta para o inferno, subimos uma escada sinistra - eu carregando malas para uma pessoa que iria me mostrar apartamentos, for Christ's sake!!!, e que eu havia visto um dia na vida (santa tartaruga, Érika Amâncio!!!) - e chegamos ao seu quarto, um amontoado de móveis, com uma cama de casal, uma cômoda antiga, um guarda-roupas datado de ainda mais tempo, e - o mais intrigante - um aparato eletrônico de dar inveja a qualquer leigo. Lá ela espalhou suas malas, tentando escondê-las o máximo possível, alegando que seu namorado iria maldizê-la por ter tantas malas, o que consequentemente confirmaria sua excessiva quantidade de roupas e sapatos. Em um dado momento, ela me disse para não chamá-la de Myra - agora ela era Yra, e pronto. Simples assim (Oi!). Pressionou-me muito para que esperasse o grande amor de sua vida, o gentleman que ajudava a todos os filipinos que ali se instalavam - a pocilga tem andares, gente, infinitas escadas, pra quem acha que o paraíso é para cima se calar de uma vez.

Eis que às três horas da tarde chega o homem. Sujeito de uns 65 anos aproximadamente, cabelos para trás como os de Tancredo e de Sarney, poucos cabelos, mas tentando manter a cor escura, tipo mafioso estilo alerta vermelho, quase com um charuto na mão, bem-vestido, alinhado - até demais - para a ocasião. Eis que o senhor chega, se apresenta, aperta minha mão ao ouvir meu nome, senta-se no sofá - dificil, o quarto parece uma sala de móveis - e começa a falar. Gaba-se ao enumerar seus inúmeros negócios, dentre eles o de captar novos alunos para uma universidade - cujo nome já chequei e concluí que existe. Nessa brincadeira, ele primeiramente me pediu para que arrecadasse alunos e que tratasse diretamente com ele, dizendo que 'aqui não precisamos trabalhar; se eu faço dinheiro, vc faz também'. Achei tudo muito estranho, principalmente o fato de a filipina estar tão excitada desde a chegada de seu bem-amado - para ficar mais claro, ela tem dois filhos aos cuidados da mãe em seu país e deve ter mais ou menos uns 38 anos.

Pedi para ir ao banheiro e, ao voltar, pude ouvi-la dizer a seu amante 'só quero que ela fique segura'; como o Poderoso Chefão percebeu que eu havia ouvido a última súplica, disse com uma risada nervosa: 'é claro que ela ficará segura, falando assim parece que eu quero matá-la ou algo do tipo, hehehe...'. QUEEEEEEE IIIIIIIISSSSSSSOOOOOOO!!!!! Depois ele veio com um papo de que havia um teste para estudantes que quisessem ficar indefinidamente em Londres, que consistia basicamente em falar algumas coisas com o gravador ligado, mandar a gravação para o Home Office e pronto. Fácil, né? Segundo ele, era um procedimento novo, do qual ninguém sabia (tão inocente, né, tadinho... será que alguém cai nesse conto do vigário?).

Achando o rumo daquela conversa um tanto estranho, principalmente depois de tantas mentiras ditas e desditas pela amiga filipina, resolvi pedir licença e sair da casa, alegando que precisava comprar algumas roupas para meu novo emprego, para o qual deveria estar disponível em poucas horas - o que quis dizer na verdade foi: 'não se atrevam a fazer qualquer coisa contra mim, bloody motherfuckers, porque muita gente vai dar trabalho pra vcs!'. A mulher insistiu para ir comigo, e vi o homem imediatamente, depois de me dar uma olhada bem geral, pegar o celular e conversar com alguém em uma língua que eu não entendi, igualzinho àquele filme 'Tráfico Humano'.

A filipina insistiu o tempo todo em pegar na minha mão e dizer o tempo todo que era minha tia, que se alguém perguntasse qualquer coisa, isso era o que eu deveria responder. Dei um jeito de sair fora delicadamente, alegando que meu ônibus estava vindo, e fui embora muito rápido. Ela me ligou hoje duas vezes, e não me dignei a responder. Prestem bastante atenção às pessoas do mundo - elas são várias, e podem ser muito, mas muito perversas...

