quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Ieri, domani

O primeiro tinha medo de sua própria sombra - desconfiava sem saber que suas suspeitas vinham de seu próprio comportamento. Flertava e tinha medo de ser passado pra trás; traía e morria de medo de ser traído. Apareceu com uma dita-amiga duas semanas depois, e mais duas semanas depois batia na porta pedindo perdão. Mas e essa ragazza? Era larga? Frígida? Mordia ou bancava a suicida? Já não importava. O segundo tinha um jeito manso só seu - não incomodava ninguém. Não queria casar, mudar, procriar e achava a ideia de sair de casa quase um sacrilégio - seria se acreditasse em Deus ou alguma coisa. Pois que casou, mudou e nada melhorou - não procriou porque Deus não quis. Tinha demasiado apreço pelas coisas terrenas, pânico por novas relações, uma relação indecente com a bebida e uma família que foi como veio, unpassant. Ansiava  inconscientemente pelo dia em que iria manter um passarinho na gaiola a bel prazer, e mais de uma década depois, ainda trabalhava nas mais ardilosas armadilhas para fazê-lo sucumbir, grunhir de dor, mudar a cara e sobreviver. O terceiro se vestiu de sinceridade pueril - a juventude lhe justificava. Agia como se houvesse visto demais - celebrava como se a verdade cruel da vida nunca fosse bater-lhe à porta . Gargalhava com ímpetos de cinismo à primeira pedra - aninhava-se a ela como se não houvesse tempo, espaço ou alguém esperando. Encasulava-se ao menor sinal de carinho e sorvia aquele corpo àquele tempo.  Queria sexo rápido e cheio de amor, que as desavenças se curam quando o corpo está exposto, sem truques ou ideias. Acho que em algum momento pensou que estava com sorte, e sorveu a convivência com ar astuto e comportamento instável e sempre particular. Coabita uma desconfiança que passei a ter, medo de tudo. Não sei ainda por que a gente insiste em se relacionar, em dar nome às coisas, em lutar pra fingir que a cerveja gelada flui em dia de frio, em achar que beber e foder e estremecer ao gozar vão dar a nós, pobres mortais, a mínima ideia do que seja amar no âmago da palavra. Não tenho por que celebrar. Fiquem com os nudes e seminudes de quem precisa de plateia e não julguem. Tenho certeza que cada um sabe o que faz e POR QUE o faz. 

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