Capítulo 6 - A Filipina

Ei, gente,

Bem, nem queria que minha mãe estivesse incluída nesse capítulo, porque vou contar algo muito estranho que aconteceu comigo essa semana. Em casa de Madame Satã existe uma faxineira - que conversa muito mais do que faxina, but it's none of my business, anyway - que aproveitou a primeira saída da nossa old lady para oferecer quartos para nós. Sempre muito sorridente e prestativa, nossa nova amiga logo soube - por minha amiga tcheca - que alguém precisaria de uma moradia com uma certa urgência, e se pôs logo a exercer seu papel fraterno-maternal.

Como a senhora landlady se ausentou por uma semana, ela tratou de afixar os três telefones principais de sua casa na geladeira: o de seu filho, seu celular e o de Myra, a ajudante. Sabendo que Myra tinha quartos a oferecer, deixei uma mensagem em seu telefone, que nunca atendia - parecendo o de alguém que eu conheço -, pedindo que ela entrasse em contato a respeito dos quartos.

No sábado, estou eu lendo Madame Bovary em inglês, com meu amigo dicionário sempre ao lado, quando bate a campainha inoportuna: era Myra. Muito tranquila, a faxineira filipina me pediu que a encontrasse na esquina de minha casa para procurarmos por apartamentos, já que seu namorado - segundo ela - se encaixava exatamente nesse ramo de atuação. Chegando lá, o que vi foi uma pessoa pequena e aflita, com os dentes cheios de arame e outros aparatos. Rapidamente ela tomou minha mão e me pediu para entrar no prédio em frente a onde estávamos. Segui as instruções e, subindo uma escada suja e mal-cuidada, chegamos ao que chamam de apartamento. Nunca vi nada igual na vida. As pessoas que moram no Brasil muitas vezes alimentam falsas expectativas com relação a outro país, mas digo a vocês que moquifo é o que não falta nessa cidade onde cada um tem o seu Deus e ninguém acredita nele no final das contas.

Quando entrei na pocilga = apartamento, uma senhora filipina e sua filha se espremiam no quarto-sala-copa, enquanto minha nova amiga rapidamente colocava tudo que havia no seu quarto dentro de suas gigantescas sacolas de plástico - soube que elas são um sucesso entre os indigentes por aqui. Não entendendo do que se tratava, apenas fiz o que me foi instruído, ou seja, guarde tudo dentro dessas sacolas, estou partindo. Em seguida, um táxi foi chamado, e a cada uma de minhas perguntas, uma resposta diferente - agora entendo porque os agentes da imigração perguntam várias vezes a mesma coisa de formas diferentes...

Voltamos à casa de Madame Falsary, pegamos as bagagens e fomos para a rua mais movimentada de Kilburn - um bairro bem localizado mas simples, onde tudo é barato. Lá ela desembarcou, no meio do centro de BH, com umas 6 malas com uma Érika em cada uma. Depois de abrirmos a porta para o inferno, subimos uma escada sinistra - eu carregando malas para uma pessoa que iria me mostrar apartamentos, for Christ's sake!!!, e que eu havia visto um dia na vida (santa tartaruga, Érika Amâncio!!!) - e chegamos ao seu quarto, um amontoado de móveis, com uma cama de casal, uma cômoda antiga, um guarda-roupas datado de ainda mais tempo, e - o mais intrigante - um aparato eletrônico de dar inveja a qualquer leigo. Lá ela espalhou suas malas, tentando escondê-las o máximo possível, alegando que seu namorado iria maldizê-la por ter tantas malas, o que consequentemente confirmaria sua excessiva quantidade de roupas e sapatos. Em um dado momento, ela me disse para não chamá-la de Myra - agora ela era Yra, e pronto. Simples assim (Oi!). Pressionou-me muito para que esperasse o grande amor de sua vida, o gentleman que ajudava a todos os filipinos que ali se instalavam - a pocilga tem andares, gente, infinitas escadas, pra quem acha que o paraíso é para cima se calar de uma vez.

Eis que às três horas da tarde chega o homem. Sujeito de uns 65 anos aproximadamente, cabelos para trás como os de Tancredo e de Sarney, poucos cabelos, mas tentando manter a cor escura, tipo mafioso estilo alerta vermelho, quase com um charuto na mão, bem-vestido, alinhado - até demais - para a ocasião. Eis que o senhor chega, se apresenta, aperta minha mão ao ouvir meu nome, senta-se no sofá - dificil, o quarto parece uma sala de móveis - e começa a falar. Gaba-se ao enumerar seus inúmeros negócios, dentre eles o de captar novos alunos para uma universidade - cujo nome já chequei e concluí que existe. Nessa brincadeira, ele primeiramente me pediu para que arrecadasse alunos e que tratasse diretamente com ele, dizendo que 'aqui não precisamos trabalhar; se eu faço dinheiro, vc faz também'. Achei tudo muito estranho, principalmente o fato de a filipina estar tão excitada desde a chegada de seu bem-amado - para ficar mais claro, ela tem dois filhos aos cuidados da mãe em seu país e deve ter mais ou menos uns 38 anos.

Pedi para ir ao banheiro e, ao voltar, pude ouvi-la dizer a seu amante 'só quero que ela fique segura'; como o Poderoso Chefão percebeu que eu havia ouvido a última súplica, disse com uma risada nervosa: 'é claro que ela ficará segura, falando assim parece que eu quero matá-la ou algo do tipo, hehehe...'. QUEEEEEEE IIIIIIIISSSSSSSOOOOOOO!!!!! Depois ele veio com um papo de que havia um teste para estudantes que quisessem ficar indefinidamente em Londres, que consistia basicamente em falar algumas coisas com o gravador ligado, mandar a gravação para o Home Office e pronto. Fácil, né? Segundo ele, era um procedimento novo, do qual ninguém sabia (tão inocente, né, tadinho... será que alguém cai nesse conto do vigário?).

Achando o rumo daquela conversa um tanto estranho, principalmente depois de tantas mentiras ditas e desditas pela amiga filipina, resolvi pedir licença e sair da casa, alegando que precisava comprar algumas roupas para meu novo emprego, para o qual deveria estar disponível em poucas horas - o que quis dizer na verdade foi: 'não se atrevam a fazer qualquer coisa contra mim, bloody motherfuckers, porque muita gente vai dar trabalho pra vcs!'. A mulher insistiu para ir comigo, e vi o homem imediatamente, depois de me dar uma olhada bem geral, pegar o celular e conversar com alguém em uma língua que eu não entendi, igualzinho àquele filme 'Tráfico Humano'.

A filipina insistiu o tempo todo em pegar na minha mão e dizer o tempo todo que era minha tia, que se alguém perguntasse qualquer coisa, isso era o que eu deveria responder. Dei um jeito de sair fora delicadamente, alegando que meu ônibus estava vindo, e fui embora muito rápido. Ela me ligou hoje duas vezes, e não me dignei a responder. Prestem bastante atenção às pessoas do mundo - elas são várias, e podem ser muito, mas muito perversas...

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Segredo

Eu não sou triste
Nem sou poeta:
A hora existe
Mas não é certa
O pisca-alerta
Já está ligado
A porta, aberta,
O carro, usado
Ficar calado
É o que te importa.
Não abra a porta;
Ainda é cedo.
Só sinto medo
Do que há de ser.

Sair da toca
Fechar a boca
Piscar de longe
Bancar a louca...
Não feche a porta;
Tenho um segredo.
Ao som do vento
Do arvoredo
Serei sorriso
Por um momento
Se o samba enredo
Daquele dia
Não se perder...

Abra essa a porta
Pr’eu tomar tento -
Que ela se feche
Com sentimento
Pra que no embalo
Dessa batida
Eu possa esquecer...